{"id":3580,"date":"2009-03-19T11:25:05","date_gmt":"2009-03-19T14:25:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=3580"},"modified":"2020-04-19T22:39:31","modified_gmt":"2020-04-20T01:39:31","slug":"pietro-albuquerque-vida-e-morte-do-guri-que-virou-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/pietro-albuquerque-vida-e-morte-do-guri-que-virou-lei\/","title":{"rendered":"Pietro Albuquerque: vida e morte do guri que virou lei"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Renan Antunes de Oliveira | Com reportagem de\u00a0Daiane Menezes<\/span><\/p>\n<p>Anote o nome: Pietro. Pietro Albuquerque. Com certeza voc\u00ea ainda vai ouvir falar deste jovem classe m\u00e9dia alta da Zona Sul. Morto de leucemia miel\u00f3ide poucos dias antes de fazer 20 anos, ele j\u00e1 tem um lugar na hist\u00f3ria: em sua homenagem a C\u00e2mara Federal aprovou a \u201cLei Pietro\u201d.<\/p>\n<p>A proposta foi do pai dele, o deputado federal do PSB ga\u00facho Beto Albuquerque, apresentada em dezembro de 2007, logo depois do filho ter sido diagnosticado com a doen\u00e7a \u2013 o pai deputado sentiu as dificuldades do brasileiro comum para tratar leucemia pelo SUS.<\/p>\n<p>A lei designa de 14 a 21 de dezembro \u201cSemana de Mobiliza\u00e7\u00e3o Nacional para Doa\u00e7\u00e3o de Medula \u00d3ssea\u201d \u2013 como transplante \u00e9 a \u00fanica chance de cura, a lei transformou a dor da fam\u00edlia Albuquerque em esperan\u00e7a para milhares de pessoas na mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto se arrastou um ano na C\u00e2mara \u2013 ao mesmo tempo a doen\u00e7a ia consumindo Pietro. Para tratar-se, ele recorreu a bancos de doadores em Paris e Nova York. Um dia depois de sua morte, em 3 de fevereiro, os parlamentares se deram conta do drama do colega e aprovaram a lei.<\/p>\n<p>O m\u00e9rito da proposta \u00e9 mobilizar a sociedade para conseguir doadores no pa\u00eds: \u201cSe meu pai n\u00e3o fizer mais nada no mandato, j\u00e1 ter\u00e1 feito muita coisa por muita gente\u201d, diz Rafael, publicit\u00e1rio, 23 anos, irm\u00e3o de Pietro.<\/p>\n<p>\u00c9 um elogio ao pai, mas tamb\u00e9m um fato: segundo estat\u00edsticas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, todo ano quase 10 mil pessoas contraem leucemia. O Brasil tem 300 mil doadores cadastrados. \u00c9 pouco: cada doente tem s\u00f3 uma chance em 100 mil para encontrar algu\u00e9m compat\u00edvel.<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios tipos da doen\u00e7a, a miel\u00f3ide \u00e9 a mais dif\u00edcil de curar, mata oito de cada 10 pacientes. Na maioria das vezes ataca homens adultos, dos 50 pra cima, embora tenha acertado Pietro na flor da juventude, aos 18.<\/p>\n<p>Em 14 meses de luta contra a doen\u00e7a, ele usou todo arsenal m\u00e9dico dispon\u00edvel. Era benefici\u00e1rio da m\u00e3e no plano de sa\u00fade do Banco do Brasil e se tratou no melhor hospital brasileiro, o das Cl\u00ednicas, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">APOIO<\/span><br \/>\nFoi preciso mudar de cidade porque n\u00e3o havia leito do SUS para pacientes da doen\u00e7a na base eleitoral do deputado: \u201cPorto Alegre s\u00f3 tem sete ou oito leitos especiais para essa doen\u00e7a. Tentei outros lugares p\u00fablicos mais pr\u00f3ximos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o consegui lugar para ele\u201d, disse Beto \u2013 e se foi dif\u00edcil para um dos l\u00edderes do governo, imagine-se para o cidad\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Pietro teve apoio de pai, m\u00e3e, irm\u00e3os, madrasta, av\u00f3s. Teve todo dinheiro necess\u00e1rio para todas as despesas. Fez quimioterapia e radioterapia. Foi mantido em quartos isolados para evitar contamina\u00e7\u00e3o. Tentou at\u00e9 o transplante de cord\u00e3o umbilical, a \u00faltima moda em solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Quando nem os bancos de medula no exterior ajudaram, os m\u00e9dicos tentaram transplante de medula com material doado pela m\u00e3e. Esta\u00a0cartada final da medicina tamb\u00e9m n\u00e3o funcionou.<\/p>\n<p>Por todos os relatos, o Pietro que se foi era um cara na dele, muito tranq\u00fcilo. Nasceu em Passo Fundo, veio pequeno para Porto Alegre. Gostava de garotas, de ler, de m\u00fasica, de Floripa, de cinema, do Colorado, do gato Tinkleydison.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3653 aligncenter\" title=\"pietro5\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/03\/pietro5.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" \/><br \/>\nOlhando para tr\u00e1s, ele parecia saber que estava marcado para morrer cedo. Aos 16, publicou um livro com t\u00edtulo premonit\u00f3rio: \u201cDias Contados\u201d.<\/p>\n<p>A obra saiu durante a Jornada Nacional de Literatura da Universidade de Passo Fundo. No texto de apresenta\u00e7\u00e3o a professora T\u00e2nia Rosing escreveu que \u201cPietro de Albuquerque ter\u00e1 longa vida como escritor\u201d \u2013 ela n\u00e3o teve a menor intui\u00e7\u00e3o do que estava por vir.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 muito bom, ainda mais considerando que foi escrito quando o guri tinha 15. E s\u00e3o 296 p\u00e1ginas \u2013 uma fa\u00e7anha nestes tempos em que adol\u00eas falam por email e torpedos.<\/p>\n<p>\u201cDias Contados\u201d \u00e9 sobre o cotidiano de quatro personagens meio autobiogr\u00e1ficos: Yuri, Ca\u00edque, Cec\u00edlia e Priscila. Seriam ele mesmo, seu irm\u00e3o e duas primas. O irm\u00e3o diz que muito do que est\u00e1 escrito \u00e9 da viv\u00eancia, \u201cele era muito observador\u201d, mas que tamb\u00e9m h\u00e1 coisas inventadas porque \u201cele era muito criativo\u201d.<\/p>\n<p>No texto, o personagem Yuri se descreve como \u201cum garoto bem soci\u00e1vel, nada t\u00edmido, mas tamb\u00e9m n\u00e3o muito extrovertido. Ao mesmo tempo em que gosta de dar uns beijos sem import\u00e2ncia, \u00e9 muito rom\u00e2ntico\u201d.<\/p>\n<p>Pietro balan\u00e7ou um pouco, l\u00e1 pelos 10 anos, quando os pais se divorciaram. \u201cFoi surpreendente, inesperado, pois para todo mundo parecia um conto de fadas\u201d, diz Rafael. \u201cPietro ficou muito pra dentro\u201d, dando no ponto em que o brother se tornou introvertido.<\/p>\n<p>Os dois ficaram vivendo com a m\u00e3e, dona D\u00e9bora. Logo estabeleceram uma rotina sem o pai, que s\u00f3 viam nos fins de semana e datas especiais \u2013 o deputado, sempre ocupado em Bras\u00edlia, casou de novo e tem mais uma filha, Nina, pequena.<\/p>\n<p>Muitas das estrepolias contadas no livro foram a maneira que Pietro encontrou para lidar com a separa\u00e7\u00e3o. A primeira frase: \u201cO menino era muito parecido com o pai, embora tivesse alguns tra\u00e7os da m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Quando fala dele, o pai tenta n\u00e3o se emocionar muito: \u201cO Pietro era um menino muito envolvido com a cultura\u201d, disse, em entrevista, algumas semanas depois da morte.<\/p>\n<p>Ele lia Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Machado de Assis, Lima Barreto, Umberto Eco. \u201cEram autores que ele tinha que ler para o vestibular, mas que acabou gostando e indo adiante\u201d, conta Rafael.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3655\" aria-describedby=\"caption-attachment-3655\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3655 size-full\" title=\"pietro2\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/03\/pietro2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3655\" class=\"wp-caption-text\">Beto e Pietro: nos bons tempos<\/figcaption><\/figure>\n<p>O deputado agora est\u00e1 lendo o segundo livro do filho, \u201cQuem tem coragem\u201d, uma obra in\u00e9dita que Pietro escreveu no hospital e deixou na mem\u00f3ria de seu notebook. O texto tem uma leve marca da trag\u00e9dia que se aproximava:<\/p>\n<p><em>Agora, ele j\u00e1 podia comemorar aliviado o seu feito. Havia completado a sua miss\u00e3o. Havia terminado o que antes n\u00e3o havia conseguido. Restava-lhe esperar. Esperar por um ju\u00edzo. Nunca fora de acreditar em destino, mas talvez os acontecimentos mais primordiais de sua vida o fizessem repensar. Era at\u00e9 ir\u00f4nico. Mais atr\u00e1s, \u00e0s suas costas, quatro homens de arma em punho vinham na sua dire\u00e7\u00e3o sedentos por vingan\u00e7a. \u201cAchar vai ser f\u00e1cil, o dif\u00edcil \u00e9 conseguir sair\u201d. E riu, preferindo nem olhar para o que lhe aguardava. E tirou do bolso o seu amuleto. Coragem, rapaz, coragem.<\/em><br \/>\n<span class=\"intertit\">NAMORADOR<\/span><\/p>\n<p>At\u00e9 ser diagnosticado com a doen\u00e7a, Pietro vinha se dando bem na vida. Fotos mostram que ele n\u00e3o era de se botar fora. N\u00e3o tinha namorada, mas era um \u201cficante\u201d que \u201chonrava as tradi\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 \u00e9 a linguagem de Rafael para descrever o irm\u00e3o namorador.<\/p>\n<p>Pietro queria ser escritor e roteirista de cinema. J\u00e1 doente, passou no vestibular para cinema na federal de Santa Catarina.<\/p>\n<p>Outra paix\u00e3o era a praia do Campeche, em Floripa, onde vivem as duas primas do livro. Ia seguido pra l\u00e1. No \u00e1lbum da fam\u00edlia ele aparece em fotos na praia, saud\u00e1vel, sorridente, como se nada pudesse lhe acontecer.<\/p>\n<p>Pietro n\u00e3o era do tipo consumista \u2013 seus gastos quase nunca eram maiores do que a pens\u00e3o de 200 reais que recebia do pai. O programa preferido era ver filmes com a m\u00e3e e o irm\u00e3o. O \u00faltimo foi Na Natureza Selvagem, a hist\u00f3ria amarga de um jovem andarilho americano morto no Alasca.<\/p>\n<p>Ele queria muito viajar. Tinha ido pra Disney quando pequeno, conhecia um pouco Uruguai, Paraguai e Argentina, mas sonhava com lugares ex\u00f3ticos. Um plano maluco era mudar-se para Valetta ou Birkirkara, cidades de Malta, uma ilha do Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Parece 100 por cento garantido que ele planejava mesmo mudar-se para l\u00e1 quando desse, tanto que o projeto estava no Orkut dele \u2013 e se est\u00e1 no Orkut \u00e9 pra valer.<\/p>\n<p>Outros sonhos ? Andar de tren\u00f3. Abrir uma padaria em sociedade com a prima Yve \u2013 ela tamb\u00e9m adoradora de Malta, pa\u00eds cuja caracter\u00edstica mais not\u00e1vel foi ter sido cristianizado por S\u00e3o Paulo em pessoa.<\/p>\n<p>Pietro acreditava em Deus, mas a \u00faltima vez que pisou numa igreja foi na primeira comunh\u00e3o, l\u00e1 pelos 10 anos. N\u00e3o acreditava em pol\u00edtica. \u201cAcho que \u00e9 porque sempre vivemos com a pol\u00edtica na fam\u00edlia, ele acabou indiferente\u201d, conta Rafael &#8211; um tio deles, Francisco Turra, tamb\u00e9m \u00e9 deputado federal e cordial advers\u00e1rio do pai.<\/p>\n<p>No Orkut ele se definia como quem \u201cnarra a vida na terceira pessoa\u201d, al\u00e9m de ouvinte da banda Coldplay. Fotografava a si mesmo nas situa\u00e7\u00f5es mais hil\u00e1rias, como se dando um tiro imagin\u00e1rio quando rodou no vestiba da URGS.<\/p>\n<p>J\u00e1 minado pela doen\u00e7a, mantinha o bom humor na web, onde tinha 454 amigos. Estava ligado na comunidade \u201cDoe Medula \u00d3ssea\u201d. Na parte onde os internautas buscam namoradas ele s\u00f3 pedia como companheira ideal \u201cuma medula nova bem fresquinha\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/03\/pietro3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3657\" title=\"pietro3\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/pietro3.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" \/><\/a><br \/>\nA medula dele deixou de produzir sangue normal em algum momento no final de 2007. Os primeiros sintomas foram tonturas e n\u00e1useas. Um dia ele desmaiou durante uma aula no cursinho Unificado. No Hospital M\u00e3e de Deus, os m\u00e9dicos diagnosticaram uma anemia profunda e pediram mais exames \u2013 em poucos dias a terr\u00edvel doen\u00e7a foi descoberta.<\/p>\n<p>A m\u00e3e estava com ele na hora do diagn\u00f3stico e foi sua enfermeira at\u00e9 o fim: \u201cOs dois eram muito apegados, ficaram mais ainda\u201d, lembra Rafael.<\/p>\n<p>Dali pra frente a rotina da fam\u00edlia virou de pernas para o ar. Pietro come\u00e7ou a fazer quimioterapia. Um m\u00eas no hospital, uma semana em casa. Em maio, depois de quatro meses de quimio, a trai\u00e7oeira doen\u00e7a parecia ter desaparecido: \u201cPensamos que ele se enquadraria entre os que conseguem se dar bem apenas com tratamento\u201d, conta o pai \u2013 agora o deputado dedicava todos os fins de semana para estar junto com o filho.<\/p>\n<p>A pequena melhora deu esperan\u00e7as \u00e0 fam\u00edlia. Beto comemorou levando Pietro para Gramado e Canela, dias de brincadeiras com Nina. Ele ainda teve condi\u00e7\u00f5es de ir pra Macei\u00f3 com a m\u00e3e.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">DOADORES<\/span><\/p>\n<p>Em junho, o drama recome\u00e7ou. Ele come\u00e7ou a sentir-se mal outra vez. Testes confirmaram o pior. Foi a\u00ed que m\u00e9dicos e fam\u00edlia come\u00e7aram a procurar um doador de medula compat\u00edvel \u2013 n\u00e3o adianta ser da fam\u00edlia, tem muito a ver com o tipo de sangue e outras vari\u00e1veis. Basta ver que o irm\u00e3o era 80% compat\u00edvel, mas ao mesmo tempo n\u00e3o era melhor do que os 65% de compatibilidade da m\u00e3e.<\/p>\n<p>O transplante s\u00f3 \u00e9 solu\u00e7\u00e3o se \u00e9 encontrado um doador cedo. Pietro demorou 10 meses para o primeiro e 13 para o segundo, quando ent\u00e3o j\u00e1 estava muito debilitado. O que faltou ? Justamente pessoas cadastradas como doadoras.<\/p>\n<p>At\u00e9 no exterior, a busca por um doador compat\u00edvel foi infrut\u00edfera \u2013 isto que o banco americano de medula tem 15 milh\u00f5es de doadores. Em agosto, os m\u00e9dicos tentaram a nova t\u00e9cnica de usar cord\u00f5es umbilicais.<\/p>\n<p>Eles encontraram um na Fran\u00e7a e outro nos Estados Unidos. Sangue 80% compat\u00edvel com o de Pietro. Mas era puro risco: at\u00e9 ali, s\u00f3 500 transplantes assim tinham feitos no mundo. Por quest\u00f5es burocr\u00e1ticas, o transplante de cord\u00e3o demorou at\u00e9 novembro, o que n\u00e3o ocorreria se o pa\u00eds tivesse um bom banco do material \u2013 como Pietro j\u00e1 tava mal, piorou mais.<\/p>\n<p>O ano em S\u00e3o Paulo foi duro tamb\u00e9m para a fam\u00edlia, mas ela\u00a0se uniu em torno dele. Rafael conta que houve \u201centrega total de todo mundo. Ningu\u00e9m media esfor\u00e7os. O pai era bom na tomada de decis\u00f5es sob press\u00e3o. Cada um tinha um papel diferente. A m\u00e3e sempre dormia com o Pietro no hospital&#8221;.<\/p>\n<p>Rafael ainda encontra tempo para dizer que a doen\u00e7a o fez descobrir de novo o pai em Beto: \u201cMe reaproximei dele, fiquei com uma admira\u00e7\u00e3o imensa por quem ele \u00e9, pelo que ele fez\u201d.<br \/>\nOs m\u00e9dicos iam fazendo o que podiam por Pietro. Rafa acha que \u201ca medicina em S\u00e3o Paulo est\u00e1 cinco anos na frente de Porto Alegre em agilidade e rem\u00e9dios\u201d, mas ela n\u00e3o faz milagres.<\/p>\n<p>O transplante de material gen\u00e9tico obtido dos cord\u00f5es umbilicais do exterior pareceu dar certo. A medula pegou no tranco. Chegou a produzir sangue saud\u00e1vel, mas isto durou pouco. Pietro ganhou uma quase alta em S\u00e3o Paulo. Passava algumas horas por dia no ambulat\u00f3rio do HC e o resto do tempo num flat com a fam\u00edlia \u2013 era o m\u00e1ximo poss\u00edvel de normalidade.<\/p>\n<p>Exatos 85 dias depois, justo no Natal, a doen\u00e7a voltou. A tentativa seguinte foi o transplante de medula da m\u00e3e \u2013 a segunda chance para dona D\u00e9bora Gelatti lhe dar a vida.<\/p>\n<p>Para faz\u00ea-lo, \u00e9 necess\u00e1rio que o paciente passe por pesadas sess\u00f5es de quimioterapia e radioterapia \u2013 isto rala o corpo, com o objetivo de zerar a imunidade para n\u00e3o rejeitar o material doado.<br \/>\nPietro enfrentou esta barra, mas foi para o transplante nas \u00faltimas energias. A opera\u00e7\u00e3o caiu no dia 6 de janeiro, anivers\u00e1rio de Beto \u2013 se alguma coisa isto significa, que outros busquem o sentido: medula da m\u00e3e, no dia do pai.<\/p>\n<p>O deputado apelou at\u00e9 para seu santo de devo\u00e7\u00e3o: \u201cSe desse certo, n\u00f3s ir\u00edamos visitar a terra de S\u00e3o Francisco, na It\u00e1lia\u201d.<\/p>\n<p>Dali pra frente o quadro se complicou de vez. Ele teve uma sinusite que virou pneumonia, que virou infec\u00e7\u00e3o pulmonar, que virou S\u00edndrome de Ang\u00fastia Respirat\u00f3ria de Adulto, tudo isso em 16 dias ap\u00f3s o transplante.<\/p>\n<p>Nesta etapa ele j\u00e1 estava todo ligado em tubos e diferentes aparelhos. \u201cApesar de tudo, Pietro sempre foi muito confiante. O cara estava a fim de viver. Quando a gente falava o que estava fazendo, ele s\u00f3 dizia \u2018beleza, vamos tentar\u2019\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3658 aligncenter\" title=\"pietro6\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/03\/pietro6.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"324\" \/><br \/>\nE a\u00ed, entre 22 de janeiro a 3 de fevereiro foi s\u00f3 sofrimento. Pietro caiu na inconsci\u00eancia, da qual n\u00e3o mais voltaria. Fazia gestos de sim com a cabe\u00e7a, apertava a m\u00e3o do interlocutor, mas j\u00e1 era pura agonia. Beto resume tudo: \u201cPietro foi um guerreiro\u201d.<\/p>\n<p>Na tarde do dia 3 os m\u00e9dicos avisaram a fam\u00edlia que o menino deles estava em seus \u00faltimos momentos \u2013 ele morreria horas depois, mansamente, na madrugada. \u201cAli choramos tudo o que t\u00ednhamos, eu, meu pai e minha m\u00e3e\u201d, lembra Rafael, agora tranq\u00fcilo. Um padre esteve no quarto e lhe deu a extrema-un\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recuperado e tamb\u00e9m sereno, o deputado diz que o filho lhe deixou uma tarefa: \u201cQuero evitar que outros pais passem o que eu passei\u201d.<\/p>\n<p>Pietro foi enterrado no Jardim da Paz. Presentes, 17 deputados, o presidente da C\u00e2mara Michel Temer e o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Institucionais Jos\u00e9 M\u00facio, representando o presidente Lula.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia retomou sua rotina. Na casa da Zona Sul, nada de culto a Pietro. Seu computador e a TV ainda estavam no mesmo lugar no in\u00edcio de mar\u00e7o, m\u00eas em que ele faria 20 anos, mas as roupas j\u00e1 foram doadas para os pobres. A cama estava feita, embaixo escondia-se o gato Tinkleydison.<\/p>\n<p>Fotos dele continuam nas paredes. Sobre a mesa, dois recuerdos do Pietro que se foi. Uma engra\u00e7ada caneca imitando seio feminino. E um pequeno jipe feito com massa de modelar, envernizado e colorido, com pranchas de surf na capota \u2013 tipo coisa sonhada para seus dias na ilha de Malta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/servico-como-e-onde-doar-medula\/\">SAIBA COMO E ONDE DOAR A MEDULA \u00d3SSEA<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renan Antunes de Oliveira | Com reportagem de\u00a0Daiane Menezes Anote o nome: Pietro. Pietro Albuquerque. Com certeza voc\u00ea ainda vai ouvir falar deste jovem classe m\u00e9dia alta da Zona Sul. 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