{"id":36677,"date":"2016-07-19T18:41:41","date_gmt":"2016-07-19T21:41:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=36677"},"modified":"2016-07-19T18:41:41","modified_gmt":"2016-07-19T21:41:41","slug":"afinal-o-que-e-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/afinal-o-que-e-o-brasil\/","title":{"rendered":"Afinal, o que \u00e9 o Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Timm &#8211; Economista<br \/>\nA pergunta \u00e9 meio po\u00e9tica \u2013 sen\u00e3o pat\u00e9tica &#8211; e foi Drummond quem a formulou, indiretamente, num poema quando se indagava:<br \/>\n\u201cOs brasileiros, por acaso, existem?\u201d<br \/>\nTempos depois Renato Russo a lan\u00e7ava de novo no seu famoso<br \/>\n\u201c<a href=\"http:\/\/youtu.be\/CqttYsSYA3k\">Que pa\u00eds \u00e9 este?<\/a>\u201d,<br \/>\nde tanta repercuss\u00e3o nos anos 80\/90.<br \/>\nNa verdade, o tema \u00e9 pertinente e tem acompanhado os grandes int\u00e9rpretes do pa\u00eds desde os prof\u00e9ticos serm\u00f5es do Padre Vieira, em meados do S\u00e9culo XVII , passando pelo c\u00e9tico Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Patriarca da Independ\u00eancia, dois s\u00e9culos depois. N\u00e3o vou entrar em detalhes sobre cada uma dessas abordagens, muitas delas j\u00e1 cl\u00e1ssicas, mesmo com eventuais reparos, como as dos autores citados mais as obras modernas de S\u00e9rgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr, Gilberto Freire, Celso Furtado e Raimundo Faoro, dentre outros. Apenas chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre alguns pontos que ro\u00e7am a conjuntura levando-nos a refletir sobre os pr\u00f3ximos anos.<br \/>\nCome\u00e7o pela demografia. Contrariamente ao M\u00e9xico, que tinha uma popula\u00e7\u00e3o nativa em torno de 10 milh\u00f5es de nativos \u2013 ou o dobro disso (?) &#8211; , grande parte reunida em habitats urbanos, quando o colonizador chegou, o Brasil teria, no m\u00e1ximo 6 milh\u00f5es de \u00edndios dispersos em aldeias ao longo de um imenso territ\u00f3rio. Destes, metade, segundo Vieira, teria sido dizimada no primeiro s\u00e9culo da coloniza\u00e7\u00e3o. Com os que restaram, mais os escravos trazidos da \u00c1frica e pouqu\u00edssimos brancos, num total pouco maior de 3 milh\u00f5es de pessoas, chegamos \u00e0 Independ\u00eancia, em 1822. Naquela \u00e9poca Porto Alegre, rec\u00e9m elevada a cidade, tinha apenas 5 mil habitantes. O Rio Grande um portal de solid\u00f5es. Com isso iniciamos a constru\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o brasileira. Em 1900 j\u00e1 \u00e9ramos pouco mais de 14 milh\u00f5es. No ano 2000 cheg\u00e1vamos a perto de 200 milh\u00f5es, 85% vivendo em grandes cidades. Um espet\u00e1culo. S\u00f3 para comparar, o M\u00e9xico tinha 122 milh\u00f5es em 2013. Como realizamos este verdadeiro milagre de multiplica\u00e7\u00e3o de almas? Com o Brasil : Uma sociedade extremamente autorit\u00e1ria e segregacionista, mas que, apesar de tudo, consegue isto que o Darcy Ribeiro chamava de incr\u00edvel fazimento de gentes, \u00e0 base da farinha de pau, comendo da\u00ed o p\u00e3o que o diabo amassou. Nele entraram impulsos de forte crescimento vegetativo e de captura\u00e7\u00e3o de alguns fluxos imigrat\u00f3rios, sobretudo de S\u00e3o Paulo para o sul, o que nos tornou muito diferentes do resto. N\u00e3o incorporamos nenhum territ\u00f3rio ou povo colonizado. Fizemo-nos. Mesti\u00e7os. Bastardos. Tropicanos.<br \/>\nDois momentos contribu\u00edram decisivamente para este salto demogr\u00e1fico, ambos ligados ao desempenho da economia: 1. o grande surto do caf\u00e9, que deixou no seu rastro a ocupa\u00e7\u00e3o do Vale do Para\u00edba e dos vales a oeste de S\u00e3o Paulo, al\u00e9m da vigorosa infraestrutura urbana de sustenta\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio deste produto, tanto no Rio de Janeiro como entre Santos e a cidade de S\u00e3o Paulo; e 2. O longo per\u00edodo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es que assegurou uma taxa continuada de crescimento do PIB entre 1932 e in\u00edcio dos anos 80 na ordem de 6,5% ao ano, transformando-nos numa das mais sofisticadas estruturas industriais do planeta, respons\u00e1vel por nos colocar entre as 10 maiores economias do mundo.<br \/>\nEstes processos econ\u00f4micos permitiram a organiza\u00e7\u00e3o, no primeiro momento olig\u00e1rquica, no segundo, dita populista, quase sempre autorit\u00e1ria, do Estado brasileiro, com o que assegurou-se a \u201cordem e o progresso\u201d indispens\u00e1veis \u00e0 sua legitima\u00e7\u00e3o. Nem o capitalismo, muito menos a democracia, como nos ensinam v\u00e1rios estudiosos, nascem e se desenvolvem gra\u00e7as aos elevados valores do humanismo impl\u00edcito na filosofia que os sustenta. Quase sempre s\u00e3o frutos de rupturas institucionais, revolu\u00e7\u00f5es e at\u00e9 guerras. Nosso capitalismo e nossa democracia emergiram das viol\u00eancias vividas pela Na\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XX, no meio das quais erguemos clamores de mudan\u00e7a e de liberdade, quase sempre sufocados.<br \/>\nFoi, contudo, no meio deste processo que se estratificou a sociedade brasileira, nas entranhas de uma moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria que formou gerentes e administradores com a fun\u00e7\u00e3o de cumprir o destino de um pa\u00eds prometido sempre para o futuro, embora de presente din\u00e2mico mas seletivo. Com uma economia diversificada, uma estrutura de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o tamb\u00e9m dispersa, criamos uma classe m\u00e9dia vigorosa, ao longo do s\u00e9culo XX, como, talvez, nenhum outro pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina o tenha feito. A din\u00e2mica inter- setorial da economia, por\u00e9m, n\u00e3o exigiu que esta classe m\u00e9dia acompanhasse os modelos mais org\u00e2nicos do capitalismo central, onde \u00e0 produ\u00e7\u00e3o em massa seguia-se um consumo interno tamb\u00e9m em grande escala. No primeiro surto de expans\u00e3o, nossa economia era prim\u00e1rio exportadora e, no limite, realizou a transi\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra escrava para o trabalho assalariado, do qual emanar\u00e1, na decad\u00eancia do caf\u00e9 uma sociedade mais diversificada. No segundo surto, mais longo, o produto final da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es dificilmente era acess\u00edvel aos pr\u00f3prios trabalhadores, mantendo-os \u00e0 margem de sua expans\u00e3o.<br \/>\nTemos , assim, uma elite econ\u00f4mica globalmente articulada e altamente concentrada, em torno de 10.000 fam\u00edlias, assentadas em 250 conglomerados multinacionais, grandes empresas de servi\u00e7os, sobretudo bancos, engenharia e com\u00e9rcio, ao que se soma o complexo do agrobusiness, dificilmente chegando esse n\u00famero a 0.5% da popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds, uma classe m\u00e9dia poderosa, com n\u00edvel de renda e informa\u00e7\u00e3o internacional, que lhe segue os passos, n\u00e3o inferior a 40 milh\u00f5es de pessoas, que correspondem ali\u00e1s, aos usu\u00e1rios de Planos de Sa\u00fade (!), e o \u201cpovo em geral\u201d, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o, dos quais 80 milh\u00f5es ganham at\u00e9 R$ 500 reais por m\u00eas, 8 milh\u00f5es nem isso, est\u00e3o na mis\u00e9ria absoluta, 28 milh\u00f5es ganham sal\u00e1rio m\u00ednimo, outro tanto pens\u00f5es com este valor. E fim. Sa\u00edmos, na Era Petista do Mapa da Fome, mas continuamos com outras fomes&#8230;<br \/>\nO resultado deste processo projetou-se no nosso sistema pol\u00edtico, j\u00e1 viciado na origem colonial, pela outorga a cidad\u00e3os leais \u00e0 Coroa Portuguesa o privil\u00e9gio do exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Isto rompeu-se , claro, com a Independ\u00eancia, mas moldou-se \u00e0s exig\u00eancias da Boa Sociedade escravocrata criando as bases do coronelismo que viria a dominar a vida p\u00fablica do pa\u00eds mesmo sob a Rep\u00fablica. Vargas, depois de 30 rompeu o modelo coronelista vinculado \u00e0 propriedade da terra, mas o substitui por outro ligado ao pr\u00f3prio Estado, que , por sua vez tratou de criar os la\u00e7os para sua perpetuidade nas respectivas regi\u00f5es.<br \/>\nA consequ\u00eancia foi um arcabou\u00e7o institucional formal, sobreposto \u00e0 pr\u00f3pria cidadania, ali\u00e1s, s\u00f3 maci\u00e7amente presente no processo eleitoral depois da Constitui\u00e7\u00e3o de 88. A exce\u00e7\u00e3o a esta regra foi o antigo PTB, de base urbana, com epicentro no Rio de Janeiro e uma s\u00f3lida ramifica\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul, por raz\u00f5es peculiares deste Estado, de resto, ber\u00e7o de Vargas. No resto do Brasil, o mundo pol\u00edtico se dividia entre a velha oligarquia rural oriunda ainda do per\u00edodo colonial, com suas pr\u00e1ticas descritas por Vitor Nunes Leal em \u201cCoronelismo, Enxada e Voto\u201d, geralmente ligada a UDN e uma nova oligarquia, p\u00f3s 30 , resultante das interven\u00e7\u00f5es de Vargas nos Estados e que se identificava com uma vaga ideologia modernizante que lhe correspondia. Esta, por\u00e9m, nunca aderiu ao PTB. Ficou leal, \u00e0 margem. Acabou, em 64 apoiando o golpe militar, mas optou por ficar no MDB, do \u201cPartido do N\u00e3o\u201d, at\u00e9 por incompatibilidades pessoais com os oligarcas da ARENA. Na abertura pol\u00edtica esta gente toda desembarcaria no PMDB, dando-lhe uma rara vertebra\u00e7\u00e3o nacional e expressiva capacidade de representa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom a Constitui\u00e7\u00e3o de 88, aliada \u00e0 nova configura\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es mal acomodadas nos sub\u00farbios das grandes metr\u00f3poles, com baixos sal\u00e1rios e p\u00e9ssima oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos, criou-se uma novo horizonte de massas na vida p\u00fablica do pa\u00eds. O povo come\u00e7ou a votar e se organizar para ser votado. O PT soube recolher esta realidade e construir-se hegemonicamente sobre a sociedade brasileira nas elei\u00e7\u00f5es de 2002. Tinha, por\u00e9m, pela frente a dura tarefa de associar esta hegemonia \u00e0 governabilidade, contando, para tanto com o universo pol\u00edtico dispon\u00edvel, com grande fragmenta\u00e7\u00e3o de partidos e com a sombra do PMDB sobre seu Governo. Funcionou tudo muito bem, durante um tempo. At\u00e9 que a crise econ\u00f4mica trouxesse no seu bojo a verdadeira realidade: um pa\u00eds com uma imensa maioria de gente muito pobre aglomerada nos arredores das grandes metr\u00f3poles, sem defini\u00e7\u00f5es claras no campo do desenvolvimento econ\u00f4mico, numa economia global cada vez mais competitiva e financeirizada, com um Estado depauperado pelo pagamento de juros. Foi o que bastou para a desestabiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCumpre , agora, saber o que fazer? Quais os cen\u00e1rios dispon\u00edveis at\u00e9 o final do ano? Quais as perspectivas da esquerda e do PT nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es municipais? Como retomar as iniciativas pol\u00edticas num cen\u00e1rio marcado pelo div\u00f3rcio com um aliado estrat\u00e9gico de grande poder pol\u00edtico e eleitoral e grande afastamento da classe m\u00e9dia? Como reorganizar o espa\u00e7o da esquerda e seus novos protagonistas diante do colapso do PT, cuja profundidade ainda \u00e9 insond\u00e1vel? Como proceder, enfim, diante da mudan\u00e7a eventual da conjuntura, j\u00e1 advertida com a elimina\u00e7\u00e3o de Eduardo Cunha do comando do Centr\u00e3o e, certamente, mais acentuada depois do desfecho do impeachment, para a reconstru\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a num futuro democr\u00e1tico?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Timm &#8211; Economista A pergunta \u00e9 meio po\u00e9tica \u2013 sen\u00e3o pat\u00e9tica &#8211; e foi Drummond quem a formulou, indiretamente, num poema quando se indagava: \u201cOs brasileiros, por acaso, existem?\u201d Tempos depois Renato Russo a lan\u00e7ava de novo no seu famoso \u201cQue pa\u00eds \u00e9 este?\u201d, de tanta repercuss\u00e3o nos anos 80\/90. 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