{"id":36832,"date":"2016-07-22T12:29:55","date_gmt":"2016-07-22T15:29:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=36832"},"modified":"2016-07-22T12:29:55","modified_gmt":"2016-07-22T15:29:55","slug":"danilo-ucha-um-genio-do-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/danilo-ucha-um-genio-do-bem\/","title":{"rendered":"Danilo Ucha, um g\u00eanio do bem"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">ELMAR BONES<\/span><br \/>\n<em>\u201cA fila andou, morreu o Ucha\u201d. Eu estava acordando. Puxei de volta o cobertor sobre a cabe\u00e7a, n\u00e3o podia ser. Lembrei dos versos que grit\u00e1vamos nas madrugadas insanas da fronteira. \u201cQue sabem voc\u00eas, in\u00fateis diletantes?\u201d. Repassei em segundos quase 60 anos de amizade \u00a0e me dei conta: morreu um g\u00eanio do bem!<\/em><br \/>\n<em>Isso foi o que sempre vi nele, desde que nos conhecemos ainda adolescentes. Uma intelig\u00eancia superior, humilde, operosa, voltada para o entendimento, a solu\u00e7\u00e3o, a harmonia, o lado positivo. \u00a0<\/em><br \/>\n<em>Foi assim que ele surgiu naquele distante 1962: um candidato que iria unificar o movimento estudantil radicalizado, naquela cidade conservadora que era Santana do Livramento.<\/em><br \/>\n<em>Comp\u00f4s a chapa com Aur\u00e9lio Guerra, que trazia o apoio da parte mais esclarecida da elite local. \u00a0Venceu com larga margem e seus primeiros projetos foram: um jornal, \u201cEstudante Hoje\u201d, \u00a0e um evento esportivo para aproximar jovens de ambos os lados da fronteira de Brasil e Uruguai, os Jogos Internacionais da Primavera, evento pioneiro inspirado pelo grande mestre Rubens Mandarino.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>No segundo semestre de 1963, um dos projetos da Uni\u00e3o Santanense de Estudantes\u00a0 era engajar os estudantes num programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o\u00a0 de adultos \u2013 um ter\u00e7o dos adultos eram analfabetos na regi\u00e3o. \u00a0<\/em><br \/>\n<em>Ent\u00e3o, veio o golpe em 31 de mar\u00e7o de 1964. A USES se alinha \u00e0 resist\u00eancia e uma faixa \u201cOS ESTUDANTES EST\u00c3O COM JANGO\u201d \u00e9 estendida na frente da Prefeitura.<\/em><br \/>\n<em>Surgem contesta\u00e7\u00f5es. Um grupo, a\u00e7ulado pelos conservadores a favor do golpe militar, \u00a0questionou o posicionamento da entidade:\u00a0 n\u00e3o representava a opini\u00e3o de todos os estudantes. Uma assembl\u00e9ia \u00e0 noite no por\u00e3o da igreja n\u00e3o chega ao fim. \u00c9 dissolvida por uma for\u00e7a do ex\u00e9rcito, que cerca o pr\u00e9dio. Um capit\u00e3o e um tenente, de metralhadora em punho, tomam a porta e ordenam a sa\u00edda, um a um, todos direto para casa sem coment\u00e1rio.<\/em><br \/>\n<em>Lembro que sa\u00edmos pela rua escura. Conhec\u00edamos cada cent\u00edmetro por ali, mas era como se caminh\u00e1ssemos sem rumo. Alguma coisa havia desmoronado. Depois vieram as amea\u00e7as, as pris\u00f5es e a morte de amigos.<\/em><br \/>\n<em>Bem mais tarde ele escreveria: \u201cA palavra do revolucion\u00e1rio\/ morreu na boca fuzilada\u201d<\/em><br \/>\n<em>A partir dali ele abra\u00e7ou integralmente o jornalismo. Fez sua op\u00e7\u00e3o radical silenciosamente, sem explicar nem justificar. Fez por raz\u00f5es pr\u00e1ticas indiscut\u00edveis.<\/em><br \/>\n<em><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-36833 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Danilo-Ucha-bonit\u00e3o-204x300.jpg\" alt=\"Danilo Ucha bonit\u00e3o\" width=\"204\" height=\"300\" \/>Come\u00e7ou pela base, como revisor, num tempo em que o jornal era impresso no chumbo antes de passar para o papel.\u00a0 Foi cronista, rep\u00f3rter, editor, diretor ao longo de sua carreira em grandes jornais e encarnou todas essas fun\u00e7\u00f5es no jornal da Noite, que fundou h\u00e1 30 anos para escrever sobre as coisas de que mais gostava \u2013 viagens, arte, boemia, vinho e boa carne. \u00a0<\/em><br \/>\n<em>Sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 impressionante \u2013 \u00a0reportagens, not\u00edcias, colunas, cr\u00f4nicas, cr\u00edticas, sem falar nos livros que publicou e dos que deve ter in\u00e9ditos.<\/em><br \/>\n<em>Seu testemunho \u00e9 imprescind\u00edvel para quem quiser escrever a hist\u00f3ria deste tempo entre n\u00f3s. \u00a0A ind\u00fastria vin\u00edcola, por exempo: ser\u00e1 imposs\u00edvel descrever a sua evolu\u00e7\u00e3o sem recorrer aos seus in\u00fameros trabalhos.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0Se quisesse ser amargo, diria que meu querido amigo Danilo Ucha malversou um imenso talento quando o colocou a servi\u00e7o de uma profiss\u00e3o ingrata, que ainda exigia dele, aos 72 anos, mais de dez horas de trabalho por dia.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0Mas pensando bem e vendo o que ele deixou em sua trajet\u00f3ria, acho que ele estava certo. Como sempre.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELMAR BONES \u201cA fila andou, morreu o Ucha\u201d. Eu estava acordando. Puxei de volta o cobertor sobre a cabe\u00e7a, n\u00e3o podia ser. Lembrei dos versos que grit\u00e1vamos nas madrugadas insanas da fronteira. \u201cQue sabem voc\u00eas, in\u00fateis diletantes?\u201d. Repassei em segundos quase 60 anos de amizade \u00a0e me dei conta: morreu um g\u00eanio do bem! 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