{"id":37995,"date":"2016-08-19T20:05:28","date_gmt":"2016-08-19T23:05:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37995"},"modified":"2016-08-19T20:05:28","modified_gmt":"2016-08-19T23:05:28","slug":"a-saga-do-impeachment-de-dilma-em-producoes-para-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-saga-do-impeachment-de-dilma-em-producoes-para-o-cinema\/","title":{"rendered":"A saga do impeachment de Dilma em produ\u00e7\u00f5es para o cinema"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camila Moraes, do El Pa\u00eds<\/strong><br \/>\nA jovem democracia brasileira ainda engatinha, como se costuma dizer, mas j\u00e1 viveu traumas importantes dos quais pouco se fala no cinema. O mais patente deles talvez seja a ditadura militar (1964-1985), que apesar de ter transfigurado o pa\u00eds, deixando rastros de sangue, \u00e9 ainda digerido pelos cineastas nacionais \u2013 sem que nenhum deles tenha feito um filme obrigat\u00f3rio sobre o tema, dos que levam o carimbo de cl\u00e1ssicos.<br \/>\nUm grupo de realizadores ativos e inquietos decidiu que essa n\u00e3o seria a sina dos brasileiros nesse momento, em que o Brasil vive seu segundo processo de impeachment e se v\u00ea imerso em uma crise de dimens\u00f5es muito al\u00e9m da pol\u00edtica. Por isso, decidiram \u2013 cada um por si \u2013 agarrar uma c\u00e2mera e rumar a Bras\u00edlia na esperan\u00e7a de capturar a Hist\u00f3ria enquanto ela acontece. Ainda que ningu\u00e9m se preocupe em sair de l\u00e1 com um cl\u00e1ssico.<br \/>\nMeses antes de o impeachment ganhar forma, o documentarista carioca Douglas Duarte tinha planejado fazer um filme que retratasse o Congresso Nacional. Mesmo ele, em cuja mesa de jantar sempre se falou de pol\u00edtica, n\u00e3o entendia a mat\u00e9ria da qual est\u00e1 feito aquele grupo de parlamentares a legislar nos bastidores do poder \u2013 e que crescia em import\u00e2ncia pol\u00edtica \u00e0 medida que Dilma Rousseff a perdia como chefe do Executivo. Excelent\u00edssimos, que nasceu para atender uma inquieta\u00e7\u00e3o que \u00e9 de muitos, terminou crescendo at\u00e9 virar um document\u00e1rio sobre a crise pol\u00edtica e o impeachment quando Douglas j\u00e1 se encontrava na capital, no olho de um furac\u00e3o que passou a girar cada vez mais r\u00e1pido.<br \/>\n\u201cNo come\u00e7o, a ideia era acompanhar n\u00e3o l\u00edderes, e sim corpos pol\u00edticos. Queria olhar para nossos parlamentares quando estivessem com a guarda baixa, ver como se movimentam, como co\u00e7am a cabe\u00e7a&#8230; Fazer, enfim, uma etnografia do Congresso. Mas o filme terminou sendo sequestrado pelo tema do impeachment. Eu tinha duas op\u00e7\u00f5es: enfiar a viola no saco e voltar para casa ou aproveitar esse momento extraordin\u00e1rio. Foi o que eu fiz\u201d, conta o realizador que debutou em document\u00e1rios de longa-metragem em 2007 com Personal Che, uma explora\u00e7\u00e3o do mito ao redor do guerrilheiro argentino. No ano passado, ele lan\u00e7ou Sete visitas, que investiga, entre outras coisas, os mecanismos do document\u00e1rio de entrevistas.<br \/>\nPara a brasiliense Maria Augusta Ramos, que tamb\u00e9m prepara um document\u00e1rio sobre a crise, a decis\u00e3o foi ainda mais repentina. Seu projeto partiu do zero, cerca de duas semanas antes da fat\u00eddica vota\u00e7\u00e3o do impeachment na C\u00e2mara, com os deputados votando por suas m\u00e3es, seus filhos e outros parentes, quando ela se deu conta do \u201cmomento urgente e traum\u00e1tico\u201d e de que era preciso entender o que se passava \u2013 e ainda passa \u2013 no pa\u00eds. \u201cMeu cinema trata da observa\u00e7\u00e3o da realidade e parte de quest\u00f5es que me instigam e despertam uma s\u00e9rie de sentimentos. \u00c9 responsabilidade de toda a sociedade entender como chegamos a esse momento, e meu filme tenta contribuir com isso\u201d, diz a cineasta radicada no Rio e formada na Holanda, aclamada sobretudo por Justi\u00e7a (2004) \u2013 o primeiro de uma trilogia de filmes sobre o poder judici\u00e1rio no Brasil.<br \/>\nMaria, que h\u00e1 menos de um m\u00eas estreou em salas Futuro Junho (2015), sai de um document\u00e1rio sobre o ambiente do Brasil \u00e0s portas da Copa do Mundo de 2014 e mergulha no conturbado cen\u00e1rio pol\u00edtico que deve culminar na sa\u00edda definitiva de Dilma Rousseff no fim de agosto. Se no primeiro, ela tinha personagens definidos (um metal\u00fargico, um motoboy, um analista financeiro e um metrovi\u00e1rio, todos de S\u00e3o Paulo) para tecer um clima tenso \u00e0 beira de um poss\u00edvel apocalipse, no atual projeto (ainda sem nome) ela caminha sem guias pelas ruas e pelas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Bras\u00edlia \u2013 e com uma sensa\u00e7\u00e3o de caos mais concreta e iminente.<br \/>\n<strong>No rastro de Dilma<\/strong><br \/>\nOutros dois filmes em progresso \u2013 esses, mais pr\u00f3ximos do personagem mais central do drama, a presidenta afastada Dilma Rousseff \u2013 est\u00e3o nas m\u00e3os de celebradas realizadoras, a paulista Anna Muylaert e a mineira Petra Costa.<br \/>\nAnna, diretora do bem-sucedido Que horas ela volta? e que lan\u00e7ou agora M\u00e3e s\u00f3 h\u00e1 uma (ambos longas de fic\u00e7\u00e3o), \u00e9 desta vez roteirista e produtora de um document\u00e1rio que ser\u00e1 dirigido por Lo Politi \u00ad\u00ad\u2013 reconhecida diretora de publicidade e que trabalhou com o marqueteiro Jo\u00e3o Santana na campanha de Dilma. As duas t\u00eam acompanhado a presidenta em viagens e compromissos e conversado com aliados e assessores da petista.<br \/>\nO que a dupla quer com o filme \u00e9 registrar o que ser\u00e3o possivelmente os \u00faltimos dias de Dilma no Governo, retirada da presid\u00eancia e colocada \u00e0 espera na rotina do Pal\u00e1cio da Alvorada, at\u00e9 a decis\u00e3o final do Congresso. Ainda sem nome, o projeto foi apelidado por senadores e deputados de Ser\u00e1 que ela volta?, pergunta pertinente que ainda por cima homenageia o longa de Anna.<br \/>\nDepois de mergulhar no universo da intimidade em seus document\u00e1rios anteriores, Elena, uma abordagem po\u00e9tica da depress\u00e3o com base no suic\u00eddio da irm\u00e3, e O olmo e a gaivota, sobre a travessia emocional de uma mulher e de um casal diante da chegada de um filho, Petra Costa decidiu se lan\u00e7ar ao mar aberto da pol\u00edtica.<br \/>\nDesde o come\u00e7o de mar\u00e7o, ela acompanha deputados, senadores e outros atores pol\u00edticos, buscando estabelecer com entrevistas e outros registros mais distantes os \u201cacontecimentos hist\u00f3ricos\u201d e \u201ccen\u00e1rios paralelos\u201d que culminam na crise atual. \u201cMeu objetivo \u00e9 investigar como chegamos a esse ambiente de hoje, t\u00e3o polarizado, em que o pa\u00eds est\u00e1 virando do avesso. \u00c9 como se descobr\u00edssemos que nossa democracia \u00e9 feita de uma estrutura muito fina, que estava sendo corro\u00edda por ratos\u201d, diz a documentarista.<br \/>\nDouglas ainda n\u00e3o prev\u00ea, diante de um sofrimento pol\u00edtico e econ\u00f4mico que se estende e n\u00e3o para de surpreender o pa\u00eds por suas reviravoltas, onde finalizar\u00e1 seu filme. Maria Augusta, Anna e Petra pretendem desligar a c\u00e2mera quando o Senado emitir seu ju\u00edzo final sobre o destino de Dilma, que, ao que tudo indica, sofrer\u00e1 o segundo impeachment da democracia brasileira \u2013 de maneira, por\u00e9m, pol\u00eamica e contradit\u00f3ria, distante do que aconteceu em 1992 com Fernando Collor.<br \/>\nNo que todos eles concordam \u00e9 que um filme sobre a crise, ainda que imposs\u00edvel de ser isento, n\u00e3o deve ser partid\u00e1rio nem precisa emitir opini\u00f5es. De t\u00e3o complexa, a realidade brasileira est\u00e1 para ser decifrada. Afinal, as perguntas agonizam a todos e, por hora, ningu\u00e9m tem respostas. <em>(Publicado originalmente em 2\/8\/16)<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Moraes, do El Pa\u00eds A jovem democracia brasileira ainda engatinha, como se costuma dizer, mas j\u00e1 viveu traumas importantes dos quais pouco se fala no cinema. 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