{"id":38174,"date":"2016-08-24T18:14:16","date_gmt":"2016-08-24T21:14:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=38174"},"modified":"2016-08-24T18:14:16","modified_gmt":"2016-08-24T21:14:16","slug":"o-mestre-perguntador-morre-desencantado-com-o-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-mestre-perguntador-morre-desencantado-com-o-jornalismo\/","title":{"rendered":"O Mestre Perguntador morre  desencantado com o jornalismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assinaespecial\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha *<\/span><br \/>\n<strong>Geneton Moraes Neto (1956-2016) <\/strong><br \/>\nO jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, med\u00edocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.<br \/>\nPerdemos o Geneton.<br \/>\nGeneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complica\u00e7\u00f5es de um aneurisma na aorta sofrido tr\u00eas meses antes. Na autoapresenta\u00e7\u00e3o de seu blog, criado em 2004, ele j\u00e1 avisava: &#8220;Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem sa\u00edda, numa cidade pobre da Am\u00e9rica do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei&#8221;.<br \/>\nBela mentira. Em quatro d\u00e9cadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos n\u00f3s, um exemplo de sucesso e uma refer\u00eancia para todos os rep\u00f3rteres que tentam ser fi\u00e9is ao compromisso irrevog\u00e1vel de uma imprensa dedicada \u00e0 verdade, \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 hist\u00f3ria e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.<br \/>\nEle come\u00e7ou como rep\u00f3rter em sua terra, no Di\u00e1rio de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo\u00b8 nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel M\u00f4naco e motorista de uma fam\u00edlia rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.<br \/>\nVoltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o rep\u00f3rter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, \u00a0correspondente em Londres da GloboNews e do jornal\u00a0 O Globo, \u00a0rep\u00f3rter e editor-chefe do Fant\u00e1stico.<br \/>\nNenhuma mesa poderosa da burocracia da reda\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, deslumbrou o ex-fracassado do beco: &#8220;N\u00e3o troco por nada o exerc\u00edcio da reportagem \u2014 a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o realmente importante no jornalismo&#8221;, definia Geneton no seu blog. E foi na fun\u00e7\u00e3o seminal de rep\u00f3rter, n\u00e3o como executivo de reda\u00e7\u00e3o, que Geneton imprimiu sua marca indel\u00e9vel na imprensa brasileira. As provas est\u00e3o guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser tombado como patrim\u00f4nio cultural e leitura obrigat\u00f3ria para estudantes, rep\u00f3rteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a intelig\u00eancia e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu of\u00edcio de rep\u00f3rter exemplar e humilde diante da not\u00edcia e de gente que, como ele, fez Hist\u00f3ria. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e pol\u00edticos, cantores e compositores, jornalistas e rep\u00f3rteres, grandes rep\u00f3rteres como ele, passaram pelo crivo de sua intelig\u00eancia e arg\u00facia.<br \/>\n<strong>Os bastardos<\/strong><br \/>\nAs duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor brit\u00e2nico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os tr\u00eas astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do l\u00edder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o &#8216;Setembro Negro&#8217; nas Olimp\u00edadas de \u00a0Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o pr\u00f3prio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a m\u00e3e para a luta armada, o rep\u00f3rter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracan\u00e3 estufado com 10% da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro na \u00e9poca, mais de 200 mil torcedores.<br \/>\nTodos fazem parte deste universo m\u00e1gico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de n\u00f3s, para nos recontar, com detalhes in\u00e9ditos, a saga da esp\u00e9cie humana, nos seus bons e maus momentos. &#8220;Que se fa\u00e7a a louva\u00e7\u00e3o da reportagem. O papel de todo rep\u00f3rter \u00e9 produzir informa\u00e7\u00e3o a curto prazo. E mem\u00f3ria, a longo prazo \u2013 de prefer\u00eancia, nas p\u00e1ginas de um livro, hoje transformado em espa\u00e7o nobre a reportagem no Brasil&#8221;, escreveu Geneton na orelha do pen\u00faltimo de seus onze livros, Dossi\u00ea Hist\u00f3ria (2007).<br \/>\nAli, Geneton se define modestamente como um &#8220;pequeno tarefeiro da mem\u00f3ria porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a mem\u00f3ria \u00e9 a grande mat\u00e9ria-prima do jornalismo&#8221;. Nessa tarefa, ele seguia com devo\u00e7\u00e3o o mandamento de um velho jornalista do ingl\u00eas The Times, que ensinava:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<em>Toda vez que estiver entrevistando algu\u00e9m, an\u00f4nimo ou famoso, rico ou pobre, o rep\u00f3rter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:<\/em><br \/>\n<em>&#8216;Por que ser\u00e1 que estes bastardos est\u00e3o mentindo para mim?&#8217;<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO blog de Geneton se define como &#8216;jornal de um rep\u00f3rter&#8217; e tem at\u00e9 uma padroeira, uma tal de &#8216;Nossa Senhora do Perp\u00e9tuo Espanto&#8217;. Ele explicava:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<em>\u00a0 Para que possam contribuir com esse &#8216;mundo real&#8217;, os jornalistas t\u00eam que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser &#8216;levantadores&#8217;, n\u00e3o &#8216;derrubadores&#8217; de mat\u00e9ria.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 a\u00ed que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perp\u00e9tuo Espanto. Quando criou esta &#8216;entidade&#8217;, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] n\u00e3o estava se referindo ao jornalismo, mas essa &#8216;santa&#8217; deveria ser proclamada padroeira plenipotenci\u00e1ria da nossa profiss\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela fa\u00edsca, aquele espanto que se v\u00ea no brilho dos olhos de um estagi\u00e1rio &#8211; ou de uma crian\u00e7a.<\/em><br \/>\n<em>Quando voc\u00ea se guia pelo entusiasmo das pessoas que est\u00e3o fora da reda\u00e7\u00e3o, o resultado do trabalho \u00e9 melhor do que se voc\u00ea se guiasse pelo t\u00e9dio dos que est\u00e3o dentro.<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nGeneton ensinava que o mundo real \u00e9 mais interessante do que o mundo dos jornalistas: &#8220;Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. N\u00e3o estou falando de algo abstrato, mas de uma situa\u00e7\u00e3o real, palp\u00e1vel, comprov\u00e1vel no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em reda\u00e7\u00f5es um clima de t\u00e9dio total entre os jornalistas. Se voc\u00ea atravessar a rua, for \u00e0 padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os &#8216;ouvintes&#8217; far\u00e3o perguntas e se interessar\u00e3o pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dir\u00e3o, com os olhos semicerrados de t\u00e9dio: &#8216;Ah, mas j\u00e1 faz 100 anos que o Titanic afundou&#8230;&#8217;.&#8221;<br \/>\nEsse diagn\u00f3stico levou Geneton \u00e0 descoberta de uma terr\u00edvel doen\u00e7a que ataca as principais reda\u00e7\u00f5es brasileiras: a SFG, a &#8216;S\u00edndrome da Frigidez Editorial&#8217;, que ele batizou e, com ar divertido, amea\u00e7ava registrar na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. Defini\u00e7\u00e3o da s\u00edndrome, segundo Geneton: &#8220;\u00c9 a doen\u00e7a do jornalista que, depois de anos de profiss\u00e3o, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profiss\u00e3o&#8221;.<br \/>\nE jornalista que n\u00e3o se espanta, \u00e9 claro, nem pergunta mais.<br \/>\n<strong>O cr\u00e9dito do general<\/strong><br \/>\nPerguntar \u00e9 o que Geneton sabia fazer como ningu\u00e9m na imprensa brasileira.\u00a0 Como j\u00e1 se disse[*], &#8220;o jornalismo \u00e9 a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, n\u00e3o da resposta. O bom jornalismo se faz e se constr\u00f3i com boas perguntas&#8221;.<br \/>\nInimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blus\u00e3o de gola rol\u00ea que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabe\u00e7a, Geneton n\u00e3o se intimidava diante das luzes e c\u00e2meras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele n\u00e3o descuidava nunca do conte\u00fado, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel alma\u00e7o que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou at\u00e9 o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas \u2014 r\u00e1pidas, incisivas, cir\u00fargicas \u2014, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam \u00e0 verdade.<br \/>\nQuando o not\u00f3rio Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:<br \/>\n\u2014 O sr. nega ent\u00e3o que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?<br \/>\n\u2014 Nego.<br \/>\n\u2014 Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?<br \/>\n\u2014 Nego.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o, existe outro Paulo Maluf?<br \/>\nO Maluf \u00e0 sua frente ficou em sil\u00eancio.<br \/>\nComo todo bom rep\u00f3rter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, tr\u00eas vezes, at\u00e9 convencer o general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves (1921-2015), ministro do Ex\u00e9rcito do Governo Sarney, a lhe dar uma hist\u00f3rica entrevista em 2010. Nos cr\u00e9ditos da telinha, supreendentemente, o general n\u00e3o aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repress\u00e3o da finada ditadura, a quem Le\u00f4nidas serviu com espartana e r\u00edgida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general \u00e9 creditado apenas como &#8216;chefe do DOI-CODI, 1974-1977&#8217;.<br \/>\nO general falou com uma flu\u00eancia in\u00e9dita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrog\u00e2ncia. \u00a0Ironizou as den\u00fancias (\u201cHoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura\u201d) e duvidou at\u00e9 do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de S\u00e3o Paulo, em 1975: \u201cEu n\u00e3o tenho convic\u00e7\u00e3o de que Herzog tenha sido morto\u2026 Um homem n\u00e3o preparado e assustado faz qualquer coisa. At\u00e9 se mata\u201d.<br \/>\nLe\u00f4nidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Ex\u00e9rcito, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase tr\u00eas anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. \u2018N\u00e3o houve tortura na minha \u00e1rea\u2019, garantiu Le\u00f4nidas.<br \/>\nDevia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Ex\u00e9rcito, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e mar\u00e7o de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou\u00a0O Globo. Naquele espa\u00e7o de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Bar\u00e3o de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Ex\u00e9rcito, comandado pelo not\u00f3rio major Adyr Fi\u00faza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Le\u00f4nidas, e a paz dos anjos se instalou.<br \/>\nSem arrog\u00e2ncia, Geneton enfrentou o general Le\u00f4nidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a hist\u00f3ria e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repress\u00e3o pol\u00edtica que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edi\u00e7\u00e3o do programa na TV, Le\u00f4nidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:<br \/>\n\u2014 Que minhas ideias n\u00e3o sejam suprimidas na edi\u00e7\u00e3o. Se houver um corte, voc\u00ea me deixa mal \u2014 avisou o general, esquecido de que o regime de for\u00e7a que ele defendeu se esmerava em cortes sistem\u00e1ticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton n\u00e3o cortou, e ainda assim o general Le\u00f4nidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.<br \/>\nSempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a ex\u00f3tica vers\u00e3o do general de que l\u00edderes do regime deposto \u2013 como Arraes, Brizola, Jango, Prestes \u2013 sa\u00edram do Brasil, a partir de 1964, \u2018porque quiseram\u2019. Le\u00f4nidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterr\u00e2neo de Geneton, pregando:<br \/>\n\u2013 Ele [Arraes] podia ter ficado em casa&#8230;<br \/>\n\u2013 Deposto \u2013 emendou Geneton.<br \/>\n\u2013 E qual \u00e9 o problema? \u2013 admirou-se o general.<br \/>\n\u2013 Todo \u2013 encerrou Geneton, com a sint\u00e9tica sabedoria que o general, j\u00e1 nos seus 90 anos, ainda n\u00e3o apreendera. \u2013 N\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de exercer a pol\u00edtica no Brasil, naquela \u00e9poca, general.<br \/>\nO ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arb\u00edtrio e viol\u00eancia, dizendo que o pa\u00eds n\u00e3o teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas \u2018fugitivos\u2019.<br \/>\n\u2013 Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justi\u00e7a \u2013 pregou Le\u00f4nidas.<br \/>\n\u2013 General, num regime de exce\u00e7\u00e3o, a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel \u2013 replicou o rep\u00f3rter, com a altivez e a dignidade devidas.<br \/>\nEu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Le\u00f4nidas num texto \u2014 A arte de perguntar \u2014, publicado pelo site Observat\u00f3rio da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o do programa pela GloboNews, num s\u00e1bado.<br \/>\nGeneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso t\u00edtulo de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:<br \/>\n<em>Ol\u00e1. Com um cabo eleitoral como voc\u00ea a\u00ed, considero-me eleito para o Comit\u00ea\u00a0Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!<\/em><br \/>\nNo dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews, C\u00e9sar Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observat\u00f3rio a toda a equipe da TV, com a seguinte determina\u00e7\u00e3o:<br \/>\n<em>Caros,<\/em><br \/>\n<em>o texto do link abaixo faz elogios merecid\u00edssimos ao nosso Geneton.\u00a0Mas tamb\u00e9m nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista.\u00a0\u00c9 leitura obrigat\u00f3ria para todos &#8211; apresentadores, rep\u00f3rteres, editores, produtores, chefes&#8230; Aproveitem.\u00a0 Beijo e bom dia,<\/em><br \/>\n<em>C\u00e9sar<\/em><br \/>\n<a href=\"http:\/\/&lt;http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=584FDS016&gt;\">&lt;http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=584FDS016&gt;<\/a><br \/>\n<strong>Bolt da garotada<\/strong><br \/>\nO incans\u00e1vel Geneton n\u00e3o desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. &#8220;Devo ter recebido uns 400 telefonemas&#8230;&#8221;, disse o euf\u00f3rico Le\u00f4nidas a Geneton, num encontro casual num final de manh\u00e3 de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em mar\u00e7o de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repress\u00e3o no est\u00fadio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. &#8220;Vou dizer uma coisa que voc\u00ea n\u00e3o sabe: o Cid foi prisioneiro meu&#8221;. O encontro \u00e9pico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Le\u00f4nidas morreu tr\u00eas meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.<br \/>\nGeneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta \u00e9 a miss\u00e3o central do rep\u00f3rter: &#8220;N\u00e3o fa\u00e7a jornalismo para jornalista. Fa\u00e7a para o p\u00fablico&#8221;, repetia ele ao p\u00fablico, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universit\u00e1rio promovido pela Famecos (Comunica\u00e7\u00e3o Social) da PUC de Porto Alegre. \u00c9 o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunica\u00e7\u00e3o do sul do pa\u00eds, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros pa\u00edses. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.<br \/>\nMesmo diante da crise econ\u00f4mica que vive a ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princ\u00edpios. Fidelidade absoluta \u00e0 reportagem e ao seu \u00eddolo maior, Joel Silveira (1918-2007), &#8220;o maior rep\u00f3rter brasileiro&#8221;, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, at\u00e9 a sua morte, com a rever\u00eancia de um f\u00e3.<br \/>\nJoel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Di\u00e1rios Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:<br \/>\n\u2014 O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: n\u00e3o me morra! Rep\u00f3rter n\u00e3o \u00e9 para morrer, rep\u00f3rter \u00e9 para mandar not\u00edcia!<br \/>\nJoel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.<br \/>\n\u2014 Fui para a It\u00e1lia com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos \u2014 confessou o \u00eddolo Joel ao f\u00e3 Geneton, que a partir desses 20 anos de conviv\u00eancia e confid\u00eancias, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um document\u00e1rio fundamental de 90 minutos sobre o maior rep\u00f3rter brasileiro: Garrafas ao mar \u2014 A v\u00edbora manda lembran\u00e7as, exibido pela GloboNews em 2013.<br \/>\nGeneton se divertia contando as rela\u00e7\u00f5es de seu \u00eddolo com os magnatas da m\u00eddia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de &#8216;v\u00edbora&#8217;. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas \u00faltimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu rep\u00f3rter a Jerusal\u00e9m e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradi\u00e7\u00e3o judaica, numa das frestas do Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patr\u00e3o, que lhe perguntou na volta:<br \/>\n\u2014 E a\u00ed, Joel, fez o pedido?<br \/>\n\u2014 Fiz, Adolpho. Pedi para voc\u00ea me dar um aumento de sal\u00e1rio&#8230;<br \/>\n<strong>O porta-estandarte<\/strong><br \/>\nUm dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira \u2014 &#8220;Jornalismo \u00e9 ver a banda passar, n\u00e3o \u00e9 fazer parte da banda&#8221; \u2014 reproduz bem a vis\u00e3o que seu f\u00e3 pernambucano tinha de boa parte da m\u00eddia atual, em que o jornalismo cede espa\u00e7o ao partidarismo, a raz\u00e3o \u00e9 acuada pela paix\u00e3o, a isen\u00e7\u00e3o \u00e9 atropelada pela fac\u00e7\u00e3o. Geneton tamb\u00e9m deplorava o engajamento at\u00e9 de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partid\u00e1ria, no calor de uma luta pol\u00edtico-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e m\u00fatuo xingamento, t\u00e3o estridente que nem dava para ouvir a banda passar.<br \/>\nGeneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:<br \/>\n\u2014 Fazer jornalismo \u00e9 n\u00e3o praticar nunca, jamais, sob hip\u00f3tese alguma, a patrulha ideol\u00f3gica.<br \/>\nGeneton via em Joel o seu ideal cada vez mais rom\u00e2ntico do rep\u00f3rter que sobreviveu \u00e0 &#8216;ditadura da objetividade&#8217;, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o dos tempos atuais, com textos \u00e1ridos, chatos, an\u00eamicos, sopor\u00edferos, iguais. &#8220;L\u00e1stima, l\u00e1stima, l\u00e1stima&#8221;, lamentava Geneton.<br \/>\nGeneton sonhava com algu\u00e9m pichando os muros da cidade, proclamando: &#8220;Chega de objetividade! As not\u00edcias eu j\u00e1 vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imagina\u00e7\u00e3o, arrebatamento, ousadia!&#8221;. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sib\u00e9ria.<br \/>\n\u2014 A luta por um jornalismo mais v\u00edvido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos med\u00edocre. Por que n\u00e3o? \u2014 perguntava-se Geneton, mais uma vez.<br \/>\nPara sustentar sua teoria, ele usava a pr\u00e1tica inigual\u00e1vel de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Col\u00f4mbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposi\u00e7\u00e3o, Jorge Gait\u00e1n, abatido na rua com tr\u00eas tiros. Os protestos, desordens e a repress\u00e3o desatada em Bogot\u00e1, num \u00fanico dia, deixaram um saldo de 500 mortos s\u00f3 na capital. Trecho do texto de Joel:<br \/>\n<em>Estive no Cemit\u00e9rio Central de Bogot\u00e1, em afazer de rep\u00f3rter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explos\u00e3o popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos t\u00e3o mortos. Somente aquele menino \u2013 n\u00e3o mais de oito anos \u2013 morrera c\u00e2ndido, de olhos abertos, um come\u00e7o de sorriso nos l\u00e1bios. Os olhos vazios fixavam o c\u00e9u de chumbo. As m\u00e3os de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura \u2013 como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcion\u00e1rio qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas n\u00e3o conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.<\/em><br \/>\nGeneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:<br \/>\n\u2014 Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: &#8216;Onde escondeste o verde clar\u00e3o dos dias?&#8217;. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clar\u00e3o?<br \/>\nGeneton, sempre amigo e solid\u00e1rio, acompanhou solit\u00e1rio o final de vida dos \u00faltimos 20 anos da v\u00edbora da reportagem. Ningu\u00e9m mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um pr\u00e9dio da rua Francisco S\u00e1, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembran\u00e7as, hist\u00f3ria e Joel Silveira.<br \/>\n\u2014 Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! \u2014 suspirava o velho rep\u00f3rter, que j\u00e1 n\u00e3o sa\u00eda de casa e j\u00e1 n\u00e3o tinha amigos. S\u00f3 Geneton. Joel desprezou o tratamento de um c\u00e2ncer na pr\u00f3stata para morrer em casa em 2007, na amarga mansid\u00e3o de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu \u00faltimo amigo.<br \/>\n<strong>Um dissidente<\/strong><br \/>\nO fim melanc\u00f3lico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a vis\u00e3o cada vez mais pessimista que Geneton tinha do pr\u00f3prio jornalismo na atualidade.<br \/>\nGeneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas pr\u00f3prias reportagens na GloboNews, com a do\u00edda convic\u00e7\u00e3o de que, como Joel, ele se tornava uma <em>avis rara<\/em> do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado \u00e0 extin\u00e7\u00e3o imposta pelo cometa brilhante da inevit\u00e1vel modernidade tecnol\u00f3gica. Geneton parecia, agora, uma v\u00edbora que j\u00e1 n\u00e3o confiava nem na pe\u00e7onha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.<br \/>\nAqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilus\u00e3o.<br \/>\nNa v\u00e9spera do r\u00e9veillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um &#8216;Teste para Sele\u00e7\u00e3o de Jornalistas&#8217;. Era uma azeda reflex\u00e3o sobre o jornalismo:<br \/>\n<em>Uma sugest\u00e3o aos respons\u00e1veis pelos departamentos de pessoal das empresas jornal\u00edsticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infal\u00edvel para sele\u00e7\u00e3o de candidatos a vagas nas reda\u00e7\u00f5es.<\/em><br \/>\n<em>O candidato ao emprego deve ficar im\u00f3vel durante tr\u00eas minutos, diante de um fiscal da empresa.<\/em><br \/>\n<em>Se, ao final deste prazo, o candidato n\u00e3o latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque n\u00e3o serve para a profiss\u00e3o jornal\u00edstica.<\/em><br \/>\n<em>Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos ter\u00e1 provado que \u00e9 jornalista leg\u00edtimo. Deve ser imediatamente contratado.<\/em><br \/>\n<em>Porque mostrou estar preparado para ingressar nas reda\u00e7\u00f5es brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo.<\/em><br \/>\nCinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa defini\u00e7\u00e3o de Winston Churchill para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de St\u00e1lin (&#8220;\u00c9 uma charada envolvida num mist\u00e9rio dentro de um enigma&#8221;), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o t\u00edtulo &#8216;Entrevista de Emprego&#8217;, que seria c\u00f4mica, se n\u00e3o fosse tr\u00e1gica:<br \/>\n<em>Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:<\/em><br \/>\n<em>&#8216;Depois de d\u00e9cadas na estrada, tenho a n\u00edtida, nitid\u00edssima sensa\u00e7\u00e3o de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equ\u00edvoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora \u00e9 tarde para voltar atr\u00e1s. Bola pra frente, ent\u00e3o! Faz de conta que \u00e9 a melhor profiss\u00e3o do mundo!<\/em><br \/>\n<em>E \u00e9 &#8211; para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato \u00fatil ao avan\u00e7o da humanidade!.<\/em><br \/>\n<em>Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos.<\/em><br \/>\n<em>Eu ouviria o aviso de dispensa sum\u00e1ria, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: &#8216;Parab\u00e9ns! Voc\u00ea nunca tomou uma decis\u00e3o t\u00e3o acertada!&#8217;.<\/em><br \/>\nCinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louva\u00e7\u00e3o \u00e0 sua &#8216;arte de perguntar&#8217;, o e-mail privado de Geneton tra\u00eda sua desilus\u00e3o j\u00e1 na linha seguinte, com uma inesperada autodefini\u00e7\u00e3o em tom de confiss\u00e3o:<br \/>\n<em>Pode parecer pretens\u00e3o, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>O exibicionismo toma o lugar da subst\u00e2ncia, especialmente na TV.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Modestamente, considero-me um dissidente.<\/em><br \/>\nO dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto di\u00e1fano de desencanto, deixando no ar uma \u00faltima pergunta, que cabe a todos n\u00f3s responder:<br \/>\n\u2014 Por qu\u00ea?<br \/>\n*Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista, autor de <em>Opera\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em><em>Condor: o Sequestro dos Uruguaios<\/em> (ed. L&amp;PM, 2008).<br \/>\ncunha.luizclaudio@gmail.com<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n[*] Todos temos que lembrar. Discurso proferido na diploma\u00e7\u00e3o do autor com o t\u00edtulo de &#8216;Not\u00f3rio Saber em Jornalismo&#8217;, outorgado pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), em 9 de maio de 2011. http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/imprensa-em-questao\/todos-temos-que-lembrar\/<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha * Geneton Moraes Neto (1956-2016) O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, med\u00edocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago. Perdemos o Geneton. Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complica\u00e7\u00f5es de um aneurisma na aorta sofrido tr\u00eas meses antes. 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