{"id":38198,"date":"2016-08-25T14:23:36","date_gmt":"2016-08-25T17:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=38198"},"modified":"2016-08-25T14:23:36","modified_gmt":"2016-08-25T17:23:36","slug":"mitos-historia-e-sabores-de-uma-feijoada-completa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/mitos-historia-e-sabores-de-uma-feijoada-completa\/","title":{"rendered":"Mitos, hist\u00f3ria e sabores de uma feijoada completa"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assinaespecial\">Higino Barros <\/span><br \/>\n<strong><em>Que prazer mais um corpo pede\/ Ap\u00f3s comido um tal feij\u00e3o?\/ Evidentemente uma rede\/ E um gato para passar a m\u00e3o&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>( Feijoada \u00e0 minha moda- Vinicius de Morais)<\/em><\/p>\n<p>Pa\u00eds de dimens\u00e3o continental, o Brasil tem em suas diversas regi\u00f5es culturas, linguajar, costumes, tipos humanos, geografia e culin\u00e1rias diferentes, entre tantas outras peculiaridades. No entanto, um prato \u00e9 definido como t\u00edpico do Pa\u00eds, o que melhor nos representa, a feijoada. Embora n\u00e3o seja bem assim.<br \/>\nExiste a cren\u00e7a, difundida pela cultura oral popular, que feijoada \u00e9 um prato de origem africana. Teria sido criada nas senzalas dos escravos, com sobras menos nobres- rabo, orelha, l\u00edngua e p\u00e9- da carne de porco comida pelos senhores portugueses.<br \/>\nAcontece que essas partes do porco s\u00e3o muito valorizadas na culin\u00e1ria europeia, inclusive a portuguesa. Assim, n\u00e3o seriam destinadas aos escravos. E feij\u00e3o preto era um alimento distante da culin\u00e1ria dos escravos no Brasil colonial, embora seja de origem sul-americana e s\u00f3 integrado aos h\u00e1bitos alimentares da popula\u00e7\u00e3o a partir do s\u00e9culo XVIII.<br \/>\n<strong>Representa\u00e7\u00e3o de brasilidade<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\" wp-image-38206 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/feijoada-imagem-1-300x281.jpg\" alt=\"feijoada imagem 1\" width=\"252\" height=\"237\" \/>Como observa o historiador e antrop\u00f3logo Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo, sendo boa parte dos africanos seguidora do islamismo, como poderiam ter inclu\u00eddo a carne de porco no prato, j\u00e1 que a religi\u00e3o interdita seu consumo? Cascudo indica que a feijoada como a conhecemos, composta de feij\u00e3o, carnes, hortali\u00e7as e legumes, seria uma combina\u00e7\u00e3o criada pelos portugueses, apenas no s\u00e9culo XIX, em restaurantes frequentados pela elite escravocrata do Brasil.<br \/>\nSua difus\u00e3o teria se dado mais tarde em hot\u00e9is e pens\u00f5es populares, principalmente a partir do Rio de Janeiro. E teria se tornado o s\u00edmbolo culin\u00e1rio do Pa\u00eds gra\u00e7as ao Movimento Modernista de 1922, interessado em constituir uma identidade nacional brasileira, segundo Carlos Alberto D\u00f3ria, em <em>Forma\u00e7\u00e3o da Culin\u00e1ria Brasileira<\/em>.<br \/>\nO certo \u00e9 que o prato sempre fascinou os intelectuais brasileiros. No filme <em>Macuna\u00edma<\/em>\u00a0o diretor Joaquim Pedro promove o \u00faltimo encontro do her\u00f3i picaresco do romance de M\u00e1rio Andrade com o gigante Piam\u00e3, Venceslau Pietra, comedor de gente, numa feijoada. Macuna\u00edma \u00e9 convidado para uma feijoada em comemora\u00e7\u00e3o ao casamento da filha de Venceslau. A iguaria \u00e9 servida dentro de uma grande piscina, onde a carne humana dos pr\u00f3prios convidados substitui as carnes t\u00edpicas. A cena, no filme, \u00e9 memor\u00e1vel e teve como loca\u00e7\u00e3o um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro, o Parque Lage.<br \/>\nOutro artista que se apropria do tema feijoada \u00e9 o compositor Chico Buarque de Holanda, autor do samba <em>Feijoada Completa<\/em>, composta em 1977, can\u00e7\u00e3o que nos tempos do politicamente correto de hoje n\u00e3o seria aprovada, j\u00e1 que em sua letra o homem avisa para a mulher, de \u00faltima hora, que est\u00e1 levando um bando de amigos para almo\u00e7ar. E recomenda colocar mais \u00e1gua no feij\u00e3o.<br \/>\nConsta tamb\u00e9m que o compositor erudito Heitor Villa- Lobos, certa ocasi\u00e3o, depois de longa temporada europeia, foi \u00e0s l\u00e1grimas em Paris, ao ser homenageado por amigos com uma aut\u00eantica feijoada brasileira.<br \/>\nIndependente dessas quest\u00f5es, o prato foi adotado em todas as regi\u00f5es do Pa\u00eds, variando pouco em sua receita. H\u00e1 lugares em que se usa feij\u00e3o mulatinho ao inv\u00e9s do preto, outros usam carnes frescas no lugar de carnes maturadas.<br \/>\n<strong>Vers\u00e3o vegetariana<\/strong><br \/>\nNo Rio Grande do Sul, como nos outros estados sulistas, o h\u00e1bito da feijoada est\u00e1 vinculado ao inverno, enquanto no resto do Pa\u00eds ele \u00e9 consumido em todas as esta\u00e7\u00f5es do ano. Em cidades como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro h\u00e1 um dia especial na semana em que \u00e9 item obrigat\u00f3rio no card\u00e1pio dos restaurantes.<br \/>\nAntes que o inverno termine e dando continuidade ao Projeto Cultural Mem\u00f3ria Alimentar, realizado mensalmente no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, o cozinheiro Daniel Ninov promove uma feijoada completa no pr\u00f3ximo domingo, dia 28, com direito a uma vers\u00e3o vegetariana. A ideia \u00e9 promover encontros gastron\u00f4micos em local que remete \u00e0 cultura, como o Centro CEEE Erico Verissimo.<br \/>\nNa feijoada cl\u00e1ssica, v\u00e3o carnes su\u00ednas e charque bovino, acompanhado por farofa, couve e laranja. Entram na vers\u00e3o vegetariana feij\u00e3o preto org\u00e2nico, usado tamb\u00e9m na cl\u00e1ssica, cebola, tomate, berinjela, batata doce, moranga, nabo, piment\u00f5es, ervas frescas, tofu defumado e salsicha vegana.<br \/>\nComo a previs\u00e3o do tempo para domingo \u00e9 de sol, almo\u00e7ar no Centro Hist\u00f3rico, visitar os equipamentos culturais pr\u00f3ximos, na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega e Rua da Praia, at\u00e9 o Gas\u00f4metro, \u00e9 um programa recomentado. Depois, se deitar numa rede e passar a m\u00e3o num gato, como sugere Vinicius de Morais.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-38208\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/CARD\u00c1PIO-207x300.jpg\" alt=\"CARD\u00c1PIO\" width=\"278\" height=\"397\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Higino Barros Que prazer mais um corpo pede\/ Ap\u00f3s comido um tal feij\u00e3o?\/ Evidentemente uma rede\/ E um gato para passar a m\u00e3o&#8230; ( Feijoada \u00e0 minha moda- Vinicius de Morais) Pa\u00eds de dimens\u00e3o continental, o Brasil tem em suas diversas regi\u00f5es culturas, linguajar, costumes, tipos humanos, geografia e culin\u00e1rias diferentes, entre tantas outras peculiaridades. 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