{"id":3826,"date":"2009-04-03T13:06:06","date_gmt":"2009-04-03T16:06:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=3826"},"modified":"2020-04-19T23:10:38","modified_gmt":"2020-04-20T02:10:38","slug":"o-crime-da-rua-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-crime-da-rua-venezuela\/","title":{"rendered":"O crime da rua Venezuela"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Renan Antunes de Oliveira<\/span><\/p>\n<p>As tr\u00eas \u00faltimas casas antes da rua virar mato s\u00e3o de madeira, pintadas de azul, verde e branco. Na azul, com uma roseira carregada de flores vermelhas, morava Viviane, 14 anos. Na verde vive Tati, 13. A branca \u00e9 de Clairton, 17, primo de Viviane, apaixonado por Tati. O \u00f3dio entre as meninas adolescentes foi maior do que aquele pequeno peda\u00e7o do mundo e transbordou em\u00a0trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A rua Venezuela \u00e9 um beco sem sa\u00edda \u00e0s margens da BR116. Est\u00e1 quase sempre deserta. Seu Jo\u00e3o e dona Jovenilda, av\u00f3s de Viviane e tios de Clairton, passam horas na cal\u00e7ada da casa azul, sob uns p\u00e9s de cinamomo, tomando chimarr\u00e3o. Nas conversas, quase sempre lembram da trag\u00e9dia mais improv\u00e1vel j\u00e1 acontecida na pacata cidade de Ivoti, no Vale dos Sinos.<\/p>\n<p>Aconteceu em dezembro, na noite do dia 18: Clairton matou Viviane a pedido de Tati.<\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s \u00e9 f\u00e1cil entender o crime \u2013 Tati, por todos os relatos, apesar de quase crian\u00e7a, tinha inveja de Viviane, adolescente com corpo e apar\u00eancia de bem mais velha. Dif\u00edcil \u00e9 compreender como este sentimento comum deu em morte com gente t\u00e3o mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Viviane reagia com zombaria \u00e0 inveja da vizinha. A rivalidade das duas foi testemunhada por todos que as conheceram. Come\u00e7ou nos primeiros anos de escola delas, no tempo em que a rua ainda n\u00e3o tinha sido cal\u00e7ada com paralelep\u00edpedos.<\/p>\n<p>Muitas vezes Viviane teve que voltar para casa quando estava a caminho do col\u00e9gio porque Tati jogava barro nela. Viviane xingava a rival de bobinha \u2013 mas tamb\u00e9m revidava com crueldade calculada, dizendo que o pai dela era um b\u00eabado, o que afetava muito Tati.<\/p>\n<p>Viviane era fruto de um romance adolescente do pai. Ele morreu afogado no rio dos Sinos quando ela tinha 7. A m\u00e3e sumiu e deixou a menina com os av\u00f3s. Ela tinha liberdade total na casa azul com roseira. Os velhos lhe davam tudo o que precisava e bastante conforto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-15242\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/04\/rua-venezuela-22.jpg\" alt=\"rua-venezuela-2\" width=\"750\" height=\"498\" \/><br \/>\nTati vivia num ambiente opressivo e repressivo. O pai bebum s\u00f3 a deixava ir \u00e0 escola e \u00e0 igreja evang\u00e9lica. Soube-se depois do crime que Tati tinha sido estuprada aos 10 anos, por outro vizinho \u2013 o que a ruazinha tem de calma e florida parece ter de ruim.<\/p>\n<p>A rivalidade entre as meninas foi ignorada por pais e professores. Todos achando que tudo ia passar quando elas crescessem.<br \/>\nN\u00e3o foi assim. L\u00e1 por maio do ano passado, Clairton, um grandalh\u00e3o desengon\u00e7ado com quase 100 quilos, motoqueiro sem carteira, drop out da escola e drogado, notou Tati j\u00e1 mais crescidinha. E passou a fazer investidas \u2013 queria transar com ela de qualquer jeito.<\/p>\n<p>A mensagem foi passada pelo irm\u00e3o de Tati. Mas ela tinha aquele problema: depois do estupro, os pais n\u00e3o a deixavam mais sair de casa desacompanhada.<\/p>\n<p>Prisioneira da casa verde, Tati via todos os dias Viviane passar pela frente da sua e ir para a casa branca de Clairton. Os primos eram amigos e confidentes. O rapaz morava no por\u00e3o da casa, onde seus pais tinham feito um quart\u00e3o com tv e computador, pra ele curtir seus amigos e drogas longe da fam\u00edlia. Viviane tinha tr\u00e2nsito livre na toca.<\/p>\n<p>Quem conheceu bem todos eles garante que os primos nunca transaram. O primeiro de Viviane foi Juarez, um vendedor da Liquig\u00e1s, 10 anos mais velho \u2013 e por isso, o principal suspeito da pol\u00edcia quando ela foi encontrada estuprada, estrangulada e morta no matagal \u00e0s margens da rodovia BR 116, apenas 100 metros distante da casa branca.<\/p>\n<p>Tati come\u00e7ou a ser cortejada por Clairton \u00e0 moda antiga, por carta. Bilhetes em folhas de caderno escolar, trocados de m\u00e3o por amigas comuns.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3830 size-full aligncenter\" title=\"viviane\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/04\/viviane.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"431\" \/><br \/>\nForam estas cartas que esclarecem o crime. Em v\u00e1rios trechos est\u00e3o as pira\u00e7\u00f5es de Tati, seu \u00f3dio contra a vizinha, o pedido para mat\u00e1-la e a oferta irrecus\u00e1vel: se Clairton matasse Viviane, ela, Tati, transaria com ele.<\/p>\n<p>Clairton respondeu cedendo \u00e0 oferta: \u201cCapaz que eu n\u00e3o deixaria tu fazer aquilo com a Vivi, pra mim tanto faz\u201d, escreveu, sendo \u201caquilo\u201d o matar a pr\u00f3pria prima.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sei de onde saiu tanta frieza, n\u00e3o consigo aceitar que tenha sido ele\u201d, diz dona Jovenilda, inconformada com a dupla perda \u2013 depois do crime, nunca mais falou com o irm\u00e3o, pai de Clairton.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o qualquer as cartas acabaram nas m\u00e3os de uma amiga de Tati. Quando o caso deu na TV ela as mostrou pros pais, que por sua vez as levaram aos pais de Tati. Eles, mesmo horrorizados ao perceberem o que a filha tinha escrito, ainda tiveram coragem de ir \u00e0 pol\u00edcia e entregar tudo, 12 dias depois da morte de Viviane.<\/p>\n<p>As cartas mostram que Clairton se tornou cada vez mais participante na trama macabra de Tati: \u201cPor mim, que se f&#8230; a Viviane, pode encher ela de bala\u201d. Os dois passaram at\u00e9 a planejar um segundo crime: matar o estuprador de Tati, jamais identificado.<\/p>\n<p>Clairton foi preso em 11 de janeiro, mas nunca confessou o crime. At\u00e9 o final de mar\u00e7o, ele continuava negando.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia suspeita que ele teve c\u00famplices, tr\u00eas carinhas maiores de idade, marginais da pesada pra quem ele teria pedido ajuda \u2013 mas que agora teme delatar porque seria como pedir para ser morto.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es continuam no mesmo ritmo lento da cidade. A pol\u00edcia identificou um trecho das cartas onde Clairton diz que botou \u201c200 reais na m\u00e3o de um \u2018louco\u2019 (que tinha pedido 400), mas ele disse que tinha uma proposta melhor pra me fazer\u201d, tipo de papo de um contrato para matar Viviane.<\/p>\n<p>Na noite em que a matariam, Viviane foi vista pela \u00faltima vez pelos av\u00f3s em companhia do primo, mas eles nada suspeitaram.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3892 size-full aligncenter\" title=\"mae-copia_2\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/04\/mae-copia_2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"276\" \/><br \/>\nEram sete da noite. \u201cEntrei em casa e vi que ela tinha tomado banho e sa\u00eddo limpinha e bem vestidinha\u201d, conta dona Jovenilda. Na cal\u00e7ada, v\u00f3 e neta conversaram sob os cinamomos. Viviane usava tamancos de salto alto, saiu pipocando pelo cal\u00e7amento irregular, aos pulos pelos 50 metros da casa azul at\u00e9 a branca, passado pela verde onde, \u00e9 bem poss\u00edvel, Tati espreitava na janela.<\/p>\n<p>\u201cQuando come\u00e7ou a novela das 9 e ela n\u00e3o voltou, eu liguei. Ela me disse que estava baixando m\u00fasicas pelo celular do Clairton\u201d, ainda lembra a v\u00f3. A velha senhora foi ent\u00e3o at\u00e9 o por\u00e3o do sobrinho, espiou por uma fresta, nada viu de suspeito, bateu na porta e perguntou pra Clairton por Viviane: \u201cTia, Ela foi embora faz tempo\u201d, mentiu, com calma.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, angustiada, dona Jovenilda foi na casa de Juarez. Ela n\u00e3o estava l\u00e1. Ele jurou que a respeitava muito e que estaria esperando que Viviane completasse 18 anos para ficar com ela \u2013 uma mentira que a av\u00f3 dispensou, porque sabia de tudo: \u201cSe ela quisesse ficar com ele eu deixaria, ela n\u00e3o precisaria mentir, nem fugir\u201d.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o estava com Juarez, tentaram a casa da m\u00e3e, mas ela dificilmente passaria por l\u00e1. Ent\u00e3o s\u00f3 restava a pol\u00edcia. Dia 19 de dezembro, manh\u00e3 de sexta. Na delegacia, disseram pra vov\u00f3 que \u201cuma menina na idade dela faz coisas que nem o diabo acredita\u201d, avisando que buscas s\u00f3 iniciariam 72 horas depois.<\/p>\n<p>A ju\u00edza C\u00e9lia Lobanowisky acreditou nas coisas que a pol\u00edcia diz que Tati e Clairton fizeram, mandando os dois para a Febem, ela em Nova Hamburgo, ele na da Porto Alegre.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de abril ela preparava a senten\u00e7a sigilosa para puni-los. \u00c9 uma tarefa in\u00fatil, j\u00e1 que pelo Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente os dois n\u00e3o podem ser presos. Suas fotos e seus nomes sequer podem ser publicados, o caso corre em segredo de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Em ju\u00edzo, Tati negou ter mandado matar Viviane. Disse que Clairton a interpretou mal e que fez tudo por conta pr\u00f3pria \u2013 descontada a possibilidade dele ter agenciado o crime com aqueles carinhas pra quem ofereceu os 200 reais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3893 size-full aligncenter\" title=\"viviane-graminha-no-cemiterio2\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2009\/04\/viviane-graminha-no-cemiterio2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"299\" \/><br \/>\nQuem quer que tenha matado Viviane foi bem cruel. N\u00e3o se sabe os detalhes, nem quando e se ela percebeu que iria morrer, mas sabe-se o resultado da a\u00e7\u00e3o do matador\/matadores.<\/p>\n<p>Do por\u00e3o da casa de Clairton ela foi levada por uma picada no matagal dos fundos da casa para perto de um tronco de guarapuvu, cerca de 100 metros distante.<\/p>\n<p>Seu corpo foi encontrado apenas na manh\u00e3 de 23 de dezembro, o quinto dia do desaparecimento, sem que a pol\u00edcia tivesse organizado nenhuma busca. Foram outros irm\u00e3os e sobrinhos de dona Jovenilda e seu Jo\u00e3o que combinaram, na noite do dia 22, come\u00e7ar a procurar perto de casa.<\/p>\n<p>Quem se ofereceu pra ajudar ? Clairton sol\u00edcito com os tios.<\/p>\n<p>\u201cEu sai procurando pelo lado do muro (de uma empresa de lactic\u00ednios) e fui indo pra baixo\u201d, conta o av\u00f4. \u201cClairton me apontou uma \u00e1rvore l\u00e1 longe (o tronco seco do garapuvu) e me disse pra ir praquele lado, eu nem imaginei nada\u201d.<\/p>\n<p>Seu Jo\u00e3o, falando sob os cinamomos, chora quando lembra a cena final: \u201cEu dei uns passos perto de um c\u00f3rrego e vi um vulto no ch\u00e3o, gritei \u2018ai est\u00e1 ela\u2019 e sai correndo, porque tudo se escureceu na minha vista\u201d.<\/p>\n<p>E l\u00e1 estava a menina mais bonita da rua Venezuela: morta, deitada de costas, sobre os bra\u00e7os amarrados pra tr\u00e1s por um fio el\u00e9trico, com um saco pl\u00e1stico enfiado na cabe\u00e7a e um pano cobrindo o rosto.<\/p>\n<p>Os legistas confirmaram que ela foi estuprada e morta por estrangulamento e asfixia. O assassino ou assassinos tentaram encobrir o crime queimando seu t\u00f3rax, mas apenas chamuscaram o corpo.<\/p>\n<p>O cad\u00e1ver ficou exposto aos vizinhos por quatro horas, que fizeram cortejos para v\u00ea-la. Dona Jovenilda fez quest\u00e3o de ir ver o cad\u00e1ver. Chocada, n\u00e3o quis que tirassem o pano do rosto \u2013 sob o qual, soube-se depois, estavam dentes quebrados. Ela disse que reconheceu a neta por um piercing que usava no umbigo: \u201cEra a minha Vivi\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renan Antunes de Oliveira As tr\u00eas \u00faltimas casas antes da rua virar mato s\u00e3o de madeira, pintadas de azul, verde e branco. Na azul, com uma roseira carregada de flores vermelhas, morava Viviane, 14 anos. Na verde vive Tati, 13. A branca \u00e9 de Clairton, 17, primo de Viviane, apaixonado por Tati. 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