{"id":391,"date":"2005-07-20T14:53:04","date_gmt":"2005-07-20T17:53:04","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=391"},"modified":"2005-07-20T14:53:04","modified_gmt":"2005-07-20T17:53:04","slug":"exclusivo-a-ultima-entrevista-do-velho-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/exclusivo-a-ultima-entrevista-do-velho-joao\/","title":{"rendered":"Exclusivo: a \u00faltima entrevista do velho Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Guilherme Kolling<\/span><br \/>\nQuando o Bar Jo\u00e3o completou um ano e seis meses fechado, em 31 de novembro de 2004, o Jornal J\u00c1 foi ouvir o fundador, Jo\u00e3o Brum. A reportagem passou uma tarde no acanhado apartamento do senhor de 89 anos, no Parque dos Mais. L\u00facido e animado, ele ainda falava com energia quando lembrava hist\u00f3rias da Osvaldo Aranha.<br \/>\nO estabelecimento para o qual ele deu seu nome continua fechado. Foi atingido por uma retroescavadeira que demolia o Baltimore em 2003. J\u00falio Leite, dono do bar, entrou com uma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a para embargar a obra vizinha, que prev\u00ea um centro comercial e residencial. Tamb\u00e9m pediu indeniza\u00e7\u00e3o pelos preju\u00edzos. A decis\u00e3o ainda corre no Judici\u00e1rio.<br \/>\nEnquanto isso, o Bom Fim perdeu um de seus personagens hist\u00f3ricos, o velho Jo\u00e3o, que morreu no dia 23 de maio, de doen\u00e7a pulmonar e parada A seguir, republicamos mat\u00e9ria veiculada em dezembro de 2004, a \u00faltima entrevista de Jo\u00e3o Brum.<br \/>\n<span class=\"intertit\">&#8220;Os melhores anos da minha vida&#8221;<\/span><br \/>\nAos 89 anos, Jo\u00e3o da Silva Brum est\u00e1 bem l\u00facido, e lembra detalhes do bar que criou e batizou com seu nome. Ele vive no bairro Parque dos Maias, de onde sai raramente. Recebe not\u00edcias do Bom Fim atrav\u00e9s dos filhos, que tamb\u00e9m trabalham no com\u00e9rcio, um deles na Osvaldo Aranha.<br \/>\nA avenida traz \u00f3timas recorda\u00e7\u00f5es para o velho Jo\u00e3o. &#8220;Foram os melhores anos da minha vida&#8221;, lembra. Trabalhou no local por mais de quatro d\u00e9cadas, &#8220;os 365 dias do ano&#8221;. Nesse per\u00edodo, presenciou a transforma\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, com a constru\u00e7\u00e3o do Hospital de Pronto Socorro e do Mercado Bom Fim.<br \/>\nPassou por diversos estabelecimentos at\u00e9 iniciar seu neg\u00f3cio. Veio como empregado do lend\u00e1rio Bar do Serafim, mais conhecido como &#8220;Fedor&#8221;. O irm\u00e3o de Serafim tinha o bar Dalila, na Azenha, e um certo dia disse para Jo\u00e3o: &#8220;Olha, tu \u00e9s muito trabalhador e n\u00e3o merece ficar aqui. Vou arranjar trabalho melhor para ti&#8221;.<br \/>\nE assim Jo\u00e3o come\u00e7ou no Fedor, em 1937. Logo foi promovido a gerente. &#8220;Eu era muito atencioso com a freguesia&#8221;, explica. At\u00e9 hoje ele arregala os olhos quando lembra do movimento. &#8220;Aquilo fervia. Tinha at\u00e9 cancha de jogo do osso&#8221;, conta.<br \/>\nDepois de 11 anos no Bar do Fedor, Jo\u00e3o montou o Bar Imperial com um s\u00f3cio, na Osvaldo Aranha, 1344. &#8220;Levei toda a clientela comigo. O Serafim ficou louco de raiva&#8221;. A sociedade durou quatro anos. Foi quando ele comprou o Bar Azul, tamb\u00e9m na Osvaldo Aranha, n\u00famero 1008. Ali nasceu o Caf\u00e9-Bar Jo\u00e3o.<br \/>\nFicava num sobrado comprido e espa\u00e7oso. No andar de cima morava o senhor Lewgoy, que saiu depois de uns meses por causa do barulho. Jo\u00e3o, que morava nos fundos, reformou o espa\u00e7o, colocou umas mesas de snooker e foi morar no segundo pavimento. &#8220;Era imenso, tinha 13 pe\u00e7as. O problema \u00e9 que eu quase n\u00e3o podia dormir, passava um barulh\u00e3o pelo forro de madeira&#8221;. Mesmo assim, morou l\u00e1 27 anos.<br \/>\nO velho Jo\u00e3o conta que o sal\u00e3o do bar era muito familiar, com toalha e flores nas mesas. O movimento come\u00e7ava \u00e0s 5h da madrugada: eram leiteiros, a\u00e7ougueiros, fiscais da sa\u00fade \u2013 gente que trabalhava cedo e que ia tomar caf\u00e9 l\u00e1. Seguia aberto at\u00e9 a meia-noite ou o \u00faltimo cliente. Tinha dias que ficava 24 horas sem fechar.<br \/>\nEra freq\u00fcentado pelos mais variados tipos \u2013 funcion\u00e1rios do HPS, professores, m\u00e9dicos, marginais, advogados, jornalistas, estudantes. &#8220;A freguesia era muito boa&#8221;, resume Jo\u00e3o. &#8220;E o ambiente agrad\u00e1vel. Os velhos judeus ficavam horas l\u00e1, jogando pauzinho. Tamb\u00e9m se falava muito em futebol. O Carangate, um judeu \u201cgremista doente\u201d, era famoso tamb\u00e9m porque falava muito alto. A maioria no bar era gremista. Eu fui at\u00e9 s\u00f3cio&#8221;, conta.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Caf\u00e9 e snooker<\/span><br \/>\nO caf\u00e9 era uma atra\u00e7\u00e3o a parte. Cheiroso e mo\u00eddo na hora, vendia 4kg por dia. &#8220;N\u00e3o tinha quem n\u00e3o parasse para tomar um&#8221;, garante Jo\u00e3o. Para dar conta do movimento, duas copeiras e dois gar\u00e7ons, um deles cuidando do snooker.<br \/>\nBilhar \u2013 &#8220;Mesa de bilhar d\u00e1 um lucro extraordin\u00e1rio, mas \u00e9 um desastre&#8221;. O jogo causou algumas confus\u00f5es no Bar Jo\u00e3o que, segundo o antigo propriet\u00e1rio, quase nunca tinha briga. &#8220;O problema \u00e9 o jogo, que sempre atrai malandro&#8221;, explica o pioneiro. Com seu 1,68m de altura, Jo\u00e3o Brum deu fim a desentendimentos s\u00e9rios, quase sempre na base da conversa.<br \/>\n&#8220;Uma vez me meti num conflito e fiquei sob a mira de um rev\u00f3lver. Tudo por causa de um cruzeiro que o cara n\u00e3o queria pagar. Consegui levar o sujeito armado l\u00e1 para fora e conversei com ele: &#8216;\u00d4, rapaz, tu \u00e9 casado, tem filho, vai se meter com malandro e deixar um tiro e estragar tua vida?!&#8217;. Ele respondeu &#8216;o senhor tem raz\u00e3o&#8217;, e me disse: &#8216;Vou continuar vindo armado, mas o rev\u00f3lver fica no balc\u00e3o&#8217;, prometeu&#8221;. E assim foi feito.<br \/>\nEm 1979, Jo\u00e3o Brum vendeu seu bar. &#8220;Foi um dinheiro bom&#8221;. Mas garante que n\u00e3o enriqueceu com o estabelecimento. &#8220;Fui muito roubado. N\u00e3o tinha como ter controle do dinheiro que entrava&#8221;. Ao inv\u00e9s de se aposentar, abriu um bar no Centro, que durou quatro anos, e encerrou a carreira no Col\u00e9gio Vera Cruz, onde comandou a cantina por 11 anos.<br \/>\nCom o novo propriet\u00e1rio, J\u00falio Leite, o Bar Jo\u00e3o ficou no n\u00famero 1008 da Osvaldo Aranha at\u00e9 1992 \u2013 o sobrado foi demolido para a constru\u00e7\u00e3o de uma garagem. Da\u00ed, se mudou para o n\u00famero 1026, onde est\u00e1 a fachada at\u00e9 hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Kolling Quando o Bar Jo\u00e3o completou um ano e seis meses fechado, em 31 de novembro de 2004, o Jornal J\u00c1 foi ouvir o fundador, Jo\u00e3o Brum. A reportagem passou uma tarde no acanhado apartamento do senhor de 89 anos, no Parque dos Mais. 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