{"id":39324,"date":"2016-09-15T18:27:41","date_gmt":"2016-09-15T21:27:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39324"},"modified":"2016-09-15T18:27:41","modified_gmt":"2016-09-15T21:27:41","slug":"abuso-de-autoridade-e-violencia-policial-devem-ser-denunciados-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/abuso-de-autoridade-e-violencia-policial-devem-ser-denunciados-sempre\/","title":{"rendered":"Abuso de autoridade e viol\u00eancia policial devem ser denunciados sempre"},"content":{"rendered":"<p>Tortura sofrida pelo advogado ga\u00facho Mauro Silva dos Santos, de Caxias do Sul, foi relatada por ele em reuni\u00e3o na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados.<br \/>\nUma m\u00e9dica de Bras\u00edlia e outro advogado, do Paran\u00e1, tamb\u00e9m registraram abordagens violentas da pol\u00edcia e deten\u00e7\u00f5es sem qualquer motivo.<br \/>\nProcuradora do MPF ressaltou a import\u00e2ncia de que qualquer abuso por parte de policiais seja denunciado.<br \/>\n<strong>Hylda Cavalcanti, da <\/strong><a href=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2016\/09\/depoimento-de-vitimas-de-violencia-em-manifestacoes-chocam-deputados-que-pedem-providencias-7701.html\"><strong>RBA<\/strong> <\/a><br \/>\nBras\u00edlia \u2013 Parlamentares, cidad\u00e3os, representantes de entidades da sociedade civil e a procuradora federal dos direitos do cidad\u00e3o junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), D\u00e9bora Duprat, destacaram hoje (14), em reuni\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados que analisou o aumento da viol\u00eancia policial contra manifestantes, a import\u00e2ncia de as pessoas denunciarem todos os casos das quais forem v\u00edtimas. E, principalmente, de procurarem as procuradorias e tentarem combater esses procedimentos, tanto do ponto de vista jur\u00eddico, como tamb\u00e9m indo \u00e0s ruas para defender direitos e evitar retrocessos.<br \/>\nA constata\u00e7\u00e3o foi observada durante audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), que ouviu, na tarde desta quarta-feira, tr\u00eas v\u00edtimas de viol\u00eancia nos atos observados nos \u00faltimos dias contra o governo Michel Temer no Paran\u00e1, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Ouviu, tamb\u00e9m, o jornalista Fausto Salvatori Filho, que descobriu o agente do Ex\u00e9rcito Willian Pina Botelho infiltrado em meio a um grupo de estudantes em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nOs depoimentos chocaram os deputados. Al\u00e9m disso, detalhes sobre a atua\u00e7\u00e3o do agente do Ex\u00e9rcito levou a uma percep\u00e7\u00e3o, ainda a ser comprovada, de que o acompanhamento e monitoramento de manifestantes e movimentos sociais por for\u00e7as de seguran\u00e7a existem h\u00e1 muito tempo, devido \u00e0s impress\u00f5es e pistas deixadas pelo agente que foi descoberto. \u201cOs relatos que vimos aqui s\u00e3o impressionantes. Mostram que, mais do que viol\u00eancia, estas pessoas foram torturadas, perseguidas e coagidas\u201d, disse o vice-presidente da comiss\u00e3o, deputado Nilto Tato (PT-SP).<br \/>\n\u201cPor outro lado, nos levam \u00e0 certeza de que quanto mais pessoas estiverem na rua lutando pela democracia e para evitar a perda de nossos direitos, mais estaremos combatendo essas t\u00e1ticas\u201d, afirmou Tato, depois de ouvir os depoimentos de tr\u00eas v\u00edtimas. Uma delas, a m\u00e9dica Maria Alessio, do Distrito Federal, contou sobre como foi abordada, parada e detida por policiais por demonstrar solidariedade, do seu carro, a uma manifesta\u00e7\u00e3o realizada na Esplanada dos Minist\u00e9rios, em 31 de agosto, dia da vota\u00e7\u00e3o final do impeachment, por pessoas que gritavam \u201cFora, Temer\u201d.<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o estava participando da passeata, estava passando com o meu carro no local por acaso e demonstrei apoio aos manifestantes. Fui parada por uma viatura policial e levada para a delegacia. Recebi uma multa do Detran, sendo que n\u00e3o havia agente do Detran na \u00e1rea, e uma autua\u00e7\u00e3o por desobedi\u00eancia\u201d, contou.<br \/>\nMaria Alessio disse ainda que no mesmo ato que culminou com sua deten\u00e7\u00e3o foram jogados, ao final, spray de pimenta e bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo nos manifestantes, que durante todo o percurso se comportaram de forma pac\u00edfica. \u201cAchei que essa a\u00e7\u00e3o policial foi praticamente uma emboscada contra os manifestantes. Foi uma tentativa de coa\u00e7\u00e3o. O que se esperava de cidad\u00e3os num dia de como\u00e7\u00e3o com o resultado final do impeachment? Que n\u00e3o se manifestassem?\u201d, questionou a m\u00e9dica.<br \/>\n<figure id=\"attachment_39332\" aria-describedby=\"caption-attachment-39332\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39332\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/violencia-policial-na-C\u00e2mara-Foto-Midia-Ninja.jpg\" alt=\"O advogado \" width=\"725\" height=\"482\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39332\" class=\"wp-caption-text\">O advogado Mauro Silva dos Santos, torturado pela pol\u00edcia em Caxias do Sul, \u00e9 o negro \u00e0 mesa. Ele teme pela seguran\u00e7a dos filhos. &#8220;Se um advogado \u00e9 trato assim, o que sobra?&#8221; \/ Foto Midia Ninja\u00a0<\/figcaption><\/figure><br \/>\nMauro Silva dos Santos, de Caxias do Sul<br \/>\nEm propor\u00e7\u00f5es ainda piores foi registrado o caso do advogado Mauro Silva dos Santos, de Caxias do Sul (RS). Emocionado em alguns momentos, o advogado relatou que no dia 31 de agosto foi buscar um dos filhos que estava em \u00e1rea onde se realizava uma manifesta\u00e7\u00e3o e, pr\u00f3ximo do local, o filho lhe telefonou dizendo \u201cpai, acho que estamos precisando de um advogado\u201d.<br \/>\nAo chegar e tentar interferir na a\u00e7\u00e3o policial contra os jovens, Santos foi preso, algemado, levado \u00e0 delegacia e sofreu tortura. &#8220;Sofri horrores, humilha\u00e7\u00f5es que prefiro n\u00e3o descrever aqui, inclusive o tal do pacotinho\u201d, disse \u2013 ao descrever a forma como \u00e9 chamada a pr\u00e1tica em que algemam a pessoa pelas costas e colocam as suas pernas para dentro do corpo, de forma que a press\u00e3o das algemas provoque fortes dores.<br \/>\n\u201cMas isso n\u00e3o \u00e9 o que mais importa. A gente v\u00ea o que \u00e9 o poder do Estado numa situa\u00e7\u00e3o dessas. Quando clareou o dia os contatos e recados que chegaram aos telefones dos meus filhos eram todos de conhecimento dos policiais. Se um advogado, que \u00e9 o profissional que defende as pessoas, \u00e9 tratado dessa forma, o que sobra de cidadania no pa\u00eds? O que sobra do Estado democr\u00e1tico de direito?\u201d, indagou.<br \/>\nO advogado Renato de Almeida Freitas J\u00fanior, do Paran\u00e1, passou por situa\u00e7\u00e3o parecida. Morador da periferia de Curitiba, ele estava no seu carro ouvindo m\u00fasica com dois amigos, no centro da cidade. Ao ser abordado por policiais, disse que era advogado, nada tinha feito e mostrou todos os documentos. Escutou dos policiais que \u201cneguinho com cara de dingo n\u00e3o pode ser advogado\u201d.<br \/>\n\u201cFui algemado, levado at\u00e9 a viatura, mas eles esqueceram de me tirar o celular. Na mala da viatura, fiz v\u00e1rios malabarismos e consegui postar uma mensagem no Facebook contando que estava sendo preso. Eles descobriram, pararam o carro, me tiraram o celular, me esmurraram e me pisotearam, inclusive no rosto. Na cela, me deixaram absolutamente nu diante de outros policiais por aproximadamente quatro horas.\u201d<br \/>\nDe acordo com o advogado, o que mais o estarrece \u00e9 o que ele chamou de \u201cretorno aos tempos da barb\u00e1rie\u201d. \u201cN\u00e3o vou deixar esse epis\u00f3dio passar em branco e vou procurar fazer justi\u00e7a n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceu comigo, mas em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece todos os dias com os meus amigos\u201d, afirmou.<br \/>\nPara o presidente da comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara, deputado Padre Jo\u00e3o (PT-MG), o pa\u00eds n\u00e3o pode ficar calado. Por isso, os parlamentares est\u00e3o se programando para fazer reuni\u00f5es pa\u00eds afora com o objetivo de discutir os v\u00e1rios casos observados e convocar outras v\u00edtimas para novas audi\u00eancias p\u00fablicas. A CDHM tamb\u00e9m vai pedir esclarecimentos \u00e0s prefeituras e governos estaduais de todos os locais onde moram as pessoas que prestarem depoimentos.<br \/>\nOs integrantes da comiss\u00e3o v\u00e3o votar, na pr\u00f3xima reuni\u00e3o, requerimentos convidando\u00a0 representantes do Executivo federal para dar explica\u00e7\u00f5es sobre o caso: os ministros da Justi\u00e7a, Alexandre de Moraes, e da Defesa, Raul Jungmann. \u201cQuando a gente tem uma avalia\u00e7\u00e3o no Brasil de que os movimentos sociais s\u00e3o uma conquista, saber de casos como esses \u00e9 revoltante, mostra a necessidade de reagirmos\u201d, afirmou Padre Jo\u00e3o.<br \/>\nO jornalista Fausto Salvatori Filho, do coletivo <i>Ponte Jornalismo<\/i>, que descobriu a participa\u00e7\u00e3o do sargento do Ex\u00e9rcito infiltrado num grupo de estudantes em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 poucos dias, afirmou que foi o fato de a pris\u00e3o dos estudantes ter sido\u00a0 feita de forma qualificada por ele como absurda \u2013 com uma lista de material apreendido que, em sua opini\u00e3o \u201cchega a ser ris\u00edvel\u201d \u2013 e, em contradi\u00e7\u00e3o a isso, o forte aparato policial armado, que levou os pr\u00f3prios estudantes a come\u00e7arem a desconfiar da pessoa identificada como Malta entre eles.<br \/>\n\u201cA deten\u00e7\u00e3o deles foi feita por dez viaturas, um \u00f4nibus e um helic\u00f3ptero da pol\u00edcia. \u00c9 claro que n\u00e3o se tratava de uma a\u00e7\u00e3o de policiais que estavam passando pelo local\u201d, disse. De acordo com Salvatori, depois de confirmar que Malta era, na verdade, o sargento do ex\u00e9rcito Willian Pina Botelho, ele descobriu que o agente procurava se aproximar dos jovens por meio de redes sociais, inclusive aplicativos de paquera. Primeiro, tentando uma conversa. Depois, puxando a conversa para o lado do ativismo pol\u00edtico e perguntando se as pessoas n\u00e3o iriam participar de alguma passeata ou ato p\u00fablico.<br \/>\n\u201cDescobrimos que esse tipo de iniciativa vinha sendo tomada, por parte do sargento, desde 2014. Ou seja, \u00e9 um monitoramento que come\u00e7ou a ser feito antes de toda essa turbul\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds\u201d, destacou.<br \/>\nA procuradora D\u00e9bora Duprat pediu que as pessoas denunciem casos como esses nas procuradorias do MPF em todos os estados. D\u00e9bora afirmou que est\u00e1 sendo alvo de representa\u00e7\u00f5es por parte do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo com o argumento de que tenta se intrometer numa esfera que n\u00e3o \u00e9 da sua al\u00e7ada, por ter pedido explica\u00e7\u00f5es sobre o caso. Mas destacou que n\u00e3o vai se abalar em rela\u00e7\u00e3o a isso, at\u00e9 porque entende que \u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o tratar de quest\u00f5es como essas.<br \/>\nD\u00e9bora observou que muitas dessas a\u00e7\u00f5es violentas s\u00e3o resultado da falta que faz uma pol\u00edtica de transi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, o que leva, a seu ver, a um atraso hist\u00f3rico. \u201cTemos de ter for\u00e7a, todos n\u00f3s, porque estes procedimentos remetem-nos \u00e0 pr\u00e1tica da ditadura\u201d, acentuou.<br \/>\nSegundo ela, o que mais a preocupa hoje \u00e9 o que definiu como \u201ccerta imuniza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia\u201d. \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que \u00e9 nosso grande instrumento emancipat\u00f3rio, nos garante o direito de nos manifestarmos e o direito de reuni\u00e3o. O direito \u00e0 cr\u00edtica e a manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 o oxig\u00eanio das democracias. A tentativa de coibir isso est\u00e1 na contram\u00e3o de f\u00f3runs de direitos humanos internacionais e de orienta\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive\u201d.<br \/>\nA procuradora afirmou que a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) estabeleceu que movimentos sociais n\u00e3o podem ser monitorados, porque isso fere o direito \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o das pessoas. De acordo com D\u00e9bora, o Brasil tem, atualmente, dois instrumentos considerados perversos e antidemocr\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coibi\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es: a lei antiterrorismo (Lei 13.260) e a lei que combate organiza\u00e7\u00f5es criminosas (Lei 12.850).<br \/>\n\u201cUma simples garrafa de \u00e1lcool ou uma caixa de f\u00f3sforos podem ser considerados por policiais como produtos que ser\u00e3o usados para um ato terrorista\u201d, reclamou. Para a procuradora, os tempos s\u00e3o dif\u00edceis, mas \u00e9 preciso que as pessoas estejam preparadas para enfrent\u00e1-los em todos os setores \u2013 no Judici\u00e1rio, nas ruas e junto a entidades e institui\u00e7\u00f5es que ajudem na defesa dos seus direitos como a CDHM.<br \/>\n<strong>DEPOIMENTOS DAS V\u00cdTIMAS:<\/strong><br \/>\n<strong>Maria Alessio, m\u00e9dica \u2013 Moradora de Bras\u00edlia (DF):<\/strong><br \/>\n\u201cEstava passando com meu carro por uma passeata que estava sendo realizada na Esplanada dos Minist\u00e9rios, logo ap\u00f3s o resultado final do impeachment. As pessoas gritavam &#8216;Fora, Temer&#8217;. Eu n\u00e3o estava participando da passeata, mas diante do engarrafamento, como estava pr\u00f3xima, comecei a buzinar e apoiar os manifestantes e entoar o coro de \u2018Fora, Temer\u2019 tamb\u00e9m. Fui de imediato abordada por policiais que tiraram v\u00e1rias fotos do meu rosto, da placa do meu carro e disseram que eu sa\u00edsse imediatamente do local porque estava atrapalhando o tr\u00e2nsito. Argumentei que n\u00e3o estava, pois outros carros estavam parados tamb\u00e9m, aguardando para passar, mas em seguida fui embora.\u00a0Quando sa\u00ed da Esplanada e estava pr\u00f3xima da rodovi\u00e1ria do Plano Piloto, alguns metros depois, fui abordada por um carro da pol\u00edcia que encostou no meu, mandando que parasse. Eles me pediram todos os documentos e disseram que eu precisava acompanh\u00e1-los at\u00e9 uma delegacia. Reagi dizendo que era uma trabalhadora, uma cidad\u00e3, que n\u00e3o tinha atrapalhado nada e tinha o direito de me manifestar. Tive de ficar na rua aguardando por dez minutos eles se comunicarem com outros policiais e fui conduzida para a delegacia entre duas viaturas policiais. Recebi uma multa do Detran e uma autua\u00e7\u00e3o por desobedi\u00eancia. Enquanto eu estava com o carro parado, o pessoal da passeata estava se aproximando do local e v\u00e1rios manifestantes, que me reconheceram como a pessoa que os apoiou anteriormente, pegaram seus carros e me seguiram at\u00e9 a delegacia. Pouco tempo depois desse epis\u00f3dio, o que se contou que houve foi o lan\u00e7amento de bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e spray de pimenta contra os manifestantes, sem que houvesse necessidade para isso. N\u00e3o tinha sido visto um \u00fanico ato de viol\u00eancia na passeata. Um dia antes, estive no Pal\u00e1cio da Alvorada ao lado de amigos para prestar homenagem \u00e0 presidenta Dilma Rousseff. Cheguei atrasada e, diante de um pequeno tumulto observado no local, com muitos policiais tentando impedir a entrada dos manifestantes, perguntei a um deles o motivo pelo qual estavam ali quando deveriam ficar dentro do Pal\u00e1cio, cuidando da seguran\u00e7a da presidenta. Ouvi em resposta: \u2018presidenta? que presidenta? Dilma? Quem \u00e9 essa mulher? Ela j\u00e1 tem seguran\u00e7a suficiente l\u00e1 dentro\u2019\u201d.<br \/>\n<strong>Mauro Silva dos Santos, advogado \u2013 Morador de Caxias do Sul (RS)<\/strong><br \/>\n\u201cNo dia 31 de agosto fui buscar um dos meus filhos, como fazia sempre. Ele estava numa \u00e1rea onde havia uma manifesta\u00e7\u00e3o e antes de chegar l\u00e1, meu telefone tocou. Era ele dizendo \u2018pai, acho que estamos precisando de um advogado por aqui\u2019. Quando cheguei no local vi meninos muito jovens sendo abordados de uma forma violenta e sem motivo por policiais. Num momento desses voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um advogado, \u00e9 um pai. Encontrei uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e poderia pensar: &#8216;vou pegar meu filho, dar as costas e ir embora&#8217;. Mas preferi interferir e correr o risco, fazendo meu papel de cidad\u00e3o.\u00a0Fui preso, algemado, levado \u00e0 delegacia e sofri pr\u00e1ticas de tortura que prefiro n\u00e3o detalhar aqui. Sofri horrores, humilha\u00e7\u00f5es que n\u00e3o quero descrever, inclusive o tal do pacotinho, que \u00e9 a pr\u00e1tica em que algemam a pessoa pelas costas e colocam as pernas para dentro do corpo de forma que faz a press\u00e3o das algemas machucar muito. Ainda estou sem movimento na m\u00e3o esquerda por conta disso. Mas isso n\u00e3o \u00e9 o que mais importa. A gente v\u00ea o que \u00e9 o poder do Estado numa situa\u00e7\u00e3o dessas. Quando clareou o dia os contatos e recados que chegaram aos telefones dos meus filhos j\u00e1 eram todos de conhecimento dos policiais. Se um advogado, que \u00e9 quem defende as pessoas, \u00e9 tratado dessa forma, o que sobra de cidadania no pa\u00eds? O que sobra do Estado democr\u00e1tico de direito? Acho que o cidad\u00e3o n\u00e3o pode ser visto como um inimigo e a legisla\u00e7\u00e3o deixa claro que o papel das Pol\u00edcias Militares \u00e9 proteger, n\u00e3o tratar as pessoas dessa forma. A melhor forma de se combater tais pr\u00e1ticas \u00e9 seguir lutando. N\u00e3o podemos nos acovardar neste momento, ficar em casa e evitar denunciar o que sofremos. Vamos continuar lutando pelos direitos humanos acima de tudo e seguir. Porque n\u00e3o h\u00e1 outro caminho\u201d.<br \/>\n<strong>Renato de Almeida Freitas J\u00fanior , advogado \u2013 Morador de Curitiba (PR).<\/strong><br \/>\n\u201cEstava sentado no meu carro com dois amigos ouvindo m\u00fasica no centro da cidade. Chegaram uns policiais nos abordando. Expliquei que era advogado, mostrei todos os meus documentos, mas eles deram a entender que achavam que se tratavam de documentos falsos. Escutei deles que \u2018neguinho com cara de dingo n\u00e3o pode ser advogado\u2019. Dingo \u00e9 a forma como chamam mendigos na minha terra.\u00a0Fui algemado e levado at\u00e9 a mala da viatura. Quando percebi que eles tinham esquecido de me tirar o celular, fiz v\u00e1rios malabarismos e consegui postar uma mensagem no Facebook contando que estava sendo preso. Eles descobriram, pararam o carro, me tiraram o celular, me esmurraram e me pisotearam. Reagi dizendo que n\u00e3o diria deixar isso em branco e eles pagariam pelo que estavam fazendo. Foi nesta hora em que um deles pisou no meu rosto. Na cela, me deixaram absolutamente nu diante de outros policiais por aproximadamente quatro horas. O que mais me estarrece nisso tudo \u00e9 perceber que est\u00e1 havendo um retorno aos tempos da barb\u00e1rie. N\u00e3o vou deixar esse epis\u00f3dio passar em branco e vou procurar fazer justi\u00e7a, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceu comigo, mas em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece todos os dias com os meus amigos. Por viver em \u00e1reas de periferia, ser filho de pais nordestinos que migraram para o Paran\u00e1, ter origem humilde, estava acostumado a saber de coisas desse tipo. Mas acho que o fato de ser advogado e atualmente fazer mestrado, por meio de pol\u00edticas de inclus\u00e3o social, j\u00e1 pode ter sido visto como uma forma de chamar a aten\u00e7\u00e3o desse pessoal para a agress\u00e3o a mim.Afinal, sou fruto das pol\u00edticas de inclus\u00e3o dos \u00faltimos governos, que permitiram a v\u00e1rias pessoas pobres o acesso \u00e0 universidade e melhoria de vida. A impress\u00e3o que tudo isso passa \u00e9 que o que era visto como um direito do cidad\u00e3o antes desse golpe, agora passou a ser entendido como uma caridade. N\u00e3o podemos nos calar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tortura sofrida pelo advogado ga\u00facho Mauro Silva dos Santos, de Caxias do Sul, foi relatada por ele em reuni\u00e3o na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados. Uma m\u00e9dica de Bras\u00edlia e outro advogado, do Paran\u00e1, tamb\u00e9m registraram abordagens violentas da pol\u00edcia e deten\u00e7\u00f5es sem qualquer motivo. Procuradora do MPF ressaltou a import\u00e2ncia de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":39331,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-39324","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-aeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39324"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39324\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}