{"id":3935,"date":"2009-04-09T17:30:23","date_gmt":"2009-04-09T20:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=3935"},"modified":"2020-04-19T22:03:49","modified_gmt":"2020-04-20T01:03:49","slug":"giovani-quer-largar-o-crack","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/giovani-quer-largar-o-crack\/","title":{"rendered":"Giovani quer largar o crack"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Renan Antunes de Oliveira<\/span><\/p>\n<p>Quase toda vez que entro apressado no Jornal J\u00c1 tomo cuidado para n\u00e3o pisar em meu amigo Giovani de Souza Pereira, um self made mendigo de 22 anos, podre de drogado. Gio \u00e9 morador de rua. H\u00e1 quase 10 fixou resid\u00eancia na nossa, a Augusto Pestana.<\/p>\n<p>Nos dias de bom tempo ele puxa seus roncos estirado na frente do port\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o. Por alguma raz\u00e3o, prefere o lado \u00edmpar da Augusto. J\u00e1 deve ter dormido em cada cent\u00edmetro de ch\u00e3o desde a esquina da avenida Ven\u00e2ncio Aires at\u00e9 o JJ, no n\u00famero 133 da Augusto.<\/p>\n<p>A gente nota que ele dorme melhor quando o sol est\u00e1 alto. Sabemos que no nosso peda\u00e7o ele tamb\u00e9m se sente mais seguro. Os vizinhos n\u00e3o se atreveriam a chut\u00e1-lo, coisa que acontece quando vai dormir sob alguma marquise e \u00e9 despertado por seguran\u00e7as de lojas.<\/p>\n<p>Aconhegadinho em algum farrapo Gio ronrona enquanto se recupera das noitadas de crack e das baladas de maloqueiros &#8211; adiante eu conto como \u00e9 intensa a vida social dos sem teto.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 a pessoa mais conhecida do quarteir\u00e3o. N\u00e3o sei quem s\u00e3o meus vizinhos, eles n\u00e3o sabem quem sou eu, mas todos conhecemos Giovani \u2013 de uma certa forma, ele nos une.<\/p>\n<p>Gio \u00e9 um amigo que posso chamar de meu desde 2003. Isto porque quando eu entrei no JJ ele j\u00e1 era um veterano da casa \u2013 quero dizer, do lado de fora da casa.<\/p>\n<p>Pouco antes da minha estr\u00e9ia nas p\u00e1ginas ele fazia por aqui um bico de entregador. Pena, tivemos que demiti-lo porque nossa contrata\u00e7\u00e3o informal virou um problema trabalhista: seriamos multados por explorar trabalho infantil.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de dar trabalho pra ajudar Gio foi do Mariano, filho do patr\u00e3o. Ele teve pena, queria tirar o menino da rua e das drogas. Mariano agora anda na Alemanha. Casou, tem uma filha pequena, t\u00e1 l\u00e1 cuidando dela \u2013 mas nosso Gio, adulto, continua na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s que ficamos temos boas inten\u00e7\u00f5es com ele. Todos nos compadecemos. Todos tentamos ajudar, de uma forma ou outra.<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, uma senhora l\u00e1 do fim da rua notou que ele andava meio abatido \u2013 era uma gonorr\u00e9ia, que ela se prontificou a tratar com antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Socos e &#8220;roubo&#8221;<\/span><\/p>\n<p>Um senhor notou um incha\u00e7o na boca e o levou ao dentista. Alguma coisa foi feita e hoje nada est\u00e1 doendo \u2013 o problema mais vis\u00edvel \u00e9 a sujeira amarela e a falta do canino esquerdo. T\u00e1 partido ao meio. Foi quebrado a socos por um motorista de t\u00e1xi do ponto do HPS. Normalmente o pessoal ali gosta dele, mas naquele dia alguns estavam furiosos porque acharam \u2013 erradamente \u2013 que ele tinha roubado o r\u00e1dio de um carro.<\/p>\n<p>No JJ tivemos v\u00e1rios debates de como ajud\u00e1-lo. Cada nova estagi\u00e1ria se comove ao v\u00ea-lo na cal\u00e7ada. De tanto v\u00ea-lo, elas se acostumam. Depois, acabam pulando por cima dele pra poder entrar \u2013 hay que perder a ternura e endurecer, sen\u00e3o ningu\u00e9m entra na reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo novo rep\u00f3rter passa pela fase de pensar em entrevist\u00e1-lo, depois desiste \u2013 eles querem alguma coisa mais longe, mais aventurosa, menos dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos eu andei viajando. Passei um ano nos States. Morei meses no Rio, fui pra Amaz\u00f4nia, pra Curitiba, pra Sampa. Cada vez que voltava ao JJ tinha not\u00edcias de Gio. Ele estava por ali, todo dia, sempre dormindo na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos que ajudar Giovani seria tarefa pros \u00f3rg\u00e3os assistenciais do governo. Telefonamos at\u00e9 pra caixa prego, sem sucesso. Procuramos burocratas de tr\u00eas partidos diferentes, nos n\u00edveis municipal, estadual, federal \u2013 por telefone \u00e9 mais dif\u00edcil conseguir alguma coisa do governo do que pedir qualquer coisa nos 0800 das multinacionais de telefonia celular.<\/p>\n<p>Sugerimos as igrejas cat\u00f3lica e evang\u00e9lica. E fomos at\u00e9 na sinagoga da rua Henrique Dias. Neca, Gio firme na mis\u00e9ria, drogado e sujo, dormindo na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Giovani parece ter sido um predestinado pra viver nas sarjetas, com voca\u00e7\u00e3o revelada cedo. Do pai ele nada lembra, nem o nome, s\u00f3 sabe que morreu. Era bugre. O filho herdou as fei\u00e7\u00f5es, cor e tamanho. At\u00e9 fazer oito vivia com a m\u00e3e numa casinha na Lomba do Pinheiro. Foi tirado da escola por ela \u201cporque ele s\u00f3 ia l\u00e1 para comer a merenda\u201d.<\/p>\n<p>M\u00e3e e filho passavam o dia esmolando no Centro. Ele abria e fechava portas de t\u00e1xis na frente do Guaspari \u2013 mas as gorjetas iam todas pra mam\u00e3e. \u201cEla n\u00e3o me dava dinheiro pra jogar fliperama\u201d, conta ele, ainda parecendo revoltado. Fugiu dela e esmolou pra si mesmo.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">come\u00e7o aos 11<\/span><\/p>\n<p>Foi pouco antes de fazer nove que ele come\u00e7ou sua carreira de self made mendigo. A primeira noite ao relento foi na Pra\u00e7a XV. Era frio, ele estava s\u00f3 de cal\u00e7a e camisa.<\/p>\n<p>Nas drogas ele come\u00e7ou aos 11, cheirando solvente, o chamado lol\u00f3. Foi uma fase dif\u00edcil, porque sua turma de cheiradores de lol\u00f3 era perigosa \u2013 uns roubam dos outros para comprar a droga.<\/p>\n<p>Um dia apareceu algu\u00e9m do Conselho Tutelar e ele foi levado para o abrigo Miguel Dario, na Serraria. Fugiu de l\u00e1 semanas depois. Uma vez a Brigada o pegou nas ruas e o mandou para outro abrigo, na Miguel Tostes. Fugiu em oito dias. Desde 1999 adotou e foi adotado pela vizinhan\u00e7a da Augusto Pestana. \u00c0s vezes, rola pela Reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da Era do Lol\u00f3 veio o Tempo da Maconha. Fumava todo dia. Pra comprar, fazia bico de flanelinha. Uma vez ele e uns amigos roubaram um dep\u00f3sito da UFRGS. Ele pegou uma TV, mas n\u00e3o conseguiu vend\u00ea-la porque foi preso antes.<\/p>\n<p>N\u00e3o puxou cana. Ganhou \u201cliberdade assistida\u201d, um privil\u00e9gio para menores concedido pelo Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente. A assistente social do seu caso era dona \u00c9rica, ou \u201ctia \u00c9rica\u2019, como ele diz.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o lhe rendeu uma ficha na pol\u00edcia. \u00c9 seu \u00fanico documento. Cada vez que \u00e9 pego num arrast\u00e3o da Brigada diz o nome. Os brigadianos que por acaso ainda n\u00e3o o conhe\u00e7am consultam seus computadores, encontrando sua ficha de ladr\u00e3o em liberdade assistida.<\/p>\n<p>O pessoal da lancheria do Marino n\u00e3o deixa mais ele assistir l\u00e1 dentro os jogos do Inter, por causa do cheiro de suas roupas e porque supeitam que foi ele que arrombou as grades e roubou cigarros, tempos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ele vive num prende e solta. Uma vez reclamou da brutalidade policial, mas a\u00ed levou uma coronhada forte no olho esquerdo que quase o perdeu. Estava t\u00e3o sujo que nem o HPS quis trat\u00e1-lo. Foi consertado no post\u00e3o da Vila Cruzeiro.<\/p>\n<p>O m\u00e1ximo de grana que conseguiu juntar na vida foram 200 reais, na vez em que cuidou do estacionamento de uma churrascaria. Desde os 16, tudo o que ganha ele gasta com crack, a droga da hora, do m\u00eas, do ano, da vida dele \u2013 tem dias em que est\u00e1 um farrapo que mal pode andar.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos os moradores da rua notam que ele anda cada vez mais drogado, mais esfarrapado, mais imundo \u2013 tem gente apostando que qualquer dia morre de overdose.<\/p>\n<p>Mas nem tudo est\u00e1 perdido. Saibam todos que ele tem planos de parar com as drogas.<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a 31 de mar\u00e7o eu o chamei pra esta entrevista. Ele mandou dizer pelo lavador de carros que s\u00f3 viria se ganhasse um troco. Queria 10. Pro crack. Apareceu \u00e0s 3 da tarde. Foi s\u00f3 entrar na sala pra gente sentir aquela murrinha.<\/p>\n<p>Ele estava falante. Contou que passou a noite transando com uma mo\u00e7a conhecida como M\u00e3e, moradora de rua como ele. O romance foi ali perto do Hospital de Cl\u00ednicas e ele garante que usou camisinha: \u201cUma tia me ensinou a usar, tenho que me cuidar\u201d.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m duvidou deste cuidado, lembrando que corre a lenda de que ele \u00e9 pai solteiro de uma menininha &#8211; ningu\u00e9m nunca viu nem sabe quem \u00e9 a m\u00e3e nem onde anda tal filha.<\/p>\n<p>Ele insistiu que sim, usa camisinha. Afirmou que at\u00e9 os gays que o procuram para programas no Parque da Reden\u00e7\u00e3o exigem isso. N\u00e3o, ele n\u00e3o se considera um mich\u00ea, n\u00e3o como aqueles da Avenida Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio. Se diz aut\u00f4nomo. E que cobra 20 reais por sess\u00e3o, depois das 10 da noite, nos matinhos do parque \u2013 a grana \u00e9 pra comprar crack.<\/p>\n<p>Ele tem um sonho na vida: ser eletricista. Fez um servi\u00e7os para um tal Paulinho da Farm\u00e1cia. Segurava a escada. O cara tamb\u00e9m deixou ele apertar alguns parafusos em tomadas \u2013 foi o suficiente para ele tomar gosto pela el\u00e9trica.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">&#8220;N\u00e3o votaria em ningu\u00e9m&#8221;<\/span><br \/>\nUma tia \u2013 tias s\u00e3o assistentes sociais e\/ou alguma mulher que o ajude \u2013 se prontificou a lev\u00e1-lo pruma cl\u00ednica de desintoxica\u00e7\u00e3o qualquer dia destes.<\/p>\n<p>Ele disse que pode ser, porque est\u00e1 cansado da vida que leva. Anda pensando em procurar tratamento m\u00e9dico. Est\u00e1 convencido que pode sair da droga quando quiser. E que durante o tratamento vai aprender a ser &#8230;eletricista: \u201cNa cl\u00ednica ensinam alguma coisa pra gente\u201d.<\/p>\n<p>Gio ainda acredita em si mesmo: \u201cN\u00e3o quero ser conhecido como o Giovani velho, drogado, rabugento, fedorento\u201d.<\/p>\n<p>Se votasse ? \u201cN\u00e3o votaria em ningu\u00e9m\u201d. Tem uma pequena diverg\u00eancia com dona Yeda, a quem cita nominalmente. Ele acha que ela botou policiamento demais contra os pobres: \u201cA gente fica um mont\u00e3o de tempo preso no 9\u00ba (Batalh\u00e3o da PM) levando porrada at\u00e9 um tenente sentir bondade e mandar a gente embora\u201d. Magn\u00e2nimo, ele pede moleza \u201cn\u00e3o para mim, mas para o bem da cidade\u201d.<\/p>\n<p>Gio aceita tirar fotos no meio da rua. N\u00e3o, ele n\u00e3o espera nada do pessoal do JJ. Nem do governo. Repete que qualquer dia vai pegar nojo da vida de drogado. E ent\u00e3o, mudar.<br \/>\nPede cinco reais, pro ajudar na dose de crack.<\/p>\n<p>Fim da entrevista. S\u00e3o quatro da tarde. E l\u00e1 vai Giovani \u00e0s ruas, sujo e esfarrapado, s\u00f3 com cinco no bolso, mas cheio de confian\u00e7a, repetindo a \u00fanica li\u00e7\u00e3o que aprendeu nas cal\u00e7adas: \u201cEu mesmo tenho que fazer por mim\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renan Antunes de Oliveira Quase toda vez que entro apressado no Jornal J\u00c1 tomo cuidado para n\u00e3o pisar em meu amigo Giovani de Souza Pereira, um self made mendigo de 22 anos, podre de drogado. Gio \u00e9 morador de rua. H\u00e1 quase 10 fixou resid\u00eancia na nossa, a Augusto Pestana. 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