{"id":40488,"date":"2016-10-17T10:33:26","date_gmt":"2016-10-17T13:33:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40488"},"modified":"2016-10-17T10:33:26","modified_gmt":"2016-10-17T13:33:26","slug":"viramos-hippies-por-causa-de-bob-dylan-diz-o-jornalista-alex-solnik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/viramos-hippies-por-causa-de-bob-dylan-diz-o-jornalista-alex-solnik\/","title":{"rendered":"&quot;Viramos hippies por causa de Bob Dylan&quot;, diz o jornalista Alex Solnik"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured-box featured-box-cultura\">\n&#8220;Na primeira entrevista, ainda um ilustre desconhecido, perguntaram a Dylan se quando ficasse rico e famoso continuaria usando chap\u00e9u. &#8216;Eu nunca vou ficar rico e famoso&#8217; respondeu. Cinco anos depois j\u00e1 tinha um avi\u00e3o particular&#8221;, diz Alex Solnik, ao comentar a trajet\u00f3ria de Bob Dylan, o novo Nobel de Literatura; &#8220;Viramos hippies por causa de Bob Dylan. Ele era o cara que nunca sorria, o cara s\u00e9rio, tinha aquele olhar de quem sabia o que vir\u00e1 daqui a um s\u00e9culo. Um vision\u00e1rio&#8221;<\/p>\n<p class=\"meta\">15 DE OUTUBRO DE 2016 \u00c0S 05:20 \/\/ <a class=\"telegram\" href=\"http:\/\/goo.gl\/RoA76p\">RECEBA O 247 NO TELEGRAM <img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.brasil247.com\/themes\/publication_1\/theme_4\/assets\/img\/telegram.jpg\" alt=\"Telegram\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"sidebar-columns single-page clearfix style-cultura\">\n<section>\n<div class=\"entry\">\n<div><\/div>\n<p><strong>Por Alex Solnik, no 247<\/strong><br \/>\nImagino os horrores que ele deve ter passado na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Em qualquer fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 bem aceito quem se desvia do caminho estabelecido pelos pais. Os rebeldes tendem a ser sufocados. Mas numa fam\u00edlia de origem judaica de imigrantes da R\u00fassia morando nos Estados Unidos isso \u00e9 mais dram\u00e1tico ainda. Seus av\u00f3s fugiram dos pogroms da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917. Poderiam ser assassinados ou ent\u00e3o deportados para a Sib\u00e9ria.<br \/>\nExemplifico com o que se deu na minha fam\u00edlia. O pai da minha m\u00e3e era um pr\u00f3spero comerciante numa cidadezinha da Ucr\u00e2nia. N\u00e3o era um bar\u00e3o, apenas estava bem de vida. Pois bem. Grupos bolcheviques invadiram sua casa e sua loja, roubaram todos seus objetos de valor e o enviaram, com a mulher para a Sib\u00e9ria, como castigo por ter um bom padr\u00e3o de vida. Minha av\u00f3 n\u00e3o resistiu ao choque, morreu dois anos depois.<br \/>\nImigrantes fugitivos num pa\u00eds novo ficam desconfiados de tudo e de todos. T\u00eam pavor de sair fora do que \u00e9 considerado normal. Uma personalidade rebelde como a de Robert Allen Zimmerman deve ter sofrido uma enorme repress\u00e3o, o que geralmente provoca isolamento e dedica\u00e7\u00e3o a afazeres tipicamente solit\u00e1rios, como escrever. Comigo tamb\u00e9m foi assim. Eu n\u00e3o me adaptava ao que era exigido de um menino da minha idade e da minha origem, como o comparecimento aos dias de festa e tamb\u00e9m todas as sextas-feiras \u00e0 sinagoga. Eu nem tinha op\u00e7\u00e3o de recusar. Era ir ou ir. Faltar \u00e0 sinagoga seria o fim do mundo, a vergonha definitiva diante de toda a fam\u00edlia. Serm\u00f5es intermin\u00e1veis da minha m\u00e3e, acompanhados de pux\u00f5es de cabelo. Posso supor que na casa de Zimmermann n\u00e3o era diferente.<br \/>\nEu comecei a escrever poesias muito cedo e ainda me lembro que anotava tudo num caderno escolar de capa verde. Era a reprodu\u00e7\u00e3o para o papel de vers\u00f5es das can\u00e7\u00f5es que eu escutava no r\u00e1dio. Um detalhe \u00e9 que aquelas velhas can\u00e7\u00f5es eram, em sua maioria, tristes. Se falavam de amor era porque algu\u00e9m traiu algu\u00e9m, ou algu\u00e9m que eu amo desesperadamente n\u00e3o me olha ou ent\u00e3o porque eu tinha um grande amor e ele me abandonou.<br \/>\nJunto dos t\u00edtulos eu colocava o suposto ritmo em que os versos seriam ouvidos no futuro: valsa, samba-can\u00e7\u00e3o, bolero. Eu me isolava para escrever. N\u00e3o sei se o isolamento levava a escrever ou se escrever levava ao isolamento. Mas havia momentos em que eu achava que poderia passar v\u00e1rios dias sem sair do meu quarto que se localizava no andar superior do sobrado onde eu morava.<br \/>\nRobert Allen Zimmerman n\u00e3o escutava boleros no r\u00e1dio, como contou, h\u00e1 dois anos, a Robert Love, editor-chefe da AARP The Magazine, dos Estados Unidos:<br \/>\n<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u201c<\/em><em>Logo no in\u00edcio, antes do rock&#8217;n&#8217;roll, eu ouvia as big bands: Harry James; Russ Columbo; Glenn Miller. Cantores como Jo Stafford; Kay Starr; Dick Haymes. Qualquer coisa que vinha pelo r\u00e1dio e a m\u00fasica tocada por bandas em hot\u00e9is que nossos pais frequentavam e podiam dan\u00e7ar. T\u00ednhamos um grande aparelho de r\u00e1dio que parecia uma jukebox, com um toca-discos no topo. Todos os m\u00f3veis foram deixados na casa pelos propriet\u00e1rios anteriores, incluindo um piano. Este r\u00e1dio e o toca-discos al\u00e9m de discos de 78 rpm eles tamb\u00e9m deixaram pra tr\u00e1s. Ent\u00e3o quando nos mudamos encontramos essas coisas. Um dos \u00e1lbuns tinha uma etiqueta vermelha, da Columbia Records. Era Bill Monroe cantando, ou talvez fossem os Stanley Brothers. A grava\u00e7\u00e3o era, \u201cDrifiting Too Far From Shore.&#8221; Eu nunca tinha ouvido nada parecido antes. Essa especificamente me afastou de toda a m\u00fasica convencional que eu vinha escutando. Para entender isso, voc\u00ea tem que saber de onde eu vim. Eu sou do Norte. N\u00f3s ouv\u00edamos r\u00e1dio o tempo todo. Acho que foi a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, ou muito perto da \u00faltima, que cresceu sem TV. Ent\u00e3o o r\u00e1dio era nossa divers\u00e3o. A maioria destes programas eram dramas do tipo r\u00e1dio teatro. Era a nossa TV. E tudo o que voc\u00ea ouvia. E imaginava enquanto escutava.\u00a0 Os cantores que eu ouvia no r\u00e1dio e com quem me identificava eu nunca tinha visto. Divagava sobre o que estariam usando. Ou como eram seus movimentos. Gene Vincent?\u00a0 Eu o imaginava um sujeito magro, um cara muito alto e de cabelos loiros. O r\u00e1dio me fez ser o ouvinte que eu sou hoje. Me ajudou a ficar atento \u00e0s pequenas coisas: o bater da porta; o tilintar de chaves do carro. O vento soprando atrav\u00e9s das \u00e1rvores; o canto dos p\u00e1ssaros; passos; um martelo batendo um prego. Sons aleat\u00f3rios. As vacas mugindo. Eu poderia amarrar isso tudo e fazer uma m\u00fasica. Isso me fez ouvir a vida de uma maneira diferente. Eu ainda ou\u00e7o alguns desses antigos programas de r\u00e1dio, e a maioria deles continua no ar. Quer dizer, as piadas podem estar um pouco desatualizadas, mas as situa\u00e7\u00f5es parecem ser a mesma coisa. Eu n\u00e3o escuto \u201cThe Fat Man\u201d ou \u201cSuperman\u201d ou \u201cInner Sanctum\u201d de uma maneira que voc\u00ea poderia chamar de nost\u00e1lgica. Eles n\u00e3o trazem de volta algumas mem\u00f3rias. Eu apenas gosto deles.<\/em><br \/>\nN\u00e3o sei se ele, aos 12 anos, morando numa cidade de Minnesota soube que um poeta do Pa\u00eds de Gales fazia grande sucesso nos caf\u00e9s de Nova York recitando poemas que hipnotizavam a plateia. O fato \u00e9 que uns oito anos depois Zimmermann j\u00e1 dava suas primeiras entrevistas \u00e0 TV e, quando perguntavam seu nome respondia: \u201cBob Dylan\u201d. Porque ele queria ser Dylan Thomas. Menos mal que a inspira\u00e7\u00e3o se limitou aos versos, j\u00e1 que Thomas era um grande beberr\u00e3o e morreria de cirrose antes dos 40.<br \/>\nNa primeira entrevista, ainda um ilustre desconhecido,\u00a0ao\u00a0programa\u00a0<em>Folksingers Choice da<\/em>\u00a0r\u00e1dio WBAI, de Nova York, em fevereiro de 1962,\u00a0perguntaram a Dylan se quando ficasse rico e famoso continuaria usando chap\u00e9u. \u201cEu nunca vou ficar rico e famoso\u201d respondeu. Embora j\u00e1 naquela \u00e9poca fosse lac\u00f4nico \u00e9 uma de suas entrevistas mais descontra\u00eddas, em que n\u00e3o briga com os entrevistadores, o que n\u00e3o seria incomum nos anos e nas entrevistas seguintes.<br \/>\n\u201cQuantos anos voc\u00ea tem\u201d? pergunta a entrevistadora.<br \/>\n\u201cVinte\u201d responde Dylan.<br \/>\n\u201cQuando voc\u00ea come\u00e7ou a sua carreira\u201d?<br \/>\n\u201cH\u00e1 tr\u00eas anos, em Minneapolis\u201d.<br \/>\n\u201cNo que voc\u00ea trabalhou antes\u201d?<br \/>\n\u201cH\u00e1 uns seis anos trabalhei num parque de divers\u00f5es como faxineiro, ajudante de v\u00e1rias coisas. Eles tinham uns n\u00fameros de aberra\u00e7\u00f5es humanas, como uma mulher cujo corpo havia sido queimado e que por algum motivo parara de crescer, parecia um beb\u00ea. As pessoas pagavam para ver essas aberra\u00e7\u00f5es. Isso me marcou muito. Fiz uma can\u00e7\u00e3o a respeito, mas n\u00e3o me lembro mais dela\u201d.<br \/>\n\u201cQuer dizer que voc\u00ea fugiu da escola\u201d?<br \/>\n\u201cEu j\u00e1 tinha fugido da escola anos atr\u00e1s\u201d.<br \/>\n\u201cVai gravar um disco pela Columbia\u201d?<br \/>\n\u201cVou. Em mar\u00e7o\u201d.<br \/>\n\u201cComo vai se chamar\u201d?<br \/>\n\u201cBob Dylan, eu acho\u201d.<br \/>\nNo final a mo\u00e7a agradeceu a presen\u00e7a de Dylan e ele devolveu a gentileza:<br \/>\n\u201cFoi um prazer conversar com voc\u00ea\u201d.<br \/>\nCinco anos depois j\u00e1 tinha avi\u00e3o particular. Bob Dylan tornou-se n\u00e3o apenas o novo nome, mas a nova identidade do poeta adolescente. Estava em Nova York sozinho e se dizia \u00f3rf\u00e3o. \u00c9 compreens\u00edvel que precisasse romper com o cord\u00e3o umbilical para crescer, depois de ter cometido o pecado mais grave que se pode cometer numa fam\u00edlia judaica: abandonar os estudos.<br \/>\nLevando-se em conta que ir \u00e0 escola \u00e9 condi\u00e7\u00e3o sine qua non de qualquer fam\u00edlia, mas sobretudo a judaica, a sua casa deve ter virado um pandem\u00f4nio quando ele comunicou \u2013 se \u00e9 que comunicou \u2013 que abandonara as aulas.<br \/>\nO ar dentro de casa deve ter se tornado irrespir\u00e1vel. Ele deve ter ouvido os piores xingamentos dos pais e dos av\u00f3s, a come\u00e7ar por \u201cvagabundo\u201d e \u201csem vergonha\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o se admitia uma crian\u00e7a que n\u00e3o sabia de nada da vida trocar os ensinamentos da escola pelo burburinho das ruas.<br \/>\nA sua carreira foi explosiva. Ele percebeu que n\u00e3o bastava escrever t\u00e3o bem quanto Dylan Thomas. Se ele quisesse que seus versos chegassem a muita gente n\u00e3o funcionaria fazer recitais. Gra\u00e7as \u00e0 sua rara intelig\u00eancia ele descobriu que o jeito de levar seus versos a multid\u00f5es era coloc\u00e1-los n\u00e3o dentro de um recital ou de um livro, mas de uma can\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o aprendeu a tocar viol\u00e3o e gaita em homenagem aos seus poemas.<br \/>\nEra paradoxal observar que ele cantava como todos os outros cantores, mas n\u00e3o era um cantor comum. Ele n\u00e3o interpretava can\u00e7\u00f5es t\u00e3o somente. Aquela era sua vida. Ele cantava o que vivia. A sua vida e a sua can\u00e7\u00e3o eram uma coisa s\u00f3, intrinsecamente ligadas. Indissol\u00faveis. N\u00e3o havia can\u00e7\u00e3o em que ele n\u00e3o estivesse inteiro.<br \/>\nN\u00e3o sei se era isso ou o que era, mas suas can\u00e7\u00f5es tinham alguma coisa que tomava a pessoa da cabe\u00e7a aos p\u00e9s e a tornava sua escrava.\u00a0\u00a0Ele tinha (e ainda tem) o poder de hipnotizar milhares de pessoas ao mesmo tempo, estejam longe ou perto. N\u00e3o se trata aqui de f\u00e3s, mas de profissionais. \u00c9 f\u00e1cil notar a mudan\u00e7a na qualidade liter\u00e1ria das can\u00e7\u00f5es dos Beatles \u00e0 medida em que assimilavam a influ\u00eancia de Dylan.Come\u00e7aram dizendo coisas tais como \u201cI love You\/ ye, ye, ye\u201d e &#8220;I wanna hold your hand\u201d e evoluiram para \u201cI saw a film today, oh boy\/ the english army won the war\u201d.\u00a0N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que John Lennon passou a imitar Dylan at\u00e9 nas roupas e nos \u00f3culos. Paul McCartney declarou: \u201cDylan \u00e9 meu \u00eddolo\u201d. Para Ringo Starr, \u201c\u00e9 nosso her\u00f3i\u201d. Nada do que se produziu no cen\u00e1rio pop deixou de ter a sua marca depois que ele surgiu.<br \/>\nCinco anos depois da entrevista \u00e0 r\u00e1dio de Nova York ele n\u00e3o dava mais entrevistas exclusivas, mas coletivas de imprensa, tal a sua dimens\u00e3o, como essa, no lan\u00e7amento de seu disco \u201cHighway 61 revisited\u201d.<br \/>\nPergunta de um rep\u00f3rter de \u00f3culos e barba:<br \/>\n\u201cGostaria de saber o significado de sua foto com a camiseta Triumph na capa do disco. Se significa algo, se encerra uma filosofia\u201d?<br \/>\nDylan esbo\u00e7a uma risada, apoia o queixo na m\u00e3o, visivelmente incomodado com aquilo.<br \/>\n\u201c&#8230;e eu gostaria tamb\u00e9m de saber o que significa para voc\u00ea visualmente, porque voc\u00ea \u00e9 parte disso\u201d.<br \/>\n\u201cN\u00e3o reparei nisso tanto assim\u201d responde um Dylan magrinho metido num palet\u00f3 estiloso, muito cabeludo e cara de quem tinha acabado de acordar \u201cna verdade fizeram a foto um dia quando eu estava sentado numa escada. N\u00e3o me lembro muito\u201d. (Apanha no bolso interno do palet\u00f3 uma carteira de cigarros.) N\u00e3o me preocupo muito com isso\u201d.<br \/>\n\u201cMas o que me diz da moto como imagem em suas composi\u00e7\u00f5es\u201d?<br \/>\nAcende o cigarro:<br \/>\n\u201cDe certo modo, todos n\u00f3s gostamos de motos. Eu gosto\u201d.<br \/>\nUma rep\u00f3rter morena e extrovertida:<br \/>\n\u201cPrefere can\u00e7\u00f5es com mensagem sutil ou \u00f3bvia\u201d?<br \/>\n\u201cCom o que\u201d???<br \/>\n\u201cCom uma mensagem sutil ou \u00f3bvia\u201d.<br \/>\n\u201cCom mensagem&#8230; que can\u00e7\u00e3o com mensagem\u201d?<br \/>\n\u201cBem, como \u2018Eve of Destruction\u2019 e coisas assim\u201d.<br \/>\n\u201cQue se prefiro que a que\u201d?<br \/>\n\u201cN\u00e3o sei, se as suas can\u00e7\u00f5es t\u00eam uma mensagem sutil\u201d.<br \/>\n\u201cUma mensagem sutil\u201d?<br \/>\n\u201cBem, se sup\u00f5e\u201d&#8230;<br \/>\nEla, Dylan e todo o audit\u00f3rio de uns trinta jornalistas caem na gargalhada.<br \/>\n\u201cOnde voc\u00ea ouviu isso\u201d? pergunta Dylan.<br \/>\n\u201cNuma revista de cinema\u201d&#8230;<br \/>\n\u201cMeu Deus\u201d!<br \/>\nUm rep\u00f3rter n\u00e3o identificado visualmente:<br \/>\n\u201cVoc\u00ea se considera fundamentalmente um cantor ou um poeta\u201d?<br \/>\n\u201cMe considero mais um artista que canta e dan\u00e7a, cara\u201d!<br \/>\nOutro jornalista, de terno e gravata e cabelo arrumadinho com glostora:<br \/>\n\u201cSr. Dylan, sei que n\u00e3o gosta de r\u00f3tulos, provavelmente com raz\u00e3o, mas para n\u00f3s que j\u00e1 completamos 30 anos poderia colocar-se uma etiqueta e talvez nos dizer qual \u00e9 o seu papel\u201d?<br \/>\n\u201cBem, eu me rotulo como algu\u00e9m bastante abaixo dos 30&#8230;e meu papel \u00e9 ficar aqui todo o tempo que eu precisar ficar\u201d.<br \/>\nOutro rep\u00f3rter sentado \u00e0 esquerda de Dylan:<br \/>\n\u201cMuita gente o considera o s\u00edmbolo dos protestos principalmente entre os jovens. Vai participar da manifesta\u00e7\u00e3o contra a Guerra do Vietn\u00e3 essa noite no Hotel Paramount\u201d?<br \/>\n\u201cEssa noite estou muito ocupado\u201d.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que ao dar essa entrevista Dylan estava visivelmente chapado.<br \/>\nPara n\u00f3s aqui em S\u00e3o Paulo ele j\u00e1 nasceu uma lenda quando o conhecemos. Nem se n\u00e3o quis\u00e9ssemos n\u00e3o poder\u00edamos n\u00e3o ser influenciados por ele. N\u00e3o precis\u00e1vamos nem ouvir suas m\u00fasicas, mas reproduz\u00edamos suas roupas e suas atitudes. Aquela jaqueta de brim que ele usava virou febre. Sumiu das lojas. Muitos deixaram crescer o cabelo como seu, que parecia black power. Dylan era a voz daqueles que se opunham \u00e0 guerra e outras viol\u00eancias de estado, como ocorria contra os negros nos Estados Unidos. Dylan trouxe \u00e0 cena musical um mundo adulto, com d\u00favidas e interroga\u00e7\u00f5es.<br \/>\nImpressionante, pela primeira vez as pessoas ouviam versos de alta qualidade em forma de melodias folk ou rock and roll e os aceitavam. Talvez porque precisassem daqueles versos como nunca. Principalmente aqueles que n\u00e3o concordavam com a viol\u00eancia contra os negros e a Guerra do Vietn\u00e3 e n\u00e3o sabiam o que dizer. Dylan lhes deu argumentos. Dylan lhes deu voz. N\u00e3o porque quisesse ser Mois\u00e9s. N\u00e3o, ao contr\u00e1rio, ele nunca se deu bem com seguidores, nem os quis.\u00a0\u00a0Chegou na hora certa, em que faltava dar uma resposta ao establishment, aos canh\u00f5es, era preciso encontrar uma forma de n\u00e3o se render. Ele representava a liberdade de escolha de como viver e do que fazer, mas tamb\u00e9m a liberdade de negar que homens destruam outros homens.<br \/>\nPosso dizer que na minha turma, na grande turma que se op\u00f4s \u00e0 ditadura de 64 havia a tese de que ou voc\u00ea era alienado, e fumava maconha, ou ent\u00e3o n\u00e3o era, e entrava para a guerrilha. Dylan mostrou que as op\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o excludentes. Ele fumava maconha \u2013 n\u00e3o s\u00f3 fumava como apresentou o primeiro baseado a John Lennon \u2013 mas n\u00e3o era alienado. Ent\u00e3o n\u00f3s tamb\u00e9m pod\u00edamos fumar maconha e n\u00e3o sermos alienados. Foi Dylan quem nos disse que maconha n\u00e3o tinha que ser exclusiva das classes mais pobres, enquanto a elite consumia coca\u00edna. Tamb\u00e9m foi ele quem nos abriu as portas para o LSD. N\u00e3o que suas poesias dissessem isso, nunca aconteceu. Ele nunca fez proselitismo de coisa alguma. O fato \u00e9 que n\u00f3s quer\u00edamos ser Bob Dylan e ao aceitarmos alguns de seus h\u00e1bitos imagin\u00e1vamos sermos ele. Ele experimentou v\u00e1rias drogas, inclusive hero\u00edna, da qual se livrou, o que admitiu numa entrevista gravada: \u201cGastava 25 d\u00f3lares por dia\u201d, disse ele.<br \/>\nFumamos maconha por causa de Bob Dylan. Viramos hippies por causa de Bob Dylan. Ele era o cara que nunca sorria, o cara s\u00e9rio, tinha aquele olhar de quem sabia o que vir\u00e1 daqui a um s\u00e9culo. Um vision\u00e1rio.<br \/>\nEu ficava encafifado com um detalhe naquele tempo: por que os caras do Rolling Stones nunca o homenageavam se o seu nome vinha de sua \u201cLike a Rolling Stone\u201d, embora tivessem colocado a express\u00e3o no plural?<br \/>\nAt\u00e9 que um amigo esclareceu: o nome dos Rolling Stones n\u00e3o vem, nem poderia vir de Dylan, porque o grupo \u00e9 de 1962 e a can\u00e7\u00e3o, de 1965. A can\u00e7\u00e3o e o nome do grupo foram inspirados numa outra m\u00fasica, composta em 1950 por Muddy Water, chamada \u201cRollin\u2019 Stone\u201d.<br \/>\nA prova mais eloquente de sua influ\u00eancia e de sua perman\u00eancia s\u00e3o as frequentes performances de um de seus admiradores brasileiros ao longo dos anos. Enquanto foi senador da Rep\u00fablica, Eduardo Suplicy cantou v\u00e1rias vezes, inclusive no p\u00falpito do Senado Federal, \u00e0 capela, desafinando sem se importar com isso o hino libert\u00e1rio \u201cBlowin\u2019in the Wind\u201d.<br \/>\nSeus conflitos com jornalistas s\u00e3o antol\u00f3gicos. Eles querem que ele se rotule, querem que explique o que quis dizer com determinada frase, qual foi a mensagem que quis passar. Dylan nunca levou a s\u00e9rio esse tipo de pergunta. Certa vez um rep\u00f3rter quis saber quantos cantores de protesto ele conhecia: \u201c146\u201d, respondeu ele, contendo o riso. O rep\u00f3rter, sem alterar a voz retrucou: \u201cExatamente 146\u201d? E ele: \u201cN\u00e3o, acho que s\u00e3o 147\u201d. Ele \u00e9 bom nisso. Ele n\u00e3o tem nenhuma pena de rep\u00f3rteres que fazem perguntas idiotas, n\u00e3o faz o g\u00eanero \u201cbonzinho\u201d, aquele que \u00e9 simp\u00e1tico com a imprensa para a imprensa ser simp\u00e1tica com ele. Detona quem tiver que detonar. \u00c9 a sua grande especialidade. N\u00e3o esconde o que pensa. Os russos s\u00e3o assim.<br \/>\nMuitos brasileiros tentaram, voluntariamente ou n\u00e3o, ser Bob Dylan. Um deles foi Belchior. Mas \u00e9 perda de tempo comparar as obras. A de Dylan \u00e9 uma caudalosa cole\u00e7\u00e3o de imagens inesperadas e in\u00f3spitas, em sequ\u00eancias que por vezes lembram roteiro de filme e, outras, uma grande reportagem. Belchior nunca chegou \u00e0s alturas que ele frequenta desde sempre. Poder\u00edamos falar em Raul Seixas, como tamb\u00e9m em Renato Russo e suas letras quilom\u00e9tricas, nenhum dos dois, no entanto, apresentou algo t\u00e3o grandioso quanto \u201cHurricane\u201d, na qual conta a hist\u00f3ria real do boxeador Rubin Carter, conhecido como \u201cHurricane\u201d, para ficar apenas em uma de suas obras-primas:<br \/>\n<em>Pistol shots ring out in the barroom night<br \/>\nenter Patty Valentine from the upper hall.<br \/>\nshe sees the bartender in a pool of blood,<br \/>\ncries out, &#8220;my god, they killed them all!&#8221;<\/em><br \/>\n<em>here comes the story of the hurricane,<br \/>\nthe man the authorities came to blame<br \/>\nfor somethin&#8217; that he never done.<br \/>\nput in a prison cell, but one time he could-a been<br \/>\nthe champion of the world.<\/em><br \/>\n<em>Three bodies lyin&#8217; there does patty see<br \/>\nand another man named bello, movin&#8217; around mysteriously.<br \/>\n&#8220;I didn&#8217;t do it,&#8221; he says, and he throws up his hands<br \/>\n&#8220;I was only robbin&#8217; the register, i hope you understand.<br \/>\nI saw them leavin&#8217;,&#8221; he says, and he stops<br \/>\n&#8220;one of us had better call up the cops.&#8221;<\/em><br \/>\n<em>and so Patty calls the cops<br \/>\nand they arrive on the scene with their red lights flashin&#8217;<br \/>\nin the hot New Jersey night.<\/em><br \/>\n<em>Meanwhile, far away in another part of town<br \/>\nRubin Carter and a couple of friends are drivin&#8217; around.<br \/>\nnumber one contender for the middleweight crown<br \/>\nhad no idea what kind a shit was about to go down<\/em><br \/>\n<em>when a cop pulled him over to the side of the road<br \/>\njust like the time before and the time before that.<br \/>\nin Paterson that&#8217;s just the way things go.<br \/>\nIf you&#8217;re black you might as well not show up on the street<br \/>\n&#8216;less you wanna draw the heat.<br \/>\nAlfred Bello had a partner and he had a rap for the cops.<br \/>\nhim and Arthur Dexter Bradley were just out prowlin&#8217; around<br \/>\nhe said, &#8220;I saw two men runnin&#8217; out, they looked like middleweights<br \/>\nthey jumped into a white car with out-of-state plates.&#8221;<br \/>\nand miss Patty Valentine just nodded her head.<br \/>\ncop said, &#8220;wait a minute, boys, this one&#8217;s not dead&#8221;<\/em><br \/>\n<em>so they took him to the infirmary<br \/>\nand though this man could hardly see<br \/>\nthey told him that he could identify the guilty men.<\/em><br \/>\n<em>Four in the mornin&#8217; and they haul Rubin in,<br \/>\ntake him to the hospital and they bring him upstairs.<br \/>\nthe wounded man looks up through his one dyin&#8217; eye<br \/>\nsays, &#8220;wha&#8217;d you bring him in here for? he ain&#8217;t the guy!&#8221;<\/em><br \/>\n<em>yes, here&#8217;s the story of the hurricane,<br \/>\nthe man the authorities came to blame<br \/>\nfor somethin&#8217; that he never done.<br \/>\nput in a prison cell, but one time he could-a been<br \/>\nthe champion of the world.<\/em><br \/>\n<em>Four months later, the ghettos are in flame,<br \/>\nRubin&#8217;s in South America, fightin&#8217; for his name<br \/>\nwhile Arthur Dexter Bradley&#8217;s still in the robbery game<br \/>\nand the cops are puttin&#8217; the screws to him, lookin&#8217; for somebody to blame.<\/em><br \/>\n<em>&#8220;remember that murder that happened in a bar?&#8221;<br \/>\n&#8220;remember you said you saw the getaway car?&#8221;<br \/>\n&#8220;you think you&#8217;d like to play ball with the law?&#8221;<br \/>\n&#8220;think it might-a been that fighter that you saw runnin&#8217; that night?&#8221;<br \/>\n&#8220;don&#8217;t forget that you are white.&#8221;<\/em><br \/>\n<em>Arthur Dexter Bradley said, &#8220;I&#8217;m really not sure.&#8221;<br \/>\ncops said, &#8220;a poor boy like you could use a break<br \/>\nwe got you for the motel job and we&#8217;re talkin&#8217; to your friend Bello<br \/>\nnow you don&#8217;t wanna have to go back to jail, be a nice fellow.<br \/>\nyou&#8217;ll be doin&#8217; society a favor.<br \/>\nthat sonofabitch is brave and gettin&#8217; braver.<br \/>\nwe want to put his ass in stir<br \/>\nwe want to pin this triple murder on him<br \/>\nhe ain&#8217;t no gentleman jim.&#8221;<\/em><br \/>\n<em>Rubin could take a man out with just one punch<br \/>\nbut he never did like to talk about it all that much.<br \/>\nit&#8217;s my work, he&#8217;d say, and i do it for pay<br \/>\nand when it&#8217;s over I&#8217;d just as soon go on my way<br \/>\nup to some paradise<br \/>\nwhere the trout streams flow and the air is nice<br \/>\nand ride a horse along a trail.<br \/>\nbut then they took him to the jailhouse<br \/>\nwhere they try to turn a man into a mouse.<\/em><br \/>\n<em>All of Rubin&#8217;s cards were marked in advance<br \/>\nthe trial was a pig-circus, he never had a chance.<br \/>\nthe judge made Rubin&#8217;s witnesses drunkards from the slums<br \/>\nto the white folks who watched he was a revolutionary bum<br \/>\nand to the black folks he was just a crazy nigger.<br \/>\nno one doubted that he pulled the trigger.<br \/>\nand though they could not produce the gun,<br \/>\nthe d.a. said he was the one who did the deed<br \/>\nand the all-white jury agreed.<\/em><br \/>\n<em>Rubin Carter was falsely tried.<br \/>\nthe crime was murder &#8220;one,&#8221; guess who testified?<br \/>\nBello and Bradley and they both baldly lied<br \/>\nand the newspapers, they all went along for the ride.<br \/>\nhow can the life of such a man<br \/>\nbe in the palm of some fool&#8217;s hand?<br \/>\nto see him obviously framed<br \/>\ncouldn&#8217;t help but make me feel ashamed to live in a land<br \/>\nwhere justice is a game.<\/em><br \/>\n<em>Now all the criminals in their coats and their ties<br \/>\nare free to drink martinis and watch the sunrise<br \/>\nwhile Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell<br \/>\nan innocent man in a living hell.<\/em><br \/>\n<em>That&#8217;s the story of the Hurricane,<br \/>\nbut it won&#8217;t be over till they clear his name<br \/>\nand give him back the time he&#8217;s done.<br \/>\nput in a prison cell, but one time he could-a been<br \/>\nthe champion of the world.<\/em>\n<\/div>\n<div class=\"mobile-hide\"><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Na primeira entrevista, ainda um ilustre desconhecido, perguntaram a Dylan se quando ficasse rico e famoso continuaria usando chap\u00e9u. &#8216;Eu nunca vou ficar rico e famoso&#8217; respondeu. Cinco anos depois j\u00e1 tinha um avi\u00e3o particular&#8221;, diz Alex Solnik, ao comentar a trajet\u00f3ria de Bob Dylan, o novo Nobel de Literatura; &#8220;Viramos hippies por causa de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":40495,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-40488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 4.9.10 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"robots\" content=\"max-image-preview:large\" \/>\n\t<meta name=\"author\" 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