{"id":40590,"date":"2016-10-19T13:09:08","date_gmt":"2016-10-19T16:09:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40590"},"modified":"2016-10-19T13:09:08","modified_gmt":"2016-10-19T16:09:08","slug":"o-gol-de-letra-de-luiz-augusto-fischer-e-a-cancao-de-bob-dylan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-gol-de-letra-de-luiz-augusto-fischer-e-a-cancao-de-bob-dylan\/","title":{"rendered":"O gol de letra de Lu\u00eds Augusto Fischer e a can\u00e7\u00e3o de Bob Dylan"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse <\/span><br \/>\nPor uma c\u00f3smica coincid\u00eancia, rolaram apenas duas semanas entre o lan\u00e7amento do livro \u201cO Alcance da Can\u00e7\u00e3o\u201d no dia 28\/9 em Porto Alegre e o an\u00fancio em Estocolmo de que o Nobel de Literatura de 2016 vai para o poeta-m\u00fasico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos.<br \/>\nOs dois fatos em duas capitais t\u00e3o distantes t\u00eam algo em comum: reverenciam o poder da can\u00e7\u00e3o popular como uma das principais express\u00f5es art\u00edsticas da vida contempor\u00e2nea. Estocolmo e Porto Alegre no mesmo diapas\u00e3o&#8230; doce ilus\u00e3o.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-40592 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/alcance-da-can\u00e7\u00e3o-capa.jpg\" alt=\"alcance-da-cancao-capa\" width=\"324\" height=\"462\" \/>Enquanto Dylan acrescentou quatro milh\u00f5es de euros \u00e0 sua fortuna, os organizadores do livro ga\u00facho precisaram do apoio da FAPERGS para colocar de p\u00e9 um produto editorial digno de ser lan\u00e7ado num programa-de-audit\u00f3rio radiof\u00f4nico com canja de N estrelas da can\u00e7\u00e3o. Na real, o lan\u00e7amento foi na Palavraria, cujo espa\u00e7o n\u00e3o comporta mais do que um banquinho-e-um-viol\u00e3o.<br \/>\nCom 354 p\u00e1ginas, organizado por Lu\u00eds Augusto Fischer e Guto Leite, O \u201cAlcance da Can\u00e7\u00e3o\u201d cont\u00e9m 22 ensaios sobre diversos aspectos do trabalho de v\u00e1rios \u201ccancionistas\u201d, termo empregado para designar os autores de letras musicadas. Com tiragem de 2 mil exemplares, o livro foi publicado pela Arquip\u00e9lago Editorial.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Ousadia e coragem<\/span><br \/>\nSem d\u00favida, dar o polpudo galard\u00e3o para um cantor pop foi uma rara ousadia da \u00ednclita Academia de Ci\u00eancias da Su\u00e9cia, que n\u00e3o costuma confraternizar com gente ligada \u00e0 contracultura e, mesmo assim, premiou um \u00edcone da rebeldia juvenil dos anos 60. Mas, convenhamos, corajoso mesmo foi o Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ao criar, h\u00e1 25 anos, por iniciativa do professor LA Fischer, a disciplina Can\u00e7\u00e3o Popular, que vem ajudando a formar mestres e doutores em literatura brasileira. O que se estuda na UFRGS \u00e9 Noel Rosa, Jo\u00e3o Gilberto, Chico, Gil, Caetano, a milonga, a bossa nova, o samba-enredo e temas de origem estrangeira como Atahualpa Yupanqui e Bob Dylan, cujas can\u00e7\u00f5es exercem poderosa influ\u00eancia sobre a cultura popular<em> all over the world.<\/em><br \/>\nA entroniza\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o popular como tema de estudo na UFRGS talvez ajude a explicar porque a capital ga\u00facha, apesar de distante dos centros do poder administrativo e econ\u00f4mico-financeiro do pa\u00eds, mant\u00e9m caracter\u00edsticas de vanguarda cultural. Aqui viveram alguns trabalhadores intelectuais que bem poderiam ter ganho o Nobel liter\u00e1rio \u2013 Erico Verissimo, Mario Quintana, Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, Moacyr Scliar. E est\u00e3o por a\u00ed meia d\u00fazia de escritores com bagagem para viajar eventualmente a Estocolmo: LF Ver\u00edssimo, LA Assis Brasil, AG Schlee, Al Cheuiche, JC Pozenato e o pr\u00f3prio LA Fischer.<br \/>\nSem d\u00favida, as chances desses obreiros contempor\u00e2neos diminu\u00edram agora que os suecos abriram a porteira para a can\u00e7\u00e3o popular. Mas nessa nova categoria o Rio Grande do Sul e o Brasil poderiam concorrer com uma baita sele\u00e7\u00e3o de cancionistas atuantes em Porto Alegre, Pelotas, Fortaleza, Olinda, Bel\u00e9m, Campo Grande, Salvador, Vit\u00f3ria da Conquista, Belo Horizonte, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, entre outras pra\u00e7as musicais.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Antes tarde do que nunca<\/span><br \/>\nNa realidade, a pergunta emergente \u00e9: por que somente agora os membros da academia sueca se deram conta da import\u00e2ncia da can\u00e7\u00e3o popular como eixo da comunica\u00e7\u00e3o social no mundo moderno?<br \/>\nAo longo do s\u00e9culo XX a poesia popular foi difundida sobretudo pelo disco, o r\u00e1dio, o cinema e a TV \u2013 em muitos casos, com aguda estrid\u00eancia. A partir dos anos 1990, com a internet, a coisa se tornou um dos fen\u00f4menos culturais mais intensos da era cibern\u00e9tica, fundindo letras e m\u00fasicas em discos, filmes, shows de palco e TV.<br \/>\nMuito antes do Nobel, pr\u00eamios como o Oscar e o Grammy reconheceram o peso da can\u00e7\u00e3o popular no mix cultural da modernidade. Um quarto de s\u00e9culo atr\u00e1s, o curso de Letras da UFRGS avan\u00e7ou ao admitir que tal forma de express\u00e3o constitui um dos eixos formativos da cultura brasileira \u2013 e isso vem no m\u00ednimo desde Noel Rosa (1910-1937), que se viabilizou via disco+r\u00e1dio, quando o samba-enredo engatinhava nos bairros do Rio, d\u00e9cadas antes da bossa-nova. Para marcar esse gol, Fischer contou com a ajuda de Homero Araujo e Paulo Seben de Azevedo.<br \/>\nEis a\u00ed um bom pretexto para uma saud\u00e1vel manifesta\u00e7\u00e3o de bairrismo: enquanto os ca\u00e7adores de nobeis de literatura passavam os anos procurando e descartando talentos condensados em formato de livro, algu\u00e9m do Terceiro Mundo saltou na frente, plasmando o novo em pleno bairro Bom Fim, o bom e velho Bonfa onde circulou an\u00f4nimo o pr\u00f3prio Bob Dylan, ciceroneado por Eduardo Bueno, o Peninha, seu tradutor. Um achado &amp; um perdido nas noites fumacentas do portinho.<br \/>\nDepois do curso de Can\u00e7\u00e3o Popular, vem agora o livro aprofundar a leitura do fen\u00f4meno letra-e-m\u00fasica. Em \u201cO Alcance da Can\u00e7\u00e3o\u201d, um dos textos mais instigantes focaliza as vers\u00f5es brasileiras das letras de Bob Dylan. Nas primeiras duas p\u00e1ginas de seu longo ensaio (24 p\u00e1ginas), a mestra em literatura brasileira Demirse Merilva Rufatto tra\u00e7a um retrato profundo do artista que diluiu o<em> folk<\/em> americano no<em> showbiz<\/em> mundial &#8212; o que j\u00e1 bastaria para justificar sua nobeliza\u00e7\u00e3o. Mas Dylan foi mais do que isso. Ele se colocou e permaneceu no centro da m\u00fasica popular enquanto os Estados Unidos faziam das suas no Vietname, em Cuba e no Brasll, entre outros quintais, no af\u00e3 insano de conter o avan\u00e7o do comunismo, que acabou ruindo sozinho, sob o peso da dial\u00e9tica da Hist\u00f3ria.<br \/>\nO jornalista-escritor Louren\u00e7o Cazarr\u00e9, autor de uma carrada de livros, distribuiu aos seus amigos intern\u00e9ticos um desabafo dizendo que a escolha de Bob Dylan como Nobel de Literatura foi um lance de marketing da Academia de Ci\u00eancias da Su\u00e9cia, cujo objetivo seria afagar cora\u00e7\u00f5es e mentes de centenas de milh\u00f5es de f\u00e3s do cancionista americano.<br \/>\nSegundo o escritor-jornalista, que se criou em Pelotas e vive em Bras\u00edlia, os acad\u00eamicos suecos devem ter pensado assim: \u201cPor que conceder o Nobel a um poeta qualquer, que deve ter 1.300 leitores em seu pa\u00eds e mais 859 espalhados pelo mundo, se podemos conced\u00ea-lo a um astro da m\u00fasica pop, tocado no mundo inteiro?\u201d Faz sentido, mas estaria o Nobel precisando de publicidade?<br \/>\nO an\u00fancio do pr\u00eamio a Dylan bateu recordes em todas as m\u00eddias. \u201cA entrega do Nobel a um poeta qualquer, da Tail\u00e2ndia ou da R\u00fassia, nem seria percebida\u201d, argumenta Cazarr\u00e9, para concluir: \u201cO pr\u00eamio Nobel, cuja atribui\u00e7\u00e3o sempre foi pol\u00edtica, passou a girar agora &#8212; como tudo mais &#8212; em fun\u00e7\u00e3o do <em>marketing<\/em>.\u201d<br \/>\nA hip\u00f3tese \u00e9 bastante plaus\u00edvel, do ponto de vista da academia sueca, mas fica a d\u00favida: os curadores do Nobel correriam o risco de indicar algu\u00e9m capaz de recusar a honraria? Seria Dylan capaz de chutar o balde? Nem pensar: no mundo capitalista (e at\u00e9 no que resta do comunismo), ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia desprezaria tantos milh\u00f5es de euros.<br \/>\nSendo o <em>marketing<\/em> uma via de m\u00e3o dupla e Bob Dylan um cara bastante ligado no vil metal (como bem lembrou um \u00e1cido Belchior numa letra de 1976), podemos concluir que rolou a\u00ed um bom neg\u00f3cio para ambos os lados, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Nesse aspecto, ali\u00e1s, vale a pena ler em \u201cO Alcance da Can\u00e7\u00e3o\u201d o ensaio da jornalista Katia Suman sobre a influ\u00eancia do jab\u00e1 (propina) na difus\u00e3o da m\u00fasica no r\u00e1dio e na TV.<br \/>\nA nobeliza\u00e7\u00e3o de Dylan est\u00e1 rendendo pano pra muita manga. Se era isso que pretendia com o Nobel de Literatura de 2016 \u2013 bajular os f\u00e3s de um monstro sagrado da can\u00e7\u00e3o popular com objetivos pol\u00edtico-mercadol\u00f3gicos&#8211;, a Academia de Ci\u00eancias da Su\u00e9cia marcou um gol de placa. Com alguma controv\u00e9rsia, naturalmente.<br \/>\nPor exemplo, logo de cara se acreditou que a escolha foi atribu\u00edda aos livros de depoimentos e mem\u00f3rias lan\u00e7ados recentemente pelo artista. Nesse caso, teria sido uma bola fora da academia sueca. Se fosse o caso de premiar o livro de um cantor-compositor, por que os suecos n\u00e3o consideraram a densa \u201cVerdade Tropical\u201d de Caetano Velloso?<br \/>\nNesse livro de 1997, com 524 p\u00e1ginas editadas pela Companhia das Letras, o <em>vate<\/em> baiano escreveu sobre Dylan (p\u00e1gina 272): \u201cEle \u00e9 uma figura a um tempo central e \u00e0 parte no panorama dos anos 60 \u2013 e um tra\u00e7o forte do s\u00e9culo. Um dos mais impressionantes exemplos da pujan\u00e7a criativa da cultura popular americana, da cultura popular americano <em>tout court<\/em>. No momento em que os ingleses dominavam o jogo com sua vers\u00e3o do <em>rock\u2019n\u2019roll<\/em> do lado de l\u00e1 do Atl\u00e2ntico, do lado de c\u00e1 Dylan j\u00e1 apresentava o espessamento desse caldo em que Beatles e Rolling Stones beberam, mostrando onde est\u00e1 a nascente e de onde jorra a energia\u201d.<br \/>\nDiante de uma s\u00edntese t\u00e3o generosa sobre o alcance da obra de Bob Dylan, cabe indagar se o pr\u00f3prio astro pop americano seria capaz de escrever algo equivalente sobre Caetano ou sobre Chico Buarque ou Gilberto Gil, tr\u00eas caras que ficaram aqui ralando na contracultura do subdesenvolvimento latino-americano enquanto o imperialismo ianque sobrevoava o planeta, fazendo espionagem aqui e lan\u00e7ando bombas ali, com apoio de uma parafern\u00e1lia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Por uma c\u00f3smica coincid\u00eancia, rolaram apenas duas semanas entre o lan\u00e7amento do livro \u201cO Alcance da Can\u00e7\u00e3o\u201d no dia 28\/9 em Porto Alegre e o an\u00fancio em Estocolmo de que o Nobel de Literatura de 2016 vai para o poeta-m\u00fasico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos. 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