{"id":40916,"date":"2016-11-01T08:58:32","date_gmt":"2016-11-01T11:58:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40916"},"modified":"2016-11-01T08:58:32","modified_gmt":"2016-11-01T11:58:32","slug":"moro-num-pais-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/moro-num-pais-desigual\/","title":{"rendered":"&quot;Moro num pa\u00eds desigual&#8230;&quot;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse <\/span><br \/>\nPara um pobre mortal situado na base da pir\u00e2mide social, \u00e9 afrontoso ver os senhores magistrados aceitarem o benef\u00edcio do aux\u00edlio-moradia alegando que \u00e9 legal e que uma recusa, ostensiva ou discreta, seria mal vista pela categoria. Nisso, ao contr\u00e1rio da lenda, a magistratura n\u00e3o foi lerda. At\u00e9 onde se sabe, nenhum juiz teve coragem de recusar o aux\u00edlio- moradia, o mais recente privil\u00e9gio da categoria funcional mais bem remunerada do pa\u00eds.<br \/>\nA mordomia habitacional dos magistrados \u00e9 acintosa quando se pensa que essa casta \u00e9 protegida constitucionalmente por tr\u00eas invej\u00e1veis garantias: indemissilidade, inamovilidade e irredutibilidade dos sal\u00e1rios.<br \/>\nEssa trinca de \u201cades\u201d foi institucionalizada para que os magistrados fiquem teoricamente livres de persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e de tenta\u00e7\u00f5es corruptivas, podendo assim se dedicar \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e \u00e0 busca do bem comum. Entretanto, bem remunerados e com a carreira garantida, muitos deles se deixam seduzir pelo brilho f\u00e1cil das entrevistas e palestras.<br \/>\nNo momento, os mais picados pela mosca azul do poder s\u00e3o o juiz Sergio Moro, o ministro Gilmar Mendes e a nova presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen L\u00facia.<br \/>\nPor mais meritocr\u00e1tico que seja, o sistema do Judici\u00e1rio abriga e cultiva \u00a0privil\u00e9gios incompat\u00edveis com o est\u00e1gio de (sub)desenvolvimento do Brasil.<br \/>\nSeria muito mais justo se o dinheiro do auxilio-moradia fosse aplicado em favor da seguran\u00e7a do patrim\u00f4nio p\u00fablico &#8212; escolas, creches e postos de sa\u00fade \u2013 frequentemente depredado por gente sem no\u00e7\u00e3o de direitos e deveres sociais. Mas quem vai dizer \u2013 \u201cEu passo, n\u00e3o vou aceitar\u201d?<br \/>\nComo est\u00e3o no topo da escala salarial do funcionalismo, eles poderiam dispensar benesses que afrontem o esp\u00edrito democr\u00e1tico. Seriam aplaudidos pela popula\u00e7\u00e3o. No entanto, o que se v\u00ea \u00e9 a maioria dos magistrados fazendo for\u00e7a para entrar para o clube da elite pensante, aquela que s\u00f3 pensa em si.<br \/>\nAl\u00e9m de n\u00e3o ter coragem de corrigir distor\u00e7\u00f5es como as f\u00e9rias de 60 dias, que agridem a cidadania, a maioria dos magistrados adota como seu o estilo de vida da classe dominante, ignorando o fato de que a maioria dos brasileiros est\u00e1 digerindo o trauma do impedimento presidencial e o triste espet\u00e1culo da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<br \/>\nNa vida p\u00fablica, o exemplo \u00e9tico \u00e9 fundamental. Sem ele, n\u00e3o se constr\u00f3i um pa\u00eds equilibrado e feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Para um pobre mortal situado na base da pir\u00e2mide social, \u00e9 afrontoso ver os senhores magistrados aceitarem o benef\u00edcio do aux\u00edlio-moradia alegando que \u00e9 legal e que uma recusa, ostensiva ou discreta, seria mal vista pela categoria. Nisso, ao contr\u00e1rio da lenda, a magistratura n\u00e3o foi lerda. 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