{"id":4123,"date":"2009-04-17T06:00:32","date_gmt":"2009-04-17T09:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=4123"},"modified":"2009-04-17T06:00:32","modified_gmt":"2009-04-17T09:00:32","slug":"febre-amarela-mata-seis-na-pequenissima-piraju","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/febre-amarela-mata-seis-na-pequenissima-piraju\/","title":{"rendered":"Febre amarela mata seis na pequen\u00edssima Piraju"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Carina Paccola | De S\u00e3o Paulo, especial para o J\u00c1<\/span><br \/>\nLonge dos holofotes da m\u00eddia, na pequena cidade de Piraju, no vale do rio Paranapanema, a febre amarela silvestre matou seis pessoas em apenas seis dias. J\u00e1 s\u00e3o 10 no estado este ano. Outros dois casos suspeitos ainda est\u00e3o esperando resultado de exames para confirma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom a morte de uma mo\u00e7a de 20 anos em Botucatu na quinta-feira (dia 9), est\u00e3o confirmadas 10 mortes por febre amarela de um total de 23 casos da doen\u00e7a no Estado de S\u00e3o Paulo entre mar\u00e7o e abril deste ano. O n\u00famero de mortes \u00e9 cinco vezes maior do que as ocorridas em 2008 pela doen\u00e7a, em todo o Estado \u2013 foram duas, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Todos os casos s\u00e3o de febre amarela silvestre, conforme informa\u00e7\u00f5es oficiais. O \u00edndice de letalidade est\u00e1 em mais de 40%.<br \/>\nOs n\u00fameros podem crescer nos pr\u00f3ximos dias, quando forem divulgados os resultados dos exames que podem comprovar se os irm\u00e3os Saulo e Gustavo do Val, de Piraju (cidade a 314 quil\u00f4metros da Capital), tamb\u00e9m foram v\u00edtimas da febre amarela. A Secretaria Municipal de Sa\u00fade contesta os atestados de \u00f3bito dos irm\u00e3os do Val porque eles n\u00e3o est\u00e3o acompanhados dos resultados dos exames.<br \/>\nCom 29 mil habitantes e cortada pelo Rio Paranapanema, Piraju registra at\u00e9 agora o maior n\u00famero de \u00f3bitos por febre amarela: s\u00e3o seis, sem contar os irm\u00e3os do Val. Se eles entrarem na conta, s\u00e3o oito mortes, em dez dias, e com um \u00edndice de mais de 60% de letalidade. As outras quatro mortes no Estado ocorreram em Sarutai\u00e1, Itatinga, Buri e Botucatu. Essas regi\u00f5es agora s\u00e3o consideradas \u00e1reas de risco, e est\u00e1 sendo recomendada a vacina para quem viaja para esses locais.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Hist\u00f3rias das v\u00edtimas<\/span><br \/>\nA primeira v\u00edtima fatal no interior paulista este ano foi M\u00e1rcia Maria, de Sarutai\u00e1, cidade vizinha a Piraju. A confirma\u00e7\u00e3o veio do hospital da Unesp em Rubi\u00e3o, na regi\u00e3o de Botucatu, onde ela estava internada. \u201cEra sexta-feira, 13, e a not\u00edcia caiu como uma bomba porque nunca tivemos a doen\u00e7a na cidade\u201d, diz o diretor de sa\u00fade do munic\u00edpio, Osmar Soares Freschi. Outras cinco pessoas que tiveram a doen\u00e7a em Sarutai\u00e1 se recuperaram.<br \/>\nConforme informa\u00e7\u00f5es de Freschi, foi montada uma for\u00e7a-tarefa na cidade para com aux\u00edlio da Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica de Botucatu e equipes de S\u00e3o Paulo, Botucatu, Avar\u00e9 e Piraju. \u00c0s 8h da segunda-feira, dia 16, teve in\u00edcio a vacina\u00e7\u00e3o de casa em casa. O trabalho, at\u00e9 \u00e0s 22h, se repetiu at\u00e9 sexta-feira. \u201cAplicamos 4.100 doses da vacina na cidade e na zona rural. Como o IBGE aponta uma popula\u00e7\u00e3o de 3.789, consideramos que todos foram vacinados\u201d, diz Freschi.<br \/>\nO v\u00edrus da febre amarela pode estar circulando na regi\u00e3o h\u00e1 bem mais tempo. A Sucen (Superintend\u00eancia de Controle de Endemias) do Estado investiga se uma morte ocorrida em setembro de 2008, tamb\u00e9m em Piraju, pode ter sido de febre amarela.<br \/>\nNo dia 23 de mar\u00e7o, morreu a primeira v\u00edtima em Piraju, o pedreiro Fl\u00e1vio Teles, de 47 anos. Ele sentiu os primeiros sintomas no domingo de Carnaval, 22 de fevereiro. A coordenadora da Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica da cidade, Neide Maria Silvestre, considera que este caso fugiu \u00e0s regras. \u201cFoi um per\u00edodo longo at\u00e9 o \u00f3bito, levando-se em conta que a febre amarela \u00e9 uma doen\u00e7a aguda e s\u00fabita\u201d, explica.<br \/>\nConforme conta a dona-de-casa Rita Batista de Souza, que vivia com Teles havia 14 anos, naquele domingo ele amanheceu passando mal, com dor de cabe\u00e7a. \u201cNo hospital, foi medicado com rem\u00e9dio para sinusite\u201d, conta. Depois disso, foram dias de uma via-sacra de casa para o posto de sa\u00fade e o hospital, com febre, v\u00f4mito e dores. \u201cEle passava um per\u00edodo internado, era medicado com soro, voltava para casa e s\u00f3 piorava. Ele emagreceu muito, se acabou\u201d, diz.<br \/>\nA \u00faltima interna\u00e7\u00e3o de Teles foi no dia 17 de mar\u00e7o, uma ter\u00e7a-feira. Nesse mesmo dia, o filho dele, Fl\u00e1vio Teles J\u00fanior, de 14 anos, come\u00e7ou a sentir febre. Ele seria a segunda v\u00edtima fatal da doen\u00e7a. Rita lembra que foi dif\u00edcil ter que socorrer o pai e o filho, que era seu enteado. \u201cQuando o menino chegou da escola na hora do almo\u00e7o, ele reclamou de febre. Eu disse a ele: \u2018Eu vou internar seu pai e j\u00e1 volto pra cuidar de voc\u00ea\u2019. Quando eu voltei, ele j\u00e1 estava com dor de cabe\u00e7a. Chamei a ambul\u00e2ncia e o levei tamb\u00e9m para o hospital. L\u00e1 ele tomou soro e recebeu alta\u201d.<br \/>\nNa quarta, 18, com a piora do estado do rapaz, o m\u00e9dico que j\u00e1 estava cuidando do pedreiro solicitou exames de Fl\u00e1vio Teles J\u00fanior e o transferiu para o hospital da Unesp em Botucatu. \u201cAntes, o m\u00e9dico n\u00e3o pensava que meu marido estava com febre amarela por causa do tempo que ele estava doente. O pior foi que contaram para ele que seu filho tamb\u00e9m estava mal. Ele ficou muito nervoso\u201d, fala Rita.<br \/>\nNa quinta, o pai tamb\u00e9m foi transferido para Botucatu e, naquela noite, entrou em coma. Na sexta, dia 20, a Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica de Piraju recebeu a confirma\u00e7\u00e3o de que Teles estava com febre amarela. No dia seguinte, come\u00e7ou a campanha de vacina\u00e7\u00e3o na cidade.<br \/>\nFl\u00e1vio Teles pai morreu na segunda-feira, dia 23. O filho dele quatro dias depois, em 27 de mar\u00e7o. Segundo Rita, o marido costumava andar pela mata na regi\u00e3o, fazendo servi\u00e7os gerais, e o menino o acompanhava. \u201cSinto muita falta dele. Eu sonho com ele, mas no sonho ele est\u00e1 forte; a doen\u00e7a acabou com ele\u201d, diz Rita. Agora, ela vive sozinha com a neta do marido, Maria de F\u00e1tima, de oito anos. \u201cA guarda da menina \u00e9 nossa\u201d, diz. Rita agora vai ter de trabalhar. A fam\u00edlia mora na Vila S\u00e3o Pedro, um dos bairros mais pobres de Piraju.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Doen\u00e7a n\u00e3o conhece idade<\/span><br \/>\nNo n\u00famero 12 da rua Sebasti\u00e3o do Val, mora Dona Francisca dos Santos, de 87 anos, que perdeu a filha Rosana, de 42 anos, no dia 29 de mar\u00e7o. \u201cEla come\u00e7ou a reclamar de dor na perna e de frio. Ela sentia muito calafrio. Foi internada num domingo, mandaram pra Rubi\u00e3o e ela morreu no outro domingo\u201d, lembra a m\u00e3e. Dona Francisca agora mora com seu outro filho, de 56 anos, e os tr\u00eas netos, deixados por Rosana: duas mo\u00e7as, de 26 e 19 anos, e um adolescente, de 13.<br \/>\n\u201cRosana era uma mo\u00e7a muito trabalhadeira, era minha companheira. A gente trabalhava na colheita de caf\u00e9\u201d, diz dona Francisca. A suspeita \u00e9 que a mo\u00e7a tenha sido picada pelo mosquito da febre amarela numa mata onde costumava buscar banana e milho. Foi na companhia de Rosana que a vizinha dos fundos, Jovina de Souza, de 30 anos, entrou na mata para catar bananas no final da sua gravidez.<br \/>\nJovina conta que na v\u00e9spera de dar \u00e0 luz sentiu dor de cabe\u00e7a e estava com febre. O beb\u00ea, Evelyn Gabrieli, nasceu de parto normal no dia 16 de mar\u00e7o e as duas logo receberam alta. Dois dias depois, por volta das 22 horas, Jovina e o beb\u00ea voltaram \u00e0 Santa Casa de Piraju porque a menina estava com 39 graus de febre. \u201cA Rosana foi junto e ficamos l\u00e1 at\u00e9 1h30. O m\u00e9dico receitou Tylenol\u201d, lembra Jovina. No dia seguinte pela manh\u00e3, ela levou a filha ao Posto de Sa\u00fade porque a menina continuava com febre. \u201cO m\u00e9dico do posto mandou internar eu e a menina porque n\u00f3s duas est\u00e1vamos com febre\u201d.<br \/>\nDurante cinco dias de interna\u00e7\u00e3o, Jovina foi melhorando e a filha s\u00f3 piorava. \u201cEla at\u00e9 parou de mamar. A\u00ed mandaram a gente pra internar em Rubi\u00e3o com suspeita de febre amarela\u201d. Evelyn Gabrieli morreu dia 28, com 12 dias de vida. Jovina ainda esperou mais quatro dias at\u00e9 receber alta.<br \/>\nJovina ainda sente dor de cabe\u00e7a e precisa fazer repouso. Toda semana tem de voltar ao hospital em Rubi\u00e3o para fazer exames. \u201cMinha cabe\u00e7a est\u00e1 um balaio. O pai dela ainda n\u00e3o sabe (da morte da filha) porque ele est\u00e1 preso perto de S\u00e3o Paulo. \u201cVou mandar uma carta pra contar. Vai ser um baque\u201d, diz Jovina, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e de Everson, de oito anos.<br \/>\nEla trabalha na ro\u00e7a. Parou de trabalhar tr\u00eas meses antes de ter o beb\u00ea. \u201cEu era muito amiga da Rosana. Sou madrinha de uma filha dela. Agora eu perdi uma amiga e minha filha. A gente andava muito pro meio do mato pra catar milho, banana. A m\u00e9dica diz que eu posso ter passado febre amarela pro beb\u00ea pela placenta\u201d, afirma.<br \/>\nNa fazenda onde Jovina e Rosana iam catar milho morreram no dia 27 de mar\u00e7o o administrador Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Freitas, de 51 anos, e outro funcion\u00e1rio de nome Fl\u00e1vio.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Vacina\u00e7\u00e3o em massa<\/span><br \/>\nSegundo a Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica de Piraju, 98,07% da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o vacinados. \u201cAssim que eu recebi a confirma\u00e7\u00e3o de Botucatu de que t\u00ednhamos uma v\u00edtima de febre amarela na cidade, no dia 20, eu convoquei por telefone os funcion\u00e1rios da Sa\u00fade e montamos as equipes que come\u00e7aram a trabalhar no s\u00e1bado. No primeiro final de semana, vacinamos mais de 13 mil pessoas\u201d, conta a coordenadora da Vigil\u00e2ncia, Neide Maria Silvestre.<br \/>\nAt\u00e9 agora houve 11 casos confirmados da doen\u00e7a em Piraju, onde a doen\u00e7a parece estar sob controle, como diz Neide. Para montar o esquema de vacina\u00e7\u00e3o no munic\u00edpio, foi preciso utilizar o estoque de vacinas da regi\u00e3o. \u201cPiraju n\u00e3o era \u00e1rea de risco, ent\u00e3o esta vacina n\u00e3o fazia parte do nosso calend\u00e1rio. E n\u00f3s ainda continuamos vacinando\u201d.<br \/>\nSegundo ela, a not\u00edcia a deixou assustada. \u201cTinha d\u00favida se a popula\u00e7\u00e3o iria responder ao chamado, mas a todo mundo se vacinou e fizemos mutir\u00e3o de limpeza, retirada de lixo, orienta\u00e7\u00e3o e nebuliza\u00e7\u00e3o pelo pessoal da Sucen\u201d, conta.<br \/>\nA nebuliza\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para eliminar os focos do Aedes Aegypitm, que \u00e9 o vetor da febre amarela na \u00e1rea urbana, que est\u00e1 erradicada no Brasil desde 1942. Na \u00e1rea silvestre, o vetor \u00e9 o mosquito Haemagogus. A Secretaria do Estado da Sa\u00fade informa que todos os casos da doen\u00e7a no Estado s\u00e3o do tipo silvestre. Para chegar a essa informa\u00e7\u00e3o, a Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica estuda caso a caso.<br \/>\nSegundo Neide Silvestre, a investiga\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica tem dois focos: o doente e o mosquito. \u201cFazemos um levantamento de todos os passos do doente at\u00e9 15 dias antes dos primeiros sintomas. Em todos os casos at\u00e9 agora, as v\u00edtimas tinham liga\u00e7\u00e3o com a mata\u201d, diz. Na investiga\u00e7\u00e3o do mosquito, o trabalho \u00e9 feito com a Sucen, Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cAt\u00e9 agora tudo indica que seja febre amarela silvestre, de mato\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Foco desconhecido<\/span><br \/>\nDe acordo com a Vigil\u00e2ncia de Piraju, toda a \u00e1rea de mata da regi\u00e3o foi investigada e n\u00e3o foi encontrado nenhum macaco morto, nem doente e nenhuma carca\u00e7a do animal, o que \u00e9 muito diferente do habitual.<br \/>\nO professor da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo Alm\u00e9rio de Castro Gomes, m\u00e9dico especializado em doen\u00e7as transmitidas por vetores, explica que o hospedeiro definitivo do v\u00edrus \u00e9 o mosquito e n\u00e3o o macaco. Segundo ele, o v\u00edrus nasce no mosquito. Com a picada no macaco, h\u00e1 a multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que vai infectar outros mosquitos. \u201cO v\u00edrus existe em outros vetores na mata, mas o principal deles \u00e9 o Haemagogus que \u00e9 o que transmite para o homem\u201d, afirma.<br \/>\nDe acordo com o professor, no Brasil n\u00e3o existe mosquito que fa\u00e7a a ponte entre o campo e a cidade, uma vez que o Haemagogus s\u00f3 vive no mato e o Aedes aegipty s\u00f3 na cidade. \u201cMas existem mosquitos candidatos e \u00e9 preciso que as autoridades de sa\u00fade estejam atentas, monitorando esses vetores\u201d, diz.<br \/>\nCastro Gomes cita o Aedes albopictus que na \u00c1sia faz esse elo de liga\u00e7\u00e3o entre as \u00e1reas silvestres e urbanas. No Brasil, este vetor j\u00e1 est\u00e1 presente em 23 estados. \u201cEle vive mais na periferia que s\u00e3o \u00e1reas mais arborizadas e \u00e9 preciso monitor\u00e1-lo para n\u00e3o sermos surpreendidos\u201d, afirma. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da febre amarela, Castro Gomes afirma que n\u00e3o se sabe ainda como \u00e9 o mecanismo de expans\u00e3o do v\u00edrus.<br \/>\nSegundo o pesquisador, o surgimento de eventos da doen\u00e7a ocorre num per\u00edodo de cinco a dez anos, conforme a suscetibilidade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cA febre amarela tem uma taxa alt\u00edssima de letalidade, de 60%, por isso a vacina\u00e7\u00e3o deve ser prioridade para a sa\u00fade p\u00fablica. A doen\u00e7a tamb\u00e9m deixa seq\u00fcelas e tem conseq\u00fc\u00eancias econ\u00f4micas. Um evento urbano de febre amarela tem forte repercuss\u00e3o internacional, por isso \u00e9 preciso muita aten\u00e7\u00e3o das autoridades de sa\u00fade\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Fora das estat\u00edsticas<\/span><br \/>\nAs mortes dos irm\u00e3os Saulo e Gustavo do Val ainda n\u00e3o entram nas estat\u00edsticas oficiais da febre amarela. A Secretaria do Estado da Sa\u00fade est\u00e1 investigando os casos, \u00e0 espera dos resultados de exames. O comerciante Saulo, de 34 anos, morreu no dia 29 de mar\u00e7o, no Hospital Miseric\u00f3rdia, em Botucatu. O advogado Gustavo, de 30 anos, morreu cinco dias depois, em 3 de abril, na Santa Casa de S\u00e3o Carlos.<br \/>\nA fam\u00edlia do Val n\u00e3o tem d\u00favidas de que os dois s\u00e3o v\u00edtimas da febre amarela. Falta esclarecer, no entanto, se a doen\u00e7a foi causada pela vacina ou pela picada do mosquito. A vacina contra febre amarela seria contra-indicada para ambos por serem portadores de uma doen\u00e7a auto-imune.<br \/>\nSegundo a coordenadora da Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica de Piraju, Neide Silvestre, o servi\u00e7o de sa\u00fade do munic\u00edpio teria negado as vacinas aos irm\u00e3os. \u201cNum primeiro momento n\u00f3s recusamos a vacina, mas eles voltaram com autoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico deles, por telefone\u201d, disse, em entrevista.<br \/>\nA fam\u00edlia contesta a informa\u00e7\u00e3o. Segundo a esposa de Saulo, a professora de m\u00fasica Kelly Cristina de Oliveira do Val, 33 anos, ela e o marido foram ao Posto de Sa\u00fade da Vila Cantizani no primeiro dia de vacina\u00e7\u00e3o, em 21 de mar\u00e7o, por volta das 11 horas para tomar a vacina. \u201cHavia um cartaz escrito \u00e0 m\u00e3o com orienta\u00e7\u00e3o sobre as contra-indica\u00e7\u00f5es da vacina. Como ele tomava cortic\u00f3ide, fui conversar com a enfermeira-chefe que disse que achava melhor ele n\u00e3o se vacinar. Ent\u00e3o eu disse a ele para consultarmos antes o m\u00e9dico\u201d, conta Kelly.<br \/>\nEnquanto Kelly perguntava \u00e0 enfermeira qual seria a conseq\u00fc\u00eancia se ele tomasse, Saulo foi se encaminhando para a fila da vacina. \u201cEla me explicou que ele poderia ficar depressivo e quando olhei para o lado ele j\u00e1 estava sendo vacinado\u201d, afirma. Ela conta que, na segunda-feira, dia 23, ele sentiu-se mal e teve dor de cabe\u00e7a. \u201cLiguei para o m\u00e9dico dele, um endocrinologista de Botucatu, para marcar consulta, mas ele disse que n\u00e3o havia hor\u00e1rio e era para consultarmos um cl\u00ednico geral em Piraju mesmo. E me disse que eu estava apavorada \u00e0 toa, que a vacina n\u00e3o traria problema\u201d.<br \/>\nO cl\u00ednico geral pediu exames de c\u00e1lcio, pot\u00e1ssio e urina que apontaram resultado normal. O m\u00e9dico disse que era uma \u201cgripinha\u201d e receitou antibi\u00f3tico caso a febre persistisse. Na quinta-feira, Saulo estava com 40 graus de febre. Na sexta-feira, foi internado por volta das 17 horas para tomar soro e vitamina. \u00c0 noite o m\u00e9dico pediu exames de sangue que ficaram prontos no s\u00e1bado por volta das 11h e outros s\u00f3 \u00e0s 16h. \u201cAs enzimas hep\u00e1ticas estavam a mais de mil, quando o normal \u00e9 at\u00e9 35\u201d.<br \/>\nKelly conta que depois do almo\u00e7o de s\u00e1bado o marido j\u00e1 estava com os dedos dos p\u00e9s e das m\u00e3os arroxeados. \u201cN\u00e3o havia m\u00e9dico no hospital, e um enfermeiro o transferiu para a UTI. Come\u00e7amos ent\u00e3o pedir que ele fosse transferido para Botucatu, o que s\u00f3 aconteceu por volta das 18 horas. A\u00ed ent\u00e3o o cl\u00ednico geral disse que o quadro havia evolu\u00eddo para o que hav\u00edamos previsto. Ele disse que n\u00e3o havia mais o que fazer\u201d.<br \/>\nUma das irm\u00e3s de Saulo, a cardiologista Valqu\u00edria do Val Roso, que mora em S\u00e3o Bernardo do Campo, afirma que ele foi transferido de forma inadequada para Botucatu. \u201cNa situa\u00e7\u00e3o em que o f\u00edgado dele estava, era preciso imobiliz\u00e1-lo; e at\u00e9 ent\u00e3o ele n\u00e3o havia recebido nada no hospital que fosse espec\u00edfico para suspeita de febre amarela, como plasma e plaquetas. J\u00e1 havia casos na cidade, era preciso que a Vigil\u00e2ncia enviasse um infectologista que ficasse de plant\u00e3o na cidade para esses casos\u201d, afirma.<br \/>\nEm Botucatu, Saulo passou a receber tratamento adequado, mas o quadro s\u00f3 foi piorando. Teve os rins paralisados, o pulm\u00e3o comprometido e as enzimas hep\u00e1ticas foram a mais de 12 mil. Teve parada card\u00edaca \u00e0s 18 horas no domingo, 29. O atestado que aponta a febre amarela como causa do \u00f3bito foi assinado por seu m\u00e9dico particular Ant\u00f4nio Carlos Carneiro. A Secretaria de Sa\u00fade de Piraju contesta o laudo. \u201cEle estava internado fazia mais de 24 horas, foi atendido por um infectologista da Unesp e o quadro evoluiu como febre amarela\u201d, diz Valqu\u00edria, a irm\u00e3.<br \/>\nO irm\u00e3o ca\u00e7ula da fam\u00edlia do Val tomou a vacina contra a febre amarela na quinta-feira, 26, antes da morte de Saulo. O fato de Saulo ter uma planta\u00e7\u00e3o de eucalipto levantava a suspeita de que poderia ter sido picado pelo mosquito Haemagogus na mata. \u201cO Gustavo tentou falar com o m\u00e9dico dele em S\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o conseguiu e resolveu tomar a vacina\u201d, conta a cunhada Kelly.<br \/>\nGustavo foi a outro Posto de Sa\u00fade, o Post\u00e3o, junto com sua m\u00e3e, dona Ondina. Ela conta que ningu\u00e9m perguntou nada sobre se eles tomavam algum tipo de medica\u00e7\u00e3o. Gustavo, que n\u00e3o freq\u00fcentava nenhuma mata, come\u00e7ou a se queixar de dor de cabe\u00e7a e dor de ouvido durante o vel\u00f3rio do irm\u00e3o, na segunda-feira, dia 30. Ajudou a carregar o caix\u00e3o do irm\u00e3o e prometeu \u00e0 cunhada que ajudaria a cuidar das filhas de Saulo, Let\u00edcia, de 4 anos, e Maria Fernanda, de 2.<br \/>\nNa ter\u00e7a, ele j\u00e1 estava com febre de 40 graus. \u201c\u00c0 noite ele me telefonou e pediu para que eu o levasse de Piraju\u201d, conta Valqu\u00edria. Ela, ent\u00e3o, telefonou para o irm\u00e3o mais velho, Nestor do Val Neto, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e9dico e trabalha em S\u00e3o Carlos. \u201cDecidimos ent\u00e3o lev\u00e1-lo para S\u00e3o Carlos onde ele poderia ser melhor atendido\u201d, conta Valqu\u00edria.<br \/>\nPor volta das 2h30 da madrugada de quarta-feira, deixaram Piraju dona Ondina, Gustavo e seus irm\u00e3os Regina e Jo\u00e3o. \u201cChegamos por volta das 6h. Antes das 8h ele j\u00e1 estava sendo internado\u201d, conta a m\u00e3e. O quadro de sa\u00fade foi se agravando, mesmo com plaquetas, plasma e di\u00e1lise. \u201cA evolu\u00e7\u00e3o foi muito r\u00e1pida. Na quinta de manh\u00e3zinha ele j\u00e1 estava com insufici\u00eancia respirat\u00f3ria. S\u00f3 foi piorando\u201d, conta Valqu\u00edria. Na sexta-feira, Gustavo morreu por volta das 17 horas.<br \/>\nDesta vez o atestado foi assinado por Valqu\u00edria, uma vez que o hospital s\u00f3 forneceria o documento que atestasse a morte \u201cpor causas desconhecidas\u201d. O hospital tamb\u00e9m se recusou a fazer bi\u00f3psia do f\u00edgado do irm\u00e3o. \u201cN\u00f3s insistimos muito. Meu irm\u00e3o Neto at\u00e9 se disp\u00f4s a fazer a bi\u00f3psia, mas a dire\u00e7\u00e3o do hospital disse que dever\u00edamos procurar o SVO (Servi\u00e7o de Verifica\u00e7\u00e3o de \u00d3bito) que fica em Ribeir\u00e3o Preto. Eu n\u00e3o podia fazer isso com minha m\u00e3e, que tinha acabado de enterrar um filho\u201d, explica Valqu\u00edria.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A doen\u00e7a<\/span><br \/>\nDoen\u00e7a febril aguda, com caracter\u00edstica hemorr\u00e1gica. Compromete o f\u00edgado, d\u00e1 icter\u00edcia (por isso a cor amarelada). A defini\u00e7\u00e3o \u00e9 da m\u00e9dica infectologista respons\u00e1vel pelo Ambulat\u00f3rio de Viajantes do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo, T\u00e2nia Chaves.<br \/>\nSegundo ela, cerca de 40% a 60% das pessoas s\u00e3o imunes ao v\u00edrus da febre amarela, ou seja, podem ter a doen\u00e7a e passar despercebido, sem nenhum sintoma; 30% podem ter a doen\u00e7a de forma moderada, com febre, dor de cabe\u00e7a, dor no corpo, mal estar e v\u00f4mito; e 10% v\u00e3o desenvolver a doen\u00e7a de forma greve. Pode chegar a 60% de letalidade.<br \/>\nA vacina \u00e9 contra indicada para crian\u00e7a menor de seis meses; gr\u00e1vidas; pacientes em tratamento quimioter\u00e1pico e com r\u00e1dio; quem tem imunodefici\u00eania adquirida ou cong\u00eanita, quem tem hist\u00f3rico de alergia a algum componente da vacina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carina Paccola | De S\u00e3o Paulo, especial para o J\u00c1 Longe dos holofotes da m\u00eddia, na pequena cidade de Piraju, no vale do rio Paranapanema, a febre amarela silvestre matou seis pessoas em apenas seis dias. J\u00e1 s\u00e3o 10 no estado este ano. Outros dois casos suspeitos ainda est\u00e3o esperando resultado de exames para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-4123","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-14v","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4123\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}