{"id":41441,"date":"2016-11-17T17:05:26","date_gmt":"2016-11-17T20:05:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=41441"},"modified":"2016-11-17T17:05:26","modified_gmt":"2016-11-17T20:05:26","slug":"unesco-avalia-tornar-o-cais-do-valongo-patrimonio-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/unesco-avalia-tornar-o-cais-do-valongo-patrimonio-mundial\/","title":{"rendered":"Unesco avalia tornar o Cais do Valongo patrim\u00f4nio mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Isabel Vieira, da Ag\u00eancia Brasil<\/strong><br \/>\nPor ser o \u00fanico ponto de desembarque do tr\u00e1fico negreiro que restou preservado, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, j\u00e1 declarado patrim\u00f4nio carioca e nacional, deve se tornar patrim\u00f4nio mundial da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco).<br \/>\nEm setembro, uma comiss\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o vistoriou o antigo atracadouro e a expectativa \u00e9 de que em maio o Brasil saiba se s\u00e3o suficientes as condi\u00e7\u00f5es apresentadas pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) em um dossi\u00ea de 400 p\u00e1ginas. A decis\u00e3o final ser\u00e1 anunciada em junho de 2017.<br \/>\nA vista para um longo vale entre os morros da Concei\u00e7\u00e3o e do Livramento era o que aguardava os sobreviventes que desembarcavam no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, depois de uma viagem degradante entre a \u00c1frica e o Brasil, entre 1774 e 1843.<br \/>\nDos 4 milh\u00f5es de pessoas escravizadas do outro lado do Atl\u00e2ntico e que chegaram para o trabalho for\u00e7ado na \u00e9poca da col\u00f4nia, nas fazendas ou na contabilidade dos neg\u00f3cios, 1 milh\u00e3o passaram pelo Valongo \u2013 o que torna o porto a principal porta de entrada de homens e mulheres escravizados nas Am\u00e9ricas.<br \/>\nO Cais do Valongo foi desativado por leis que proibiam o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico no s\u00e9culo 19 e foi aterrado para receber a imperatriz Teresa Cristina, em 1843. Recentemente, durante obras de revitaliza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o portu\u00e1ria, ele acabou redescoberto, com a ajuda de especialistas.<\/p>\n<div id=\"attachment_216140\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Cais-do-Valongo.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-216140 size-full\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Cais-do-Valongo.jpg\" alt=\"cais-do-valongo\" width=\"570\" height=\"334\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Cais do Valongo em seu atual estado de conserva\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cA sociedade sempre se manteve atenta, os moradores da regi\u00e3o sempre guardaram, na sua saga da oralidade, a for\u00e7a desse espa\u00e7o; a academia, quando a escava\u00e7\u00e3o [das obras de revitaliza\u00e7\u00e3o] come\u00e7ou, imediatamente disse: \u2018Aten\u00e7\u00e3o, o Cais do Valongo est\u00e1 a\u00ed\u2019, quer dizer, a cidade, por meio de seus habitantes, nunca esqueceu o que se passou nesse peda\u00e7o de terra\u201d, explicou o antrop\u00f3logo e coordenador da candidatura do cais a patrim\u00f4nio, Milton Guran.<br \/>\nNo local, foram encontrados milhares de vest\u00edgios da passagem de africanos de v\u00e1rias partes. Entre os objetos, b\u00fazios do indo-pac\u00edfico, utilizados \u00e0 \u00e9poca como moedas, al\u00e9m de colares, cachimbos, brincos e braceletes. S\u00e3o mil caixas, com 1,5 milh\u00e3o de pe\u00e7as, guardadas em um galp\u00e3o e que s\u00f3 devem ser expostas ao p\u00fablico em 2018. A prefeitura fechou contrato com um laborat\u00f3rio de arqueologia e um termo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal para cuidar do material.<br \/>\nO ex-secret\u00e1rio executivo de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial e morador do bairro Giovanni Harvey, que acompanha desde o in\u00edcio a cria\u00e7\u00e3o do s\u00edtio hist\u00f3rico do Cais do Valongo, afirmou que o local \u00e9 parte de um \u201cquebra-cabe\u00e7a\u2019 da di\u00e1spora africana.<br \/>\n\u201cH\u00e1 uma vis\u00e3o romantizada que acha que a chegada ao Cais do Valongo era a chegada do pai, da m\u00e3e e dos filhos, mas n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 a chegada de uma pessoa que foi apartada de sua vida, de sua fam\u00edlia, de tudo. H\u00e1 tr\u00eas, quatro s\u00e9culos, um ser humano era colocado em um barco sem ter nenhuma no\u00e7\u00e3o de para onde estava indo\u201d, disse. \u201cO cais \u00e9 uma refer\u00eancia material, d\u00e1 concretude a essa chegada de africanos escravizados\u201d, acrescentou Harvey, que j\u00e1 esteve na Casa dos Escravos, em Gor\u00e9, no Senegal, na Costa Oeste da \u00c1frica, onde os escravizados eram embarcados.<br \/>\nNa avalia\u00e7\u00e3o do ex-secret\u00e1rio, que j\u00e1 foi consultor das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o reconhecimento do Valongo permite refletir sobre o passado e pensar o futuro, assim como o Museu Nacional da Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Americana, inaugurado em setembro nos Estados Unidos.<br \/>\nMilton Guran tamb\u00e9m aposta no tombamento do cais por ser um marco da viol\u00eancia da escravid\u00e3o e \u00fanico. \u201cEste \u00e9 o \u00fanico porto de desembarque que se preservou materialmente no mundo, n\u00e3o tem outro\u201d, afirmou. Ele lembrou que j\u00e1 foram tombados pela Unesco os portos de embarque de Gor\u00e9, no Senegal, o Castelo El Mina, em Gana, e da Ilha de Mo\u00e7ambique.<br \/>\nO antrop\u00f3logo, que estudou o retorno de pessoas escravizadas ao Benin, tamb\u00e9m defende a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cmemorial de celebra\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a africana\u201d sobre a contribui\u00e7\u00e3o de africanos e de seus descendentes ao Brasil. \u201cNo dossi\u00ea da candidatura explicamos que todo o bairro do cais tem uma unidade e import\u00e2ncia hist\u00f3rica\u201d, citando, como exemplo, em frente ao Valongo, o pr\u00e9dio das Docas Dom Pedro II, projetado pelo engenheiro negro Andr\u00e9 Rebou\u00e7as.<br \/>\n<strong>Pequena \u00c1frica<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_216141\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/castigo-de-escravo-debret-jean-baptiste-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-216141 size-full\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/castigo-de-escravo-debret-jean-baptiste-1.jpg\" alt=\"castigo-de-escravo-debret-jean-baptiste-1\" width=\"580\" height=\"423\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Jean Baptiste Debret \u2013 Escravo sendo castigado<\/p>\n<\/div>\n<p>A regi\u00e3o do Cais do Valongo, centro do com\u00e9rcio escravagista, tamb\u00e9m guarda vest\u00edgios de casas nas quais pessoas negras rec\u00e9m-chegadas da \u00c1frica eram vendidas como objetos, como mostram as imagens dos artistas Jean Baptiste Debret, Johann Moritz Rugendas e Maria Grahan. Bem perto, est\u00e1 aberto \u00e0 visita\u00e7\u00e3o o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, onde eram depositados corpos de jovens e crian\u00e7as, principalmente, que n\u00e3o sobreviviam at\u00e9 a chegada ao Brasil.<br \/>\nNa mesma regi\u00e3o, chamada de Pequena \u00c1frica pelo artista negro Heitor dos Prazeres, por influ\u00eancia da ocupa\u00e7\u00e3o de africanos e seus descendentes, nasceram as primeiras associa\u00e7\u00f5es que promoviam cortejos de carnaval (ranchos), candombl\u00e9s e casa de angus.<br \/>\n\u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Rio de Janeiro \u00e9 um polo de produ\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o cultural no Brasil e no mundo\u201d, disse, em v\u00eddeo do Iphan, a professora Martha Abreu, da Universidade Federal Fluminense, uma das autoras do dossi\u00ea de candidatura do cais a patrim\u00f4nio. (Ag\u00eancia Brasil\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Vieira, da Ag\u00eancia Brasil Por ser o \u00fanico ponto de desembarque do tr\u00e1fico negreiro que restou preservado, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, j\u00e1 declarado patrim\u00f4nio carioca e nacional, deve se tornar patrim\u00f4nio mundial da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco). 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