{"id":421,"date":"2005-10-24T13:28:15","date_gmt":"2005-10-24T16:28:15","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=421"},"modified":"2005-10-24T13:28:15","modified_gmt":"2005-10-24T16:28:15","slug":"morador-pede-ajuda-para-deixar-a-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/morador-pede-ajuda-para-deixar-a-rua\/","title":{"rendered":"Morador pede ajuda para deixar a rua"},"content":{"rendered":"<p><strong>Guilherme Kolling<\/strong>*<\/p>\n<p align=\"justify\">Um acampamento est\u00e1 instalado h\u00e1 meses junto \u00e0 parede do Hospital de Pronto Socorro na avenida Ven\u00e2ncio Aires, um dos pontos mais movimentados de Porto Alegre. S\u00e3o sete ou oito jovens que dividem o espa\u00e7o, comida, cobertores, colch\u00f5es e drogas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c0s 10h30 da manh\u00e3 desta quinta-feira, o \u00fanico integrante do grupo que guardava o ponto era um rapaz negro, de quase 1.80m, longil\u00edneo, com um cavanhaque e bigodinho ao estilo do m\u00fasico Seu Jorge. Abatido, magro e com olheiras, estava sentado no ch\u00e3o, cheirando lol\u00f3.<\/p>\n<p align=\"justify\">Trata-se de Jaime Nascimento de Ara\u00fajo, 24 anos, um dos moradores de rua do local. Ele teve for\u00e7as para se erguer e organizar o espa\u00e7o, com decis\u00e3o: dobrou cuidadosamente cobertores, colchas e guardou tudo num carrinho de supermercado, que serve de guarda-roupa da turma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Todos os dias ele pede uma vassoura emprestada da funer\u00e1ria do outro da rua \u2013 \u201co pessoal l\u00e1 \u00e9 muito gente boa\u201d e limpa o peda\u00e7o. Quando ia recolher o colch\u00e3o, foi abordado pela reportagem do J\u00c1. Apesar do efeito da droga, falou de forma articulada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sua primeira quest\u00e3o: \u201cVoc\u00eas v\u00e3o me ajudar?\u201d. Logo contou seu drama. \u201cEu n\u00e3o quero continuar na rua. Quero ir para o Hospital Esp\u00edrita ou o S\u00e3o Pedro para me tratar\u201d. \u2014 O S\u00e3o Pedro? \u201cN\u00e3o \u00e9 o hosp\u00edcio\u201d, explicou. \u201c\u00c9 perto da (Vila do) Cachorro Sentado, onde tratam jovens viciados\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">A vontade de ser internado esbarra na falta de vagas. E tamb\u00e9m na falta de acompanhante para encaminh\u00e1-lo. \u201cAlgu\u00e9m tem que ir junto, mas n\u00e3o quero incomodar minha m\u00e3e. Ela \u00e9 trabalhadora, n\u00e3o pode ficar correndo atr\u00e1s de mim\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jaime j\u00e1 fez algumas tentativas recentes de interna\u00e7\u00e3o. Foi no posto da Cruzeiro, no m\u00eas passado, mas n\u00e3o obteve sucesso. Seu v\u00edcio tem mais tempo, dois anos para mais. \u201cTudo que eu quero \u00e9 fazer o tratamento, com medica\u00e7\u00e3o. Depois de um ou dois meses eu saio de l\u00e1, volto para casa\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cita o caso de um amigo que tamb\u00e9m estava na rua, bem magrinho. \u201cEle fumava pedra, cheirava, usava lol\u00f3. Saiu curado, bem fort\u00e3o, e agora t\u00e1 trabalhando de mec\u00e2nico\u201d. Jaime quer seguir esse exemplo \u2013 j\u00e1 tem todos os documentos, estudo (abandonou no 1\u00ba ano do 2\u00ba grau) e acredita que sua vaga est\u00e1 garantida nos locais onde trabalhou.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ficou um tempo na Academia Performance, na Prot\u00e1sio Alves, e tamb\u00e9m teve uma passagem pela Escola Mergulhinho, na Lucas de Oliveira. Fazia servi\u00e7os gerais, limpava a piscina, ajudava os clientes a estacionar os carros, distribu\u00eda folhetos na rua. \u201c\u00c9 s\u00f3 eu me recuperar que eu consigo emprego certo\u201d, acredita.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jaime tamb\u00e9m tem l\u00e1 suas responsabilidades. J\u00e1 \u00e9 pai. Quando pode, ainda leva leite e fraldas para a crian\u00e7a. Tamb\u00e9m visita a m\u00e3e, na casa dela, na Vila Bom Jesus, de onde saiu no ano passado. Ela acha que o rapaz est\u00e1 em uma casa de conviv\u00eancia, na avenida Farrapos.<\/p>\n<p align=\"justify\">De fato, ele ficou l\u00e1 um tempo, mas saiu pelas condi\u00e7\u00f5es impostas. \u201cTem chegar \u00e0s 5 da tarde para conseguir vaga. A\u00ed, entra \u00e0s 6h. E fica l\u00e1 at\u00e9 as 6h da manh\u00e3 do dia seguinte\u201d. Sem conseguir ajuda para passar o resto do dia, a sa\u00edda foi ser flanelinha de noite. Ganha alguns trocados, mas a\u00ed n\u00e3o d\u00e1 para ir no albergue. Optou pela rua \u2013 gosta de conviver com os amigos que fez.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cMas as pessoas passam aqui e n\u00e3o d\u00e3o nada. S\u00f3 quem ajuda \u00e9 um pessoal que vem de noite, encosta o carro e d\u00e1 comida, nas segundas, ter\u00e7as, quartas. Os anjos da noite d\u00e3o caf\u00e9 na sexta. Um deles me prometeu uma for\u00e7a para eu me internar, mas passaram duas sextas e nada. Acho que n\u00e3o teve tempo\u201d, diz, com um ar decepcionado.<br \/>\n\u201cMas eu n\u00e3o preciso desta ajuda, da comida. N\u00e3o preciso disso. Quero largar essa vida. A \u00fanica coisa \u00e9 que eu quero \u00e9 me tratar\u201d, apela.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cEles t\u00eam casa e ficam mandando os policias contra a gente\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Logo no in\u00edcio da conversa chegam \u00c9der, 20 anos, e Paula, uma das meninas que vive no local. O tema agora \u00e9 a repress\u00e3o da Brigada. \u201cPodem vir quantos policiais quiser. Se o cara n\u00e3o cara n\u00e3o fez nada de errado, n\u00e3o tem o que fazer\u201d, resmunga \u00c9der, enquanto devora com rapidez dois cacetinhos com mortadela rec\u00e9m comprados \u2013 o rapaz estava faminto, ficou de olho no sanduba da colega.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas continua. \u201cO certo seria todo mundo ter casa. Eles t\u00eam casa e ficam mandando os policiais contra a gente. A pol\u00edcia s\u00f3 vem porque o pessoal chama\u201d, completa \u00c9der, se queixando dos moradores da redondeza. O grupo \u00e9 pac\u00edfico. Mas era expulso pela pol\u00edcia quando se instalava em frente a um pr\u00e9dio na rua Augusto Pestana, quase esquina com Ven\u00e2ncio.<br \/>\nJaime concorda. Aponta para o outro lado da rua e diz: \u201cEles que alcag\u00fcetam\u201d, referindo-se a comerciantes e vizinhan\u00e7a. Mesmo assim, v\u00e3o para l\u00e1 em dias de chuva \u2013 assim como v\u00e1rios outros moradores de rua das redondezas, que buscam o abrigo da marquise do local.<\/p>\n<p align=\"justify\">Jaime conta outra epis\u00f3dio. \u201cTeve um dia em que o brigadiano falou que ia vir bem cedinho, 6 da manh\u00e3, e jogar um balde de \u00e1gua fria na gente, se n\u00f3s n\u00e3o sa\u00edssemos dali\u201d. Sa\u00edram. Mas a hostilidade n\u00e3o acabou. \u201cFui comprar um caf\u00e9 no bar, tinha dinheiro e tudo. Mas um policial que estava l\u00e1 falou para eu ir tomar cafezinho no inferno\u201d, conta magoado.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cQuanto t\u00f4 muito fissurado vou para casa do meu irm\u00e3o\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A escolha de \u00c9der, 20, pela rua tem origem em um conflito familiar. \u201cMeu pai vendeu a casa onde eu vivia e nem me deu nada\u201d. Ele cheira lol\u00f3 como os colegas, mas acha que n\u00e3o precisa ir para cl\u00ednica desintoxicar, j\u00e1 que n\u00e3o se considera viciado porque n\u00e3o acha dif\u00edcil ficar sem a droga: \u201cEu n\u00e3o cheiro muito, s\u00f3 quando t\u00f4 na rua, com os caras\u201d.<br \/>\n\u201cQuando t\u00f4 muito fissurado, vou para casa do meu irm\u00e3o e dou um tempo\u201d. L\u00e1, ele conta que passa uns meses sem cheirar nada. Sai de l\u00e1 forte, \u201cgordo\u201d, como ele diz. Mas s\u00f3 recorre ao mano em caso de urg\u00eancia. \u201cN\u00e3o quero ficar incomodando. Ele tem a fam\u00edlia dele, a mulher at\u00e9 t\u00e1 gr\u00e1vida\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para arrumar dinheiro, \u00c9der tamb\u00e9m cuida dos carros dos freq\u00fcentadores dos bares da redondeza: Cirilo, Bar do Beto, etc. Tira alguns trocados por noite \u2013 na manh\u00e3 desta quinta-feira tinha um ma\u00e7o com cinco notas de um real. Com a grana compra caf\u00e9, \u00e1gua e comida. E vai sobrevivendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">* <em>Colaborou Naira Hofmeister<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Kolling* Um acampamento est\u00e1 instalado h\u00e1 meses junto \u00e0 parede do Hospital de Pronto Socorro na avenida Ven\u00e2ncio Aires, um dos pontos mais movimentados de Porto Alegre. 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