{"id":42675,"date":"2016-12-23T13:26:18","date_gmt":"2016-12-23T16:26:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=42675"},"modified":"2016-12-23T13:26:18","modified_gmt":"2016-12-23T16:26:18","slug":"quatro-refeicoes-por-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/quatro-refeicoes-por-dia\/","title":{"rendered":"Quatro refei\u00e7\u00f5es por dia"},"content":{"rendered":"<p>A redu\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais tende a alimentar a revolta dos desvalidos<br \/>\nNesta v\u00e9spera de Natal, voltou-me \u00e0 mem\u00f3ria uma frase de Lula: \u201dEu gostaria que cada brasileiro tivesse o direito de fazer quatro refei\u00e7\u00f5es por dia\u201d.<br \/>\nFoi promessa de campanha e virou meta de governo atingida parcialmente com o Bolsa-Fam\u00edlia, um programa t\u00e3o generoso que come\u00e7ou com um nome negativo \u2013 Fome Zero.<br \/>\nAmbicioso socialmente e modesto financeiramente, em 2015 o BF consumiu R$ 33 bilh\u00f5es ou, seja, 5% das despesas com a d\u00edvida p\u00fablica, mas a ningu\u00e9m do governo ocorre a hip\u00f3tese de congelar o pagamento de juros e amortiza\u00e7\u00f5es aos credores.<br \/>\nAo contr\u00e1rio, segundo a \u00f3ptica elitista que domina as a\u00e7\u00f5es oficiais desde o Brasil- col\u00f4nia, \u00e9 preciso enxugar o que se gasta na base para que n\u00e3o faltem recursos nas altas esferas.<br \/>\n\u00cdndios fora, escravos esquecidos, imigrantes ludibriados, pobres sem chance de ascens\u00e3o ou resgate: assim tem sido o Brasil na maior parte do tempo.<br \/>\nRecentemente, bastaram alguns anos de concess\u00f5es \u00e0s bases carentes da popula\u00e7\u00e3o para se iniciar um temer\u00e1rio processo antissocial que busca reduzir o papel do Estado na sociedade. Como se o Mercado ou a iniciativa privada fossem assumir as tarefas que nem os governos fazem direito.<br \/>\nO Bolsa Fam\u00edlia tem um lado assistencial \u2013 o dinheirinho entregue mensalmente \u00e0s fam\u00edlias cadastradas; mas seu aspecto mais importante \u00e9 o v\u00ednculo educacional obrigat\u00f3rio de 16 milh\u00f5es de jovens matriculados em creches e escolas p\u00fablicas.<br \/>\nPela primeira vez no Brasil se criou uma f\u00f3rmula de resgate da mis\u00e9ria pela via escolar. Mesmo com defeitos e problemas, o BF acena com uma sa\u00edda ao lembrar aos pobres que a \u00fanica forma de escapar da degrada\u00e7\u00e3o moral provocada pela mis\u00e9ria \u00e9 atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o e saber.<br \/>\nAjudar os pobres: essa \u00e9 uma fantasia que n\u00e3o se realiza porque as elites brasileiras n\u00e3o cortam seus privil\u00e9gios em favor da justi\u00e7a social.<br \/>\nA gente at\u00e9 entende quando um cidad\u00e3o isolado se incomoda diante de um pobre que vasculha o lixo ou pede uma ajudazinha pelo amor de Deus. O respons\u00e1vel por uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, por\u00e9m, tem o dever constitucional, n\u00e3o apenas moral e humano, de ajudar os desvalidos.<br \/>\nO Bolsa-Fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 uma esmola, mas uma ajuda crist\u00e3 em favor de quem est\u00e1 sob risco de perder a autoestima por falta de amparo civil. Sem falar que a merreca do BF se transforma integralmente em consumo, contribuindo para ativar a economia.<br \/>\nA vis\u00e3o egoc\u00eantrica das elites est\u00e1 difusa no comportamento da maioria dos empres\u00e1rios, dos pol\u00edticos e dos integrantes das institui\u00e7\u00f5es de governo, especialmente no Judici\u00e1rio, o mais bem aquinhoado em sal\u00e1rios e benef\u00edcios indiretos.<br \/>\nAt\u00e9 agora a ministra Carmen L\u00facia, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justi\u00e7a, n\u00e3o traduziu em fatos concretos sua preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios brasileiros.<br \/>\nSe Carmen L\u00facia quer mesmo fazer alguma coisa concreta, que comece por transferir para os encarcerados o aux\u00edlio-moradia dos magistrados, que n\u00e3o precisam dessa mordomia, pois t\u00eam os melhores sal\u00e1rios do servi\u00e7o p\u00fablico.<br \/>\nS\u00e3o 14 000 magistrados que recebem, cada um, R$ 50 mil por ano a t\u00edtulo de aux\u00edlio-moradia. Seriam R$ 700 milh\u00f5es a beneficiar 600 mil presidi\u00e1rios, dando o empurr\u00e3o inicial a um processo de resgate de uma parcela dos cidad\u00e3os brasileiros que perderam n\u00e3o apenas a liberdade, mas alguns dos direitos mais elementares, entre eles quatro refei\u00e7\u00f5es por dia.<br \/>\nLEMBRETE DE OCASI\u00c3O<br \/>\n\u201cA quem o pouco n\u00e3o basta, nada basta\u201d<br \/>\nEpicuro, fil\u00f3sofo grego (341-271 a.C.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A redu\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais tende a alimentar a revolta dos desvalidos Nesta v\u00e9spera de Natal, voltou-me \u00e0 mem\u00f3ria uma frase de Lula: \u201dEu gostaria que cada brasileiro tivesse o direito de fazer quatro refei\u00e7\u00f5es por dia\u201d. 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