{"id":43918,"date":"2017-01-29T10:52:10","date_gmt":"2017-01-29T13:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=43918"},"modified":"2017-01-29T10:52:10","modified_gmt":"2017-01-29T13:52:10","slug":"colapso-das-colmeias-pesquisadores-estudam-abelhas-nativas-como-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/colapso-das-colmeias-pesquisadores-estudam-abelhas-nativas-como-alternativa\/","title":{"rendered":"&quot;Colapso das colm\u00e9ias&quot;: abelhas nativas podem ser alternativa"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">GERALDO HASSE<\/span><br \/>\nA pesquisadora Tereza Cristina Guannini, da USP, junto com quatro colegas (entre eles Vanessa Imperatriz-Fonseca, da Fepagro), publicou no Journal of Entomology um artigo afirmando que, de 141 culturas agr\u00edcolas analisadas no Brasil, 85 s\u00e3o dependentes de polinizadores, variando o grau de depend\u00eancia de 30% a 100%.<br \/>\nNa ma\u00e7\u00e3, por exemplo, a influ\u00eancia da poliniza\u00e7\u00e3o por abelhas varia de 40% a 90%.<br \/>\nSegundo Giannini, o valor anual da contribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos polinizadores foi estimado em cerca de US$ 12 bilh\u00f5es &#8212; cerca de 30% do valor total (US$ 45 bilh\u00f5es) das culturas dependentes.<br \/>\nMetade do valor da \u201ccontribui\u00e7\u00e3o\u201d estudada viria da soja, planta originalmente pouco dependente da poliniza\u00e7\u00e3o mas que, supostamente, vem aumentando sua depend\u00eancia em consequ\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o de centenas de variedades h\u00edbridas adaptadas a v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil.<br \/>\nTudo isso se atribui basicamente \u00e0 abelha europ\u00e9ia, sem que se saiba, por\u00e9m, quanto pesam na poliniza\u00e7\u00e3o as abelhas nativas, ditas \u201csem ferr\u00e3o\u201d \u2013 na realidade, elas t\u00eam o ferr\u00e3o atrofiado \u2013, e outros insetos como as vespas.<br \/>\nEntre estas est\u00e1 a famosa lixiguana, cujo mel delicioso, consumido em excesso, provocou um porre quase mortal no naturalista franc\u00eas Auguste Saint-Hilaire (1779-1853), que contou o epis\u00f3dio em seu c\u00e9lebre livro Viagem ao Rio Grande do Sul.<br \/>\nDe fato, ainda se sabe muito pouco sobre o papel das abelhas nativas na manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade. A\u00ed est\u00e1 o X da quest\u00e3o ap\u00edcola no momento.<br \/>\n<span class=\"intertit\">S\u00cdNDROME DO COLAPSO DAS COLM\u00c9IAS<\/span><br \/>\nUm fen\u00f4meno identificado em 2007, foi definido por pesquisadores como \u00a0a \u201cs\u00edndrome do colapso das colm\u00e9ias\u201d.\u00a0A principal caracter\u00edstica \u00e9 o \u201cdesaparecimento\u201d das abelhas europ\u00e9ias.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, os pesquisadores come\u00e7aram a encarar as abelhas sem ferr\u00e3o como uma alternativa concreta para a poliniza\u00e7\u00e3o, servi\u00e7o prestado h\u00e1 d\u00e9cadas pelos apicultores profissionais, que levam seus enxames de abelhas europ\u00e9ias para lavouras e pomares. Al\u00e9m de ganhar com o aluguel das abelhas, eles mant\u00eam a produ\u00e7\u00e3o de mel, p\u00f3len e pr\u00f3polis.<br \/>\nA &#8220;s\u00edndrome do colapso das colm\u00e9ias&#8221; foi detectada originalmente na Europa e nos Estados Unidos, mas est\u00e1 ocorrendo tamb\u00e9m no Brasil e em outros pa\u00edses.<br \/>\nUma das causas hipot\u00e9ticas \u00e9 que o problema seja decorrente do uso excessivo de insumos t\u00f3xicos nas lavouras. O fato \u00e9 que uma parcela das abelhas que sai para pastar n\u00e3o volta aos ninhos.<br \/>\nSup\u00f5e-se que percam o senso de orienta\u00e7\u00e3o. Pode ser que enlouque\u00e7am, como acontece com agricultores contaminados por venenos agr\u00edcolas.<br \/>\nOutra hip\u00f3tese \u00e9 que as abelhas estariam se tornando \u00a0geneticamente vulner\u00e1veis por influ\u00eancia de alguma causa desconhecida.<br \/>\nPodem at\u00e9 estar sofrendo com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 o aumento da temperatura global, por exemplo \u2013 causadas pelo ac\u00famulo de gases do efeito-estufa na atmosfera.<br \/>\n<span class=\"intertit\">CONSUMO DE AGROT\u00d3XICOS AUMENTOU 700% <\/span><br \/>\nO fato concreto \u00e9 que desde 2008 o Brasil lidera o ranking mundial no uso dos chamados agrot\u00f3xicos. De acordo com a Ag\u00eancia de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), nos \u00faltimos 10 anos, a utiliza\u00e7\u00e3o mundial desse produto aumentou 93%.<br \/>\nNo Brasil, o salto foi mais do que o dobro (190%), o que elevou para 130 mil toneladas o consumo anual de \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d.<br \/>\nSegundo a Embrapa, enquanto as \u00e1reas cultivadas nos \u00faltimos 40 anos cresceram 78%, o aumento no uso de agrot\u00f3xicos no mesmo per\u00edodo foi de 700%.<br \/>\n\u00c9 uma escalada que n\u00e3o se cont\u00e9m nem com leis, nem com campanhas ecol\u00f3gicas. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado brasileiro a criar (em 1982) uma lei de controle do uso de venenos agr\u00edcolas, que s\u00f3 podem ser receitados por engenheiros agr\u00f4nomos.<br \/>\nH\u00e1 dois anos, o munic\u00edpio de Iju\u00ed foi considerado o campe\u00e3o mundial no uso de agrot\u00f3xicos na lavoura da soja.<br \/>\nEm dezembro passado, o Minist\u00e9rio da Agricultura suspendeu o uso de 63 fungicidas utilizados para controlar a ferrugem asi\u00e1tica nas lavouras de soja.<br \/>\nOs apicultores e as abelhas em geral agradecem, mas os brasileiros permanecem indefesos ao consumir alimentos in natura como frutas, legumes e verduras, 70% dos quais chegam aos consumidores como variados graus de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas empregadas pelos agricultores.<br \/>\n<span class=\"intertit\">BRASIL TEM QUASE 2 MIL ESP\u00c9CIES DE ABELHAS<\/span><br \/>\nFora a gloriosa\u00a0<em>Apis mellifera<\/em>, de origem europ\u00e9ia, h\u00e1 mais de 20 mil esp\u00e9cies de abelhas nativas no planeta, mas 95% delas s\u00e3o solit\u00e1rias e muitas delas jamais foram estudadas.<br \/>\nNo Brasil, h\u00e1 1 676 esp\u00e9cies e as abelhas sem ferr\u00e3o se concentram \u00a0mais nas regi\u00f5es tropicais.<br \/>\nNo Rio Grande do Sul, totalizam 400, mas apenas 24 esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o s\u00e3o conhecidas e, destas, n\u00e3o mais do que sete s\u00e3o razoavelmente estudadas.<br \/>\nEm seu manual sobre as abelhas nativas do Rio Grande do Sul, Sidia Witter adverte que a esp\u00e9cie guaraipo est\u00e1 amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores que elas utilizam para fazer os ninhos, ou seja o desmatamento das \u00e1reas de ocorr\u00eancia na Mata Atl\u00e2ntica e de fontes de alimento.<br \/>\nA carne-de vaca \u00e9 uma esp\u00e9cie de planta nativa da Mata com Arauc\u00e1ria, utilizada pela guaraipo para produzir o valioso mel branco bastante conhecido no nordeste ga\u00facho.<br \/>\nDestacam-se a jata\u00ed, a manda\u00e7aia, a manduri, a tubuna, a tubiba, a guaraipo e as mirins \u2013 oito esp\u00e9cies, tr\u00eas das quais fazem ninhos subterr\u00e2neos.<br \/>\nEm seu &#8220;Manual de Manejo de Abelhas Sem Ferr\u00e3o&#8221;, com 144 p\u00e1ginas, publicada em fins de 2015, a pesquisadora Sidia Witter, que opera em parceria com pesquisadores de outras institui\u00e7\u00f5es como a Embrapa, a Epagri (SC) e a UFRGS, trata do assunto.<br \/>\nAs conclus\u00f5es indicam que as abelhas nativas mais conhecidas \u2013 jata\u00ed, manda\u00e7aia, manduri, mirim, guaraipo, tubuna e tubiba \u2013 s\u00e3o comprovadamente importantes na poliniza\u00e7\u00e3o de vegetais como ab\u00f3bora, a\u00e7a\u00ed, alfafa, ara\u00e7\u00e1, berinjela, buti\u00e1, cacau, caf\u00e9, canola, caj\u00e1, cornich\u00e3o, cupua\u00e7u, girassol, goiaba, guaran\u00e1, ma\u00e7\u00e3, maracuj\u00e1, morango, pimenta, piment\u00e3o, soja, tomate, trevo e urucum, entre outras.<br \/>\nSidia Witter estuda h\u00e1 cinco anos especialmente a bieira, uma das mirins, cujo mel \u00e9 \u201cuma del\u00edcia\u201d. Os m\u00e9is das nativas s\u00e3o, de fato, diferenciados. Os \u00edndios foram seus primeiros consumidores.<br \/>\nVem da\u00ed, da antiguidade americana, o conhecimento dos h\u00e1bitos desses insetos fascinantes. Seus m\u00e9is cont\u00eam maior \u00edndice de \u00e1gua do que o mel convencional da Apis mellifera. Por isso e por outros detalhes, as abelhas nativas n\u00e3o se enquadram na legisla\u00e7\u00e3o que rege a apicultura profissional.<br \/>\nPor suas caracter\u00edsticas peculiares, as abelhas nativas s\u00e3o criadas mais por hobby do que para gerar renda em s\u00edtios rurais ou quintais urbanos.<br \/>\nSidia Witter fala com carinho de um apicultor de 90 anos que desde crian\u00e7a cria em Turu\u00e7u uma esp\u00e9cie de abelha sem ferr\u00e3o. \u201cEle ganhou um ninho do pai e hoje tem 300 ninhos&#8230;\u201d<br \/>\nPor a\u00ed se v\u00ea que a cria\u00e7\u00e3o de abelhas nativas \u00e9 uma atividade sentimental que, segundo algumas pessoas, favorece a longevidade dos seres humanos.<br \/>\nAos 85 anos, o agr\u00f4nomo Warwick Kerr, que introduziu no Brasil a abelha africana, dando origem a um h\u00edbrido mais vigoroso do que a abelha europ\u00e9ia, acredita que a picada das abelhas melhora a circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea dos animais que n\u00e3o sejam al\u00e9rgicos ao seu veneno.<br \/>\nUma vez, ele levou 500 picadas de Apis mellifera, passou mal e at\u00e9 perdeu um pouco de sangue na urina, mas ficou imunizado para sempre.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A CHAVE DA BIODIVERSIDADE<\/span><br \/>\nSegundo a pesquisadora ap\u00edcola da Fepagro, no universo pouco conhecido das abelhas nativas h\u00e1 um mercado exclusivo cujo principal indicador \u00e9 o valor de um enxame de jata\u00ed: pode variar de R$ 60 a R$ 180, duas a cinco vezes mais do que um enxame de <em>Apis mellifera<\/em>, domesticada h\u00e1 milhares de anos.<br \/>\nO mel da jata\u00ed \u00e9 muito apreciado, mas seu uso e seu valor s\u00e3o segredos da culin\u00e1ria dom\u00e9stica brasileira. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso atentar para os volumes de produ\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se comparam aos da Apis mellifera.<br \/>\nUm enxame de europ\u00e9ias (50 mil abelhas) pode produzir 40 quilos de mel por ano. Um ninho de abelhas nativas (2 mil indiv\u00edduos) n\u00e3o oferece mais do que um a dois quilos por ano.<br \/>\nSe n\u00e3o cabe comparar o volume de produ\u00e7\u00e3o de mel das abelhas profissionalizadas e das abelhas nativas, faz todo\u00a0 sentido estudar o papel de cada uma delas no aspecto ecol\u00f3gico.<br \/>\nComo aliadas naturais dos agricultores, todas as abelhas s\u00e3o fieis seguradoras da manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade e do equil\u00edbrio do ambiente natural.<br \/>\nEm seu manual sobre as abelhas nativas do Rio Grande do Sul, Sidia Witter adverte que a esp\u00e9cie guaraipo est\u00e1 amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do seu pasto preferencial &#8212; a pata-de-vaca, vegetal outrora abundante nos Campos de Cima da Serra. Com o n\u00e9ctar dessa planta, as abelhas fazem um valioso mel branco bastante conhecido no nordeste ga\u00facho.<br \/>\nPara os consumidores pode n\u00e3o ser uma grande perda, mas para a ci\u00eancia \u00e9 um sinal de perigo: o desaparecimento de esp\u00e9cies vegetais em consequ\u00eancia do desmanche de ecossistemas concorre para aniquilar insetos e outros animais que ainda n\u00e3o foram sequer estudados. Entre os atingidos, pode estar o homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GERALDO HASSE A pesquisadora Tereza Cristina Guannini, da USP, junto com quatro colegas (entre eles Vanessa Imperatriz-Fonseca, da Fepagro), publicou no Journal of Entomology um artigo afirmando que, de 141 culturas agr\u00edcolas analisadas no Brasil, 85 s\u00e3o dependentes de polinizadores, variando o grau de depend\u00eancia de 30% a 100%. 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