{"id":44607,"date":"2017-02-14T17:34:48","date_gmt":"2017-02-14T20:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=44607"},"modified":"2017-02-14T17:34:48","modified_gmt":"2017-02-14T20:34:48","slug":"casarao-da-duque-esconde-uma-usina-de-ideias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/casarao-da-duque-esconde-uma-usina-de-ideias\/","title":{"rendered":"Casar\u00e3o da Duque esconde uma usina de ideias"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nCometer\u00e1 um erro elementar quem julgar o trabalho da Funda\u00e7\u00e3o de Economia e Estat\u00edstica pela apar\u00eancia singela de sua sede na rua Duque de Caxias 1691.<br \/>\nEsse sobrado dos anos 1920 voltado para a antiga Pra\u00e7a do Port\u00e3o, hoje Conde de Porto Alegre, foi resid\u00eancia antes de se tornar o escrit\u00f3rio de um dos principais \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos do Estado. Mas n\u00e3o se tome o todo pela fachada.<br \/>\nEntre o port\u00e3o junto \u00e0 rua e a porta da sala de recep\u00e7\u00e3o h\u00e1 um corredor que esconde, \u00e0 esquerda, um audit\u00f3rio de 40 lugares e uma sala de reuni\u00f5es com mesa para oito pessoas.<br \/>\nDa recep\u00e7\u00e3o, parte outro corredor que vai longe, rumo aos \u201cfundos\u201d de um t\u00edpico casar\u00e3o da elite da capital nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<br \/>\nSeria ali o p\u00e1tio se, muitos anos atr\u00e1s, o governo estadual n\u00e3o tivesse constru\u00eddo nessa \u00e1rea inclinada, meio baldia, um pr\u00e9dio de oito andares onde se acomodam, em diversos gabinetes, 192 homens e mulheres representativos do que a \u201cintelig\u00eancia ga\u00facha\u201d tem de mais arejado.<br \/>\nEntre as quase duas centenas do pessoal da casa, destacam-se 36 doutores e 93 mestres que produzem estat\u00edsticas, indicadores e estudos sobre a realidade socioecon\u00f4mica do Rio Grande do Sul.<br \/>\nNo fundo, embora n\u00e3o pare\u00e7a, a FEE \u00e9 uma usina de ideias tiradas de uma complexa massa de dados em constante atualiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEntre as tarefas obrigat\u00f3rias da Funda\u00e7\u00e3o, destacam-se o c\u00e1lculo do PIB estadual, as estimativas populacionais, a pesquisa de emprego\/desemprego e outros indicadores valiosos para o diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o conjuntural e o planejamento do futuro do estado.<br \/>\nDiante disso, n\u00e3o admira que a decis\u00e3o do governo Sartori de extinguir a FEE tenha sido unanimemente criticada por milhares de pessoas em abaixo-assinados, artigos, entrevistas e manifesta\u00e7\u00f5es de rua.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-44612\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/fee-brum-torres.jpg\" alt=\"fee brum torres\" width=\"480\" height=\"320\" \/><br \/>\nO protesto mais contundente veio do economista Jo\u00e3o Carlos Brum Torres, que j\u00e1 foi por duas vezes secret\u00e1rio do Planejamento de governos do PMDB (Britto e Rigotto). \u201cSeria um desastre\u201d, previu ele, antes que o pacote de extin\u00e7\u00f5es fosse aprovado pela Assembl\u00e9ia, no dezembro. N\u00e3o foi por falta de aviso.<br \/>\nQuando a medida se confirmou, Brum Torres a definiu como \u201cgesto cego de autodesqualifica\u00e7\u00e3o do sistema de governo\u201d.<br \/>\nEm outras palavras, ao incluir a FEE no rol de oito funda\u00e7\u00f5es marcadas para morrer em nome do enxugamento das despesas, Sartori deu o popular tiro no p\u00e9.<br \/>\nOutro economista veterano, \u00a0Claudio Accurso, 87 anos, que doou sua biblioteca para a FEE, foi c\u00e1ustico: \u201cO governo quer acabar com a FEE porque n\u00e3o conhece os dados que ela produz. N\u00e3o precisa deles, porque n\u00e3o faz planejamento. Sem planejamento, n\u00e3o existe futuro\u201d.<br \/>\n<figure id=\"attachment_44613\" aria-describedby=\"caption-attachment-44613\" style=\"width: 187px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-44613 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/fee-accurso.jpg\" alt=\"fee accurso\" width=\"187\" height=\"124\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-44613\" class=\"wp-caption-text\">Accurso foi secret\u00e1rio do Planejamento do governo Pedro Simon (1987-1990)<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO iminente desaparecimento da FEE \u00e9 motivo de profundo pesar na comunidade cient\u00edfica do Rio Grande do Sul.<br \/>\nNada simboliza melhor o clima reinante do que a faixa preta atravessada sobre os retratos do patrono da institui\u00e7\u00e3o, economista e deputado Siegfried Heuser (1919-1986), numa das paredes da sala de recep\u00e7\u00e3o da FEE.<br \/>\nSecret\u00e1rio da Fazenda do governo de Leonel Brizola (1959-1962), Heuser foi um dos criadores das brizoletas, que ajudaram a financiar obras p\u00fablicas, especialmente escolas e estradas.<br \/>\nUm dos fundadores do MDB, ele foi cassado em 1969 pelo governo militar. Quase esquecido pelos emedebistas modernos, Heuser \u00e9 nome de pra\u00e7a em Santa Cruz do Sul, sua terra natal.<br \/>\nCriada em 1973, a FEE herdou dados levantados havia d\u00e9cadas por antigos departamentos do governo estadual.<br \/>\nTeve entre seus primeiros funcion\u00e1rios concursados a economista Dilma Rousseff, que manteve o v\u00ednculo funcional original enquanto fazia carreira como executiva no munic\u00edpio, no estado e no governo federal.<br \/>\nMisto riograndense do IBGE com o IPEA, a institui\u00e7\u00e3o da Duque foi ber\u00e7o de outros secret\u00e1rios da Fazenda, como os economistas Cezar Busatto, do governo Antonio Britto (1995-1998), e Aod Cunha, que serviu ao governo Yeda Crusius (2007-2010).<br \/>\nNa maior parte do tempo, at\u00e9 porque nasceu em plena ditadura militar, foi um reduto de pensamentos cr\u00edticos que atraiu dezenas de formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas.<br \/>\nA qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 expl\u00edcita em livros como a trilogia <em>Tr\u00eas D\u00e9cadas da Economia Ga\u00facha<\/em> (2010), com 980 p\u00e1ginas sobre o movimento da produ\u00e7\u00e3o, as mudan\u00e7as ambientais e a evolu\u00e7\u00e3o social do Estado.<br \/>\nDos seus 129 especialistas atuais, todos concursados, o governo promete cortar 101 cabe\u00e7as regidas pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Os restantes, regidos pelo estatuto de funcionalismo, ficar\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da Secretaria do Planejamento.<br \/>\nDos 28 servidores estatut\u00e1rios indemiss\u00edveis, 16 t\u00eam mais de 60 anos, portanto, podem aposentar-se a qualquer momento. \u00c9 claro que os 12 restantes n\u00e3o poder\u00e3o tocar todas as tarefas da FEE.<br \/>\nEmbora tenha um or\u00e7amento anual considerado baixo &#8212; R$ 32 milh\u00f5es (0,05% das despesas do estado) &#8211;, a FEE foi cortada porque, pelas contas oficiais, geraria uma economia estimada em R$ 18 milh\u00f5es.<br \/>\nDocumentos produzidos pela pr\u00f3pria FEE indicam que a contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os particulares para suprir sua lacuna dever\u00e1 custar mais do que a manuten\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o oficial especializado. \u00a0Acrescente-se que a FEE j\u00e1 vinha fazendo economia e buscando recursos extraor\u00e7ament\u00e1rios junto a institui\u00e7\u00f5es de fomento.<br \/>\nSegundo o dossi\u00ea<em> Em Defesa da FEE<\/em>, encaminhado aos deputados estaduais que votaram pela extin\u00e7\u00e3o das funda\u00e7\u00f5es, o tiro vai sair pela culatra.<br \/>\n\u201cA economia alegada de R$ 18 milh\u00f5es anuais n\u00e3o considera todos os projetos estrat\u00e9gicos que a FEE desenvolve e que custariam milh\u00f5es\u201d, diz o documento, lembrando que os estudos, estat\u00edsticas e indicadores levantados pela FEE n\u00e3o poderiam ser feitos pela iniciativa privada, \u201cpois esta se vale dos dados da FEE para a maioria dos seus trabalhos.\u201d<br \/>\nPor suas obriga\u00e7\u00f5es e responsabilidades, o pessoal da FEE n\u00e3o esperava ser inclu\u00eddo na dr\u00e1stica poda oficial. At\u00e9 a chegada do governo Sartori, a casa da Duque vinha animada por demandas de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e parcerias em diversos campos.<br \/>\nA \u201cabertura\u201d foi iniciada por um advent\u00edcio, o economista Igor Moraes. Nomeado por Sartori, Moraes deixou o cargo para fazer um p\u00f3s-doutorado nos EUA &#8212; assunto: as crises c\u00edclicas do capitalismo.<br \/>\nEm seu lugar ficou outro estranho no ninho, o soci\u00f3logo rural Jos\u00e9 Reovaldo Oltramari, egresso da Secretaria do Planejamento.<br \/>\nEVAS\u00c3O DE C\u00c9REBROS<br \/>\nSe for confirmada a extin\u00e7\u00e3o da FEE, o Rio Grande do Sul dever\u00e1 assistir a uma nova onda de evas\u00e3o de c\u00e9rebros. Um dos que premeditam buscar coloca\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo \u00e9 o economista Rodrigo Daniel Feix, 35 anos, coordenador do N\u00facleo de Estudos do Agroneg\u00f3cio, composto por quatro t\u00e9cnicos.<br \/>\nEstatisticamente, ele representa apenas 1% dos descartados, mas na realidade \u00e9 um t\u00edpico \u201ccientista prata da casa\u201d: come\u00e7ou como aprendiz no \u201cch\u00e3o da f\u00e1brica\u201d da John Deere em Horizontina, fez o curso t\u00e9cnico de torneiro-mec\u00e2nico antes de cursar economia na UFRGS.<br \/>\nCom mestrado em economia rural pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba, est\u00e1 se organizando para fazer doutorado na UFRGS.<br \/>\nSe o n\u00facleo de agroneg\u00f3cio fechar, ser\u00e3o interrompidas parcerias com a Emater, Instituto Ga\u00facho do Leite e Dieese, este para levantamento de dados sobre emprego e desemprego.<br \/>\nAl\u00e9m dos quatro especialistas do n\u00facleo do agroneg\u00f3cio, a FEE possui em outros n\u00facleos mais quatro pesquisadores com trabalhos voltados para a economia rural. Segundo um dos \u00faltimos estudos da FEE, o agro mant\u00e9m 325 mil empregos formais no Rio Grande do Sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Cometer\u00e1 um erro elementar quem julgar o trabalho da Funda\u00e7\u00e3o de Economia e Estat\u00edstica pela apar\u00eancia singela de sua sede na rua Duque de Caxias 1691. 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