{"id":45055,"date":"2017-02-25T15:19:21","date_gmt":"2017-02-25T18:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=45055"},"modified":"2017-02-25T15:19:21","modified_gmt":"2017-02-25T18:19:21","slug":"sou-de-uma-tribo-guerreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/sou-de-uma-tribo-guerreira\/","title":{"rendered":"&quot;Sou de uma tribo guerreira&quot;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Matheus Chaparini<\/span><br \/>\nNa d\u00e9cada de 1940, um grupo de homens negros criou o que viria a ser a maior atra\u00e7\u00e3o do carnaval de Porto Alegre durante d\u00e9cadas. Ao longo do tempo, as tribos ind\u00edgenas tomaram maior import\u00e2ncia chegando a principal atra\u00e7\u00e3o da festa.<br \/>\nCom fantasias que imitavam tribos ind\u00edgenas, os grupos desfilavam pelas ruas do centro. Esta manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma peculiaridade do carnaval de Porto Alegre, que t\u00eam parentes semelhantes em cidades como Salvador e Jo\u00e3o Pessoa.<br \/>\nPorto Alegre chegou a ter 14 tribos desfilando. Hoje, restam apenas duas: Guaianazes e Comanches. \u00c9 comum haver rivalidade entre agremia\u00e7\u00f5es carnavalescas, mas este \u00e9 um caso ainda mais emblem\u00e1tico.<br \/>\nS\u00f3 h\u00e1 um advers\u00e1rio. Ganhando ou perdendo, a guerra \u00e9 sempre com o mesmo grupo. Esta disputa que se repete ano a ano \u00e9 um dos principais combust\u00edveis que mant\u00e9m vivo o carnaval de tribo em Porto Alegre.<br \/>\nQuando foram criadas as primeiras tribos, na d\u00e9cada de 1940, os desfiles aconteciam na Rua da Praia \u2013 que na \u00e9poca fazia jus ao nome. Os blocos entravam pela Caldas J\u00fanior, passavam pelo coreto oficial, que concentrava os jurados, na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega e a dispers\u00e3o era na rua General C\u00e2mara.<br \/>\n<figure id=\"attachment_45057\" aria-describedby=\"caption-attachment-45057\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45057 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Carnaval-antigo.-Tribo.-Fototeca-Siome-Breitman.-Museu-Felizardo-2.jpg\" alt=\"Desfiles de tribo na d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo\" width=\"725\" height=\"532\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45057\" class=\"wp-caption-text\">Desfiles de tribo na d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo<\/figcaption><\/figure><br \/>\nHoje, as tribos saem no Porto Seco, junto aos desfiles das escolas de samba. Mas a diferen\u00e7a \u00e9 vis\u00edvel, sob v\u00e1rios aspectos.<br \/>\nAs tribos n\u00e3o cantam sambas enredo, cantam hinos, com tem\u00e1tica ind\u00edgenas.<br \/>\nOs instrumentos tamb\u00e9m se diferem, a bateria da Tribo Comanches, por exemplo, \u00e9 formada por surdo, maracan\u00e3, repinique e ag\u00ea. A harmonia tem dois cavacos e viol\u00f5es de seis e sete cordas.<br \/>\nO passo da dan\u00e7a \u00e9 diferente e as personagens presentes nos desfiles s\u00e3o outras. N\u00e3o h\u00e1 mestre sala, porta bandeira e rainha, mas cacique, paj\u00e9, deusa, feiticeira.<br \/>\nO ponto alto do desfile \u00e9 a macumba, uma encena\u00e7\u00e3o teatral do tema do ano, que \u00e9 feita quando a tribo passa pelos jurados.<br \/>\n<figure id=\"attachment_45061\" aria-describedby=\"caption-attachment-45061\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45061 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/10989226_1784721471753450_8655912494588902990_o.jpg\" alt=\"Os tradicionais ag\u00eas, bateria da tribo Comanches, carnaval de 2015 \/ Luiza Flores\" width=\"725\" height=\"407\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45061\" class=\"wp-caption-text\">Os tradicionais ag\u00eas, bateria da tribo Comanches, carnaval de 2015 \/ Luiza Flores<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">Caet\u00e9s e Iracemas, o in\u00edcio de tudo<\/span><br \/>\n\u201cO carnaval de \u00edndio foi criado pelo Seu Hemet\u00e9rio, um negr\u00e3o que era amigo do meu pai. Ele criou a primeira tribo de \u00edndio: Os Caet\u00e9s, em 43\u201d, explica Eugenio Alencar da Silva.<br \/>\nAos 11 anos, Mestre Paraquedas, como Eugenio \u00e9 conhecido, ajudou a fazer a primeira alegoria dos Caet\u00e9s. \u201cO tema era a primeira missa no Brasil. Ent\u00e3o era uma oca e uma cruz, que ia deitada durante o desfile. Da\u00ed na hora a gente levantava a cruz com uma corda, o padre rezava a primeira missa, vinha o Pedro Alvares Cabral e dizia \u2018n\u00e3o tem terra como essa, em que plantando tudo d\u00e1!\u2019 e coisa tal&#8230;\u201d<br \/>\nO primeiro desfile de uma tribo foi um sucesso. Entretanto, nem todo mundo podia desfilar: nos Caet\u00e9s s\u00f3 sa\u00eda homem.<br \/>\nAssim, no ano seguinte, surgiam as Iracemas. Uma tribo formada s\u00f3 por mulheres. Sem poder brincar o carnaval na tribo e se dedicando apenas \u00e0s atividades de bastidores, como a de costureira, elas decidiram assumir todas as fun\u00e7\u00f5es e criar uma agremia\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cTinha uma senhora chamada Dona Angelina. O marido dela, Seu Ad\u00e3o, trabalhava no Di\u00e1rio de Not\u00edcias e sa\u00eda nos Caet\u00e9s. A\u00ed a Dona Angelina, a minha m\u00e3e, a Dona Constan\u00e7a se uniram e fizeram as Iracemas.\u201d<br \/>\nJ\u00e1 no primeiro desfile, as Iracemas venceram dos Caet\u00e9s.<br \/>\nMais um ano, mais um carnaval, nova vit\u00f3ria da tribo da mulherada. \u201cNo segundo ano, elas vieram afu mesmo. Bom, deixaram os Caet\u00e9s l\u00e1 embaixo\u201d, conta.<br \/>\nCom os dois resultados seguidos, as mulheres forjaram uma mudan\u00e7a na tribo dos Caet\u00e9s, que deixou essa hist\u00f3ria de ser tribo s\u00f3 de homem.<br \/>\n<figure id=\"attachment_45058\" aria-describedby=\"caption-attachment-45058\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45058 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Carnaval-antigo.-Tribo.-Fototeca-Siome-Breitman.-Museu-Felizardo-3.jpg\" alt=\"Desfile de tribo no carnaval, d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo\" width=\"725\" height=\"546\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45058\" class=\"wp-caption-text\">Desfile de tribo no carnaval, d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">Uma rela\u00e7\u00e3o\u00a0entre povos historicamente oprimidos<\/span><br \/>\nO discurso do senso comum basicamente define as tribos como um carnaval feito por negros que se vestem de \u00edndio.<br \/>\nA antrop\u00f3loga Luiza Flores contesta esta abordagem. \u201cN\u00e3o posso simplesmente dizer: s\u00e3o negros, n\u00e3o s\u00e3o \u00edndios.\u201d<br \/>\nPara a pesquisadora, o que tem de mais importante \u00e9 pensar como esses carnavalescos est\u00e3o se relacionando com o conceito de negro e com o conceito de \u00edndio.<br \/>\nAinda que muitos integrantes n\u00e3o se digam ind\u00edgenas, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria que \u00e9 mais profunda que uma brincadeira de carnaval. Entra em quest\u00e3o o conceito de \u00edndio.<br \/>\n<figure id=\"attachment_45060\" aria-describedby=\"caption-attachment-45060\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45060 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Carnaval-antigo.-Tribo.-Fototeca-Siome-Breitman.-Museu-Felizardo-2487f.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as fantasiadas para o desfile de carnaval, d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo\" width=\"725\" height=\"537\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45060\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as fantasiadas para o desfile de carnaval, d\u00e9cada de 1970 \/ Fototeca Sioma Breitman \/ Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u201cTem pessoas da tribo que tem descend\u00eancia ind\u00edgena, poderiam se declarar ind\u00edgena, mas n\u00e3o fazem por \u2018n\u2019 motivos. Mas encontram nas tribos, um contato com essa historia ind\u00edgena familiar apagada. E \u00e9 um v\u00ednculo identit\u00e1rio que n\u00e3o necessariamente passa pelo sangue.\u201d<br \/>\nO carnaval de tribos foi o assunto do mestrado da antrop\u00f3loga, defendido em 2013, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de janeiro), com o tema Os Comanches e o pren\u00fancio da guerra: Um estudo etnogr\u00e1fico com uma tribo carnavalesca de Porto Alegre\/RS.<br \/>\n\u201cAli tem uma rela\u00e7\u00e3o entre dois povos historicamente oprimidos, que sempre se encontraram em um processo de resist\u00eancia. O que fazem as tribos hoje \u00e9 um processo de resist\u00eancia\u201d, conclui.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Chaparini Na d\u00e9cada de 1940, um grupo de homens negros criou o que viria a ser a maior atra\u00e7\u00e3o do carnaval de Porto Alegre durante d\u00e9cadas. 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