{"id":46716,"date":"2017-04-03T14:35:47","date_gmt":"2017-04-03T17:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=46716"},"modified":"2017-04-03T14:35:47","modified_gmt":"2017-04-03T17:35:47","slug":"de-porto-alegre-ao-porto-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/de-porto-alegre-ao-porto-seco\/","title":{"rendered":"De Porto Alegre ao Porto Seco"},"content":{"rendered":"<p>Arthur Bloise *<br \/>\nMinhas primeiras lembran\u00e7as do Carnaval de Porto Alegre s\u00e3o a de ser levado pela m\u00e3o, com a fam\u00edlia, l\u00e1 nos idos dos anos 70, pela Avenida Jo\u00e3o Pessoa. Chamava aten\u00e7\u00e3o aquela multid\u00e3o, cheiro de churrasco de rua no ar, fantasiados passavam apressados e m\u00fasica nos rostos e bocas. O samba de Porto Alegre tem outra cad\u00eancia, outra estrutura, isso lhe d\u00e1 uma especificidade muito especial. As pessoas que n\u00e3o estavam nas arquibancadas eram em n\u00famero muito maior, milhares circulando pela madrugada, velhos, jovens, crian\u00e7as. As que levavam as suas cadeiras de praia e ficavam no \u201csetor da corda\u201d, ent\u00e3o \u2013 antes e depois das arquibancadas &#8211; eram incont\u00e1veis. N\u00e3o tinha hora para o bloco ou escola de samba entrar e sair. Ficava-se a noite esperando e de repente, acontecia.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do discurso discriminat\u00f3rio de que \u201cPorto Alegre n\u00e3o tem carnaval\u201d, a cidade tinha v\u00e1rios carnavais. Antes de n\u00f3s, teve na Jo\u00e3o Alfredo, teve na Borges. Tinha carnaval na zona norte e em muitos outros lugares. Carnaval de blocos, sociedades e sal\u00e3o. No fim dos anos 70 e anos 80, creio eu, a cidade teve um dos melhores carnavais de sal\u00e3o do pa\u00eds. Quem n\u00e3o gostava da rua podia se esbaldar no Verde e Branco, Vermelho e Branco, Municipal e praticamente todos os clubes da nossa querida capital tinham n\u00e3o um, mas muitos dias com muitos bailes de carnaval.<br \/>\nNa Santana, a Dona Maria Bravo garantiu por d\u00e9cadas um carnaval democr\u00e1tico. L\u00e1 n\u00e3o tinha cobran\u00e7a de ingressos, mal tinha um coreto patrocinado por algum comerciante do bairro e a regra era clara: em algum momento, sabe-se l\u00e1 quando, ap\u00f3s o desfile oficial, as escolas vir\u00e3o aqui. E iam. Passar na Santana e ser ovacionado pelo p\u00fablico era t\u00e3o ou mais importante que ganhar o desfile oficial. E na Santana, a mesma cena: fam\u00edlias inteiras com cadeiras e sacolas cheias de pastel, sucos, cervejas e tudo o que se precisa para uma noite de festa na rua.<br \/>\nO tempo passou e, da Jo\u00e3o Pessoa, os desfiles migraram para a Perimetral. T\u00e3o lindo quanto as escolas era a decora\u00e7\u00e3o. Chegou a haver um ano em que o piscar das luzes acompanhava a batida de cada bateria de cada escola. Comprar ingresso para os desfiles era obra de log\u00edstica impens\u00e1vel. Dois ou mais dias, antes de abrirem, nas bilheterias j\u00e1 havia gente acampada. Pretos, brancos, pardos, gente da periferia vinha de longe. Eram os quatro dias em que o espa\u00e7o central da cidade era deles. Como sempre afirmam os sambas: quatro dias de reinado para os que n\u00e3o s\u00e3o nada. Enquanto grassava o discurso da cidade sem carnaval, vi com esses olhos, por v\u00e1rios anos, grupos de turistas argentinos e uruguaios participarem da festa at\u00f4nitos. Eles n\u00e3o estavam interessados nas escolas de samba. Eles queriam era saber das tribos. Ah&#8230; essa coisa ga\u00facha e porto-alegrense que nos diferencia de todos os outros carnavais.<br \/>\nAqui, conseguimos juntar os negros fazendo tribos ind\u00edgenas no carnaval. O \u201cmust\u201d para quem, de fora, est\u00e1 \u00e0 procura das nossas peculiaridades e n\u00e3o das nossas mesmices. Meu av\u00f4, D\u00e9cio Ferreira, ajudou a construir uma dessas: os Caet\u00e9s. L\u00e1 nos tempos da Ilhota, outra comunidade pobre e predominantemente negra. Ficava ali onde hoje \u00e9 o gin\u00e1sio Tesourinha.<br \/>\nPorto Alegre tinha duas Muambas. O que hoje \u00e9 chamado de ensaio t\u00e9cnico \u2013 express\u00e3o horr\u00edvel para o carnaval \u2013 era o momento de afinar as baterias e ver o povo cair na folia sem oficialismos. Tinha a muamba oficial e a outra patrocinada por uma rede de comunica\u00e7\u00e3o que, \u00e0 \u00e9poca, era administrada por seu fundador que tinha alguma preocupa\u00e7\u00e3o social. Hoje, a fam\u00edlia toca os neg\u00f3cios. O social ficou na lembran\u00e7a.<br \/>\nRua do Perd\u00e3o, as bandas&#8230; As ruas com gente que trabalha e sorri. Apesar da vida que pouco sorri para essa gente.<br \/>\nNum dia de inverno do in\u00edcio dos anos 90, trabalhava eu na C\u00e2mara de Vereadores, fiquei sabendo de uma reuni\u00e3o de grupos contr\u00e1rios \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do samb\u00f3dromo na rua que fica transversal \u00e0 Augusto de Carvalho, onde j\u00e1, naquela \u00e9poca era o local dos desfiles. Chamou a minha aten\u00e7\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o do grupo: muitos indiv\u00edduos sem representa\u00e7\u00e3o coletiva ou associativa, se dizendo ecologistas e tradicionalistas. N\u00e3o queriam o carnaval ali de jeito nenhum. Desde as \u00e1rvores (ex\u00f3ticas) que seriam derrubadas at\u00e9 o barulho que prejudicaria a popula\u00e7\u00e3o eram argumentos. Algum tempo depois, presenciei um espet\u00e1culo de intoler\u00e2ncia absurdo: uma mobiliza\u00e7\u00e3o para a retirada da quadra da Imperadores do Samba que ficava na esquina da Ipiranga com a \u00c9rico Ver\u00edssimo. Desde moradores que se mudaram para o pr\u00e9dio ao lado da quadra \u2013 mesmo esta sendo bem mais antiga \u2013 at\u00e9 padre da par\u00f3quia local se uniu para banir o samba do vermelho branco. Independentemente de gostos de carnaval: quem nunca se esbaldou num ensaio do \u201cImperador\u201d???<br \/>\nPois bem, a prefeitura apresentou um projeto para que o samb\u00f3dromo fosse quase atr\u00e1s do Beira-Rio. Mobiliza\u00e7\u00e3o dos mesmos grupos, mesmos atores, mesmos argumentos. Chegaram a afirmar que o samb\u00f3dromo desvalorizaria os im\u00f3veis, como quem insinua que vai ser constru\u00eddo um pres\u00eddio. E n\u00e3o teve samb\u00f3dromo e finalmente, fomos todos enxotados para o deserto das almas, num espa\u00e7o outrora destinado a dep\u00f3sito de cargas, o tal Porto Seco.<br \/>\nVim at\u00e9 aqui nesse papo melanc\u00f3lico de quem gosta de carnaval e do carnaval de Porto Alegre para afirmar que, sem sombra de d\u00favida, este \u00e9 um exemplo claro do tipo de cidade que se planeja. Em abdicar de tomar para si e definir um projeto de cidade que contemple a sua popula\u00e7\u00e3o em sua diversidade, Porto Alegre vira a cidade planejada pelo mercado. Quem tem dinheiro planeja e executa. Quem n\u00e3o tem, a periferia \u00e9 seu lugar. Nada mais cl\u00e1ssico em se tratando de cidades nesses tempos de cidade-mercadoria.<br \/>\nO carnaval e seu povo errou quando aceitou a ida para o Porto Seco docemente. Erramos quando, em algum momento, nos referenciamos no carnaval do Rio e come\u00e7amos a acreditar em escolas com carros enormes, estrutura permanente de cimento, etc. \u00c9 preciso repensar se n\u00e3o \u00e9 hora de voltar para onde o carnaval jamais deveria ter sa\u00eddo: o centro da cidade. Ali\u00e1s, o que tem de semelhan\u00e7a os carnavais de Buenos Aires, Montevid\u00e9u e cidades europeias? Todos s\u00e3o no centro. Todos s\u00e3o para toda a popula\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 para ser ocupado e o centro das cidades tem um simb\u00f3lico de ser onde as coisas importantes devem acontecer.<br \/>\nOcupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o p\u00fablico pela popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito bom para a popula\u00e7\u00e3o e muito ruim para quem n\u00e3o quer povo na rua.<br \/>\nO que vemos hoje \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito paradoxal na cidade: s\u00e3o trinta dias de carnaval de blocos no centro e o cancelamento de um dia de desfile no Porto Seco na periferia por falta de condi\u00e7\u00f5es. Fica a\u00ed uma dica sobre a quest\u00e3o \u00e9tnica e como ela \u00e9 tratada nos pampas. N\u00e3o \u00e9 a toa que o povo de escola de samba \u00e9 predominantemente negro. Classe e etnia cabem aqui.<br \/>\nOutro paradoxo: Uruguaiana, interiorz\u00e3o aqui mesmo no RS, terra de tradi\u00e7\u00e3o, d\u00e1 um show quando faz um carnaval para 50.000 pessoas. Ah&#8230; mas no centro n\u00e3o tem espa\u00e7o para os carros aleg\u00f3ricos. Carro aleg\u00f3rico? Por um carnaval mais horizontal, mais participa\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEnquanto isso, um jornal de Porto Alegre se gaba de a cidade estar ocupando os espa\u00e7os p\u00fablicos. Sim, estamos. Invariavelmente estamos ocupando os espa\u00e7os p\u00fablicos com eventos privados! Nada contra os eventos privados. Mas cad\u00ea a capacidade da cidade e sua administra\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 teve momentos memor\u00e1veis como os Bailes da Cidade na Reden\u00e7\u00e3o nos anos 90, planejar essa ocupa\u00e7\u00e3o para que seja permanente e n\u00e3o dependente da boa vontade particular?<br \/>\nVamos cedendo lentamente e a cidade vai sendo literalmente engolida pelo planejamento privado. \u00c9 o Cais Mau\u00e1, s\u00e3o os shopping centers em profus\u00e3o, a poss\u00edvel privatiza\u00e7\u00e3o do Mercado P\u00fablico, cercamento de parques e pra\u00e7as. Vai se criando propositadamente um clima de guerra na cidade para justificar uma cidade com medo e uma cidade armada. Logo, logo e veremos a higieniza\u00e7\u00e3o social da cidade, algumas pinturas de meio fio e muito asfalto, garantia de elei\u00e7\u00e3o e reelei\u00e7\u00e3o em cidades mentalmente ganhas para esse modelo insustent\u00e1vel. Enquanto isso, um projeto que restringia a circula\u00e7\u00e3o de carros no centro hist\u00f3rico para dar lugar \u00e0s pessoas e a ocupa\u00e7\u00e3o permanente desse espa\u00e7o \u00e9 rejeitado veementemente. Mas planejar estacionamento com 4000 vagas para carros no Cais Mau\u00e1 pode. Ali\u00e1s, quando a cidade ter\u00e1 a chance de debater que o cais Mau\u00e1 poderia ser um parque? E que o carnaval poderia ser l\u00e1? Sem chance. J\u00e1 perceberam que quando o evento \u00e9 p\u00fablico sempre tem problema de hor\u00e1rio e barulho? Quando \u00e9 privado parece que a toler\u00e2ncia aumenta.<br \/>\nTermino afirmando que estamos num bom momento para repensar a cidade. A\u00a0comunidade carnavalesca de escolas de samba, talvez unida com os blocos que positivamente ocuparam seus espa\u00e7os no centro e todos os que pensam a cidade como capital de cidadania e democracia precisar\u00e3o muito mais do que fotos ao lado de candidatos a administradores da cidade para manter esta festa popular. O lugar do carnaval, o lugar das pessoas confraternizarem deve ser o Centro. O Centro deve ser das pessoas, o centro deve ser as pessoas.<br \/>\nNada contra S\u00e3o Patr\u00edcio, mas a cidade \u00e9 de Nossa Senhora dos Navegantes, a Iemanj\u00e1.<br \/>\n<strong><em>*Ge\u00f3grafo, servidor federal da UFRGS<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arthur Bloise * Minhas primeiras lembran\u00e7as do Carnaval de Porto Alegre s\u00e3o a de ser levado pela m\u00e3o, com a fam\u00edlia, l\u00e1 nos idos dos anos 70, pela Avenida Jo\u00e3o Pessoa. Chamava aten\u00e7\u00e3o aquela multid\u00e3o, cheiro de churrasco de rua no ar, fantasiados passavam apressados e m\u00fasica nos rostos e bocas. 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