{"id":46756,"date":"2017-04-04T15:37:31","date_gmt":"2017-04-04T18:37:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=46756"},"modified":"2017-04-04T15:37:31","modified_gmt":"2017-04-04T18:37:31","slug":"quando-exagerinhos-e-erros-esteticos-na-conducao-do-processo-maculam-a-justica-e-servem-apenas-a-grande-obra-corporativa-de-destruir-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/quando-exagerinhos-e-erros-esteticos-na-conducao-do-processo-maculam-a-justica-e-servem-apenas-a-grande-obra-corporativa-de-destruir-o-pais\/","title":{"rendered":"Quando exagerinhos e erros est\u00e9ticos na condu\u00e7\u00e3o do processo maculam a justi\u00e7a e servem apenas \u00e0 grande obra corporativa de destruir o pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-46757\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/wadih-damous-pt-rj.jpeg\" alt=\"wadih-damous-pt-rj\" width=\"150\" height=\"190\" \/>Wadih Damous*<\/em><\/span><br \/>\n<span class=\"descreve\">Deputado Federal (PT-RJ) e ex-Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio de Janeiro.<\/span><br \/>\n\u00c9 dever do advogado defender seus constituintes com todo seu conhecimento, sua melhor t\u00e9cnica e esmero argumentativo. O interesse do cliente est\u00e1 acima de tudo. A tergiversa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pecado capital do advogado. Por isso mesmo a aceita\u00e7\u00e3o de um mandato n\u00e3o dispensa do exame de consci\u00eancia, pois o maior ativo do defensor \u00e9 a credibilidade advinda de sua coer\u00eancia \u00e9tica e, tamb\u00e9m, pol\u00edtica. Causas patrocinadas por mero mercantilismo costumam afetar a reputa\u00e7\u00e3o de quem as defende. O desd\u00e9m pelo enquadramento axiol\u00f3gico do pleito lhe impede ver que o direito pelo qual pugna pode ser indefens\u00e1vel em perspectiva \u00e9tica.<br \/>\nN\u00e3o afirmo que n\u00e3o haja espa\u00e7o para qualquer tipo de advocacia. O mercado n\u00e3o funciona na base da \u00e9tica. Nele prevalece a m\u00e1xima &#8220;<em>pecunia non olet<\/em>&#8221; (&#8220;Dinheiro n\u00e3o tem cheiro). O caus\u00eddico sempre poder\u00e1 dormir em paz com a desculpa de que qualquer acusado merece uma boa defesa.<br \/>\nEssa desculpa n\u00e3o \u00e9 de todo falsa. O direito \u00e0 ampla defesa deve ser garantido a santos e sacripantas indistintamente. Mas, no escrut\u00ednio diante do seu conselheiro interior, o advogado tem capacidade de optar por defender ou n\u00e3o o sacripanta, a depender do vulto da sacripantagem. Um advogado n\u00e3o \u00e9 um vendedor de palavras ao l\u00e9u. Precisa conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes. Essa \u00e9 sua arte. \u00c9 mais f\u00e1cil convencer quando se tem convic\u00e7\u00e3o do que quando s\u00f3 se pensa nos honor\u00e1rios. A \u00e9tica da advocacia est\u00e1 intimamente vinculada n\u00e3o apenas \u00e0 fidelidade do advogado a seu cliente, mas, sobretudo, \u00e0 lealdade com que se conduz no processo, com a sinceridade de quem est\u00e1 defendendo aquilo em que acredita.<br \/>\nQuando advogados n\u00e3o t\u00eam convic\u00e7\u00e3o, podem sentir-se atra\u00eddos \u00e0 causa pelas 30 moedas de prata (Mt 26, 14-16) somente, mas pagam um alto pre\u00e7o por isso. Em tempos de dela\u00e7\u00e3o premiada, ser Judas est\u00e1 na moda e os maus conselheiros abundam. Mas quem conchava com um Caif\u00e1s, mesmo que seja em Curitiba e n\u00e3o em Jerusal\u00e9m, precisa saber que a hist\u00f3ria o julgar\u00e1 com a crueldade proporcional \u00e0 leviandade de seus atos.<br \/>\nA chamada &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma atividade judicial-policial qualquer. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma cruzada do Bem contra o Mal. \u00c9 sobretudo uma iniciativa pol\u00edtica, palco dos encontros e desencontros de m\u00faltiplos interesses. Suas consequ\u00eancias t\u00eam custado muito caro ao pa\u00eds. N\u00e3o pelo \u00f4nus natural de uma persecu\u00e7\u00e3o penal a atingir atores centrais de nossa vida pol\u00edtica, o que por si s\u00f3 seria impactante, mas, muito mais, pela revela\u00e7\u00e3o da imaturidade das nossas institui\u00e7\u00f5es, que fazem gato e sapato dos direitos e garantias fundamentais do processo e se omitem na prote\u00e7\u00e3o da imagem dos arguidos sob forte press\u00e3o midi\u00e1tica. Assaz capengas entre n\u00f3s, as regras processuais perderam vig\u00eancia nessa obra piramidal de burocratas concurseiros, \u00e1vidos por seus minutos de gl\u00f3ria e iludidos com sua (des)import\u00e2ncia num quadro constitucional ast\u00eanico, que mal disfar\u00e7a a ru\u00edna do consenso democr\u00e1tico em meio ao golpe resultante na deposi\u00e7\u00e3o da Presidenta da Rep\u00fablica Dilma Vana Rousseff. O pre\u00e7o pago pela sociedade n\u00e3o \u00e9 apenas a corrup\u00e7\u00e3o de suas institui\u00e7\u00f5es, mas igualmente a extin\u00e7\u00e3o de milhares de empregos, o colapso de setores vitais da economia, a perda da competitividade no mercado internacional, a deteriora\u00e7\u00e3o da imagem do Brasil e de seus atores empresariais, o desaparecimento de forte ativo tecnol\u00f3gico e o comprometimento do futuro das gera\u00e7\u00f5es jovens, fadadas a viver num pa\u00eds de infraestrutura precarizada e incapaz de se reerguer. O produto dessa irresponsabilidade corporativa tem um nome: Estado falido.<br \/>\nN\u00e3o vale dizer que esse desastre nacional \u00e9 culpa da corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de seu &#8220;combate&#8221;, argumento tosco dos agentes persecut\u00f3rios, que, com falsa humildade, dizem estar &#8220;s\u00f3 fazendo seu trabalho&#8221;. Eichmann em Jerusal\u00e9m tamb\u00e9m disse que apenas havia feito seu trabalho ao deportar milh\u00f5es de judeus de seus lares para as c\u00e2maras de g\u00e1s. Qui\u00e7\u00e1 pensasse que a culpa n\u00e3o era dele, mas dos milh\u00f5es de judeus que viviam na Europa Central.<br \/>\nDe um agente p\u00fablico, principalmente dos que tomam decis\u00f5es graves para o pa\u00eds, espera-se mais do que submiss\u00e3o acr\u00edtica a rotinas de servi\u00e7o. Espera-se comedimento e parcim\u00f4nia, estrita vincula\u00e7\u00e3o \u00e0s leis, que fidelizam valores constitucionais, e sobretudo vis\u00e3o estrat\u00e9gica, bem como a consci\u00eancia de que formas e meios n\u00e3o podem se sobrepor aos fins maiores do bem-estar e da soberania nacional.<br \/>\nO desastre nacional \u00e9 culpa, sim, de mo\u00e7as e rapazes imaturos, recrutados entre a meritocracia ideologicamente rasa e em procedimento que n\u00e3o afere a capacidade de enfrentar desafios reais e riscos pol\u00edticos. S\u00e3o dirigidos por um chefe pouco afeito \u00e0 cr\u00edtica de suas a\u00e7\u00f5es e com uma vis\u00e3o distorcida do papel de sua institui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o no Brasil j\u00e1 h\u00e1 muito carecia ser enfrentada. Isso n\u00e3o \u00e9 novidade para ningu\u00e9m. O problema da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica entre n\u00f3s \u00e9 que ela foi feita com o esfor\u00e7o de resguardar privil\u00e9gios e posi\u00e7\u00f5es consolidadas de poder. N\u00e3o mexemos no DNA da governa\u00e7\u00e3o. Os caciques de antes da ditadura militar e os que com ela nasceram ou se fortaleceram n\u00e3o precisaram temer nada na passagem para o governo civil. Da parte dos que foram massacrados pelo autoritarismo do golpe de 1964, houve condescend\u00eancia, extorquida em nome da sustentabilidade da transi\u00e7\u00e3o. Completada esta, ocorreu a acomoda\u00e7\u00e3o, o conv\u00edvio dos contr\u00e1rios em nome de um consenso democr\u00e1tico. Banalizaram-se as m\u00e1s pr\u00e1ticas, aceitas como mal menor. Pior seria um novo confronto com nossas podres elites, que pudesse ter como desfecho nova onda de persegui\u00e7\u00e3o contra as for\u00e7as democr\u00e1ticas.<br \/>\nNo \u00e2mbito do Judici\u00e1rio, tal acomoda\u00e7\u00e3o foi sustentada tanto pela inefici\u00eancia do aparato persecut\u00f3rio, quando se tratava de lidar os malfeitos dos poderosos, sempre representados por advogados de &#8220;<em>griffe<\/em>&#8220;, ao gosto dos magistrados que cultivavam sua cercania, quanto pela extrema antipatia da vasta maioria dos ju\u00edzes por demandas democr\u00e1ticas vistas como &#8220;esquerdistas&#8221;, para n\u00e3o dizer &#8220;revanchistas&#8221;.<br \/>\nEnquanto isso, os neg\u00f3cios dos corruptos e dos corruptores iam bem. Custeavam todo o sistema pol\u00edtico com o financiamento de disputas eleitorais em valores cada vez mais pr\u00f3ximos da estratosfera. Quem quisesse ser um &#8220;<em>player<\/em>&#8221; na macropol\u00edtica n\u00e3o poderia dispens\u00e1-los. A contrapartida da ajudinha era modesta: garantir uns contratinhos aqui e outros acol\u00e1, com recursos p\u00fablicos a irrigar a m\u00e1quina de eleger caciques.<br \/>\nNas poucas vezes que o Minist\u00e9rio P\u00fablico quis reagir, tomou balde de \u00e1gua fria na cabe\u00e7a. Foi atropelado com a absolvi\u00e7\u00e3o de Collor no STF; com o confisco, pelo STJ, dos autos das provas recolhidas no escrit\u00f3rio do genro de Jos\u00e9 Sarney; com o uso de um <em>habeas corpus<\/em> no mesmo STJ a teleguiar os passos do juiz de primeiro grau no Maranh\u00e3o na opera\u00e7\u00e3o &#8220;Boi Barrica&#8221;; com a improced\u00eancia de todas as a\u00e7\u00f5es que tentaram bloquear o leil\u00e3o da telefonia p\u00fablica a pre\u00e7o de banana; com o desaparecimento da &#8220;pasta cor de rosa&#8221; nas gavetas do Procurador-Geral da Rep\u00fablica e por a\u00ed vai. Infind\u00e1vel \u00e9 a lista de epis\u00f3dios, nos quais o Minist\u00e9rio P\u00fablico, militante de boas causas, foi feito de bobo da corte.<br \/>\nConsolidou-se uma pol\u00edtica da impunidade amplamente sustentada pelo Judici\u00e1rio, sempre que os suspeitos eram pol\u00edticos &#8220;de bens&#8221;. Formou-se ao fim o consenso de que n\u00e3o era poss\u00edvel ganhar elei\u00e7\u00f5es e governar sem alian\u00e7a com a casta dos corruptos.<br \/>\nAs alian\u00e7as feitas pelo PT foram reputadas indispens\u00e1veis para que Lula e, depois, Dilma pudessem se manter firmes no poder. Afinal, mesmo tendo ganho as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, as bancadas da esquerda nas duas casas do Congresso eram esqu\u00e1lidas, incapazes at\u00e9 de formar maioria simples para aprova\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias importantes. Partidos que na sua pr\u00e1tica nada tinham em comum com o PT foram chamados a compor o governo, para formar a base parlamentar indispens\u00e1vel. Os caciques de sempre, por\u00e9m, nunca se davam por satisfeitos com as mordiscadas ministeriais e or\u00e7ament\u00e1rias franqueadas na divis\u00e3o do botim pol\u00edtico. Queriam mais. N\u00e3o atendidos, impunham ao governo derrotas pontuais no parlamento como um aviso. Nessas horas n\u00e3o eram &#8220;prestigiados&#8221; pelo governo. Colocavam a culpa no PT, que na sua \u00f3tica tudo queria para si. Sentiam-se parceiros menores. E isso apesar de terem sob o comando de sua gente pastas repletas de cargos e recursos para distribuir a aliados. A chantagem era quase di\u00e1ria. E o governo cedia sob justificativa da garantia da governabilidade.<br \/>\nN\u00e3o se compreendeu que a alian\u00e7a com os caciques de sempre, se por um lado permitia pequenos avan\u00e7os numa cultura pol\u00edtica inclusiva, por outro mantinha a velha &#8220;negociatocracia&#8221;, que se alimentava de recursos p\u00fablicos para financiar sua hegemonia pol\u00edtica.<br \/>\nO &#8220;<em>turning point<\/em>&#8221; na toler\u00e2ncia generalizada com a corrup\u00e7\u00e3o foi atingido quando os achacadores decidiram romper a alian\u00e7a. Estavam insatisfeitos por n\u00e3o comandarem o caixa como sempre comandaram. O esc\u00e2ndalo do chamado &#8220;mensal\u00e3o&#8221; come\u00e7ou quando Roberto Jefferson aparentemente n\u00e3o se contentou com os quatro milh\u00f5es que lhe teriam sido destinados num sinal de boa vontade para com seu partido. Quis 20 milh\u00f5es supostamente prometidos e n\u00e3o entregues. Ficou furioso com a destitui\u00e7\u00e3o da diretoria dos Correios por ele indicada e declarou guerra \u00e0 Casa Civil dirigida por Jos\u00e9 Dirceu.<br \/>\nOs achacadores converteram-se em acusadores e passaram a fazer a festa da direita brasileira. Sempre lenientes com os malfeitos dos caciques, os tribunais come\u00e7aram a amolar seus fac\u00f5es para trucidar os pol\u00edticos da esquerda hist\u00f3rica.<br \/>\nNingu\u00e9m desconhece que a manuten\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a com os caciques corruptos fez o PT ingressar em uma zona de elevado risco \u00e9tico. Mesmo sem ter plena consci\u00eancia da extens\u00e3o do tamanho da pilhagem, compactuou com pol\u00edticos rapaces. Dividiu sua tradicional base de sustenta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Rachou o partido. Distanciou-se de parte do movimento popular. Mas a maior cat\u00e1strofe foi permitir que as pr\u00e1ticas sujas da pol\u00edtica tradicional contaminassem a imagem do pr\u00f3prio PT.<br \/>\nEssa foi a deixa para que os caciques pudessem, na base de uma campanha de destrui\u00e7\u00e3o de reputa\u00e7\u00f5es, retornar ao poder sem precisar dividi-lo com a esquerda. Puderam, agora, espalhar que todos eram iguais, inclusive o pudico PT. Festejaram a morte de seu <em>alter ego<\/em> \u00e9tico. Embora o PT tenha se adaptado apenas \u00e0 cultura dos donos do poder para, firmando alian\u00e7a com estes, sustentar-se no poder para o qual fora eleito, foi transformado em l\u00edder da corrup\u00e7\u00e3o. E agora, com o apoio dos velhacos da pol\u00edtica e da grande m\u00eddia, o Judici\u00e1rio, que sempre premiou com sua leni\u00eancia e sua inefici\u00eancia a apropria\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica pelos donos do poder, pretende estatuir um exemplo de moralidade, transformando o PT e sua lideran\u00e7a forjada na luta contra a ditadura em bodes expiat\u00f3rios de todos os males de 500 anos de hist\u00f3ria do Brasil.<br \/>\nAqui entra em cena o Minist\u00e9rio P\u00fablico com suas opera\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o. Juntou-se a fome com a vontade de comer. E o mais guloso de todos os atores estatais \u00e9 um juiz de piso de Curitiba, vaidoso at\u00e9 a medula e com indisfar\u00e7\u00e1vel antipatia pelo PT e seus atores.<br \/>\nMuito cedo o Minist\u00e9rio P\u00fablico descobriu que poderia tornar-se popular e melhorar seu cacife na negocia\u00e7\u00e3o de suas vantagens e de seu status no quadro constitucional pr\u00e1tico com o governo e o Congresso, espalhando o terror no Estado e engambelando com um discurso falso-moralista a manada dos desavisados leitores de <em>Veja<\/em> e <em>O Globo<\/em>. A\u00e7\u00f5es penais e de improbidade administrativa contra gestores e pol\u00edticos carreiam indiscut\u00edveis vantagens. Temidos, os membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, representados por suas associa\u00e7\u00f5es corporativas, s\u00e3o recebidos pelos parlamentares e dirigentes ministeriais respons\u00e1veis pelos seus ganhos. Na vis\u00e3o de boa parte dessa burocracia poderosa, greve \u00e9 coisa de perdedor. Discretas, suas campanhas por subs\u00eddios transcorrem em salas acarpetadas, com ar condicionado, cafezinho, \u00e1gua gelada e muitos tapinhas nas costas. S\u00f3 assim conseguiram chegar ao patamar de 30 mil reais de ganhos brutos ordin\u00e1rios por m\u00eas mesmo para jovens na carreira, muito acima dos ordenados de embaixadores, generais de quatro estrelas ou professores titulares de universidades p\u00fablicas.<br \/>\nOpera\u00e7\u00f5es como a &#8220;Lava Jato&#8221; produzem um enorme efeito de <em>marketing <\/em>positivo para a corpora\u00e7\u00e3o e s\u00e3o vendidas como p\u00edlula amarga redentora de todos os males da na\u00e7\u00e3o. Estragos colaterais pouco importam. A culpa por eles \u00e9 transferida aos investigados e acusados, presumidos como \u00fanicos respons\u00e1veis pelo caos criado.<br \/>\nOpera\u00e7\u00f5es feitas de olho no Ibope t\u00eam um enorme custo institucional. Passam por cima do que \u00e9 mais caro ao direito penal p\u00f3s-iluminista, a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia dos imputados. Pessoas s\u00e3o expostas \u00e0 sanha retributivista e \u00e0 curiosidade lasciva do p\u00fablico mesmo sem culpa formada. Ju\u00edzes deixam de ser imparciais e penteiam sua vaidade em turn\u00eas mundo afora. Todos os atores estatais envolvidos, do MP, da PF e do Judici\u00e1rio, apontam os dedos duros aos que elegeram como focos do \u00f3dio coletivo destilado. Abre-se a todos a vista dos detalhes mais s\u00f3rdidos dos fatos em apura\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia quando atingem a esquerda pudica.<br \/>\nNesse terror judicialiforme os tiros ricocheteiam para todos os lados e acertam tamb\u00e9m em aliados dos caciques tradicionais. A m\u00e1quina corporativa judicial-persecut\u00f3ria \u00e9 autof\u00e1gica. Esgotados os alvos de sua a\u00e7\u00e3o espetacular pelo lado da esquerda, passa a atirar para a direita, porque o ciclo de risco n\u00e3o pode ter fim. A fera n\u00e3o pode ser domada nem desdentada, sob pena de perder o temor dos atores que lhes garantem privil\u00e9gios. Uma vez hasteada a bandeira do \u201ccombate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o\u201d, ela n\u00e3o pode mais ser arriada. O \u201ccombate\u201d se torna um fim em si.<br \/>\nOcorre que nenhum pa\u00eds sobrevive com uma agenda autof\u00e1gica de \u201ccombate\u201d sem tr\u00e9gua contra seus atores pol\u00edticos e econ\u00f4micos estrat\u00e9gicos. A corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se transformar em tema principal de governo. Ningu\u00e9m \u00e9 a favor dela, mas h\u00e1 de se convir que a desigualdade, as m\u00e1s pr\u00e1ticas administrativas, o sistema pol\u00edtico-eleitoral deformado e a forte carteliza\u00e7\u00e3o garantiram-lhe\u00a0 presen\u00e7a significativa entre n\u00f3s. S\u00e3o esses os fatores que exigem aten\u00e7\u00e3o e cuidados maiores. Enfrentar a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es contra a pobreza, contra a exclus\u00e3o social, pela transpar\u00eancia e participa\u00e7\u00e3o ampla na formula\u00e7\u00e3o de programas de governo, pela exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de dados da execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria e e pela reforma pol\u00edtico-partid\u00e1ria.<br \/>\nCuriosamente, quem mais fez nesse \u00e2mbito foram precisamente os governos do PT, que em nenhum momento baixaram a guarda no cuidado com a coisa p\u00fablica. Foi nesses governos que se criou a Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Corrup\u00e7\u00e3o e Lavagem de Ativos, um foro plurissetorial que lida com as a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias contra as m\u00e1s pr\u00e1ticas na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Foi nesses governos que se passou a legisla\u00e7\u00e3o que hoje ampara a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal e do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Foi nesses governos que o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o sofreu qualquer interfer\u00eancia do Poder Executivo na escolha de sua chefia, sendo indicado, sempre, o primeiro de uma lista corporativa sem forma jur\u00eddica, mas com elevado peso pol\u00edtico. O resultado teria sido um salto de qualidade na governa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fosse a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica predat\u00f3ria em que se lan\u00e7aram as institui\u00e7\u00f5es do complexo judici\u00e1rio-policial. Empoderaram-se por iniciativa pr\u00f3pria agentes do Estado despreparados para tanto poder. Jogaram para a plateia, viraram her\u00f3is, passaram a festejar-se e atropelaram o debate legislativo, mimetizando iniciativa popular sobre as chamadas \u201cdez medidas contra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d, todas gestadas no foro interno do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e objetos de intensa publicidade institucional.<br \/>\nO que menos interessou nesse transe de megalomania corporativa foi o devido processo legal e o julgamento justo. \u00c9 como se os apontados como envolvidos em pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o fossem completamente desprovidos de direitos, destinados a servirem de tetas de informa\u00e7\u00f5es a serem ordenhadas na base do temor \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, pris\u00e3o e perda patrimonial. Mesmo soltos, os que se dispuseram a delatar buscaram mais do um pr\u00eamio: empenharam-se em moderar a viol\u00eancia processual contra si. Vazamentos de informa\u00e7\u00f5es, opera\u00e7\u00f5es com estardalha\u00e7o midi\u00e1tico, escutas de conversas entre advogados e seus clientes, condu\u00e7\u00f5es coercitivas de investigados sem base legal m\u00ednima e intenso <em>marketing<\/em> das a\u00e7\u00f5es ao p\u00fablico leigo desavisado &#8211; tudo \u00e9 parte de uma estrat\u00e9gia de aniquilar as chances de qualquer resist\u00eancia defensiva.<br \/>\nN\u00e3o se trata de meros \u201cexageros\u201d da \u201cLava Jato\u201d, como recentemente se sugeriu em artigo na <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. Muito menos pode-se dizer que \u201cn\u00e3o maculam\u201d a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 maculam-na, mas invalidam-na por completo. Quando autoridades n\u00e3o buscam a autoria de um fato de materialidade inconteste e, sim, a materialidade de suposta conduta para atribu\u00ed-la a um autor previamente eleito, perde-se o sentido da imparcialidade e do julgamento justo. A impress\u00e3o de partidarismo do juiz \u00e9 refor\u00e7ada por seu encontro p\u00fablico com protagonistas da campanha de \u00f3dio contra o PT. Descrita com pertinente causticidade por Paulo Henrique Amorim como &#8220;bolina c\u00edvica&#8221;, a imagem do magistrado todo sorrisos em conversa com A\u00e9cio Neves chega a ser um deboche.<br \/>\nCrises servem para clarear a vis\u00e3o. As m\u00e1scaras caem. Os atores deixam de ser personagens e se assumem em sua ess\u00eancia. Covardes s\u00e3o vistos como covardes, oportunistas como oportunistas, traidores como traidores, c\u00ednicos como c\u00ednicos e hip\u00f3critas como hip\u00f3critas. Crises reduzem op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o de tal modo, que se apresentam como lances de um jogo de xadrez. Com pe\u00e7as brancas e pe\u00e7as pretas. Jamais pe\u00e7as cinzas. Nesta hora, \u00e9 poss\u00edvel saber quem tem coragem, porque, como disse Kurt Tucholsky, o mais dif\u00edcil \u00e9 estar na contram\u00e3o de seu tempo e dizer alto e bom som &#8220;N\u00e3o!&#8221;.<br \/>\nReduzir os pecados mortais da \u201cLava Jato\u201d a \u201cexageros\u201d que n\u00e3o a \u201cmaculam\u201d, definitivamente n\u00e3o \u00e9 um ato de coragem. Parece muito mais um discurso para captar a benevol\u00eancia do magistrado exibicionista. Talvez at\u00e9 para melhorar as chances de defesa de um cliente de advocacia, sacripanta ou n\u00e3o. Quem assim qualifica a \u201cLava Jato\u201d age como eficiente defensor, mas sem d\u00favida com pouca ou nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o diante da \u00e9tica destro\u00e7ada pela atua\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos fora da lei.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wadih Damous* Deputado Federal (PT-RJ) e ex-Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio de Janeiro. \u00c9 dever do advogado defender seus constituintes com todo seu conhecimento, sua melhor t\u00e9cnica e esmero argumentativo. O interesse do cliente est\u00e1 acima de tudo. A tergiversa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pecado capital do advogado. 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