{"id":470,"date":"2006-02-17T16:28:43","date_gmt":"2006-02-17T19:28:43","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=470"},"modified":"2006-02-17T16:28:43","modified_gmt":"2006-02-17T19:28:43","slug":"uma-pequena-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/uma-pequena-revolucao\/","title":{"rendered":"Uma pequena revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/boca%20de%20rua\/bocaderua05_taniameinerz.jpg?0.5023219896974533\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Cada componente tem direito a\u00a030 exemplares por semana\u00a0(Fotos T\u00e2nia Meinerz)<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong>Guilherme Kolling<\/strong><br \/>\nO apelido Ceco \u2013 assim mesmo, com \u201cC\u201d \u2013 se refere \u00e0 complex\u00e3o f\u00edsica do rapaz. O jovem ainda \u00e9 magro, mas na \u00e9poca em que ganhou o apelido era \u201cpele e osso\u201d. Ao inv\u00e9s de comprar comida, usava os trocados que arranjava para sustentar seu v\u00edcio. \u201cFicava na rua completamente chapado\u201d, admite. \u201cN\u00e3o tinha qualquer controle, as vezes roubava&#8230; Se ganhava cinco, dez reais, ia comprar droga\u201d.<br \/>\nAssim era a vida de Ceco aos 20 anos \u2013 ele aparentava 12, tal era sua desnutri\u00e7\u00e3o. Analfabeto, sem-teto, ele n\u00e3o tinha muitas perspectivas. Vivia na Rodovi\u00e1ria de esmolas e biscates. Nessa \u00e9poca, foi abordado por um grupo do jornal Boca de Rua. \u201cEles se apresentaram querendo me entrevistar, explicando que era um jornal feito por moradores de rua. Achei interessante e quis entrar para o grupo\u201d, lembra.<br \/>\nO rapaz titubeou por causa de suas limita\u00e7\u00f5es. \u201cEu pensei: N\u00e3o sei ler, n\u00e3o sei escrever, nem usar m\u00e1quina para tirar foto. Como \u00e9 que eu vou fazer o jornal?&#8230; Mas eu tamb\u00e9m pensei que eu tenho capacidade. A\u00ed enturmei e comecei a participar\u201d, lembra Ceco, que conversa com desenvoltura.<br \/>\nEle explica que o trabalho lhe abriu portas, que passou a ser mais aceito pela sociedade. \u00c9 um dos participantes mais ativos do Boca de Rua. Depois de cinco anos, o jovem evoluiu bastante tamb\u00e9m nos estudos. Aos 25, est\u00e1 na 6a s\u00e9rie do Ensino Fundamental. Trabalha vendendo o jornal que ajuda a produzir e tem uma s\u00e9rie de compromissos.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/boca%20de%20rua\/ceco1.jpg?0.9265127608910981\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"350\" height=\"233\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Ceco exibe canhoto de cinema e passagens de avi\u00e3o <\/span><\/strong><\/p>\n<p>\u201cDizem que morador de rua \u00e9 vagabundo, mas eu s\u00f3 tenho duas tardes livres por semana\u201d, contabiliza orgulhoso. Uma dessas atividades que preenchem sua agenda \u00e9 a oficina de v\u00eddeo, que acontece nas sextas, na Usina do Gas\u00f4metro. Em 2005, Ceco ajudou a produzir o filme \u201cCarta de Porto Alegre\u201d, exibido em agosto em Porto Alegre.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/boca%20de%20rua\/rosina%20duarte01_taniameinerz.jpg?0.6465682570969808\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"220\" height=\"300\" align=\"right\" \/>A jornalista Rosina Duarte (foto), fundadora da Alice \u2013 Ag\u00eancia Livre Informa\u00e7\u00e3o e uma das coordenadoras do Boca de Rua, lembra o momento como um dos mais marcantes dessa experi\u00eancia. Ao entrar na sala do Santander Cultural, repleta por um p\u00fablico de professores e estudantes universit\u00e1rios, ela sentiu-se emocionada. \u201cAli, naquele momento, senti que est\u00e1vamos fazendo uma pequena revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nO v\u00eddeo foi levado depois para S\u00e3o Paulo, num evento na C\u00e2mara de Vereadores, onde Ceco fez a apresenta\u00e7\u00e3o da obra. Ele fala da atividade com alegria e enumera outros momentos marcantes. \u201cNunca pensei que entraria no aeroporto para pegar um avi\u00e3o. Que um dia eu entraria numa escola para dar uma palestra, falar para 50 alunos\u201d, surpreende-se.<br \/>\nSeu novo projeto, divulgado nas p\u00e1ginas da edi\u00e7\u00e3o do Boca de Rua de setembro\/outubro\/novembro \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma biblioteca para o p\u00fablico do jornal. Chamada de \u201cBocoteca\u201d, por enquanto ela funciona numa mochila que Ceco leva para l\u00e1 e para c\u00e1. A id\u00e9ia \u00e9 fazer uma roda de leitura uma vez por m\u00eas. \u201cAo inv\u00e9s de ficar carregando os livros, vou fazer uma planilha. Assim a pessoa escolhe qual quer ler sem eu ter que ficar levando\u201d. O acervo \u00e9 composto de exemplares doados.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Tr\u00eas jornalistas iniciaram o projeto<\/span><\/strong><br \/>\nO jornal Boca de Rua completou cinco anos em janeiro, mas come\u00e7ou a nascer h\u00e1 seis, quando as jornalistas Rosina Duarte, Clarinha Glock e Eliane Brum decidiram formar a Alice para fazer projetos sociais na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o. \u201cSempre gostamos do tema direitos humanos e quer\u00edamos contar a hist\u00f3ria de gente comum\u201d, explica Rosina.<br \/>\nO primeiro trabalho foi com um grupo que ficou conhecido como \u201cTartarugas Ninjas\u201d, crian\u00e7as que vivam na galeria de um esgoto e entravam por um bueiro \u2013 ficaram famosas depois de uma reportagem de grande repercuss\u00e3o mostrou essa realidade. Em 2000, os garotos j\u00e1 era adultos, v\u00e1rios tinham morrido.<br \/>\nUma professora chamada Deidre, que conviveu bastante com os jovens, a quem alfabetizou na rua mesmo, fez a aproxima\u00e7\u00e3o entre as rep\u00f3rteres e os \u201csobreviventes\u201d. \u201cEles n\u00e3o entenderam direito o que a gente queria, mas ouviam. Come\u00e7ou quase como uma brincadeira e aos poucos entusiasmou eles, que um dia decidiram que queriam fazer um jornal\u201d.<br \/>\nEscolheram o nome e fizeram a logomarca da publica\u00e7\u00e3o. Mas maioria era analfabeto. Assim, o m\u00e9todo foi passar para a linguagem escrita os textos que eles falavam de forma coletiva. \u201cA \u00fanica regra que estabelecemos foi o respeito\u201d, lembra Rosina, descrevendo os encontros ao ar livre, na pracinha ao lado do Col\u00e9gio Ros\u00e1rio.<br \/>\nA primeira edi\u00e7\u00e3o do Boca de Rua saiu no F\u00f3rum Social Mundial de 2001 \u2013 desde ent\u00e3o a publica\u00e7\u00e3o \u00e9 trimestral. Cerca de 30 pessoas cadastradas, que participam das reuni\u00f5es semanais, escolhem a pauta e produzem todas mat\u00e9rias.<br \/>\nOs profissionais que supervisionam o trabalho s\u00e3o todos volunt\u00e1rios. A impress\u00e3o \u00e9 paga pela Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Sirotsky Sobrinho. E o dinheiro com a venda avulsa, a R$ 1,00, fica com quem participa do jornal. Cada integrante ganha uma quota de 30 jornais por semana, ou seja, arrecadam cerca de R$ 120 por m\u00eas \u2013 eles garantem vendem tudo em dois ou tr\u00eas dias.<br \/>\nO perfil dos participantes \u00e9 variado. Em comum, a situa\u00e7\u00e3o de rua vivida em algum momento. Alguns permanecem sem-teto, outros tem moradia. Alguns sa\u00edram de casa ainda crian\u00e7a, outros por uma circunst\u00e2ncia ou dificuldade na vida. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil para muitos, h\u00e1 portadores de HIV, tuberculosos, viciados em drogas. Mas cada um com uma hist\u00f3ria diferente.<br \/>\nE todos descobrindo novos horizontes \u2013 v\u00e3o ao cinema, museu, Feira do Livro, shopping center, locais que alguns ainda n\u00e3o tinham ido. Paralelamente, participam de uma oficina de hip-hop na sede do Gapa e de aulas de v\u00eddeo, no Gas\u00f4metro, ambos com encontros semanais.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cA reintegra\u00e7\u00e3o tem que partir deles\u201d<\/span><\/strong><br \/>\nJunto com Rosina Duarte, a jornalista Clarinha Glock sempre esteve atuante no projeto do jornal Boca de Rua \u2013 a outra fundadora, Eliane Brum, teve que se afastar ao ir trabalhar na revista \u00c9poca. A seguir, uma entrevista com Clarinha sobre o tratamento da imprensa e pol\u00edticas p\u00fablicas para os moradores de rua.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/boca%20de%20rua\/bocaderua02_taniameinerz.jpg?0.9011202660381571\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"233\" height=\"350\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Boca de Rua auxilia na renda e na inser\u00e7\u00e3o social de seus integrantes<\/span><\/strong><\/p>\n<p><em>J\u00c1 &#8211; Qual sua avalia\u00e7\u00e3o da cobertura da imprensa sobre os moradores de rua?<\/em><br \/>\n<strong>Clarinha<\/strong> &#8211; Considero ruins mat\u00e9rias que apenas tratam os moradores de rua como uma categoria estigmatizada, como se fossem v\u00edtimas ou bandidos, que os usam para ocupar os espa\u00e7os dos &#8220;cases&#8221;, apenas para ilustrar as mat\u00e9rias. Ou que os ouvem, mas de forma superficial, sempre com pressa, e n\u00e3o conseguem mostrar o contexto que faz com que essas pessoas estejam na situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e3o. Procuro evitar o termo &#8220;morador de rua&#8221; e usar &#8220;pessoas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua&#8221;. N\u00e3o se trata apenas de ser &#8220;politicamente correto&#8221;. Neste caso, me parece o mais pr\u00f3ximo da realidade. Muitos v\u00e3o e volta para a rua, seja de casa, dos abrigos, dos albergues. \u00c9 importante que se mostre o contexto, que se v\u00e1 al\u00e9m dos discursos prontos que, por culpa da pr\u00f3pria imprensa \u2013 sempre com pressa, sem espa\u00e7o para aprofundar as reportagens, sem tempo para ouvir e observar melhor o outro \u2013 acabamos sempre reproduzindo, o que serve apenas para difundir uma id\u00e9ia estigmatizada. Falo &#8220;discursos prontos&#8221; porque, se voc\u00ea se d\u00e1 tempo para ouvir melhor estas pessoas, percebe que n\u00f3s, jornalistas, geralmente chegamos apenas com nossas reportagens do dia-a-dia ao estere\u00f3tipo. S\u00f3 com o tempo, a sensibilidade e a confian\u00e7a deles \u00e9 que se pode ir al\u00e9m, buscar explorar e descobrir os sonhos, as frustra\u00e7\u00f5es, as demandas reais que todas as pessoas t\u00eam \u2013 e os que est\u00e3o nas ruas tamb\u00e9m. Eles s\u00e3o mais do que &#8220;drogados&#8221;, &#8220;aid\u00e9ticos&#8221;, &#8220;ladr\u00f5es&#8221;, &#8220;mendigos&#8221;. S\u00e3o pessoas. Se as mat\u00e9rias conseguirem mostrar isso, estar\u00e3o contribuindo para mudar uma realidade e para que os leitores se sintam instigados a fazer isso tamb\u00e9m.<br \/>\n<em>J\u00c1 &#8211; A repercuss\u00e3o comum de uma mat\u00e9ria sobre uma pessoa que mora embaixo de um viaduto \u00e9 a repress\u00e3o do governo, que simplesmente tampa ou fecha esse local. Qual a sa\u00edda para evitar isso?<br \/>\n<\/em><strong>Clarinha<\/strong> &#8211; Talvez uma maneira seja mostrar que n\u00e3o adianta transferir o problema, ou tapar o buraco pra ningu\u00e9m ver. Mobilizar entidades de defesa de direitos humanos para dar amparo e suporte, questionar e dar acompanhamento \u00e0s a\u00e7\u00f5es do governo, n\u00e3o apenas mostrando o fato e o resultado (expuls\u00e3o e fechamento dos buracos nas pontes), mas seguir contando a hist\u00f3ria destas pessoas. Um dos grandes problemas da cobertura di\u00e1ria \u00e9 que, al\u00e9m de n\u00e3o oferecer muito espa\u00e7o para estas hist\u00f3rias (sob a desculpa que os leitores ou telespectadores n\u00e3o est\u00e3o interessados, porque \u00e9 feio, porque n\u00e3o faz parte da realidade deles), n\u00e3o d\u00e1 acompanhamento, n\u00e3o persiste na hist\u00f3ria (sob o mesmo pretexto de que os leitores\/telespectadores v\u00e3o enjoar de ouvir sempre a mesma ladainha). Se a hist\u00f3ria for bem contada, se for contextualizada, vira um fato pol\u00edtico, pode transformar uma realidade.<br \/>\n<em>J\u00c1 &#8211; Na sua conviv\u00eancia com os sem-teto, percebeu alguma perspectiva que os leve \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esteja sendo feita por miopia dos governos e dos cidad\u00e3os?<\/em><br \/>\n<strong>Clarinha<\/strong> &#8211; As pessoas n\u00e3o chegam a ser sem-teto por aventura ou gosto. H\u00e1 muitas dificuldades no caminho, para se manter vivo e \u00edntegro na rua. Tratar pessoas como pessoas, n\u00e3o como n\u00fameros \u00e9 um come\u00e7o. Ouvir o que eles t\u00eam a dizer e construir junto com eles uma nova realidade, acho que esta \u00e9 a sa\u00edda. O Boca de Rua tem um papel inicial de mobilizar, de faz\u00ea-los vis\u00edveis. Mas sozinho ningu\u00e9m faz nada. \u00c9 preciso mobilizar as entidades que tratam do tema, integrar os interesses comuns em busca de melhor sa\u00fade, perspectivas de gera\u00e7\u00e3o de renda, moradia. Mas a reintegra\u00e7\u00e3o tem que partir deles. O governo e algumas ONGS t\u00eam de ajud\u00e1-los a se reorganizar, n\u00e3o praticar o assistencialismo para aliviar a culpa e tir\u00e1-los da vista dos que t\u00eam mais poder. Ningu\u00e9m melhor do que aqueles que est\u00e3o vivendo esta situa\u00e7\u00e3o para dizer do que precisam e o que querem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada componente tem direito a\u00a030 exemplares por semana\u00a0(Fotos T\u00e2nia Meinerz) Guilherme Kolling O apelido Ceco \u2013 assim mesmo, com \u201cC\u201d \u2013 se refere \u00e0 complex\u00e3o f\u00edsica do rapaz. O jovem ainda \u00e9 magro, mas na \u00e9poca em que ganhou o apelido era \u201cpele e osso\u201d. 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