{"id":47049,"date":"2017-04-10T11:49:00","date_gmt":"2017-04-10T14:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=47049"},"modified":"2017-04-10T11:49:00","modified_gmt":"2017-04-10T14:49:00","slug":"a-crise-atual-e-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-crise-atual-e-o-capital\/","title":{"rendered":"A crise atual e o Capital"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Jo\u00e3o Alberto Wohlfart<\/span><br \/>\nA cada dia que passa novos fatos se descortinam diante dos nossos olhos, com uma for\u00e7a e velocidade impressionantes. O caso da opera\u00e7\u00e3o Carne Fraca, com envolvimento de grandes frigor\u00edficos e do agroneg\u00f3cio, \u00e9 um novo cap\u00edtulo no contexto geral de desmonte e desintegra\u00e7\u00e3o \u00e9tica, moral, econ\u00f4mica e social do Brasil. Mas a estrutura, a organiza\u00e7\u00e3o e os acontecimentos do capitalismo atual precisam ser interpretados a partir de um referencial te\u00f3rico cr\u00edtico e consistente. Pois, neste ano de 2017 comemoramos os 150 anos da primeira edi\u00e7\u00e3o de <em>o Capital<\/em>, de Karl Marx, publicada em 1867.<br \/>\nPara uma aprofundada cr\u00edtica ao sistema capitalista atual, esta obra \u00e9 uma refer\u00eancia permanente. Depois da queda do muro de Berlin, em 1989, <em>o Capital <\/em>ficou escondido sob as cinzas do esquecimento e do desprezo. Era tido como obsoleto e definitivamente superado. Bastou eclodir a grande crise do capitalismo internacional, a obra ressuscitou gloriosamente e se tornou o livro mais vendido em todo o mundo. Nestas linhas vamos tentar esbo\u00e7ar alguns t\u00f3picos que expressam a import\u00e2ncia da obra para a compreens\u00e3o do capitalismo atual. Tentamos destacar alguns pontos elencados por Marx h\u00e1 150 anos e que hoje s\u00e3o evidentes:<br \/>\n<em>A desigualdade social<\/em>: O fosso social entre ricos e pobres n\u00e3o \u00e9 por acaso ou por vontade divina. Tamb\u00e9m n\u00e3o se deve a um preconceito social que rotula os mais pobres como vagabundos, pois muitos pensam que a causa da crise \u00e9 porque n\u00e3o se quer mais trabalhar, raz\u00e3o pela qual a pregui\u00e7a dos mais pobres \u00e9 a raz\u00e3o principal da crise. A profunda desigualdade social reinante em nosso Brasil e no mundo inteiro \u00e9 causada pelos mecanismos de explora\u00e7\u00e3o capitalista que concentra a renda nas m\u00e3os de poucos. Portanto, os que trabalham e produzem s\u00e3o explorados at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, com a concentra\u00e7\u00e3o da renda nas m\u00e3os da classe dominante. A sociedade capitalista est\u00e1 estruturada nos detentores do capital sustentados por uma massa de trabalhadores.<br \/>\n<em>O fetichismo da mercadoria<\/em>: Um dos conceitos fundamentais da grande obra de Marx \u00e9 fetichismo da mercadoria. Para ser bem direto, \u00e9 o resultado da transforma\u00e7\u00e3o do sujeito em coisa e da coisa em sujeito. O trabalho do trabalhador produz os objetos de consumo que passam a circular no com\u00e9rcio e no mercado. Como a economia capitalista n\u00e3o se centraliza na satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas e na dignidade do ser humano, mas no ac\u00famulo e no lucro desenfreado, produz o mecanismo do fetichismo da mercadoria. Trata-se de um poder impl\u00edcito aos objetos em fun\u00e7\u00e3o de sua beleza e tecnologia, for\u00e7a que passa a dominar os trabalhadores e as pessoas. As mercadorias t\u00eam fun\u00e7\u00f5es implicadas nelas mesmas e que dominam as a\u00e7\u00f5es dos consumidores.<br \/>\n<em>A luta de classes<\/em>: Para o velho Marx, um dos vieses de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u00e9 a luta de classes. Trata-se da velha l\u00f3gica dos que mandam e dos que obedecem, dos que dominam e dos que s\u00e3o dominados, dos livres e dos escravos. No modelo econ\u00f4mico capitalista estas oposi\u00e7\u00f5es ficam mais radicais e extremadas. \u00c9 a oposi\u00e7\u00e3o entre a classe dos detentores do capital e a classe trabalhadora, esta \u00faltima explorada atrav\u00e9s dos baixos sal\u00e1rios, das longas jornadas de trabalho, da repeti\u00e7\u00e3o de movimentos f\u00edsicos e da incorpora\u00e7\u00e3o da ideologia capitalista que aliena esta classe. Quando os trabalhadores se organizam, trava-se uma luta constante contra a classe capitalista, com causas como a melhoria dos sal\u00e1rios e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e dignidade do trabalho. Nos \u00faltimos 150 anos, esta luta teve m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es e m\u00faltiplos cap\u00edtulos.<br \/>\n<em>A l\u00f3gica do dinheiro<\/em>: O dinheiro n\u00e3o \u00e9 apenas um simples meio de troca, como se compra uma determinada mercadoria por certa quantidade de reais enquanto express\u00e3o num\u00e9rica do seu valor. No mecanismo de produ\u00e7\u00e3o e de troca, o dinheiro se multiplica e se transforma em capital. Nesta situa\u00e7\u00e3o, ele se transforma em meio social de troca, valoriza e quantifica tudo e aparece como medida de valor de tudo. Nesta l\u00f3gica, o que n\u00e3o \u00e9 valorizado pelo dinheiro e n\u00e3o aparece na sua sistem\u00e1tica de troca, n\u00e3o existe. Na circularidade da produ\u00e7\u00e3o e da troca, o ser humano \u00e9 rebaixado a uma coisa que se troca por outra, e tem no dinheiro o referencial de troca. Esta l\u00f3gica tem como consequ\u00eancia social a coisifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, pois todos os seres humanos entram no c\u00edrculo da troca, do consumo e da l\u00f3gica das coisas. A \u00fanica forma de relacionamento social passa a ser a troca e o consumo atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o do dinheiro, onde os seres humanos se relacionam atrav\u00e9s da l\u00f3gica do valor de troca das coisas.<br \/>\n<em>A aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador<\/em>: Uma das facetas mais perversas da economia capitalista amplamente exposta em <em>o Capital<\/em> \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador. H\u00e1 uma sucessiva complexifica\u00e7\u00e3o do capital contrastada frontalmente com o esvaziamento e a aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador. No exerc\u00edcio do trabalho, o trabalhador \u00e9 progressivamente esvaziado de sua subjetividade e de sua liberdade transferidas para o capital que se transforma em sujeito do processo. A vida espiritual do trabalhador fica absorvida e expropriada pelo capital que a incorpora ao seu pr\u00f3prio movimento de constitui\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a viva do trabalhador \u00e9 esvaziada e transferida para a estrutura do capital. Nisto o trabalhador se transforma em coisa e o capital no sujeito do processo. Nesta l\u00f3gica, as rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o dissolvidas e substitu\u00eddas por rela\u00e7\u00f5es entre coisas, pois as pessoas s\u00e3o absorvidas pelo sistema de troca de coisas e mercadorias.<br \/>\n<em>O dom\u00ednio do capital<\/em>: Na obra, estruturada em tr\u00eas livros e em seis volumes, Marx exp\u00f5e a l\u00f3gica do capital. \u00c9 feita uma analogia com o Deus cl\u00e1ssico, s\u00f3 que em Marx ele n\u00e3o proporciona vida, nem liberdade. O capital \u00e9 uma for\u00e7a econ\u00f4mica que expropria a subjetividade e a liberdade do homem, transformando-o em coisa. Quem l\u00ea <em>o Capital<\/em> do come\u00e7o ao fim percebe que o capital vai ficando cada vez mais gigante, enquanto o trabalhador e o homem v\u00e3o sendo rebaixados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de coisa e de mercadoria. O \u00fanico que sobra do homem \u00e9 a sua for\u00e7a f\u00edsica necess\u00e1ria para manter a for\u00e7a de trabalho. Em termos atuais, o capital destr\u00f3i o homem, as rela\u00e7\u00f5es sociais, a natureza, os ecossistemas e se destr\u00f3i a si mesmo. As crises atuais, tais como a econ\u00f4mica, a pol\u00edtica, a social, a ecol\u00f3gica, a antropol\u00f3gica e tantas outras, s\u00e3o provocadas pela l\u00f3gica do capital, a raz\u00e3o mais profunda do modelo econ\u00f4mico capitalista que nos domina e nos escraviza.<br \/>\n<em>As formas do capital<\/em>: Marx identifica tr\u00eas formas de capital: o capital financeiro, o capital industrial e o capital mercantil. \u00c9 o mesmo capital nas modalidades diferenciadas atrav\u00e9s das quais circula. O dinheiro se converte em capital industrial e estes em capital mercantil. Quando o capital dinheiro se converte em ind\u00fastria e em circula\u00e7\u00e3o da mercadoria, n\u00e3o se esvazia e n\u00e3o se dissolve, mas ele se acumula em forma de lucro. O capital \u00e9 uma estrutura c\u00edclica que se constr\u00f3i na circularidade, na qual todas as modalidades s\u00e3o c\u00edclicas e circulam em si mesmas atrav\u00e9s da circularidade das outras, e a totalidade do capital \u00e9 condicionado pela convers\u00e3o de uma modalidade na outra. Atrav\u00e9s do dinheiro s\u00e3o compradas for\u00e7as produtivas e ind\u00fastrias, a produ\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias circula no mercado e \u00e9 trocada por dinheiro, quando recome\u00e7a o c\u00edrculo da produ\u00e7\u00e3o e do consumo. Nesta l\u00f3gica, a circula\u00e7\u00e3o do capital atrav\u00e9s da ind\u00fastria e da circula\u00e7\u00e3o no mercado produz o lucro. Nesta sistem\u00e1tica de circula\u00e7\u00e3o, o homem \u00e9 cada vez mais fragilizado e esmagado.<br \/>\n<em>O capital e os juros<\/em>: Marx j\u00e1 faz uma ampla exposi\u00e7\u00e3o sobre uma forma ainda mais violenta de explora\u00e7\u00e3o do capital que s\u00e3o os juros. \u00c9 a especula\u00e7\u00e3o financeira. O capital n\u00e3o \u00e9 mais gerado a partir do movimento interno de produ\u00e7\u00e3o material, mas o dinheiro se multiplica a si mesmo, sem a media\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o material. Neste formato, \u00e9 muito mais lucrativa a especula\u00e7\u00e3o que o processo produtivo. Aparentemente, este mecanismo n\u00e3o tem nada a ver com o universo material da produ\u00e7\u00e3o, mas os grandes empres\u00e1rios e corpora\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas recolhem o dinheiro do processo de circula\u00e7\u00e3o e o depositam nos bancos, onde cresce de forma aut\u00f4noma. Esta modalidade de capital financeiro fragiliza a produ\u00e7\u00e3o, dissolve a base material da sociedade e explora at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias o trabalhador. A especula\u00e7\u00e3o financeira concentra nas m\u00e3os de poucos a quase totalidade da riqueza dispon\u00edvel no Planeta e distribui apenas migalhas para grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial. A chamada d\u00edvida p\u00fablica dos Estados \u00e9 o mecanismo principal desta l\u00f3gica perversa, pois eles recolhem os recursos em forma de impostos e os destinam ao capital financeiro dos grandes bancos. Este modelo, na atualidade, provoca os grandes desequil\u00edbrios sociais, econ\u00f4micos e ecol\u00f3gicos em escala mundial.<br \/>\n<em>A autodestrui\u00e7\u00e3o do capital<\/em>: Marx mostra em <em>o Capital<\/em> que a l\u00f3gica do lucro capitalista n\u00e3o \u00e9 um movimento eterno de acumula\u00e7\u00e3o, mas as sua l\u00f3gica \u00e9 autodestrutiva. Dito de forma mais precisa. O que caracteriza a l\u00f3gica de constru\u00e7\u00e3o do capital tamb\u00e9m representa a sua autodissolu\u00e7\u00e3o. Os lucros dos grandes aglomerados capitalistas precisam sair de algum lugar, e quando este esgota, dissolve-se a l\u00f3gica do capital. O esgotamento dos recursos naturais do Planeta representa um suic\u00eddio do pr\u00f3prio sistema capitalista. A dissolu\u00e7\u00e3o da base produtiva material pela especula\u00e7\u00e3o financeira integra a l\u00f3gica intr\u00ednseca do capital na qual ele pr\u00f3prio se dissolve. A imensa sede de lucro n\u00e3o tem contrapartida de produ\u00e7\u00e3o, o que tende a gerar um alto \u00edndice de endividamento, um pecado capital que n\u00e3o apenas condena o infrator ao inferno, mas dissolve o pr\u00f3prio sistema capitalista.<br \/>\n<em>Infraestrutura e superestrutura<\/em>: Parece uma leitura ortodoxa, mas na atualidade ela se revela profundamente evidente. Segundo Marx, a infraestrutura \u00e9 constitu\u00edda pela base material da sociedade, distribu\u00edda no sistema de produ\u00e7\u00e3o da agricultura e das ind\u00fastrias, na circula\u00e7\u00e3o do capital e no com\u00e9rcio nacional e internacional, e no sistema do dinheiro e nos bancos. A superestrutura \u00e9 constitu\u00edda pelo Estado, pelas leis, pelo judici\u00e1rio, pela Religi\u00e3o, pelas ideias e pelo sistema educativo. A fun\u00e7\u00e3o da superestrutura \u00e9 manter e legitimar a ordem econ\u00f4mica capitalista estabelecida. Hoje isto fica claro porque o governo golpista se estabeleceu no poder para privilegiar os ricos e a classe dominante. O judici\u00e1rio legitima os atos da classe dominante, protege a grande propriedade privada e criminaliza os movimentos sociais. As ideias que circulam na sociedade se transformam numa ideologia de sustenta\u00e7\u00e3o e de legitima\u00e7\u00e3o da estrutura social estabelecida. A Religi\u00e3o muito contribui para desviar a aten\u00e7\u00e3o e anestesiar as consci\u00eancias.<br \/>\nElencamos acima, de forma pontual e sint\u00e9tica, alguns aspectos estruturantes de <em>o Capital<\/em>, de Karl Marx. \u00c9 claro que n\u00e3o se trata da \u00fanica matriz te\u00f3rica para a compreens\u00e3o aprofundada do sistema econ\u00f4mico capitalista, mas, seguramente, \u00e9 uma refer\u00eancia fundamental e indispens\u00e1vel. Diante de um cen\u00e1rio nacional e internacional de graves quest\u00f5es que atingem a humanidade do homem, a obra do velho Marx, publicada em sua primeira edi\u00e7\u00e3o em 1867, merece ser celebrada. Ela denuncia, com profundidade e radicalidade epistemol\u00f3gica, o espet\u00e1culo de explora\u00e7\u00e3o, de expropria\u00e7\u00e3o, de dissolu\u00e7\u00e3o e de coisifica\u00e7\u00e3o do ser humano pelo sistema capitalista neoliberal. As contradi\u00e7\u00f5es internas analisadas por Marx se aprofundaram e se complexificaram nos dias atuais, raz\u00e3o pela qual a obra segue sendo atual e nova.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart A cada dia que passa novos fatos se descortinam diante dos nossos olhos, com uma for\u00e7a e velocidade impressionantes. O caso da opera\u00e7\u00e3o Carne Fraca, com envolvimento de grandes frigor\u00edficos e do agroneg\u00f3cio, \u00e9 um novo cap\u00edtulo no contexto geral de desmonte e desintegra\u00e7\u00e3o \u00e9tica, moral, econ\u00f4mica e social do Brasil. 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