{"id":47107,"date":"2017-04-11T11:17:19","date_gmt":"2017-04-11T14:17:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=47107"},"modified":"2017-04-11T11:17:19","modified_gmt":"2017-04-11T14:17:19","slug":"para-que-a-palavra-guerra-provoque-nausea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/para-que-a-palavra-guerra-provoque-nausea\/","title":{"rendered":"Para que a palavra guerra provoque n\u00e1usea"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n<span class=\"assina\"><em>Louren\u00e7o Cazarr\u00e9<\/em><\/span><br \/>\nA menina Svetlana Aleksi\u00e9vitch, nascida em 1948 na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o gostava de livros de guerra, numerosos em sua casa, mas na escola &#8211; na Bielo-R\u00fassia, onde cresceu &#8211; era obrigada a l\u00ea-los. \u201cEstivemos sempre a combater ou a preparar-nos para a guerra&#8230; Na escola, ensinavam-nos a amar a morte\u201d. Ao seu redor, todos liam. Afinal, eles, os sovi\u00e9ticos, haviam sido os vencedores do conflito recente contra os alem\u00e3es.<br \/>\n\u201cDepois da guerra, a aldeia da minha inf\u00e2ncia era feminina&#8230; N\u00e3o me lembro de vozes masculinas\u201d, escreve Svetlana na abertura de <em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/em> (Companhia das Letras, 2016, 392 p\u00e1ginas). Os homens eram poucos porque milh\u00f5es deles morreram na Grande Guerra Patri\u00f3tica (assim chamada pelos sovi\u00e9ticos). A Bielo-R\u00fassia teve dizimado um ter\u00e7o de sua popula\u00e7\u00e3o. A R\u00fassia perdeu cerca de 22 milh\u00f5es de pessoas.<br \/>\nSvetlana formou-se em jornalismo em 1972. No final daquela d\u00e9cada, resolveu escrever um livro sobre os seres humanos na guerra. \u201cN\u00e3o escrevo a hist\u00f3ria da guerra, mas a hist\u00f3ria dos sentimentos. Sou historiadora da alma\u201d. Passou a colher depoimentos de mulheres que haviam atuado no Ex\u00e9rcito Vermelho. Surgiria ent\u00e3o um estilo (liter\u00e1rio, jornal\u00edstico?) que d\u00e9cadas depois seria consagrado com o Nobel de Literatura (2015).<br \/>\nO efetivo feminino das for\u00e7as sovi\u00e9ticas chegou a um milh\u00e3o. Svetlana parou de contar suas entrevistadas quando elas ultrapassaram 500. Gravou longas conversas com lavadeiras, cozinheiras e enfermeiras, mas tamb\u00e9m com franco-atiradoras, pilotos de avi\u00f5es de ca\u00e7a e comandantes de artilharia. Entre elas encontrou \u201cnarradoras espantosas\u201d.<br \/>\nDas confiss\u00f5es dessas mulheres Svetlana pin\u00e7ou os trechos mais impactantes ou tocantes. Quase sempre devastadores. E com eles montou um livro-mosaico que foi recusado por muitas editoras antes de chegar ao prelo, em 1985, j\u00e1 nos estertores do comunismo. A obra vendeu dois milh\u00f5es de exemplares nos primeiros cinco anos.<br \/>\n<em>Escritos polif\u00f4nicos<\/em><br \/>\nCom a t\u00e9cnica de tra\u00e7ar vastos pain\u00e9is a partir de incont\u00e1veis narrativas de pessoas comuns, Svetlana produziu outros escritos polif\u00f4nicos sobre sofrimento e coragem. Entre seus livros publicados, destacam-se <em>Rapazes de zinco<\/em> (sobre os jovens russos que, sem saber o motivo, lutaram no Afeganist\u00e3o); <em>O fim do homem sovi\u00e9tico<\/em> (sobre a desilus\u00e3o dos que cresceram durante os anos em que o comunismo garantia emprego a todos os que n\u00e3o abrissem o bico para criticar o regime); e <em>Vozes de Tchern\u00f3bil<\/em> (relatos dos que sobreviveram \u00e0 grande cat\u00e1strofe nuclear).<br \/>\n<em>Desmontando mentiras <\/em><br \/>\nAo contr\u00e1rio dos livros sobre a guerra escritos por (e para) homens, a obra de Svetlana n\u00e3o apresenta her\u00f3is nem proezas incr\u00edveis, n\u00e3o descreve batalhas nem gaba armamentos. Mostra apenas \u201cas pessoas ocupadas na sua atividade humana e simultaneamente desumana\u201d. Dor, fome, frio, desespero, infesta\u00e7\u00e3o por piolhos e mutilados, muitos mutilados, est\u00e3o em cada uma das p\u00e1ginas.<br \/>\nSvetlana confessa que, com este livro, pretendia desmontar todas as mentiras tramadas em torno das guerras, de modo que a palavra guerra passasse a provocar n\u00e1usea e que a simples ideia de que pudesse existir fosse repugnante. Desejava, enfim, que seu trabalho \u201cfa\u00e7a vomitar os pr\u00f3prios generais&#8230;\u201d<br \/>\nA obra \u00e9 dividida em 17 cap\u00edtulos. Nos primeiros vemos o entusiasmo das mo\u00e7as que faziam de tudo a fim de serem convocadas para enfrentar os nazistas, que haviam invadido a R\u00fassia e que logo chegaram \u00e0 periferia de Moscou. Mas tamb\u00e9m fica clara a resist\u00eancia dos chefes militares que n\u00e3o desejavam ter garotas na frente de combate.<br \/>\nA primeira vers\u00e3o de <em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/em> sofreu v\u00e1rios cortes impostos pelos censores. A vers\u00e3o mais recente traz alguns dos trechos eliminados. Num deles, num dos poucos depoimentos masculinos, um soldado fala sobre o avan\u00e7o pela Alemanha derrotada no final de guerra: \u201cSomos jovens. Fortes. H\u00e1 quatro anos sem mulher. Apanh\u00e1vamos garotas alem\u00e3s e&#8230; Dez homens violavam uma. Apanh\u00e1vamos meninas&#8230; Doze treze anos&#8230; Se chorassem bat\u00edamos, met\u00edamos qualquer coisa na boca&#8230; A \u00fanica coisa que tem\u00edamos era que nossas colegas descobrissem&#8230;\u201d<br \/>\n<em>O beb\u00ea debaixo da \u00e1gua<\/em><br \/>\nUma aviadora que se recusou a ser entrevistada disse a Svetlana por telefone: \u201cDurante tr\u00eas anos n\u00e3o me senti mulher. O meu corpo adormeceu. Fiquei sem menstrua\u00e7\u00e3o, quase sem desejo feminino\u201d.<br \/>\nUma mulher fala do que uma de suas amigas fez para sobreviver na \u00e9poca da grande fome na Ucr\u00e2nia: \u201cMorreram o pai, a m\u00e3e e os irm\u00e3os mais pequenos, e ela s\u00f3 se salvou porque de noite roubava estrume de cavalo para comer\u201d.<br \/>\nUma enfermeira para diante de um jovem capit\u00e3o que agoniza e pergunta em que pode ajudar. Ele sorri. \u201cDesabotoe a blusa. Mostre-me seu peito\u201d. Desconcertada, ela corre. Uma hora depois ela volta. O capit\u00e3o est\u00e1 morto.<br \/>\nMembros da resist\u00eancia russa est\u00e3o num p\u00e2ntano cercados por alem\u00e3es. Uma das mulheres tem um beb\u00ea rec\u00e9m-nascido no colo. A crian\u00e7a chora de fome porque a m\u00e3e, desnutrida, n\u00e3o tem leite. Sem que algu\u00e9m fale, a mulher compreende que s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para n\u00e3o serem descobertos. \u201cMete o embrulho com o beb\u00ea debaixo da \u00e1gua e o mant\u00e9m ali durante muito tempo\u201d.<br \/>\nUma das mulheres regressa da guerra. A m\u00e3e permite que descanse em casa por tr\u00eas dias. Depois lhe d\u00e1 uma trouxa e manda que se v\u00e1: \u201cTens duas irm\u00e3s mais novas. Quem \u00e9 que vai despos\u00e1-las? Sabem todos que estiveste na guerra quatro anos com os homens\u201d.<br \/>\nOutra fala de sua desilus\u00e3o ao fim dos combates. \u201cPens\u00e1vamos que tudo ia mudar&#8230; St\u00e1lin acreditaria no seu povo&#8230; Foram presos os que ca\u00edram prisioneiros, os que sobreviveram aos campos de concentra\u00e7\u00e3o, os que foram levados pelos alem\u00e3es para trabalhar, todos os que tinham ido \u00e0 Europa e podiam contar como o povo vivia l\u00e1\u201d.<br \/>\n<em>O potrinho<\/em><br \/>\nDepoimento de uma franco-atiradora: \u201cConfesso que tinha medo de agarrar no fuzil&#8230; Aprendemos a desmontar a arma de olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a dist\u00e2ncia at\u00e9 o alvo&#8230; Regressei da guerra grisalha. Com vinte um anos, j\u00e1 estava toda branquinha&#8230; Passamos tr\u00eas dias comendo s\u00f3 p\u00e3o seco, as l\u00ednguas ficaram t\u00e3o \u00e1speras que mal as pod\u00edamos mover&#8230; De repente vemos um potrinho na faixa neutra&#8230; Nem tive tempo de pensar, com a for\u00e7a do h\u00e1bito, apontei e disparei. As pernas do potro dobraram-se e ele caiu para o lado&#8230; \u00c0 noite trazem o jantar. Os cozinheiros dizem: \u201cMuito bem, atiradora. Hoje temos carne na panela\u201d&#8230; Desatei a chorar e corri do abrigo&#8230; As colegas correram atr\u00e1s de mim e me consolaram&#8230; Pegaram nas marmitas e come\u00e7aram a comer&#8230; Ele v\u00ea o meu uniforme, as condecora\u00e7\u00f5es e pergunta: \u2018Quantos alem\u00e3es mataste?\u2019. Respondo: setenta e cinco&#8230;\u201d<br \/>\nUma enfermeira aproxima-se de um soldado ferido que tem o bra\u00e7o quase arrancado, seguro apenas por tend\u00f5es. Procura faca ou tesoura para cort\u00e1-lo. N\u00e3o as encontra na bolsa. \u201cO que fazer? Pus-me a cortar aquela carne com os dentes&#8230;\u201d<br \/>\nUma instrutora da companhia de fuzileiros: \u201cDurante a marcha caminh\u00e1vamos tr\u00eas pessoas de m\u00e3os dadas, e a do meio dorme uma hora ou duas. Depois trocamos. Cheguei at\u00e9 Berlim. Escrevi na parede do Reichstag: Eu, Sofia Kunts\u00e9vitch, cheguei aqui para matar a guerra\u201d.<br \/>\nUma agente de sa\u00fade conta que, para se livrar do ass\u00e9dio, ligou-se ao comandante do batalh\u00e3o: \u201cEra boa pessoa, mas n\u00e3o o amei&#8230; Poucos meses depois entrei no abrigo que ele ocupava. Que sa\u00edda t\u00ednhamos? Viv\u00edamos rodeadas por homens, pelo que era prefer\u00edvel viver s\u00f3 com um do que com medo de todos&#8230;\u201d<br \/>\n\u201cComo \u00e9 que a P\u00e1tria nos recebeu?\u201d, indaga uma franco-atiradora. E ela mesma responde: \u201cOs homens n\u00e3o diziam nada, mas as mulheres&#8230; Gritavam conosco: \u2018Sabemos o que voc\u00eas fizeram por l\u00e1&#8230; Seduziram nossos homens&#8230; Putas da frente&#8230; Galinhas das trincheiras&#8230;\u2019\u201d<br \/>\nUma mulher da resist\u00eancia regressa \u00e0 Minsk e descobre que seu marido est\u00e1 na pris\u00e3o por ter sido prisioneiro dos alem\u00e3es. Ali, partiram-lhe as costelas. \u201cAntes, na pris\u00e3o fascista, esmagaram-lhe a cabe\u00e7a e quebraram-lhe o bra\u00e7o&#8230; Em 1945 o NKVD acabou por torn\u00e1-lo inv\u00e1lido\u201d.<br \/>\nUma telefonista fala sobre a entrada dos russos na Alemanha vencida: \u201cEscrevem pouco sobre isso, mas \u00e9 a lei da guerra. Os homens passaram tantos anos sem mulher, al\u00e9m disso h\u00e1 \u00f3dio. Entramos numa vila ou aldeia. Os primeiros tr\u00eas dias s\u00e3o para saquear&#8230; Apareceram cinco mocinhas alem\u00e3s para falar com o comandante do nosso batalh\u00e3o&#8230; Choravam&#8230; Foram vistas por um ginecologista&#8230; Tinham feridas. Feridas rasgadas&#8230;. Mandaram formar o batalh\u00e3o&#8230; Disseram a essas mo\u00e7as que apontassem os culpados&#8230; Mas elas choravam e n\u00e3o se mexiam&#8230; N\u00e3o queriam mais sangue&#8230;\u201d<br \/>\n<em>Sangue e \u00e1gua<\/em><br \/>\nRelata uma oficial de comunica\u00e7\u00f5es: \u201cEstamos em marcha.. Umas duzentas mulheres, seguidas por uns duzentos homens. Est\u00e1 calor. \u00c9 uma marcha de ataque.: trinta quil\u00f4metros&#8230;. Marchamos deixando marcas vermelhas na areia&#8230; E essas coisas.. As nossas&#8230; N\u00e3o d\u00e1 para disfar\u00e7ar nesta situa\u00e7\u00e3o. Os soldados marcham atr\u00e1s de n\u00f3s e fingem n\u00e3o reparar em nada&#8230; N\u00e3o olham para o ch\u00e3o&#8230; As cal\u00e7as secavam em n\u00f3s , tornavam-se como de vidro, machucavam a pele.\u00a0 Faziam feridas, o cheiro de sangue era constante&#8230;\u00a0 Pois n\u00e3o nos distribu\u00edam nada&#8230; Apareceu roupa interior de mulher talvez s\u00f3 dois anos mais tarde&#8230; Mal chegamos \u00e0 passagem, os alem\u00e3es come\u00e7am a bombardear. Os homens correm para se esconder. Gritam nos chamando&#8230; N\u00e3o ouvimos o bombardeio, n\u00e3o nos importa o bombardeiro, n\u00f3s nos lan\u00e7amos ao rio&#8230; \u00c1gua! Aquela foi, provavelmente, a primeira vez que desejei ser homem&#8230;\u201d<br \/>\n<em>(*) Os trechos transcritos foram adaptados da tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas de Portugal. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Louren\u00e7o Cazarr\u00e9 A menina Svetlana Aleksi\u00e9vitch, nascida em 1948 na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o gostava de livros de guerra, numerosos em sua casa, mas na escola &#8211; na Bielo-R\u00fassia, onde cresceu &#8211; era obrigada a l\u00ea-los. \u201cEstivemos sempre a combater ou a preparar-nos para a guerra&#8230; Na escola, ensinavam-nos a amar a morte\u201d. 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