{"id":4892,"date":"2009-05-25T16:51:28","date_gmt":"2009-05-25T19:51:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=4892"},"modified":"2009-05-25T16:51:28","modified_gmt":"2009-05-25T19:51:28","slug":"o-arroio-diluvio-ilustre-ignorado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-arroio-diluvio-ilustre-ignorado\/","title":{"rendered":"O arroio Dil\u00favio, ilustre ignorado"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Felipe Prestes, especial para o Jornal J\u00e1<\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">Prefeitura vai levar 586 milh\u00f5es do BID para despoluir o Gua\u00edba, mas nada faz pelos 17 quil\u00f4metros do arroio mais sujo da cidade.<\/span><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000919_diluvio3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Gar\u00e7as tem habitat no arroio Dil\u00favio (Felipe Prestes) <\/em><br \/>\n\u201cIr at\u00e9 l\u00e1 sozinho, sem a companhia de um guarda, \u00e9 muito perigoso\u201d, alerta um funcion\u00e1rio da prefeitura. Refere-se \u00e0 nascente do arroio Dil\u00favio, no meio do mato, no Parque Saint-Hillaire, em Viam\u00e3o. Longe da \u00e1rea de viv\u00eancia do parque, em um lugar in\u00f3spito que serviria de acolhida para bandidos, tem in\u00edcio a trajet\u00f3ria de 17.605 metros do riacho que depois divide uma das principais avenidas de Porto Alegre.<br \/>\nNo parque, a \u00e1gua flui limpa para a superf\u00edcie. Mas ali mesmo a falta de acesso da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 infra-estrutura b\u00e1sica se faz sentir. \u201cAs vilas pr\u00f3ximas \u00e0 nascente n\u00e3o possuem saneamento b\u00e1sico. Pequenos cursos d\u2019\u00e1gua que n\u00e3o nascem no Saint-Hilaire acabam levando a polui\u00e7\u00e3o para o Dil\u00favio\u201d, explica o bi\u00f3logo da Secretaria Municipal do Meio-Ambiente de Porto Alegre (Smam), Rodrigo da Cunha. Mesmo que apenas 10% da unidade de conserva\u00e7\u00e3o fa\u00e7am parte do munic\u00edpio, a secretaria \u00e9 respons\u00e1vel pela preserva\u00e7\u00e3o do local.<br \/>\nAp\u00f3s se esconder embaixo de vias urbanas, canalizado, e depois se embrenhar nas matas do morro Santana, o Dil\u00favio reaparece espremido entre o p\u00e9 deste morro e os fundos de oficinas, dep\u00f3sitos de ferro-velho, brech\u00f3s, restaurantes e moradias localizadas na Avenida Bento Gon\u00e7alves, j\u00e1 em Porto Alegre. Ainda rodeado por mata densa, recebe sof\u00e1s, colch\u00f5es, todo tipo de saco pl\u00e1stico e restos de materiais de constru\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMais estreito, devido \u00e0s estruturas de concreto constru\u00eddas nos barrancos das duas margens, o riacho passa por baixo da Avenida Ant\u00f4nio de Carvalho e vira caracter\u00edstica marcante da Avenida Ipiranga.<br \/>\nSegundo o \u201cGuia Hist\u00f3rico de Porto Alegre\u201d, de S\u00e9rgio da Costa Franco, a canaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser pensada em 1905, por causa das constantes cheias. Entretanto, a obra s\u00f3 foi levada a cabo ap\u00f3s a grande enchente de 1941.<br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o, o Dil\u00favio sa\u00eda da Azenha e percorria a Cidade Baixa. Naquela regi\u00e3o, nas palavras do escritor, \u201ccome\u00e7ava a descrever extensos meandros, em terreno baixo e alagadi\u00e7o, at\u00e9 alcan\u00e7ar a antiga Ponte do Menino Deus, que dava acesso \u00e0 Av. Get\u00falio Vargas. Um destes meandros, imediato \u00e0 Pra\u00e7a Garibaldi dava uma volta de tal modo acentuada, que quase encerrava uma ilhota no seu interior\u201d. Foi nessa regi\u00e3o, conhecida ent\u00e3o como Ilhota, que nasceu, em 1914, o compositor Lupic\u00ednio Rodrigues. Conta-se que o pai de Lupi teve que buscar uma parteira de barco, devido a mais uma enchente.<br \/>\nPara evitar fatos semelhantes, a obra que se arrastou por duas d\u00e9cadas tratou de fazer uma retifica\u00e7\u00e3o, deslocando esta parte do arroio, formando um \u00fanico curso reto, at\u00e9 o fim da Avenida Ipiranga. Deslocou tamb\u00e9m uma bifurca\u00e7\u00e3o que ia em dire\u00e7\u00e3o ao Centro, e passava por baixo da Ponte de Pedra. E os porto-alegrenses j\u00e1 est\u00e3o t\u00e3o acostumados que muitos nem se perguntam por qu\u00ea, afinal de contas, h\u00e1 uma ponte naquele pequeno espelho d\u2019\u00e1gua.<br \/>\nA \u00faltima altera\u00e7\u00e3o se deu nos anos 70, quando o arroio se estendeu at\u00e9 o aterro criado para que surgisse o Parque Marinha do Brasil. Hoje, doze quil\u00f4metros do leito s\u00e3o canalizados.<br \/>\nCl\u00e1udio Frankenberg, coordenador acad\u00eamico da Faculdade de Engenharia e diretor do Instituto de Meio Ambiente da PUC-RS, explica que o Dil\u00favio recebe as \u00e1guas de diversos pequenos c\u00f3rregos que a cidade foi soterrando para construir novas vias, novos bairros. Sua sub-bacia \u00e9 respons\u00e1vel pelo escoamento de \u00e1gua em uma \u00e1rea de cerca de 83km2 \u2013 mais de oito mil campos de futebol &#8211; na qual vivem aproximadamente 446 mil pessoas, na capital e em Viam\u00e3o.<br \/>\nO que poucos sabem tamb\u00e9m \u00e9 que o riacho n\u00e3o foi projetado para ser um grande recebedor de esgoto cloacal. Segundo o Departamento de Esgotos Pluviais de Porto Alegre (DEP), o arroio carrega este tipo de detritos de apenas tr\u00eas bairros de Porto Alegre at\u00e9 o Gua\u00edba. Contudo, o mesmo problema de liga\u00e7\u00f5es irregulares de esgoto cloacal encontrado na nascente ocorre por toda a parte, nestes pequenos arroios que v\u00e3o desembocar no Dil\u00favio, al\u00e9m de ocorrer diretamente no pr\u00f3prio.<br \/>\n\u201cO sujeito descobre que h\u00e1 um duto perto de onde vai morar, faz uma pequena obra e manda seus dejetos para l\u00e1, sem saber que se trata de algo que escoa a \u00e1gua da chuva\u201d, relata Frankenberg. As dificuldades para se descobrir essas liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o grandes, o que dificulta a a\u00e7\u00e3o do estado em reparar sua omiss\u00e3o no provimento de necessidades b\u00e1sicas. \u201cPara testar se uma casa tem esgoto irregular \u00e9 preciso entrar nela, jogar corante no vaso sanit\u00e1rio e ver onde ele vai parar. Precisa da autoriza\u00e7\u00e3o do morador, o que \u00e9 complicado. J\u00e1 h\u00e1 rob\u00f4s que podem ser colocados na rede de esgotos e rastrear isso, mas \u00e9 um labirinto muito grande, tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil\u201d.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000922_diluvio4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Do p\u00e9 do morro Santana at\u00e9 a foz, pode-se fazer uma imagem como esta em qualquer trecho do Dil\u00favio. (Felipe Prestes)<\/em><br \/>\nEssa foi uma das causas da polui\u00e7\u00e3o no arroio apontadas por uma an\u00e1lise preliminar feita pelo N\u00facleo de Estudos do Dil\u00favio, chefiado por Frankenberg. Em 2007, um grande n\u00famero de peixes apareceu morto na frente da PUC-RS, o que motivou a cria\u00e7\u00e3o deste grupo. Entre os outros fatores, est\u00e3o a sujeira que prov\u00e9m da pr\u00f3pria \u00e1gua do esgoto pluvial, pela sujeira das ruas; e o lixo que \u00e9 jogado diretamente no riacho. \u201cAl\u00e9m disso, n\u00e3o sabemos, por exemplo, se um posto de gasolina n\u00e3o joga produtos qu\u00edmicos no arroio\u201d.<br \/>\nA grande quantidade de terra no leito colabora para a acumula\u00e7\u00e3o da sujeira, por isso h\u00e1 rotineiramente dragas na Avenida Ipiranga retirando este barro. \u201cUm dos entraves para uma maior efic\u00e1cia \u00e9 que a Prefeitura de Porto Alegre n\u00e3o possui este equipamento, precisando alugar toda vez que vai fazer este processo\u201d, lamenta o professor universit\u00e1rio. Ao todo, o c\u00f3rrego recebe anualmente 50 mil metros c\u00fabicos de terra e lixo, o equivalente a dez mil caminh\u00f5es-ca\u00e7amba cheios.<br \/>\nO pulso ainda pulsa<br \/>\nChama aten\u00e7\u00e3o que com tantos problemas o Dil\u00favio atraia cada vez maior popula\u00e7\u00e3o de aves, e ainda r\u00e9pteis e peixes, inclusive nas partes onde h\u00e1 mais selva de pedra no entorno. O bi\u00f3logo da Smam, Rodrigo da Cunha, acredita que isso possa confundir a popula\u00e7\u00e3o e alerta que n\u00e3o \u00e9 necessariamente um bom sinal. \u201cOs animais que ali se encontram, como gar\u00e7as, bagres e lambaris, al\u00e9m de tartarugas, s\u00e3o altamente resistentes \u00e0 polui\u00e7\u00e3o. O arroio n\u00e3o vai bem\u201d.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000923_diluvio5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Tartarugas resistem \u00e0 sujeira do Dil\u00favio. (Felipe Prestes)<\/em><br \/>\nMuitas pessoas tamb\u00e9m usam as margens do riacho para descansar e fazem das pontes um teto para morar. Das sinaleiras da avenida, tiram o ganha-p\u00e3o. Uso de drogas, conflitos com os familiares e incompatibilidade com o tipo de assist\u00eancia oferecida pelo estado nos albergues, v\u00e3o levando gente humilde a se juntar em verdadeiras rep\u00fablicas em torno do Dil\u00favio.<br \/>\nNa esquina da Santana com a Ipiranga, Gabriel vende santinhos amassados para os motoristas. Mora com o pai, no bairro Gl\u00f3ria, e lhe faltou apenas um ano para concluir o segundo grau. Como gosta de \u201ctomar umas\u201d, prefere evitar brigas com o velho, passando a maior parte da semana com um pessoal que dorme embaixo da marquise de uma loja de pneus localizada naquele entroncamento.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000925_diluvio6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Quem disse que morador de rua n\u00e3o pode ter jardim? (Felipe Prestes)<\/em><br \/>\nNo barranco da mesma esquina, Rodrigo tem um jardim. O morador de rua recolhe plantas quase mortas que encontra no lixo, al\u00e9m de utens\u00edlios como vasos, e cuidadosamente trata de dar nova vida aos vegetais. Segue \u00e0 risca os ensinamentos da m\u00e3e, com quem morava no Morro da Cruz, at\u00e9 a morte dela. \u201cUm dia meu irm\u00e3o me disse que tr\u00eas caras armados invadiram l\u00e1 e eu nunca mais voltei. Tinha que ver o jardim que tinha l\u00e1\u201d. Pretende sair da ponte e poder ser um jardineiro profissional.<br \/>\nEmbaixo das plantas de Rodrigo, num degrau que o concreto faz em cima do Dil\u00favio, K\u00e1tia e o marido usam uma lona como casa. Ela diz ter vinte e um anos, embora aparente menos idade. Jovem como a maioria por ali, a garota conta que veio de Uruguaiana no ano passado. Viciada em crack, diz com naturalidade que transa por cinco ou dez reais. \u201cVim de avi\u00e3o para Porto Alegre com a minha fam\u00edlia. Um velho com quem eu ficava pagou a passagem para todos n\u00f3s. Eu disse para ele que queria conhecer a cidade\u201d.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000932_diluvio7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>K\u00e1tia mora na rua para n\u00e3o vender seus bens<br \/>\nque ficam na casa da m\u00e3e. (Felipe Prestes)<\/em><br \/>\nK\u00e1tia tem um filho de um ano chamado Taison, em homenagem ao atacante do Internacional. A touca do Gr\u00eamio que usava havia sido emprestada por um amigo, por causa do frio. Quem cuida do menino \u00e9 a av\u00f3. Os dois agora moram no bairro Bom Jesus. \u201cEu moro na rua por que n\u00e3o quero vender as minhas coisas por causa do v\u00edcio. Tenho dvd, televis\u00e3o\u201d, conta.<br \/>\nO marido n\u00e3o se importa com a profiss\u00e3o de K\u00e1tia. \u201cEle me ajuda e eu ajudo ele\u201d, resume. Foi quem a tirou das imedia\u00e7\u00f5es do Shopping Praia de Belas, para morar no bairro Santana. K\u00e1tia foi convencida por causa da sopa, que \u00e9 servida por um grupo de caridade a quem dorme embaixo da marquise da loja de pneus.<br \/>\nGabriel conta que a rela\u00e7\u00e3o entre os moradores de rua e o estabelecimento \u00e9 boa, j\u00e1 que os primeiros s\u00f3 se instalam na frente do ponto de com\u00e9rcio ap\u00f3s o fechamento deste. O problema maior \u00e9 com a Prefeitura, que a qualquer vacilo recolhe os pertences de quem quer que viva na rua por aquelas bandas. A Prefeitura, ali\u00e1s, come\u00e7ou em 2007 a fechar com concreto e tijolos a parte de baixo de todas as pontes que atravessam o Dil\u00favio. Somente as pontes hist\u00f3ricas foram preservadas.<br \/>\nUma destas constru\u00e7\u00f5es, na Avenida Azenha, \u00e9 habitada por um grande grupo de jovens, que se revezam por ali. De dia h\u00e1 sempre alguns sentados em colch\u00f5es na cal\u00e7ada, com v\u00e1rios cachorros, descansando, enquanto outros se viram no malabarismo para conseguir um dinheiro.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/p1000914_diluvio2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Tiago dorme em um moc\u00f3 embaixo de ponta hist\u00f3rica na Azenha. (Felipe Prestes) <\/em><br \/>\nTiago, de 25 anos, conta que \u00e9 poss\u00edvel faturar cerca de R$ 40 por dia com apresenta\u00e7\u00f5es na sinaleira, ou simplesmente pedindo. N\u00e3o \u00e9 de muitas palavras. Arrepende-se quando revela que dentro da estrutura da ponte tem bons locais para dormir. \u201cRevelei o moc\u00f3 do Batman\u201d, sorri. S\u00f3 em dias de muita chuva \u00e9 que \u00e9 preciso se deslocar at\u00e9 uma marquise pr\u00f3xima por que o arroio enche demais. Come\u00e7ou a viver no local h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, motivado pelo uso de drogas, e pelas brigas com a m\u00e3e, com quem morava na Restinga. \u201cAqui \u00e9 todo mundo unido, \u00e9 uma fam\u00edlia\u201d.<br \/>\nMais falante e sorridente, Glessias, de 21 anos, possui casa na Restinga, que comprou em uma \u00e1rea invadida. No entanto, freq\u00fcenta a regi\u00e3o desde os dez anos, quando vinha buscar lol\u00f3. J\u00e1 teve visual punk, vestido sempre de preto e usando moicano, por isso ganhou o apelidado de \u201cSombra\u201d. Foi nessa \u00e9poca que tatuou no bra\u00e7o os dizeres \u201cFascismo \u00e9 uma merda\u201d. N\u00e3o costuma ficar muito tempo em casa, por n\u00e3o poder levar no \u00f4nibus o d\u00e1lmata Beethoven.<br \/>\nA hist\u00f3ria da amizade entre o bicho e o jovem \u00e9 inusitada. H\u00e1 cerca de quatro anos, o antigo dono do animal pagou para Glessias mat\u00e1-lo. O guri pegou o dinheiro e o cachorro para si. Tamb\u00e9m na Restinga mora sua esposa, que est\u00e1 gr\u00e1vida. O \u201cSombra\u201d diz que sempre quis ter um filho, e que a mulher n\u00e3o se importa com sua aus\u00eancia. \u201cEla sabe que eu sou loc\u00e3o\u201d.<br \/>\nPassado e presente<br \/>\nNo que seria uma tarde comum de trabalho, alertado por um colega, o economista e fot\u00f3grafo amador Cilon Estivalet desceu \u00e0s pressas da reparti\u00e7\u00e3o na Borges de Medeiros e fez o registro de uma enorme mortandade de peixes. \u201cCad\u00e1veres dos bichos, que tentaram passar do Gua\u00edba para o riacho, tomavam toda a extens\u00e3o dele, da foz at\u00e9 a Avenida Praia de Belas\u201d, relata.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/diluvio1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>1972: fam\u00edlia de pescadores contempla a mortandade de peixes no Dil\u00favio (Cilon Estivalet)<\/em><br \/>\nEra o ano de 1972, e aquela cena acabou o ajudando a tomar uma grande decis\u00e3o na vida. \u201cO (Jos\u00e9) Lutzenberger estava come\u00e7ando a alertar a cidade sobre o mau cheiro causado pela antiga Borregard, a gente lia muito marxismo, e eu acabei me tornando ambientalista\u201d. Estivalet optou pelo engajamento e hoje esta \u00e0 frente da Associa\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Canela (Assecan), que criou no munic\u00edpio serrano.<br \/>\nA fotografia acabou sendo deixada de lado, mas o ensaio que fez naquela tarde se tornou um forte registro sobre o meio-ambiente em Porto Alegre e de pessoas que dependiam daquelas \u00e1guas, sendo exposto em v\u00e1rias localidades no Rio Grande do Sul. Quando foi at\u00e9 a margem do riacho, o fot\u00f3grafo eternizou uma fam\u00edlia de pescadores que tirava dali seu sustento, habitava uma ponte e se locomovia de barco pelo Dil\u00favio.<br \/>\nDiferentemente dos atuais moradores de rua, o casal \u2013 com um filho \u2013 vivia do arroio e do Gua\u00edba, n\u00e3o da avenida; e as drogas ainda n\u00e3o eram uma quest\u00e3o que coloca em xeque a sa\u00fade p\u00fablica no Brasil. Curiosamente, o ambientalista acredita que a polui\u00e7\u00e3o era maior naquela \u00e9poca, com uma camada de espuma cobrindo o curso d\u2019\u00e1gua, principalmente nas \u00e9pocas de pouca chuva.<br \/>\nO professor de matem\u00e1tica Milton Ribeiro morou na Avenida Jo\u00e3o Pessoa quase na esquina com a Ipiranga, do nascimento \u00e0 juventude, entre os anos de 1957 e 1977. Ele se lembra da mesma camada de espuma e tamb\u00e9m de uma vis\u00e3o bem mais leve que a classe m\u00e9dia tinha do Dil\u00favio e dos habitantes das redondezas. \u201cDava para atravessar por baixo da ponte sem ter de pisar na \u00e1gua, ent\u00e3o era o melhor lugar para se brincar de esconde-esconde\u201d.<br \/>\nGatos e funcion\u00e1rios de uma revendedora de carros eram os que mais sofriam com os pi\u00e1s. \u201cEntre as brincadeiras preferidas estavam jogar os gatos ponte abaixo, e estourar roj\u00f5es dentro da loja\u201d, recorda.<br \/>\nVolta e meia as crian\u00e7as se deparavam com algum mendigo dormindo nas redondezas, mas os pais n\u00e3o demonstravam qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a deles, ou com o fato de a garotada brincar perto daquela \u00e1gua polu\u00edda. \u201cN\u00f3s \u00e9ramos criados bem mais soltos em rela\u00e7\u00e3o a como a classe m\u00e9dia cria seus filhos nas grandes cidades hoje em dia. Muito pouco se ouvia falar em coisas como assalto e pedofilia\u201d.<br \/>\nTal ingenuidade Porto Alegre foi perdendo ao longo dos anos. Manteve-se o descaso com a degrada\u00e7\u00e3o da natureza e com a popula\u00e7\u00e3o. O arroio Dil\u00favio \u00e9 um espelho de como a cidade cuida de si. A sa\u00fade do riacho se assemelha \u00e0 dos atingidos pela epidemia do crack. Problemas como a falta de renda, moradia digna, instru\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablica fazem com que as trajet\u00f3rias do esgoto cloacal irregular e dos moradores das pontes se cruzem no in\u00edcio e no fim do percurso.<br \/>\nAs pessoas nos carros que voam pela\u00a0Avenida Ipiranga raramente param pra ver a paisagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Felipe Prestes, especial para o Jornal J\u00e1 Prefeitura vai levar 586 milh\u00f5es do BID para despoluir o Gua\u00edba, mas nada faz pelos 17 quil\u00f4metros do arroio mais sujo da cidade. 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