{"id":48940,"date":"2017-05-29T10:50:35","date_gmt":"2017-05-29T13:50:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=48940"},"modified":"2017-05-29T10:50:35","modified_gmt":"2017-05-29T13:50:35","slug":"belchior-alem-do-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/belchior-alem-do-mito\/","title":{"rendered":"Belchior, al\u00e9m do mito"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Elstor Hanzen<\/span><br \/>\nUm nordestino com 22 irm\u00e3os nascido em Sobral (Cear\u00e1), no dia 26 de outubro 1946, traduziu a ess\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o humana para uma linguagem viva e cortante.<br \/>\nViveu mais intensamente a coer\u00eancia de suas letras do que a l\u00f3gica do nosso mundo. Belchior, um literato popular da poesia e da m\u00fasica brasileira.<br \/>\nDe esp\u00edrito n\u00f4made, o compositor foi descrito como homem mais livre dentro do mundo que escolheu viver. Em fuga do espet\u00e1culo, encontrou a verdadeira liberdade.<br \/>\nFoi uma escolha, garantem os que conviveram com ele no recente tempo.<br \/>\nEra simples, af\u00e1vel e lia de tudo: teologia, filosofia, literatura \u00e0 f\u00edsica qu\u00e2ntica. Declamou poesia em latim. Leu <em>A Divina Com\u00e9dia<\/em> em italiano. Era um poliglota.<br \/>\nNo mosteiro, cantou e tocou suas can\u00e7\u00f5es para uma plateia de freiras. Para o seu guardi\u00e3o nos \u00faltimos quatro anos, chegou a ensinar a t\u00e9cnica do Haicai.<br \/>\nSe estava satisfeito com o que via? Ele mesmo tratou de responder em uma entrevista, em 1983. \u201cEstou em harmonia com o mundo, no sentido mais c\u00f3smico, mais profundo. Mas, o que vejo na realidade, evidentemente, por ser uma pessoa atenta, sens\u00edvel e consciente, n\u00e3o posso gostar. Acho que n\u00e3o \u00e9 um lugar adequado para o homem comum desenvolver suas qualidades e possibilidades, de forma apropriada\u201d, resumiu.<br \/>\nAtualmente, tamb\u00e9m n\u00e3o estava nada satisfeito com os rumos do Brasil.<br \/>\nEnfim, um homem de apar\u00eancia m\u00e1scula e alma delicada. Um progressista, que queria expressar uma nova cultura do Nordeste, n\u00e3o dar continuidade ao estabelecido. Ademais, era combatente do nivelamento da cultura por baixo, da aliena\u00e7\u00e3o e da mercantiliza\u00e7\u00e3o do mundo.<br \/>\nDia 30 de maio, um m\u00eas da sua morte, a reportagem e a an\u00e1lise buscam compor um perfil do compositor cearense, autor de letras como <em>Mon\u00f3logo das Grandezas do Brasil<\/em>, <em>Como Nossos Pais<\/em>, D<em>ivina Com\u00e9dia Humana<\/em>. Se os textos n\u00e3o forem suficientes para entender o rapaz latino-americano, ainda h\u00e1 um recurso derradeiro: mergulhar nas suas m\u00fasicas.<br \/>\nEle brincava que seu nome de registro era t\u00e3o comprido que precisava ser percorrido a cavalo: Ant\u00f4nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Todavia, ap\u00f3s percorrer o mundo e traduzir os sonhos, os desafios, as angustias e at\u00e9 os medos privados de toda uma gera\u00e7\u00e3o dos anos 70 e 80, entrou para a hist\u00f3ria da m\u00fasica e da arte como Belchior. \u201cPara voc\u00eas verem, trata-se do maior nome da m\u00fasica brasileira\u201d, autodefinia-se.<br \/>\nJ\u00e1 nos anos em que se retirou da cena p\u00fablica e deixou o mito de lado, fez quest\u00e3o de ser simplesmente \u2013 Ant\u00f4nio \u2013 um rapaz de alma livre e com pressa de viver. \u201cA gente n\u00e3o via ele como um personagem, era uma pessoa comum como qualquer outro morador. Era isso que ele buscava\u201d, conta Fl\u00e1vio da Silva, 51 anos, vizinho no \u00faltimo endere\u00e7o onde Belchior e a esposa Edna Prometheu moravam em Santa Cruz do Sul (RS), antes da morte do cantor, no dia 30 de abril.<br \/>\nO casal se mudou para a casa cedida por amigos em outubro de 2015, ap\u00f3s ter morado em outros seis lugares diferentes na cidade e no m\u00eas do anivers\u00e1rio de Belchior. Sem saber que o morador ao lado era o conhecido autor do \u00e1lbum <em>Alucina\u00e7\u00e3o<\/em> (1976), Fl\u00e1vio e a esposa Aline iniciaram a amizade com o escritor Ant\u00f4nio e a produtora cultural Edna. Quando, finalmente, revelado o segredo, Fl\u00e1vio lembra que ele sempre preferiu ser chamado de Ant\u00f4nio, sem qualquer adjetivo anexado ao nome. E, assim, a amizade foi se consolidando, sem perguntas pessoais sobre o passado nem cobran\u00e7a da vida profissional.<br \/>\nUm ano depois, os quatro comemoravam juntos o anivers\u00e1rio de 70 anos do cearense, \u00e0 base de pizza. \u201cEle gostava muito de pizza com tomate seco, r\u00facula e queijo. Sem carne\u201d, recorda o santacruzense.<br \/>\nDesde que chegou a Santa Cruz em agosto de 2013, trazido por um amigo a bordo de um gol preto, vindo de Seberi &#8211; regi\u00e3o Norte do Rio Grande do Sul -, a vida de Belchior pode ser resumida em poucas palavras: h\u00e1bitos simples, alma leve e um profundo conhecedor da realidade brasileira. Um \u00e1vido leitor, tamb\u00e9m queria fazer a revolu\u00e7\u00e3o pela palavra. Tinha extrema sensibilidade social, entendia que a instabilidade pol\u00edtica afetava diretamente os mais pobres. \u201cNa \u00e9poca do impeachment, achava que n\u00e3o era o momento de fazer o processo. Considerava que a Dilma teria que terminar o mandato, porque foi eleita democraticamente, para n\u00e3o causar uma ruptura institucional no pa\u00eds. Lamentou a confus\u00e3o e o alvoro\u00e7o que o processo gerou para a popula\u00e7\u00e3o\u201d, relata o organizar da estadia e guardi\u00e3o de Belchior na cidade de 126 mil habitantes, no Vale do Rio Pardo, o radialista Dogival Duarte, 50 anos.<br \/>\n\u201cFoi um dinossauro da literatura, da cultura e da arte. Uma cachoeira de sabedoria. Tamb\u00e9m era muito amoroso, querido e pacato. Um Dalai Lama\u201d, assim Dogival descreve seu ilustre h\u00f3spede. Na biblioteca do radialista, o autor da can\u00e7\u00e3o <em>Apenas um Rapaz Latino-Americano <\/em>passava a maior parte dos 365 dias, desde a chegada em 18 de setembro, de 2013, \u00e0s 19h, \u00e0 casa. \u201cLia <em>Dom Quixote<\/em>, de Cervantes; Juan de la Cruz; Sim\u00f5es Lopes Neto; <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, de Gabriel Garcia M\u00e1rquez; e, em italiano,<em> A Divina Com\u00e9dia<\/em>, de Dante Alighieri. Ia de cl\u00e1ssicos nacionais e mundiais, a escritores brasileiros, ga\u00fachos. Lia com calma e sem pressa. Ele tinha tempo e gosto para ler\u201d, narra Dogival. Com obsess\u00e3o, procurava traduzir para linguagem popular os 14.230 versos da obra de Dante Alighieri.<br \/>\nDevido ao conhecimento vasto e ao modo af\u00e1vel no trato, Belchior fez amizade com o bispo dom Sin\u00e9sio Bohn, 82 anos, cujos encontros se davam, na maior parte das vezes, na casa do anfitri\u00e3o Dogival. O bispo em\u00e9rito de Santa Cruz definiu o compositor cearense como um gentheman. J\u00e1 na cerim\u00f4nia da virada do ano de 2013\/2014, quando o casal Belchior est\u00e1 hospedado no Mosteiro da Sant\u00edssima Trindade, dom Sin\u00e9sio o convidou a cantar <em>Panis Angelicus<\/em>, c\u00e2ntico cat\u00f3lico escrito por S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. Belchior aceitou. Irm\u00e3 Andr\u00e9a Freire, 51 anos, h\u00e1 20 no mosteiro, lembra com carinho aquela noite. \u201cCantou \u00e0 capela. Foi lindo e encantador\u201d, resume.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Homem simples e gentil<\/span><br \/>\nNos 11 anos que viveu no autoex\u00edlio, passou pelo Uruguai, Porto Alegre e cidades da regi\u00e3o Metropolitana da capital, at\u00e9 parar em Seberi, no in\u00edcio de 2013. Dali partiu para o interior de Santa Cruz do Sul, no distrito de Rio Pardinho, para morar por tr\u00eas meses na comunidade sustent\u00e1vel &#8211; Ecovila Karaguat\u00e1. H\u00e1 poucos quil\u00f4metros da ecovila, pela mesma estrada, tem-se acesso ao Mosteiro da Sant\u00edssima Trindade, onde Belchior e a esposa chegaram pela primeira vez no come\u00e7o de outubro, de 2013.<br \/>\nNo mosteiro \u2013 prado verdejante e ar buc\u00f3lico \u2013 o m\u00fasico se sentia em paz e, inclusive, foi o \u00fanico lugar em que tocou e cantou por diversas vezes para as freiras. \u201cAl\u00e9m de cantar v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es, ele gostava de fazer um breve resumo dos bastidores da composi\u00e7\u00e3o de cada letra\u201d, lembra Andr\u00e9ia. \u201cAs irm\u00e3s sempre pediam que tocasse Paralelas. Ele obedecia\u201d, completa.<br \/>\nApesar de ser dif\u00edcil saber o que se passava na cabe\u00e7a dele, irm\u00e3 Andr\u00e9ia acredita que o melhor caminho para tentar entende-lo \u00e9 por meio de suas letras. \u201cEle foi e seguiu o que cantava nas m\u00fasicas\u201d, ressalta. O pr\u00f3prio Belchior, em uma entrevista produzida pela TV Cultura, em 1983, sinalizou nesta dire\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o tenho palavra precisa, definitiva. N\u00e3o tenho como indicar um caminho seguro, porque eu tamb\u00e9m estou fazendo meu caminho a cada instante. Tudo est\u00e1 nos meus discos, de forma mais l\u00facida\u201d. As explica\u00e7\u00f5es mais definitivas, todavia, parecem estar na letra &#8211; <em>Tudo Outra Vez<\/em>: \u201cGente de minha rua, como eu andei distante. Quando eu desapareci, ela arranjou um amante. Minha normalista linda, ainda sou estudante. Da vida que eu quero dar\u201d.<br \/>\n\u201cDesde jovem, aos 20 anos, as can\u00e7\u00f5es dele foram trilha sonora de muitos momentos importantes na minha vida. A frase \u2018Estava mais angustiado que goleiro na hora do gol\u2019, na <em>Divina Com\u00e9dia Humana<\/em>, \u00e9 genial. Tem que ser um grande poeta para ter tal tipo de sacada\u201d, conta o professor Ricardo Maur\u00edcio da Silva, 60 anos. \u201cN\u00e3o h\u00e1 semana que n\u00e3o ou\u00e7o duas tr\u00eas m\u00fasicas dele. Para mim, o mais importante \u00e9 a obra que deixou\u201d, acrescenta.<br \/>\nRicardo Maur\u00edcio, que \u00e9 natural de Porto Alegre e mora h\u00e1 20 anos em Santa Cruz, lembra ainda a primeira vez que viu Belchior no aeroporto Salgado Filho, nos anos 80. \u201cEle estava sentando e conversando com o pessoal da banda. Logo me venho \u00e0 cabe\u00e7a a m\u00fasica <em>Medo de Avi\u00e3o<\/em>. Ele tinha uma imagem muito delicada, fr\u00e1gil; apesar da apar\u00eancia m\u00e1scula \u2013 homem corpulento\u00a0e bigode vistoso\u201d. O professor que \u00e9 formado em letras vai al\u00e9m, diz que o cantor pode ser comparado a grandes escritores como M\u00e1rio Quintana, por exemplo, embora o cearense n\u00e3o fosse um autor de livros, mas tinha a ess\u00eancia da poesia. \u201cEra o contr\u00e1rio de uma pessoa p\u00e9 no ch\u00e3o. Tinha sensibilidade e capacidade de observa\u00e7\u00e3o. Ele via tudo de forma aumentativo\u201d, salienta.<br \/>\nSobre a diferen\u00e7a entre poesia e m\u00fasica, Belchior mesmo deu sua opini\u00e3o numa entrevista na d\u00e9cada de 80. \u201cTenho necessidade de um ve\u00edculo quente, o palco, para expressar minhas mensagens. O livro n\u00e3o tem a mesma for\u00e7a\u201d. Tamb\u00e9m ressaltou que a m\u00eddia \u00e9 importante para a divulga\u00e7\u00e3o do trabalho, mas, acima de tudo, achava que o artista tinha que ter autonomia e independ\u00eancia na sua produ\u00e7\u00e3o, e a ind\u00fastria deveria ser apenas uma intermedi\u00e1ria entre o artista e o p\u00fablico.<br \/>\nTodos os ouvidos pela reportagem que conviveram, ou tiveram contato com o autor do <em>Na Hora Do Almo\u00e7o,<\/em> n\u00e3o ficaram com nenhuma d\u00favida quanto \u00e0 sua simplicidade, gentileza, delicadeza.\u00a0Tamb\u00e9m na alimenta\u00e7\u00e3o, seguia o mesmo comportamento singelo: era disciplinado, comida qualquer comida, menos carne vermelha. Gostava muito de vinho tinto. \u201cMas, bebia s\u00f3 uma ta\u00e7a por vez, exceto em uma comemora\u00e7\u00e3o especial, excedia esse limite\u201d, pondera Dogival.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Um s\u00e1bio<\/span><br \/>\nAntes de se tornar popular na MPB, o cearense estudou no Semin\u00e1rio de Guaramiranga, medicina na Universidade Federal do Cear\u00e1 e se formou em filosofia. Depois fez hist\u00f3ria e se tornou uma refer\u00eancia na m\u00fasica, mas n\u00e3o chegou a saborear por muito tempo os bens materiais desse sucesso. \u201cN\u00e3o tem como saber o que se passava exatamente na cabe\u00e7a dele. Lembrava muito a \u00e9poca dos festivais, com Fagner e Elis Regina. Falava das viagens. Depois falou sobre cada m\u00fasica que fez. A vida de estudante\u201d, observa Andr\u00e9ia.<br \/>\nNo mosteiro, reescreveu uma mensagem de Santa Tereza D\u2019\u00c1vila. Primeiro assinou s\u00f3 Ant\u00f4nio. Com a insist\u00eancia das freiras, no dia seguinte, acrescentou Belchior. Ele n\u00e3o demonstrava preocupa\u00e7\u00e3o com nada nem nostalgia, contam as irm\u00e3s, mesmo tenho poucas coisas para usufruir. \u201cEle estava na dele. Tudo estava bom\u201d, salienta Andr\u00e9ia. A irm\u00e3 acredita que o cantor estava consciente da escolha e satisfeito com a situa\u00e7\u00e3o. \u201cParece ter sido uma tentativa de tentar uma nova vida, uma alternativa ao padr\u00e3o oficial\u201d, reflete.<br \/>\nEm geral, deixou para tr\u00e1s o lado popular e s\u00f3 queria cuidar do erudito. Na casa do professor de filosofia Ubiratan e da empres\u00e1ria Ingrid Trindade, em Santa Cruz do Sul, onde o casal Belchior ficou por alguns meses em 2013 e passou o Natal daquele ano, declamou poesia em latim e estudou f\u00edsica qu\u00e2ntica. \u201cFalei que gostava de poesia, ele largou os talheres e desceu uma poesia em latim, no meio da janta. Me emocionei demais\u201d, recorda Ingrid.<br \/>\nNa casa dos Trindade, fora \u00e0 hora do almo\u00e7o e no jantar, Belchior passava o resto do dia no segundo pavimento da moradia, lendo, escrevendo, desenhando e conectado \u00e0 Internet. \u201cGostava de Fernando Pessoa e de Carlos Drummond. Mas, repentinamente, interessou-se muito por f\u00edsica. Leu artigos sobre o tema, Albert Einstein e pediu emprestado o livro <em>A Dan\u00e7a do Universo<\/em>, do f\u00edsico e astr\u00f4nomo brasileiro Marcelo Gleise. Tamb\u00e9m era um cientista\u201d, testemunha Ubiratan. Eles se admiraram com tanta intelectualidade. \u201cNa janta ele debulhava a <em>Suma Teol\u00f3gica<\/em> de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e a L\u00f3gica de Arist\u00f3teles, discorria com naturalidade sobre teologia. Um homem desse n\u00e3o est\u00e1 preso\u201d, conclui o professor de filosofia.<br \/>\nA rotina n\u00e3o foi muito diferente ao logo do ano em que viveu na casa do Dogival. Gostava de ler, desenhar, assistir a filmes \u00e0 noite. Al\u00e9m do <em>A Divina Com\u00e9dia<\/em>, a obra que o cantor mais apreciava era: <em>31 poetas, 214 poemas<\/em>. Uma antologia de uma esp\u00e9cie de volta ao mundo da poesia &#8211; em nove l\u00ednguas. Conduzidos pelo poeta e tradutor D\u00e9cio Pignatari. Uma da raridade, entre os mais de tr\u00eas mil livros na biblioteca do radialista. \u201cTinha como arma a literatura e a poesia. Era muito espiritualista, por causa a literatura. Astral muito bom\u201d. Ainda gostava das obras do Alceu Wamosy, o poeta soldado.<br \/>\nDogival diz que adorava beber na sabedoria dele. Al\u00e9m de falarem diariamente de filosofia, literatura, pol\u00edtica, o cearense ensinou ao anfitri\u00e3o a escrever haicais.<br \/>\nA t\u00e9cnica consiste em poemas curtos que utilizam linguagem sensorial para capturar um sentimento ou uma imagem. Eles normalmente s\u00e3o inspirados por um elemento da natureza, um momento de beleza ou uma experi\u00eancia comovente. Dogival \u2013 que tamb\u00e9m \u00e9 escritor &#8211; agora est\u00e1 escrevendo um livro dos di\u00e1logos com o cantor, que \u00e9 in\u00e9dito e deve ser publicado at\u00e9 o final deste ano. Uma esp\u00e9cie de biografia.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Vis\u00e3o pol\u00edtica e social <\/span><br \/>\nBelchior lamentava a aliena\u00e7\u00e3o dos estudantes, a passividade deles, em n\u00e3o se importar com o dia a dia da realidade. Al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o, conta o professor Ubiratan, o cearense era l\u00facido e apontava alternativas. \u201cEntendia que n\u00e3o havia mais o mesmo vigor e resist\u00eancia dos jovens e artistas na mobiliza\u00e7\u00e3o por mudan\u00e7as, como nos anos 60 a 90. Achava, por isso, que s\u00f3 mesmo a revolu\u00e7\u00e3o pela palavra seria poss\u00edvel hoje\u201d. O contexto da tecnologia e da comunica\u00e7\u00e3o virtual seria favor\u00e1vel para a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d pelo verbo, para o cearense.<br \/>\nA instabilidade pol\u00edtica no Brasil e o reflexo disso na vida das pessoas era outra inquieta\u00e7\u00e3o para o cantor. \u201cDe certa forma, estavam prevendo o que est\u00e1 acontecendo agora\u201d, constata Ubiratan. Tamb\u00e9m tinham muita preocupa\u00e7\u00e3o com a seletividade da justi\u00e7a, principalmente, Edna. \u201cFicaram muito revoltados com a pris\u00e3o do Jos\u00e9 Genoino, naquela \u00e9poca. Sempre atentos ao destino do pa\u00eds\u201d, lembra o professor de filosofia. Para eles, as mudan\u00e7as em curso no Brasil iriam deixar o pa\u00eds menos igualit\u00e1rio, com isso, quem sofreria as piores consequ\u00eancias seria a popula\u00e7\u00e3o com menos recursos financeiros, como o povo nordestino.<br \/>\nEmbora estivesse fora do mundo p\u00fablico, acompanhava todos os acontecimentos pela m\u00eddia e internet. \u201cEle se retirou do mundo, mas se inteirava de tudo que passava no mundo. Estava vivaz e afiado\u201d atesta Dogival. Ademais, estava muito l\u00facido, contava piada e sempre de bom humor. Tamb\u00e9m costumava procurar na internet informa\u00e7\u00f5es sobre seus f\u00e3s-clubes. Via com muito carinho a manifesta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. \u201cSe emocionava ao ver isso e mostrava disposi\u00e7\u00e3o de voltar aos palcos, mas Edna sempre o dissuadia da ideia\u201d, lembra Ingrid.<br \/>\nMesmo sem prazo, ele tinha interesse em voltar a fazer shows. O principal motivo seria a instabilidade pol\u00edtica e desorganiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Segundo os amigos, Belchior estava muito preocupado com a situa\u00e7\u00e3o do Brasil e n\u00e3o podia ficar mais oculto. E, para ajudar, tinha que voltar a fazer shows politizados. Questionando a realidade e os rumos do Brasil.<br \/>\nAl\u00e9m de ajudar o pa\u00eds no campo pol\u00edtico, Ricardo Maur\u00edcio, f\u00e3 do autor da can\u00e7\u00e3o <em>Cora\u00e7\u00e3o Selvagem,<\/em> acredita, caso o cantor resolvesse voltado \u00e0 ativa, poderia tamb\u00e9m ter sanado seu eventual problema financeiro, tranquilamente. \u201cN\u00e3o tem lado B nas m\u00fasicas dele, todas s\u00e3o muito boas, embora a m\u00eddia tenha popularizado mais algumas. As letras dele tinham uma origem na literatura, e ele conseguiu traduzir para uma linguagem popular. Um grande diferencial\u201d, sintetiza.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Mulher controladora <\/span><br \/>\nTodos que conviveram com o casal Belchior, nos \u00faltimos anos, apontam Edna Prometheu como controladora e respons\u00e1vel pela vida pr\u00e1tica do compositor. \u201cEla n\u00e3o era uma pessoa de f\u00e1cil conviv\u00eancia. Por isso, foram sendo deslocados de casa em casa, porque depois de um tempo ningu\u00e9m aguentava ela\u201d, conta Dogival. Se tivesse s\u00f3 hospedado Belchior, ele teria ficado os quatros anos e mais o tempo que quisesse na casa da fam\u00edlia, afirma o radialista.\u00a0 No dia da morte do cantor, por exemplo, Edna foi embora da cidade no carro da funer\u00e1ria sem sequer falar uma palavra nem se despedir de ningu\u00e9m.<br \/>\nAtualmente, conforme informa\u00e7\u00f5es obtidas pela reportagem, Edna est\u00e1 hospedada na casa da vice-prefeita de Sobral, Christianne Marrie Aguiar Coelho.<br \/>\nPara Belchior, por\u00e9m, a rede de prote\u00e7\u00e3o criada pela esposa parecia ser confort\u00e1vel. Pois ela tinha o controle do espa\u00e7o dele, da vida f\u00edsica e ele n\u00e3o se opunha muito \u00e0s ordens dela. Na an\u00e1lise de Ubiratan, o cantor era uma pessoa l\u00facida, com todos os poderes intelectuais plenos, e n\u00e3o iria se deixar dominar por ningu\u00e9m. \u201cEle tinha acesso a tudo, n\u00e3o estava preso, mas gostava de estar a\u00ed. Fez uma escolha pela vida que levava. O homem mais livre de todos os brasileiros, o que as pessoas materialistas e com vis\u00e3o utilitaristas n\u00e3o entendiam\u201d.<br \/>\nA hip\u00f3tese mais razo\u00e1vel apontada pelos que tiveram contato com o c\u00f4njuge, e a de que Edna tenha sido apenas uma esp\u00e9cie de empurr\u00e3o que faltava para ele seguir uma vida mais livre. \u201cA Edna era a principal f\u00e3 dele. Ela o elogiava e colocava para cima. Tamb\u00e9m havia uma admira\u00e7\u00e3o intelectual rec\u00edproca entre eles\u201d, observa irm\u00e3 Andr\u00e9ia. Outro motivo indicado pelos amigos, \u00e9 o de que ele era um eterno menino sem interesse nem jeito para lidar com a vida pr\u00e1tica, precisando de prote\u00e7\u00e3o, e Edna deu esse apoio a ele.<br \/>\nAdemais, o compositor vivia inspirado e tinha planos. Quando ficou na ch\u00e1cara dos Trindade, \u00fanico lugar que foi poss\u00edvel fotograf\u00e1-lo, estava mais alegre ainda que o normal e planejava gravar um clipe no s\u00edtio, com a algazarra das crian\u00e7as de uma escola ali perto, e som do canto dos passarinhos. Por vezes, conta Ingrid, \u201cimitava os p\u00e1ssaros, e eles meio que o respondiam\u201d. Para o marido de Ingrid, Belchior estava em fuga do espet\u00e1culo e da m\u00eddia. \u201cFez um reencontro com a inf\u00e2ncia. Com aquele menino de Sobral que foi para o semin\u00e1rio. Abandonou o mundo da apar\u00eancia e da posse\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Que vem de baixo n\u00e3o atinge <\/span><br \/>\nDepois de voltar da turn\u00ea pela Europa, em 2005, Belchior mandou desmarcar todos os shows no Brasil.\u00a0 Na mesma \u00e9poca, conheceu Edna. Desde ent\u00e3o h\u00e1 muitas vers\u00f5es sobre o seu sumi\u00e7o, de dividas a problemas imagin\u00e1rios. Para os f\u00e3s e amigos com quem esteve nos anos recentes, alegava estar cansado da noite e dos palcos; estava mais interessado, contudo, em ler e desenhar. E, mesmo mal tendo a roupa do corpo e sem endere\u00e7o fixo, estava bem com a vida que levava, conta irm\u00e3 Andr\u00e9ia. \u201cUma pessoa gratuita. Sempre muito simp\u00e1tico e contente. Essa mensagem que ficou dele\u201d.<br \/>\nEsse desprendimento tamb\u00e9m tinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica. \u201cFiz um pacto com eles: n\u00e3o me atingem, porque, simplesmente, n\u00e3o compreendem meu trabalho. Quando n\u00e3o tem compet\u00eancia n\u00e3o se estabelece. Por isso, sequer merecem uma resposta minha, pela raz\u00e3o de n\u00e3o terem tocados em nenhum ponto fundamental do meu trabalho\u201d, declarou Belchior, sobre a cr\u00edtica ao \u00e1lbum <em>Para\u00edso <\/em>(1982), na entrevista \u00e0 TV Cultura, em 1983. Na mesma entrevista, definiu assim sua produ\u00e7\u00e3o: \u201cSou partid\u00e1rio de uma arte viva, uma arte atual, arte forte que entra na vida das pessoas. Essa minha postura foi levada para o lado pessoal, por isso, dizem que sou agressivo. Mas n\u00e3o sou nada disso, naturalmente\u201d. A cr\u00edtica n\u00e3o o atingia, porque n\u00e3o compreendia a ess\u00eancia de seu trabalho, simplesmente.<br \/>\nTalvez, parte da resposta de Belchior, diante de todo o processo, esteja na letra <em>Tocando por M\u00fasica<\/em>: \u201cAluguei minha can\u00e7\u00e3o \/ pra pagar meu aluguel \/ e uma dona que me disse \/ que o dinheiro \u00e9 um deus cruel \/ [\u2026] hoje eu n\u00e3o toco por m\u00fasica \/ hoje eu toco por dinheiro \/ na emo\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \/ de quem canta no chuveiro \/ fa\u00e7o arte pela arte \/ sem cansar minha beleza \/ assim quando eu vejo porcos \/ lan\u00e7o logo as minhas p\u00e9rolas\u201d Enfim, entre necessidade e a vida abundante, ficou com a \u00faltima. Ou consciente como nas <em>Paralelas:<\/em> \u201cE no escrit\u00f3rio em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico. Diminui o meu amor\u201d.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">ARTIGO: A contracultura ao mundo do espet\u00e1culo<\/span><br \/>\n<em>Elstor Hanzen*<\/em><br \/>\nBelchior jamais p\u00f4de ser limitado a um movimento cultural nem enquadrado no nome que a ind\u00fastria do entretenimento e do espet\u00e1culo lhe tentaram atribuir. Coerente e aut\u00eantico, o cantor cearense n\u00e3o se acomodou \u00e0s etiquetas da arte nem aos estere\u00f3tipos da imagem; resolveu mergulhar na vida e praticar na plenitude o que pregava nas letras. Viveu como n\u00f4made os \u00faltimos anos de sua vida no Rio Grande do Sul. Contudo, permaneceu l\u00facido e intransigente at\u00e9 o fim contra a ideia de separar o sujeito da obra, o prazer como mercadoria, a arte como simples moeda de troca, pr\u00e1ticas t\u00e3o corriqueiras na atual sociedade do espet\u00e1culo. \u201c\u00c9 preciso muita lucidez para n\u00e3o ceder, ficar com a cabe\u00e7a no lugar. Eu, por exemplo, tinha uma s\u00e9rie de fatores considerados negativos pela ind\u00fastria do disco: a voz que era estranha, o fato de abordar temas, como dizer, \u00e1speros, o fato de n\u00e3o ser exatamente um cantor gal\u00e3. Eu podia ter amaciado meus temas, feito jogadas. Mas n\u00e3o fiz.\u201d, revelou em uma entrevista, em 1977.<br \/>\nEssa consci\u00eancia e a postura de n\u00e3o obedecer nem reverenciar a lei do mercado n\u00e3o \u00e9 bem vista pela sociedade da produ\u00e7\u00e3o e do consumo e, por isso, parece ser imperdo\u00e1vel. Em contraposi\u00e7\u00e3o, seus colegas da Bahia se enquadraram melhor no <em>script<\/em> da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, consequentemente, tornaram-se \u201cmedalh\u00f5es\u201d e bem-sucedidos comercialmente. O pr\u00f3prio Caetano reconheceu essa diferen\u00e7a em um artigo ao <em>Globo.<\/em> \u201cSugeriam que n\u00f3s, os baianos, j\u00e1 represent\u00e1vamos o estabelecido, o velho, enquanto ele seria o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante rea\u00e7\u00e3o ao habitual &#8220;tudo amiguinho, tudo certo\u2019\u201d, escreveu, ap\u00f3s a morte de Belchior.<br \/>\nDentro do movimento Tropic\u00e1lia no final dos anos 60, no s\u00e9culo passado, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso cantavam alegria, alegria e mundo maravilhoso e divino; Belchior contra-atacava e apresentava uma interpreta\u00e7\u00e3o mais progressista e viva diante do exposto. \u201cMas trago na cabe\u00e7a uma can\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio\/em que o antigo compositor baiano me dizia\/ &#8211; \u2018Tudo \u00e9 divino! Tudo \u00e9 maravilhoso\u2019\/Mas sei que nada \u00e9 divino\/Nada\/Nada \u00e9 maravilhoso, nada\/Nada \u00e9 misterioso&#8230;\u201d, na parte que encerra a can\u00e7\u00e3o, \u201c<em>Apenas um rapaz latino-americano<\/em>\u201d. Belchior acrescentava que tudo o que retratava na letra ainda era pouco, perto da vida real. Posteriormente, o cantor afirmou n\u00e3o se tratar de uma simples contesta\u00e7\u00e3o da letra, mas, cujo intuito era deslocar o \u00e2ngulo de vis\u00e3o e ampliar a compreens\u00e3o do p\u00fablico sobre aquela realidade. O mesmo contraponto fez na letra: \u201c<em>E Que Tudo Mais V\u00e1 Para o C\u00e9u<\/em>\u201d, para a m\u00fasica do Roberto Carlos \u2013 \u201c<em>Quero Que V\u00e1 Tudo Pro Inferno\u201d.<\/em><br \/>\nA leitura consciente da complexidade do mundo e de expor suas cruezas &#8211; como de fato \u00e9 a realidade &#8211; n\u00e3o se encaixa bem no mundo que vive das apar\u00eancias, porque \u00e9 visto como perda de tempo j\u00e1 que trava o ritmo dos neg\u00f3cios. Por isso, quando mais raso, flex\u00edvel e pass\u00edvel o artista for melhor \u00e9 para transform\u00e1-lo em produto e, deste jeito, um med\u00edocre, gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a da m\u00eddia, vira sucesso e se transforma em celebridade, enquanto talentos genu\u00ednos ficam sem vez. O mesmo teria acontecido com o cearense de Sobral, caso dependesse da m\u00eddia e n\u00e3o tivesse tanto talento e capacidade art\u00edstica, teria entrado na hist\u00f3ria como um personagem rom\u00e2ntico, voz fanha e um bigodudo \u2013 uma figura.<br \/>\nEssa dissimula\u00e7\u00e3o do mundo em prol da lei do mercado, com a qual Belchior n\u00e3o se identificava nem se amaciava, n\u00e3o se limita a quest\u00f5es isoladas nem pontuais, est\u00e1 inserida num contexto mais abrangente, a sociedade do exibicionismo, que j\u00e1 foi prevista por Guy Debord, em 1967, no \u201cA Sociedade do Espet\u00e1culo\u201d. No livro, o autor faz uma cr\u00edtica direta contra a nova f\u00f3rmula do capitalismo se expandir e alterar o comportamento das popula\u00e7\u00f5es mundo afora. Coincidentemente, na mesma \u00e9poca em que o franc\u00eas escreveu sua obra, os m\u00fasicos brasileiros projetavam seus trabalhos no cen\u00e1rio nacional.<br \/>\nDebord previu h\u00e1 50 anos, portanto, o que vivemos hoje na plenitude: a oposi\u00e7\u00e3o do mundo da apar\u00eancia ao da ess\u00eancia; a fofoca \u00e0 verdade; a opini\u00e3o ao fato. Enfim, de forma mais contextual e nas palavras do autor. \u201cO espet\u00e1culo, compreendido, na sua totalidade \u00e9 o resultado e o projeto do modo de produ\u00e7\u00e3o existente. \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o da irrealidade da sociedade atual. Sob todas as suas formas particulares de informa\u00e7\u00e3o ou propaganda ou consumo direto do entretenimento, o espet\u00e1culo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. A forma e o conte\u00fado do espet\u00e1culo s\u00e3o a justifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es e dos fins do sistema existente. O espet\u00e1culo \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia e a afirma\u00e7\u00e3o de toda a vida humana, socialmente falando, como simples apar\u00eancia\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Dois mundos<\/span><br \/>\nA partir dessa l\u00f3gica se separou o mundo real do mundo representado pelo espet\u00e1culo. Este \u00faltimo, gra\u00e7as \u00e0 t\u00e9cnica, recorta uma imagem da realidade e cria uma \u201crealidade\u201d melhor do que a realidade em si. Ou seja, o que foi chamado de hiper-realismo e de simulacro, por outro franc\u00eas, Jean Baudrillard. Segundo Baudrillard, vivemos em uma era cujos s\u00edmbolos t\u00eam mais peso e mais for\u00e7a do que a pr\u00f3pria realidade. Desse fen\u00f4meno surgem os simulacros, simula\u00e7\u00f5es malfeitas do real que, contraditoriamente, s\u00e3o mais atraentes ao espectador do que o pr\u00f3prio objeto reproduzido. O que acontece, por exemplo, quando assistirmos a um show e a um jogo pela televis\u00e3o, temos imagens e \u00e2ngulos melhores do que fossemos ver no lugar do evento.<br \/>\nTal cultura de viver o mundo simulado em detrimento do real foi potencializado ainda mais pelo imediatismo das redes sociais, a troca de mensagens em tempo real, os grupos produtores de not\u00edcias falsas e a massa de distribuidores dessa gama de informa\u00e7\u00f5es. Quando, em geral, tudo isso \u00e9 apenas uma realidade dissimulada e projetada para o espet\u00e1culo, n\u00e3o havendo nenhuma rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos fatos. Isso traz uma acelera\u00e7\u00e3o de todo tipo de sentimento e de emo\u00e7\u00e3o, al\u00e9m \u00e9 claro, da ansiedade e do \u00f3dio, construindo um contexto em que a opini\u00e3o, a convic\u00e7\u00e3o, os adjetivos, as vers\u00f5es dos fatos e as apar\u00eancias funcionam melhor \u00e0 verdade e aos fatos. Diante disso, surge uma nova realidade social: a p\u00f3s-verdade.<br \/>\nPara Debord, essa falsa realidade gera uma contrapartida selvagem, por ele nominado de boato. \u201cNo in\u00edcio, o boato foi supersticioso, ing\u00eanuo, autointoxicado. Mas, em nosso tempo, a vigil\u00e2ncia come\u00e7ou a infiltrar na popula\u00e7\u00e3o pessoas suscet\u00edveis de lan\u00e7ar, ao primeiro sinal, os boatos que lhe conv\u00eam. \u00c9 a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de uma teoria formulada h\u00e1 anos, cuja origem est\u00e1 na sociologia norte-americana da publicidade: a teoria dos indiv\u00edduos chamados \u2018locomotivas\u2019, isto \u00e9, que s\u00e3o seguidos e imitados pelos outros do mesmo meio; desta vez, passando do espont\u00e2neo ao praticado\u201d. Ou como agora, as conhecidas celebridades, que t\u00eam a mesma fun\u00e7\u00e3o, embora o nome tenha mudado. Ademais, h\u00e1, agora, inclusive recursos or\u00e7ament\u00e1rios, \u201cprofissionais\u201d e massiva distribui\u00e7\u00e3o das falsas not\u00edcias que, infelizmente, beneficiam poucos e prejudicam muitos.<br \/>\nNo atual momento em que estamos, como se sabe, o apelo \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e \u00e0s cren\u00e7as tem mais import\u00e2ncia aos fatos objetivos na modelagem da opini\u00e3o p\u00fablica. O fen\u00f4meno j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o presente no cotidiano, por exemplo, que at\u00e9 a justi\u00e7a se manifesta em p\u00fablico dizendo ter convic\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o provas de determinados acusados. Como se percebe, \u00e9 o pacote completo do espet\u00e1culo e da sociedade de consumo, que n\u00e3o \u00e9 coisa recente, apenas o nome p\u00f3s-verdade foi incorporado ao dicion\u00e1rio em 2016.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Oculto \u00e9 mais importante<\/span><br \/>\nO discurso do espet\u00e1culo vende uma cultura de nos fazer esquecer que somos \u00fanicos, mortais e fr\u00e1geis; quer n\u00f3s fazer acreditar que somos grandiosos, potentes e poderosos. \u00c9 uma ideia virtual e dissonante da realidade do fato. Pois, foi exatamente essa aliena\u00e7\u00e3o que as can\u00e7\u00f5es do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es mercantis e a pr\u00f3pria ind\u00fastria cultural. Sua critica a esse estilo de vida venho em versos. \u201cA minha alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 suportar o dia a dia, e meu del\u00edrio \u00e9 a experi\u00eancia com coisas reais\u201d, Belchior entendia a experi\u00eancia com o real como a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o do ser humano.<br \/>\nCom a industrializa\u00e7\u00e3o e a tecnologia, a viv\u00eancia foi terceirizada, assim fomos reduzidos a meros espectadores a contemplar passivamente as imagens virtuais projetadas pela sociedade do espet\u00e1culo e, no m\u00e1ximo, agimos para cumprir ordens e para consumir. \u201cNo plano das t\u00e9cnicas, a imagem constru\u00edda e escolhida por <em>outra pessoa <\/em>se tornou a principal liga\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir\u201d, lembra Guy Deborad. O sistema social que separa o homem de sua produ\u00e7\u00e3o e natureza, conclui o autor \u2013 impede o reconhecimento rec\u00edproco entre sujeito e objeto \u2013, consequentemente, n\u00e3o emancipa a pessoa nem traz felicidade.<br \/>\nO mundo da permanente renova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, da generaliza\u00e7\u00e3o do segredo, da mentira sem contesta\u00e7\u00e3o e do presente perp\u00e9tuo, foi previsto por Deborad tamb\u00e9m. Segundo o ele, o fato de a mentira n\u00e3o ter contesta\u00e7\u00e3o, ela ganha uma nova qualidade: vira verdade. \u201cAo mesmo tempo, a verdade deixou de existir quase em toda parte, ou, no melhor do caso, ficou reduzida a uma hip\u00f3tese que nunca poder\u00e1 ser demonstrada\u201d, previa.<br \/>\nEm uma sociedade na qual a mentira e o boato eram para ser exce\u00e7\u00f5es e uma esp\u00e9cie de contrapartida ao espet\u00e1culo social, elas ultrapassaram o limite e se transformaram em regra. Belchior sabia, no entanto, que o espet\u00e1culo era feito para distrair com o \u00f3bvio e o banal, consciente que o mais importante sempre ficava oculto ou incomunic\u00e1vel, assim como seu sumi\u00e7o volunt\u00e1rio da vida p\u00fablica.<br \/>\nTalvez, por preferir viver a vida de forma aut\u00eantica, dar mais relev\u00e2ncia \u00e0 ess\u00eancia das coisas em oposi\u00e7\u00e3o aos bens materiais e ao espet\u00e1culo da vida, tornou-se um incompreendido para a sociedade do pensamento \u00fanico e da cobi\u00e7a pela posse. Ou quem sabe, Belchior tenha adotado semelhante l\u00f3gica de vida ao do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Por\u00e9m, sem a mesma paci\u00eancia nem disposi\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o do uruguaio. O fato \u00e9 que, Belchior, n\u00e3o quis ser um p\u00e1ssaro na gaiola nem fazer as concess\u00f5es e atender as expectativas do mercado. Enfim, uma esp\u00e9cie de contracultura da ordem oficial do espet\u00e1culo.<br \/>\n<em>* Jornalista e especialista em converg\u00eancia de m\u00eddias<\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elstor Hanzen Um nordestino com 22 irm\u00e3os nascido em Sobral (Cear\u00e1), no dia 26 de outubro 1946, traduziu a ess\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o humana para uma linguagem viva e cortante. Viveu mais intensamente a coer\u00eancia de suas letras do que a l\u00f3gica do nosso mundo. Belchior, um literato popular da poesia e da m\u00fasica brasileira. 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