{"id":49540,"date":"2017-06-05T15:03:55","date_gmt":"2017-06-05T18:03:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=49540"},"modified":"2017-06-05T15:03:55","modified_gmt":"2017-06-05T18:03:55","slug":"indios-gays-no-brasil-historias-nao-contadas-sobre-a-colonizacao-das-sexualidades-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/indios-gays-no-brasil-historias-nao-contadas-sobre-a-colonizacao-das-sexualidades-indigenas\/","title":{"rendered":"Antrop\u00f3logos lan\u00e7am estudo sobre \u00edndios gays no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Elenice Due\u00f1as*<\/span><br \/>\nRevelador, pioneiro e reflexivo, \u201c<em>Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities<\/em>\u201d\u00a0(\u00cdndios Gays no Brasil: As Hist\u00f3rias N\u00e3o Contadas da Coloniza\u00e7\u00e3o das Sexualidades Ind\u00edgenas) \u00e9 o novo t\u00edtulo que chegou ao mercado editorial internacional neste ano como um convite ao debate sobre alguns tabus.<br \/>\nLivro de autores brasileiros, lan\u00e7ado pela editora su\u00ed\u00e7a Springer International Publishing, uma das maiores editoras cient\u00edficas do mundo,\u00a0tem como base a pesquisa para a tese de doutorado em antropologia do professor e pesquisador Estev\u00e3o Rafael Fernandes, da Universidade Federal de Rond\u00f4nia. A publica\u00e7\u00e3o traz a parceria da antrop\u00f3loga ga\u00facha Barbara Maisonnave Arisi, atualmente pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam e professora da Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana.<br \/>\nNa lista dos mais vendidos no pr\u00e9-lan\u00e7amento da Amazon, a obra \u00e9 um est\u00edmulo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da imutabilidade de certos paradigmas.<br \/>\nA pesquisa revela a influ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es portuguesas e brasileiras na transforma\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas ao longo da hist\u00f3ria do Brasil. \u201cA sexualidade n\u00e3o pode ser encarada como uma esfera \u00e0 parte da religi\u00e3o, da cosmologia, da pessoa e da hist\u00f3ria\u201d, explica Fernandes que destrincha os caminhos tortuosos das autoridades religiosas e governamentais para impor a heterossexualidade compuls\u00f3ria aos povos ind\u00edgenas.<br \/>\nPioneiros na sistematiza\u00e7\u00e3o de um tema t\u00e3o pouco explorado, os autores pretendem futuramente prosseguir a pesquisa e analisar as resist\u00eancias dos \u00edndios homossexuais \u00e0s pol\u00edticas ind\u00edgenas do Pa\u00eds. \u201cA propaganda colonial conseguiu solidificar uma mentira de que a homossexualidade \u00e9 ou era algo importado\u201d, aponta Arisi.<br \/>\nNeste cen\u00e1rio, o que mais surpreendeu Fernandes foram \u201cos casos de viol\u00eancia, o enorme n\u00famero de suic\u00eddios e, sobretudo, os casos de coragem dessas pessoas\u201d. Sobre isso, Arisi tamb\u00e9m \u00e9 categ\u00f3rica: \u201co Brasil \u00e9 um pa\u00eds que trata mal suas mulheres e seus pobres, incluindo nessa categoria as\/os trans. \u00c9 uma viol\u00eancia impressionante, caso de denunciar o Pa\u00eds por viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos em tribunais internacionais como na OEA e no de Haia\u201d.<br \/>\nAgora, a expectativa dos autores \u00e9 de que alguma editora ou associa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil, ou Portugal, se interesse em publicar o livro em l\u00edngua portuguesa, de prefer\u00eancia disponibilizando o livro gratuitamente ou com um pre\u00e7o popular.<br \/>\n<em>* Elenice Duen\u00e3s \u00e9 ga\u00facha, ecojornalista, mora em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP) e na atualidade viaja pelo Himalaia.<\/em><\/p>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250px;float: left;margin: 0 3% 25px 0;padding: 0px 18px\"><span class=\"intertit\">Sobre os autores<\/span><br \/>\n<strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-49548 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/estev\u00e3o-200x200.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" \/>Estev\u00e3o Rafael Fernandes:<\/strong> Antrop\u00f3logo e professor no Departamento de Ci\u00eancias Sociais e do Programa de Mestrado em Hist\u00f3rias e Estudos Culturais da Universidade Federal de Rond\u00f4nia. Fernandes \u00e9 ainda colaborador no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da Universidade Federal do Mato Grosso (PPGAS\/UFMT). Possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de Bras\u00edlia (2002), mestrado em Antropologia pela Universidade de Bras\u00edlia (2005) e Doutorado em Ci\u00eancias Sociais (Estudos Comparados sobre as Am\u00e9ricas) pela Universidade de Bras\u00edlia (2015). Realizou doutorado \u201csandu\u00edche\u201d com bolsa Capes na Duke University (Carolina do Norte, EUA) sob orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Walter Mignolo, sendo pesquisador visitante no Center for Global Studies and the Humanities daquela Universidade. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Sexualidades ind\u00edgenas, Decolonialidade, Etnologia ind\u00edgena, G\u00eanero, \u00edndios Xavante, Contato Inter\u00e9tnico, Cosmologia Ind\u00edgena, \u00cdndios J\u00ea, Educa\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica indigenista. Publicou diversos artigos abordando temas relacionados \u00e0s sexualidades ind\u00edgenas, al\u00e9m de organizar publica\u00e7\u00f5es e dossi\u00eas especializados sobre a tem\u00e1tica.<\/div>\n<div style=\"width: 100%;min-width: 250px;float: left;margin: 0 3% 25px 0;padding: 0px 18px\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-49547 size-thumbnail alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/barbara-200x200.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" \/><strong>Barbara Maisonnave Arisi<\/strong>: Antrop\u00f3loga, jornalista e professora da Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana (UNILA), Foz do Igua\u00e7u, rio Paran\u00e1. Atualmente, \u00e9 pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam. Foi diretora do Instituto Latino-Americano de Artes, Cultura e Hist\u00f3ria (ILAACH) da UNILA (2013\/2016). Realizou p\u00f3s-doutorado (2011\/2012), doutorado (2011) e mestrado (2007) pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com est\u00e1gio doutoral no Institute of Social and Cultural Anthropology da University of Oxford (2010), com Laura Rival. Bacharel em Comunica\u00e7\u00e3o Social &#8211; Jornalismo (1995) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). \u00c9 orientadora de mestrado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos e co-orientadora de doutorado na UFMA e UFSC. Desde 2006 \u00e9 associada da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia,. Possui experi\u00eancia em Antropologia, com \u00eanfase em Etnologia Ind\u00edgena e em G\u00eanero. Em 2015, foi entrevistada para a revista Science sobre a pol\u00edtica para \u00edndios isolados. \u00c9 colunista do site de jornalismo independente Amaz\u00f4nia Real. Temas de pesquisa: \u00edndios aut\u00f4nomos ou &#8216;isolados&#8217;, Matis (Pano), TI Vale do Javari, Amaz\u00f4nia, sexualidades e g\u00eanero, ecologia, economia da cultura e economia circular. Atualmente desenvolve pesquisa sobre o manejo de res\u00edduos s\u00f3lidos nos Pa\u00edses Baixos na dire\u00e7\u00e3o de uma economia circular.<\/div>\n<h4><\/h4>\n<p><span class=\"assina intertit\">ENTREVISTA com ESTEV\u00c3O FERNANDES e BARBARA ARISI<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong><em>Elenice Due\u00f1as:<\/em> Como voc\u00eas receberam a not\u00edcia de que o livro \u201c<em>Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities<\/em>\u201d\u00a0(\u00cdndios Gays no Brasil: as Hist\u00f3rias N\u00e3o Contadas da Coloniza\u00e7\u00e3o das Sexualidades Ind\u00edgenas) j\u00e1 consta na lista dos mais vendidos no pr\u00e9-lan\u00e7amento da Amazon?<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><em>Estev\u00e3o Fernandes:<\/em> <\/strong>Surpreso e feliz, mesmo porque acho que nem a Barbara nem eu esper\u00e1vamos por isso. Mas at\u00e9 aqui temos avaliado o impacto como extremamente positivo. Trata-se de uma tem\u00e1tica importante para (re) pensarmos n\u00e3o apenas os fundamentos sobre os quais nossos paradigmas a respeito de g\u00eanero e sexualidade se fundam, mas, tamb\u00e9m, p\u00f4r em evid\u00eancia o papel que o colonialismo teve \u2013 e tem \u2013 nos processos que levaram \u00e0 subalterniza\u00e7\u00e3o e invisibilidade de ind\u00edgenas os quais n\u00e3o se enquadram nos padr\u00f5es impostos, historicamente, ao longo do processo de coloniza\u00e7\u00e3o. O livro \u00e9, certamente, um ponto de partida para que essas quest\u00f5es possam ser devidamente aprofundadas, de prefer\u00eancia partindo das reflex\u00f5es dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas sobre quem tais processos incidem cotidianamente. Uma boa repercuss\u00e3o que se seguiu \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 que v\u00e1rios deles tem nos procurado ou feito postagens em redes sociais se reconhecendo no percurso apontado em nossas pesquisas. Talvez tenhamos a\u00ed coisas interessantes surgindo, e esperamos que nosso livro seja um primeiro passo nesse sentido.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> As pessoas querem saber sobre as coisas sobre as quais pouco \u00e9 escrito. H\u00e1 um desejo em conhecer mais sobre outras possibilidades de relacionamentos afetivo-sexuais. Acho que tamb\u00e9m muitas\/os homossexuais querem saber sobre a diversidade sexual entre povos ind\u00edgenas, pois a propaganda colonial conseguiu solidificar uma mentira de que a homossexualidade \u00e9 ou era algo importado. Ser\u00e1 \u00f3timo se conseguirmos trabalhar destruindo mais tabus e tratando sobre diversidade sexual abertamente.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>O livro ter sido aceito para publica\u00e7\u00e3o na Springer, editora su\u00ed\u00e7a considerada uma das maiores editoras cient\u00edficas do mundo, foi uma surpresa ou voc\u00eas j\u00e1 esperavam por isso?<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><em>Estev\u00e3o Fernandes:<\/em> <\/strong>N\u00e3o esper\u00e1vamos. Buscamos v\u00e1rias editoras e algumas organiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas no Brasil na tentativa de publicar o texto em portugu\u00eas e em formato de <em>e-book<\/em>, para ser disponibilizado gratuitamente. Ainda temos esse plano, mesmo porque isso possibilitaria o texto chegar nas pessoas cujas hist\u00f3rias o livro retrata. Com a repercuss\u00e3o positiva em torno da publica\u00e7\u00e3o, seria \u00f3timo se isso acontecesse!<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> O livro tem como base a pesquisa para a tese de doutorado do Estev\u00e3o, \u00e9 resultado de um trabalho \u00e1rduo de leitura de fontes hist\u00f3ricas. Acho que a Springer tamb\u00e9m deu sorte de ter publicado o livro, mod\u00e9stia \u00e0 parte. Nunca duvidei que o livro venderia bem. Espero que as editoras se liguem que vale a pena publicarmos logo o livro na Am\u00e9rica Latina em portugu\u00eas, espanhol e guarani.<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cO tema \u00e9 pouco abordado <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">de forma sistem\u00e1tica, <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">apesar das v\u00e1rias refer\u00eancias na <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">literatura hist\u00f3rica e etnogr\u00e1fica\u201d<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>O que os inspirou a pesquisarem e se aprofundarem neste tema?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Em princ\u00edpio provavelmente o fato de que o tema \u00e9 pouco abordado de forma sistem\u00e1tica, apesar das v\u00e1rias refer\u00eancias na literatura hist\u00f3rica e etnogr\u00e1fica. Tentar entender o porqu\u00ea disso, e o que isso nos permite compreender sobre sexualidade, g\u00eanero, mas tamb\u00e9m sobre coloniza\u00e7\u00e3o, contato inter\u00e9tnico e como o conhecimento se (re)produz na academia, acabou parecendo um bom ponto de partida.<br \/>\n<strong><em>Barbara Arisi:<\/em><\/strong> Sem sexo, n\u00e3o nasceria ningu\u00e9m. Escrevi sobre sexualidade na minha tese, pois os Matis com quem estudei antropologia queriam saber como faz\u00edamos sexo, queriam comparar as sexualidades deles com a minha. Estavam vendo filmes porn\u00f4 na aldeia e achavam ex\u00f3tico o que viam, quando cheguei para morar com elas e eles na Amaz\u00f4nia, aproveitaram para perguntar sobre tudo, como beijamos usando a l\u00edngua, como as mulheres ficam em cima durante o sexo, como eu tinha apenas uma filha, sobre desejo entre homens, mulheres, trans. Conversei sobre tudo com as mulheres e com os homens na aldeia. Certa feita, em Santa Catarina, passei a noite na casa de uma fam\u00edlia Guarani e uma jovem espontaneamente resolveu se abrir contando sobre sua inicia\u00e7\u00e3o sexual, aprendi mais com ela do que lendo todos volumes do \u201cHist\u00f3ria das Sexualidades\u201d, do Foucault. Completei minha especializa\u00e7\u00e3o organizando um evento Transday em Foz do Igua\u00e7u com minhas doutoras amigas l\u00e9sbicas e trans, aprendi muito com as sofisticadas teorias de quem aprendeu vivendo no pr\u00f3prio corpo a diversidade. Adoro gente que leva a vida fora das conven\u00e7\u00f5es e pris\u00f5es sociais. Na universidade, fiz um p\u00f3s-doutorado no N\u00facleo de Identidades, G\u00eanero e Subjetividades, coordenado pela prof. Miriam Grossi; dela e das colegas do n\u00facleo recebi minha forma\u00e7\u00e3o mais acad\u00eamica. Quando li pela primeira vez um texto do Estev\u00e3o, comentei-o com todo o cuidado e assim a gente se conheceu e come\u00e7amos nosso di\u00e1logo e co-autoria. Acho que a gente se complementa na forma como refletimos e como aprendemos com nossas experi\u00eancias e nossos corpos sobre o tema.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>H\u00e1 pouco material e estudo sobre o assunto? Voc\u00eas tiveram que \u201cgarimpar\u201d muito at\u00e9 encontrar fontes bibliogr\u00e1ficas? Pode-se dizer que voc\u00eas s\u00e3o os precursores?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Outra boa surpresa! O que achamos foi, justamente, o oposto disso! Tem muita coisa escrita, aqui e ali. Fontes prim\u00e1rias desde o s\u00e9culo XVI \u2013 incluindo um manuscrito escrito pelo Gabriel Soares de Sousa em 1587 e publicado em 1839 como \u201cdesconhecido\u201d! O que talvez falte seja uma sistematiza\u00e7\u00e3o mais aprofundada sobre o tema, mas, ainda assim, muita gente boa \u2013 como Luiz Mott e Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, por exemplo \u2013 j\u00e1 havia dado alguns passos importantes no sentido de sistematizar esse material. Sem falsa humildade, se h\u00e1 \u201cprecursores\u201d, nesse sentido, certamente s\u00e3o eles. Esperamos, sim, ter dado alguma contribui\u00e7\u00e3o &#8211; mas sabemos que um esfor\u00e7o de arqueologia da sexualidade no Brasil (incluindo a a\u00e7\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o sobre negros, ribeirinhos, quilombolas, popula\u00e7\u00f5es rurais e interioranas diversas, etc.) renderia um trabalho bastante interessante, mas com mais gente, tempo e recursos do que tivemos e temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Articular e realizar isso seria um sonho!<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong> <\/em>A gente se apoia no ombro de outras e outros. Como publica\u00e7\u00e3o escrita por acad\u00eamicos latino-americanos em ingl\u00eas, talvez sejamos precursores. Esperamos estar logo em boa companhia, pois o conhecimento \u00e9 algo coletivo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>O que voc\u00eas destacariam ou o que mais surpreendeu voc\u00eas durante o trabalho de campo?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Os casos de viol\u00eancia, o enorme n\u00famero de suic\u00eddios e, sobretudo, os casos de coragem dessxs ind\u00edgenas.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> Para mim, o trabalho de campo \u00e9 permanente sobre sexualidades, a partir de minha experi\u00eancia com o meu corpo e com as pessoas com quem me relaciono.\u00a0Aprendo muito tamb\u00e9m escutando as vidas alheias, tenho um amor antropo-psicanal\u00edtico em escutar as outras pessoas e como elas experienciam seus corpos e desejos nesse mundo, vivo em estado de surpresa., a agress\u00f5es f\u00edsicas e morte.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cEm todas as culturas, se experimenta <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">e se vive rela\u00e7\u00f5es<\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">homo-afetivas e homossexuais&#8221;<\/span><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Como a homossexualidade \u00e9 vista pelos ind\u00edgenas?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Dif\u00edcil e mesmo imposs\u00edvel generalizar. Historicamente, o que se v\u00ea, \u00e9 como o <em>queer <\/em>n\u00e3o era considerado degradante e como essas pessoas n\u00e3o eram v\u00edtimas de preconceito dentro de suas culturas \u2013 ao contr\u00e1rio, em v\u00e1rias culturas ou situa\u00e7\u00f5es era relacionado a um papel religioso. A discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que se deve, de modo geral, ao processo de contato e \u00e0s formas como a coloniza\u00e7\u00e3o foi e \u00e9 gerida. Hoje, de um modo geral, v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas n\u00e3o encaram essas sexualidades fora do modelo hegem\u00f4nico como um problema, mas, por outro lado, outras j\u00e1 internalizaram o preconceito \u2013 e isso ocorre de dois modos: o primeiro seria denominando essas pessoas por palavras que, em suas l\u00ednguas nativas, referem-se ao veado (animal) ou fazem men\u00e7\u00e3o ao \u00e2nus; enquanto o segundo seria por meio de agress\u00f5es mais diretas, associando o <em>queer <\/em>ao pecado e\/ou \u00e0 perda da cultura, chegando, muitas vezes, a agress\u00f5es f\u00edsicas e morte.<br \/>\n<strong><em>Barbara Arisi:<\/em><\/strong> Acho que em todas as culturas, se experimenta e se vive rela\u00e7\u00f5es homo-afetivas e homossexuais. Conheci trans ind\u00edgenas muito respeitadas por suas comunidades, mas tamb\u00e9m soube de muitos relatos de viol\u00eancia. Ningu\u00e9m \u00e9, infelizmente, t\u00e3o diferente assim. Seria bom conhecer culturas onde n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia contra homossexuais, mas creio que nenhuma ser\u00e1 exce\u00e7\u00e3o. Moro na Holanda, primeiro pa\u00eds a regulamentar o casamento gay no mundo, em 2001, e recentemente esse ano houve um novo caso de agress\u00e3o e viol\u00eancia contra um casal de homens.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Os ind\u00edgenas encaram e lidam com a pr\u00f3pria sexualidade de maneira diferente da nossa sociedade? H\u00e1 pontos comuns e divergentes, pode citar alguns exemplos?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Essa pergunta renderia muito! Vou tentar responder de forma sint\u00e9tica, fazendo um gancho com a resposta anterior. Uma das coisas que percebemos \u00e9 que sexualidade n\u00e3o pode ser encarada como uma esfera \u00e0 parte da religi\u00e3o, da cosmologia, da pessoa, da hist\u00f3ria, etc. Assim, a \u201chomossexualidade\u201d e\/ou a \u201csexualidade\u201d n\u00e3o existem fora de in\u00fameras camadas de significado, de contextos diversos e de uma conjun\u00e7\u00e3o de nuvens discursivas e constru\u00e7\u00f5es diversas&#8230;. se h\u00e1 algo que os movimentos <em>queer<\/em>\u00a0ind\u00edgenas norte-americanos nos ensinam \u00e9 que uma das chaves de interpreta\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o se d\u00e1 ao se deslocar as interroga\u00e7\u00f5es do eixo da sexualidade nos \u201cnossos\u201d termos para eixos relacionados a cosmologia, hist\u00f3ria e coloniza\u00e7\u00e3o. O problema (ou um dos problemas) \u2013 e sei que aqui vou arranjar briga com gente gra\u00fada, mas \u00e9 algo que urge ser dito e devidamente enfrentado nos c\u00edrculos hegem\u00f4nicos da academia brasileira \u2013 \u00e9 que tendemos a reproduzir uma episteme euronorcentrada desde a qual quest\u00f5es como g\u00eanero e sexualidade fazem sentido \u2013 quase sempre uma narrativa branca, de classe m\u00e9dia e com um sotaque blas\u00e9. Desse modo, tende-se a n\u00e3o se encarar essas sexualidades-outras (rurais, quilombolas, ribeirinhas, ind\u00edgenas, etc.) em seus pr\u00f3prios termos, pois elas nos desafiam a p\u00f4r em xeque justamente essas no\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas e as redes de poder que as sustentam. A heteronormatiza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria alcan\u00e7a essas coletividades desde outros dispositivos os quais, uma vez evidenciados, nos provocam a pensar outras chaves \u2013 politicas, inclusive \u2013 fora das caixinhas epistemol\u00f3gicas reproduzidas cotidianamente no <em>mainstream<\/em>. Falando assim parece uma simplifica\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o, mas ilustrativo nesse sentido \u00e9 termos, de modo geral, t\u00e3o poucos autores feministas negras e\/ou latinas, ou ind\u00edgenas <em>queer <\/em>nas cadeiras sobre g\u00eanero e sexualidade nas Universidades, enquanto outro conjunto de pensadores tem lugar garantido nessas disciplinas. Como dissemos antes, seria um sonho conseguirmos articular uma rede nesse sentido!<br \/>\n<strong><em><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-49543 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/foto-de-indios-3.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"491\" \/>Barbara Arisi<\/em>:<\/strong> Concordo com o Estev\u00e3o em tudo. Mas apenas gostaria de acrescentar que a reposta depende de quem consideramos ser os &#8216;povos ind\u00edgenas&#8217; (h\u00e1 tantos e tantos povos, com suas maneiras muito diversas, al\u00e9m disso, h\u00e1 variedade interna, na experi\u00eancia pessoal de cada um\/a). Tamb\u00e9m depende quem entra no termo &#8220;nossa sociedade&#8221;. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que trata mal suas mulheres e seus pobres, incluindo nessa categoria as\/os trans. \u00c9 uma viol\u00eancia impressionante, caso de denunciar o Pa\u00eds por viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos internacionalmente como na comiss\u00e3o de direitos humanos na OEA e no Tribunal Internacional de Justi\u00e7a em Haia. Mas, infelizmente, verificamos entre muitos povos ind\u00edgenas tamb\u00e9m viol\u00eancias contra os homossexuais, viola\u00e7\u00f5es perpetradas por n\u00e3o-ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m por ind\u00edgenas. Parafraseando e transformando a afirma\u00e7\u00e3o da autora famosa feminista Gayle Rubin que afirmou que infelizmente n\u00e3o havia uma &#8220;teoria que desse conta de analisar a opress\u00e3o \u00e0s mulheres em suas t\u00e3o variadas formas e mon\u00f3tona similaridade&#8221;, podemos afirmar que as viol\u00eancias contra os LGBT s\u00e3o variadas, mas apresentam uma similaridade tamb\u00e9m que chega a ser mon\u00f3tona, tragicamente similar em todos cantos desse mundo redondo. Por\u00e9m somos otimistas, pois as culturas s\u00e3o din\u00e2micas e podemos combater a banalidade da viol\u00eancia. Stonewall que marca o in\u00edcio do levante gay em n\u00edvel mundial contra a viol\u00eancia policial em Nova York provocou muita mudan\u00e7a positiva, muitos direitos foram conquistados e mantidos, como uni\u00e3o civil legal de pessoas do mesmo sexo, ado\u00e7\u00e3o homoparental, entre outros.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Por que este tema \u00e9 relevante para toda a sociedade e n\u00e3o s\u00f3 para os ind\u00edgenas?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Por in\u00fameros motivos, mas destaco dois: entender esses processos nos chamam a aten\u00e7\u00e3o para um aspecto pouco abordado da coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, como a coloniza\u00e7\u00e3o imp\u00f5e, de diversas formas e partindo de diversos paradigmas, um determinado padr\u00e3o de sexualidade visto como \u201cnormal\u201d, ao intervir direta e cotidianamente na gest\u00e3o moral dos povos ind\u00edgenas (o que chamamos de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas\u201d). Um segundo motivo seria a possibilidade de aprendermos com os povos ind\u00edgenas a convivermos com outras formas de ser, viver, parecer, amar&#8230; sem discrimina\u00e7\u00e3o ou agress\u00f5es&#8230; neste sentido, eles nos impelem a compreendermos e combatermos a g\u00eanese dos preconceitos sobre os quais se assentam valores e normas de nossa pr\u00f3pria sociedade \u2013 em especial nestes tempos sombrios, nos quais homofobia, racismos, intoler\u00e2ncia e discursos xenof\u00f3bicos e de \u00f3dio t\u00eam se tornado uma constante. Mais do que um exerc\u00edcio anal\u00edtico de compreens\u00e3o e reflex\u00e3o anal\u00edtica, a quest\u00e3o do enfrentamento \u00e9 algo a ser enfatizado aqui. Esse ciclo de viol\u00eancias e de imposi\u00e7\u00e3o de um sistema moral branco, hetero, crist\u00e3o, euronorc\u00eantrico e capitalista-liberal n\u00e3o \u00e9 algo recente, muito pelo contr\u00e1rio, pois \u00e9 preciso desvelar esses processos para enfrent\u00e1-los e romper com eles.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong> <\/em>Para combater a viol\u00eancia e o abuso e punir quem comete tais viol\u00eancias.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cMesmo a esfera mais \u00edntima de algu\u00e9m, <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">o \u00edntimo e o interno de nosso corpo,<\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">\u00a0pode ser foco de coloniza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>O que exatamente voc\u00eas querem dizer com a express\u00e3o \u201c<em>a coloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades ind\u00edgenas<\/em>\u201d?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Recentemente foi publicado um texto na <em>Revista Enfoques <\/em>sobre o tema (dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/issuu.com\/revistaenfoquesufrj\/docs\/enfoques-dez2016-completa\">aqui<\/a>). De modo geral, a no\u00e7\u00e3o diz respeito a processos de heterossexualiza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria daqueles povos, tendo por base pressupostos cient\u00edficos, teol\u00f3gicos, sociais e culturais e a partir de dispositivos articulados aos discursos e pr\u00e1ticas religiosos, civilizat\u00f3rios, acad\u00eamicos e\/ou pol\u00edticos. Esses processos s\u00e3o intr\u00ednsecos ao estatuto ontol\u00f3gico dos povos ind\u00edgenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade colonial e incorporando as respostas ind\u00edgenas a esses processos. Com isso, quero dizer que as formas pelas quais lhes foi imposta uma sexualidade \u201cnormal\u201d deve ser compreendida em paralelo com as no\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, filos\u00f3ficas, cient\u00edficas etc., a partir das quais os \u00edndios eram (e s\u00e3o) compreendidos no Brasil pelos setores hegem\u00f4nicos da sociedade colonizadora. Nesse sentido, entendo que tal imposi\u00e7\u00e3o insere-se em um conjunto de a\u00e7\u00f5es que busca[va]m normalizar a vida ind\u00edgena, incluindo sua sexualidade, sendo aquelas sexualidades fora dos par\u00e2metros desej\u00e1veis pela metr\u00f3pole consequ\u00eancia e n\u00e3o diretamente a causa da vis\u00e3o dos ind\u00edgenas como selvagens, incivilizados, inferiores, degenerados etc. O livro \u00e9, em larga medida, uma tentativa de demonstrar como esses processos ocorreram e ocorrem.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong> <\/em>E que mesmo a esfera mais \u00edntima de algu\u00e9m, o \u00edntimo e o interno de nosso corpo, pode ser foco de coloniza\u00e7\u00e3o. O controle dos corpos e o biopoder &#8211; como ensinou Foucault &#8211; n\u00e3o tem limites. Muitos e muitas tentam controlar nossas vaginas, p\u00eanis, tetas, cora\u00e7\u00f5es e mentes, como devemos nos vestir, nos sentar, andar, dan\u00e7ar, beijar, casar. \u00c9 um inferno, os outros (riso)\u00a0 para brincar com a frase dita por um dos\u00a0 companheiros da feminista pioneira Simone de Beauvoir. O pior \u00e9 quando a gente mesmo vira a auto-censora. \u00c9 uma tarefa di\u00e1ria ser l\u00facida e fazer escolhas quando n\u00e3o se quer viver enquadrada na &#8216;matrix&#8217; das conven\u00e7\u00f5es sexuais ditadas pelos outros e outras.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>A an\u00e1lise de voc\u00eas leva a crer que a opress\u00e3o da igreja e do Estado levam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o desta \u201c<em>coloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades<\/em>\u201d ou ela j\u00e1 existia na sociedade ind\u00edgena de outra maneira?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> \u00c9 complicado generalizar, mesmo porque grande parte das fontes hist\u00f3ricas que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, hoje, s\u00e3o os registros deixados a partir do olhar do colonizador. De qualquer forma, nosso esfor\u00e7o anal\u00edtico foi muito mais no sentido de tentar evidenciar os sistemas discursivos que justificavam \u2013 e justificam \u2013 essas pr\u00e1ticas do que, necessariamente, fazer uma an\u00e1lise mais estrutural do fen\u00f4meno desde a perspectiva mais espec\u00edfica deste, ou daquele ator ou institui\u00e7\u00e3o&#8230; assim, buscamos apontar, por exemplo, como a ideia de \u201csodomia\u201d era importante no contexto da consolida\u00e7\u00e3o dos estados ib\u00e9ricos ou de que maneira ideias como \u201cra\u00e7a\u201d e \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d foram fundamentais na gest\u00e3o moral dos povos ind\u00edgenas ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos. Assim, nossa proposta \u00e9 que essa no\u00e7\u00e3o de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o das sexualidades\u201d possa ser aprofundada e generalizada para compreendermos os dispositivos desde os quais essa gest\u00e3o moral \u00e9 parte inerente \u00e0 (con) forma\u00e7\u00e3o de uma ordem colonial.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> Sobre antes da &#8220;invas\u00e3o b\u00e1rbara&#8221;, como diz meu mestre de etnologia Rafael Bastos, temos registros orais, podemos apenas especular. O que sabemos \u00e9 que h\u00e1 grande variedade nas formas de arranjos familiares, por exemplo. Agora, sobre como vivem hoje os povos, podemos afirmar que os Matis, com quem vivi, tem casamentos de um homem com duas mulheres e tamb\u00e9m de uma mulher com dois homens, \u00e9 aceito e valorizado socialmente tanto como um casamento de um homem e uma mulher. Ali\u00e1s, \u00e9 mais normal ter mais de uma mulher do que apenas uma, especialmente entre os mais velhos. Sabemos tamb\u00e9m que alguns povos valorizam e respeitam seus homossexuais. Podemos afirmar sobre a realidade atual que muitos povos ind\u00edgenas t\u00eam relacionamentos familiares fora do padr\u00e3o monog\u00e2mico e heterossexual.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201c\u00c9 imposs\u00edvel descolar essas quest\u00f5es <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">da incorpora\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria<\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">\u00a0da m\u00e3o de obra ind\u00edgena <\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">ao sistema de explora\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nico\u201d<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Como se d\u00e1 a naturaliza\u00e7\u00e3o desses silenciamentos, dessas invisibilidades, dessa subalterniza\u00e7\u00e3o? Por que isso ocorre em diversas culturas, ra\u00e7as e etnias? Seria inerente ao ser humano?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Isso seria tema para mais um livro e \u00e9, certamente \u201ca\u201d quest\u00e3o a ser enfrentada. N\u00e3o penso, contudo, que isso seja algo inerente ao ser humano e mais do que se perguntar \u201cPor que\u201d isso ocorre talvez seja uma quest\u00e3o de compreender \u201ccomo\u201d isso ocorre e de que maneiras esses processos de subalterniza\u00e7\u00e3o e silenciamentos d\u00e3o sentido \u00e0 pr\u00f3pria ordem colonial. No caso ind\u00edgena, por exemplo, \u00e9 imposs\u00edvel descolar essas quest\u00f5es da incorpora\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria da m\u00e3o de obra ind\u00edgena ao sistema de explora\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nico. Autorxs como Fanon, Cesaire, Anzald\u00faa e outrxs deixam claro como esse processo de esvaziamento de si \u00e9 parte fundamental do processo de coloniza\u00e7\u00e3o, de tal modo que estas quest\u00f5es acabam ultrapassando as fronteiras das discuss\u00f5es sobre ind\u00edgenas para nos ensinar sobre racismo, colonialismo epist\u00eamico, <em>trolls<\/em> de redes sociais e portais de not\u00edcias.<br \/>\n<strong><em>Barbara Arisi:<\/em><\/strong> \u00c9 uma repeti\u00e7\u00e3o de sil\u00eancios, n\u00e3o se quer falar em muitos casos, n\u00e3o se quer ouvir, n\u00e3o se quer admitir que h\u00e1 viol\u00eancia e mortes provocadas pelos silenciamentos, invisibilidades e subalterniza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 disso que se trata e se queremos romper o padr\u00e3o, temos de sair por a\u00ed pintando o corpo, mostrando as outras formas poss\u00edveis, dragkingzando, dragqueenzando, queerizando e causando. N\u00e3o acho que \u00e9 inerente, os seres humanos somos muito variados.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Professor Estev\u00e3o, o senhor afirma que \u201ca for\u00e7a motriz da m\u00e1quina colonial \u00e9 incutir no colonizado a certeza de que, ao esvaziar o colonizado de si, o colonizador est\u00e1 fazendo a ele um favor&#8230;\u201d poderia explicar melhor como isso pode ser visto como \u201cum favor\u201d \u00e0 pessoa oprimida?<\/strong><\/span><br \/>\n<strong><em>Estev\u00e3o Fernandes:<\/em> <\/strong>Isso tem a ver com a quest\u00e3o anterior. De certa forma uma das bases do sistema colonial \u00e9, justamente, estruturar-se (ideol\u00f3gica e institucionalmente) no sentido de tentar incutir, no \u201coutro\u201d, a ideia de que a diferen\u00e7a \u00e9 algo a ser anulado e apagado \u2013 n\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o do poder desde o polo hegem\u00f4nico, mas como um gesto de grandeza e gentileza para com o subalternizado&#8230;. Assim, \u201ccura-se\u201d o gay: n\u00e3o porque sua exist\u00eancia deixe evidente as contradi\u00e7\u00f5es de um sistema moral heteronormado e violento, mas para \u201csalv\u00e1-lo\u201d do inferno. Se constroem usinas sobre terras ind\u00edgenas: n\u00e3o porque haja conglomerados financeiros e interesses diversos de pol\u00edticos, empres\u00e1rios, etc., mas para traz\u00ea-los ao \u201cprogresso\u201d&#8230;. \u201cVeja bem\u201d &#8211; dizem as institui\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas desde perspectivas cient\u00edficas, religiosas, ideol\u00f3gicas \u2013 \u201cvoc\u00ea n\u00e3o tem culpa por ser negro, nordestino, ind\u00edgena,&#8230; por professar uma religi\u00e3o de matriz africana, por morar na Amaz\u00f4nia&#8230; e, por voc\u00ea n\u00e3o ter culpa lhe ensinarei, impondo meus valores morais, religiosos, raciais, econ\u00f4micos, filos\u00f3ficos, epistemol\u00f3gicos como falar certo, agir certo, a abandonar esse \u201csotaque esquisito\u201d, essas roupas, essas \u201ccren\u00e7as\u201d para se tornar o que eu sou\u201d&#8230; \u00e9 como se a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel fosse se adequar ao sistema hegem\u00f4nico, fosse \u2013 e eu adoro a palavra \u2013 se <em>enquadrar<\/em>&#8230;. depois disso tudo ser imposto, cabe ao dominado entender que, por mais que ele tenha lutado \u2013 da\u00ed a import\u00e2ncia na cren\u00e7a liberal da meritocracia, outra fal\u00e1cia na moda nos c\u00edrculos conservadores \u2013 ele n\u00e3o conseguiu se tornar aquilo que se tentou fazer com que ele se tornasse. Da\u00ed porque lutas contra racismos, lgbtfobia, ultranacionalismos, etc. s\u00e3o t\u00e3o importantes&#8230;. eles representam mais do que a resist\u00eancia a uma l\u00f3gica de opress\u00e3o econ\u00f4mica e\/ou ideol\u00f3gica, mas a luta pelo pr\u00f3prio direito de res\/ex-istir. A hist\u00f3ria nos mostra que por 500 anos, por exemplo, se imp\u00f4s a ind\u00edgenas que buscassem se transformar em brancos \u2013 e n\u00e3o qualquer branco: o branco subalternizado, o campon\u00eas pobre, mas crist\u00e3o, monog\u00e2mico, hetero e \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d, consumidor e bom pagador de impostos. Tudo isso para seu pr\u00f3prio bem&#8230; Esse apagamento das diferen\u00e7as \u00e9 algo perigoso, pois, a partir da\u00ed, tolhe-se o direito \u00e0 exist\u00eancias diversas daquelas aceitas desde a l\u00f3gica hegem\u00f4nica&#8230; A exist\u00eancia desses \u201coutros\u201d p\u00f5e em xeque as estruturas desde as quais esses dispositivos hegem\u00f4nicos se sustentam \u2013 eis a\u00ed porque esta \u00e2nsia em se apagar estas formas outras de ser, saber, res\/ex-istir&#8230;. Temos a\u00ed um ponto de toque entre no\u00e7\u00f5es como coloniza\u00e7\u00e3o e abje\u00e7\u00e3o, e desde a\u00ed uma cr\u00edtica epistemopol\u00edtica poderosa ao racismo e a heteronormatiza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria como pol\u00edticas de Estado \u2013 algo pelo qual alguns setores de nossas elites t\u00eam demonstrado um tremendo fasc\u00ednio nos \u00faltimos tempos, mas isso \u00e9 tema para outra entrevista&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong><em><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-49544 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/foto-de-indios.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"594\" \/><\/em>Ainda nesta perspectiva, quem \u00e9 mais forte, o manipulado ou o manipulador? O manipulado de hoje pode ser o manipulador de amanh\u00e3? Seria apenas uma quest\u00e3o de tempo?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> N\u00e3o acho que seja uma quest\u00e3o de for\u00e7a, ou que uma dicotomia dessas seja poss\u00edvel (ou algo t\u00e3o simples). De qualquer forma, quando falo em \u201chegem\u00f4nico\u201d ou \u201csubalternizado\u201d n\u00e3o digo que sejam posi\u00e7\u00f5es fixas, ou que invisibilidade equivalha \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o \u2013 o que seria um risco! Falando de supet\u00e3o, todos esses atores mobilizam e articulam (o que, de certa forma, se aproxima da ideia de uma \u201cmanipula\u00e7\u00e3o\u201d) essas categorias, mas n\u00e3o o fazem de modo linear, tampouco homog\u00eaneo. S\u00e3o categorias relacionais e relativas: as formas como se articulam umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, que discursos e imagens mobilizam, desde que lugares de enuncia\u00e7\u00e3o falam, etc., \u00e9 algo a ser compreendido e problematizado. As formas como essas perspectivas operam umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras pode nos informar mais do que encarar seus lugares de fala enquanto categorias fixas ou hegem\u00f4nicas.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> Acho que somos os dois, manipulamos e somos manipulados. \u00c9, de novo, para lembrar Foucault, como os micropoderes, exercemos poder sobre umas pessoas e outras exercem sobre n\u00f3s. Poderes em rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 um relacionamento tamb\u00e9m que se d\u00e1 internamente, somos inquisidoras de n\u00f3s mesmas muitas vezes, mas da\u00ed \u00e9 melhor trocar ideias com as amigas psicanalistas talvez!<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Qual o peso da ignor\u00e2ncia humana, da falta de empatia e da n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o do outro, independente do sistema de Poder, neste cen\u00e1rio apontado no livro?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Sinceramente, n\u00e3o sei como responder a isso&#8230; Digo isso por entender que talvez acabasse sendo anacr\u00f4nico na resposta, mas \u00e9 algo que perpassa v\u00e1rios dos relatos trazidos no texto&#8230; isso talvez tenha a ver com a quest\u00e3o, j\u00e1 apontada aqui, do esvaziamento de si como for\u00e7a motriz da m\u00e1quina colonial. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a coloniza\u00e7\u00e3o tende a esvaziar o \u201coutro\u201d enquanto pot\u00eancia, fazendo com que seu lugar de exist\u00eancia enquanto pessoa deixe de existir.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong> <\/em>\u00c0s vezes o \u00f3dio pelo que \u00e9 diferente \u00e9 bem consciente e vira prega\u00e7\u00e3o, campanha, pol\u00edtica de erradica\u00e7\u00e3o governamental, como agora no caso da Chechenia onde est\u00e3o prendendo centenas de gays, tal viola\u00e7\u00e3o \u00e9 alvo de uma campanha da Amnesty International (da qual sou volunt\u00e1ria). Muitas vezes termina a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o do outro termina em trag\u00e9dia de grande escala em campo de exterm\u00ednio fascista, nazista ou comunista.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>\u201cSer diferente\u201d \u00e9 \u201cnormal\u201d?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Quem disse que ser diferente \u00e9 ser normal? Ser normal \u00e9 chato, enfadonho&#8230; ser normal \u00e9 se conformar \u2013 e neste momento precisamos de tudo, menos de conformismo!<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> O normal \u00e9 a norma, bom mesmo \u00e9 ser diferente. A liberdade sexual incomoda quem gosta de monotonia. Por isso gosto do s\u00edmbolo do arco-\u00edris da bandeira LGBT, tem um qu\u00ea de utopia, de caminhar atr\u00e1s de algo que \u00e9 fruto de encontro (de luz e \u00e1gua) mas que n\u00e3o se alcan\u00e7a, as sociedades andam, mas os arco-\u00edris andam sempre mais para a frente.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Quais as conclus\u00f5es que ficam desse estudo?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o Fernandes:<\/strong><\/em> Se eu der <em>spoiler<\/em> acho que ningu\u00e9m compra o livro (risos)&#8230; Mas, falando s\u00e9rio, algumas das v\u00e1rias conclus\u00f5es foram indicadas, mesmo que resumidamente, nas respostas acima. ora isso, nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 de suscitar novos questionamentos sobre o que foi dito aqui. Este livro \u00e9 tudo, menos um ponto final&#8230; Queremos, mesmo, dar continuidade a essas interroga\u00e7\u00f5es, se poss\u00edvel incorporando outras vozes e perspectivas que nos permitam problematizar, ainda mais e de forma mais amadurecida e menos t\u00edmida, algumas dessas quest\u00f5es.<br \/>\n<em><strong>Barbara Arisi:<\/strong><\/em> Que mesmo que te cortem no meio com um tiro de canh\u00e3o, algu\u00e9m no futuro pode aprender algo a partir dessa morte tr\u00e1gica e talvez seja poss\u00edvel evitar que outras (os) gays, l\u00e9sbicas, bis, trans, queers e two-spirits sejam mortas (os) da mesma forma.<br \/>\n<span class=\"entreperg\"><strong>Quando o livro ser\u00e1 publicado em l\u00edngua portuguesa no Brasil?<\/strong><\/span><br \/>\n<em><strong>Estev\u00e3o e Barbara:<\/strong> <\/em>Assim que alguma editora ou associa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tiver interesse, de prefer\u00eancia disponibilizando o livro gratuitamente ou com um pre\u00e7o bem popular \u2013 como dissemos, essa era nossa inten\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elenice Due\u00f1as* Revelador, pioneiro e reflexivo, \u201cGay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities\u201d\u00a0(\u00cdndios Gays no Brasil: As Hist\u00f3rias N\u00e3o Contadas da Coloniza\u00e7\u00e3o das Sexualidades Ind\u00edgenas) \u00e9 o novo t\u00edtulo que chegou ao mercado editorial internacional neste ano como um convite ao debate sobre alguns tabus. 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