{"id":50208,"date":"2017-06-19T08:53:42","date_gmt":"2017-06-19T11:53:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=50208"},"modified":"2017-06-19T08:53:42","modified_gmt":"2017-06-19T11:53:42","slug":"o-caso-andreas-von-richthofen-e-a-esquerda-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-caso-andreas-von-richthofen-e-a-esquerda-brasileira\/","title":{"rendered":"O caso Andreas von Richthofen e a esquerda brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eduardo Maretti<\/strong><br \/>\nAo escrever estas curtas impress\u00f5es, esclare\u00e7o que minha preocupa\u00e7\u00e3o, aqui, n\u00e3o tem a ver com filtros do senso comum. A premissa \u00e9 que escrevo pensando em algo &#8220;m\u00e1s all\u00e1&#8221;, mas sempre dentro da esquerda brasileira.<br \/>\nDito isso, quero dizer que a esquerda brasileira tem que evoluir muito para ser transformadora. Penso no mestre Pier Paolo Pasolini.<br \/>\nUso para esta modesta an\u00e1lise impressionista o caso Andreas von Richthofen. Como era de se esperar, ap\u00f3s vir a p\u00fablico a informa\u00e7\u00e3o de que Andreas &#8212; o irm\u00e3o de Suzane, condenada por ser a autora intelectual do assassinato dos pais em 2002 &#8212; foi encontrado em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e com &#8220;sinais de uso de drogas&#8221;, n\u00e3o tardaram as abordagens simplistas e, eu diria, espiritual e filosoficamente lim\u00edtrofes, sobre o caso, por parte da nossa nobre esquerda.<br \/>\nUma dessas abordagens, t\u00edpicas, diz o seguinte: &#8220;\u00e9 f\u00e1cil ter compaix\u00e3o e empatia pelo Andreas. Bem nascido, loirinho, frequentou os melhores col\u00e9gios e vivemos, todos, a sua dor. Vimos a destrui\u00e7\u00e3o da sua fam\u00edlia. Solidarizamos a dor dele, quando teve os pais assassinados. Dif\u00edcil mesmo \u00e9 enxergar humanidade e ter compaix\u00e3o e empatia com o viciado que parece vindo de outro mundo. Que \u00e9 analfabeto. Que sempre morou na rua e que j\u00e1 passou pela cadeia algumas vezes&#8221;.\u00a0\u00c9 o que diz <a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/05\/31\/sabe-o-embrulho-no-estomago-ao-ver-que-andreas-estava-na-cracolandia\" data-saferedirecturl=\"http:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/05\/31\/sabe-o-embrulho-no-estomago-ao-ver-que-andreas-estava-na-cracolandia&amp;source=gmail&amp;ust=1497958309018000&amp;usg=AFQjCNFKqslxt1jD6yVMDR-_AovMQRebQg\">Marcelo Feller<\/a>, advogado criminal.<br \/>\n<em>Data venia<\/em>, \u00e9 o mesmo tipo de argumenta\u00e7\u00e3o que encara um atentado como o de Paris em 2015, ou o de Manchester, no m\u00eas passado, com afirma\u00e7\u00f5es do tipo: <em>\u00e9 f\u00e1cil lamentar as mortes de Paris, mas dif\u00edcil mesmo \u00e9 enxergar a humanidade dos assassinados nas periferias de S\u00e3o Paulo<\/em> etc etc etc.<br \/>\n\u00c9 como se a pessoa &#8220;bem nascida, loirinha&#8221;, <em>aben\u00e7oada <\/em>por ter frequentado &#8220;os melhores col\u00e9gios&#8221;, fosse destitu\u00edda de humanidade. \u00c9 um argumento filosoficamente indefens\u00e1vel. Um argumento que, no limite, justificaria os atentados de Paris de 2015.<br \/>\nAmbos, Andreas e o menino pobre da periferia, merecem a mesma compaix\u00e3o. A dor de ambos d\u00f3i igualmente, na alma. Mas na alma deles. A dor \u00e9 espiritual e f\u00edsica, e existencial.<br \/>\nSe ser humanista \u00e9 ser antiquado, eu sou antiquado. A quest\u00e3o de Andreas estar ou n\u00e3o na Cracol\u00e2ndia n\u00e3o importa.<br \/>\nA esquerda, da qual eu fa\u00e7o parte, precisa ir al\u00e9m do materialismo e do determinismo.<br \/>\n\u00c9 \u00f3bvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, que o pa\u00eds, e particularmente S\u00e3o Paulo, est\u00e3o submetidos a pol\u00edticas higienistas e fascistas. Voltamos d\u00e9cadas no tempo. Sofremos um golpe (que, ali\u00e1s, foi conseguido de maneira t\u00e3o f\u00e1cil que chega a ser deprimente ser brasileiro na atual conjuntura &#8211; mas isso \u00e9 outro assunto).<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 isso que discuto aqui. Aqui, parto do pressuposto de que o fascismo \u00e9 incab\u00edvel no s\u00e9culo XXI. Mas, repito: a esquerda brasileira precisa ir al\u00e9m do materialismo e do determinismo.<br \/>\nA esquerda brasileira deveria ler Nietzsche, Dostoi\u00e9vski, Sartre e Baudelaire, para interpretar a hist\u00f3ria sob perspectivas menos materialistas e deterministas. Perspectivas que possam superar as abordagens f\u00e1ceis. Entender o sofrimento de Rask\u00f3lnikov (o protagonista de <em>Crime e Castigo<\/em>, de Dostoi\u00e9vski) da mesma maneira que entende o sofrimento dos perseguidos pelo higienismo fascista de Jo\u00e3o Doria. S\u00e3o dimens\u00f5es diferentes. Mas dimens\u00f5es que precisam ser compreendidas como paralelas.<br \/>\nA esquerda brasileira precisa se desvencilhar de seus moralismos e ir &#8220;m\u00e1s all\u00e1&#8221;, se quiser transformar este pobre Brasil em algo digno de ser chamado de uma na\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 s\u00f3 isso. <em>Data venia<\/em>.<br \/>\n<em>(Publicado originalmente no <a href=\"http:\/\/fatosetc.blogspot.com.br\/2017\/06\/o-caso-andreas-von-richthofen-e.html?utm_source=feedburner&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Feed:+FatosEtc+(Fatos+Etc.)\">blog <strong>Fatos Etc.<\/strong><\/a>)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Maretti Ao escrever estas curtas impress\u00f5es, esclare\u00e7o que minha preocupa\u00e7\u00e3o, aqui, n\u00e3o tem a ver com filtros do senso comum. A premissa \u00e9 que escrevo pensando em algo &#8220;m\u00e1s all\u00e1&#8221;, mas sempre dentro da esquerda brasileira. 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