{"id":50431,"date":"2017-06-22T13:22:30","date_gmt":"2017-06-22T16:22:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=50431"},"modified":"2017-06-22T13:22:30","modified_gmt":"2017-06-22T16:22:30","slug":"ruinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ruinas\/","title":{"rendered":"Ru\u00ednas"},"content":{"rendered":"<p>Junho tem do ano a metade. Uma que foi e outra que chega. Da janela junina tanto se pode olhar para tr\u00e1s quanto \u00e0 frente. Emoldurando a vidra\u00e7a o marco se desfaz em registros acontecidos e promessas buscadas. Cada um tem sua janela.<br \/>\nJeanine tem a sua. Esguia se esgueira junto ao vidro esfuma\u00e7ado. Atenta observa a rua enquanto esta a devolve discreta \u00e0 casa feita em abandono. Sua janela \u00e9 imagin\u00e1ria. De h\u00e1 muito foi quebrada. Estilha\u00e7ou-se aos poucos. N\u00e3o foi um vendaval. Sequer uma chuva mais forte. Partiu-se somando cacos. Alguns agudos, outros ferrenhamente cortantes, tantos mais apenas estilha\u00e7os. Pontas e arestas j\u00e1 empoeiradas, muitas esquecidas.<br \/>\nEla gosta de sua vidra\u00e7a vazia. Com o vazio poucos se preocupam. O que encontrar ali? Poeiras, umidades, peda\u00e7os de coisas partidas, nada de serventia. Por\u00e9m, vazios instigam, desafiam, apavoram. Despreenchimento que a Janine soava acalanto e seguran\u00e7a. N\u00e3o porque cadeados ou grades a garantissem. Simplesmente por usufruir de uma janela s\u00f3 sua. Janela que nem janela era.<br \/>\nDa rua voltava todos os dias. Recolhia a friagem invernal. Guardava os \u201cn\u00e3o\u201d j\u00e1 acostumados. Juntava os comandos: \u201cvai trabalhar!\u201d. Era bom estar de volta. De seu canto enxergava os pr\u00e9dios amontoados logo adiante. Adivinhava seus moradores aquecidos. Imaginava os programas de televis\u00e3o piscando em brilhos, vendendo ousadias e felicidades. Ouvia \u201cfica quieto guri, assim n\u00e3o ou\u00e7o nada.\u201d Percebia dores na voz embargada das mulheres silenciadas pelo \u201choje estou cansado, n\u00e3o me incomodem.\u201d<br \/>\nNaquele entardecer Jeanine n\u00e3o voltou. Sua estadia fora lacrada. A porta de ferro repuxada a golpes de arrasto dobrara-se encabulada. Dos seus, todos levados adiante. Poderia ter chorado, gritado. Ficou inerte sem nada esperar. Frio por frio j\u00e1 o conhecia sem revolta.<br \/>\nInfeliz? Apenas extremamente entristecida. Por si, pelas pessoas, todos filhos e filhas. Por tantos abatidos pelas circunst\u00e2ncias constru\u00eddas e destru\u00eddas.<br \/>\nLembrou da janela. Aquele cantinho s\u00f3 seu e nunca mais seu. Perdera. Fora-se a metade do ano. Quase. Havia a outra por\u00e7\u00e3o. Quem sabe?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Junho tem do ano a metade. Uma que foi e outra que chega. Da janela junina tanto se pode olhar para tr\u00e1s quanto \u00e0 frente. Emoldurando a vidra\u00e7a o marco se desfaz em registros acontecidos e promessas buscadas. Cada um tem sua janela. Jeanine tem a sua. Esguia se esgueira junto ao vidro esfuma\u00e7ado. Atenta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-50431","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/sbQjBd-ruinas","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50431\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}