{"id":51178,"date":"2017-07-08T14:49:04","date_gmt":"2017-07-08T17:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=51178"},"modified":"2017-07-08T14:49:04","modified_gmt":"2017-07-08T17:49:04","slug":"acordo-de-paris-saida-dos-eua-reforca-nova-dinamica-geopolitica-e-protagonismo-da-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/acordo-de-paris-saida-dos-eua-reforca-nova-dinamica-geopolitica-e-protagonismo-da-china\/","title":{"rendered":"Acordo de Paris: sa\u00edda dos EUA refor\u00e7a nova din\u00e2mica geopol\u00edtica e protagonismo da China"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luiz Eduardo Osorio*<\/span><br \/>\nA recente sa\u00edda dos Estados Unidos do Acordo de Paris ter\u00e1 amplos reflexos sobre o cen\u00e1rio diplom\u00e1tico, econ\u00f4mico e ambiental. Em um momento em que na\u00e7\u00f5es e empresas se preparam para a transi\u00e7\u00e3o rumo a uma economia de baixo carbono, a decis\u00e3o norte-americana abre espa\u00e7o para uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre China e Europa. Tamb\u00e9m aumenta a press\u00e3o internacional sobre os l\u00edderes globais para que estabele\u00e7am metas mais ambiciosas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es e as anunciem nas pr\u00f3ximas reuni\u00f5es clim\u00e1ticas.<br \/>\nEm dezembro de 2015, 196 na\u00e7\u00f5es reuniram-se em Paris e concordaram em manter o aumento da temperatura m\u00e9dia global em menos de 2\u00b0C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais. Esse compromisso p\u00fablico, assumido tamb\u00e9m pelo governo dos Estados Unidos, foi firmado e enviado ao Alto Comissariado das Organiza\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Esta a\u00e7\u00e3o contrasta com a postura adotada em rela\u00e7\u00e3o ao Protocolo de Kyoto, que n\u00e3o chegou a ser aceito ou ratificado pelo governo norte-americano. \u00a0No pior cen\u00e1rio tra\u00e7ado pela ONU, sem o comprometimento dos Estados Unidos, poderia haver um aumento de 0,3\u00b0C na temperatura global para al\u00e9m dos 2\u00ba C.<br \/>\nAo rever a sua ades\u00e3o ao Acordo de Paris, os Estados Unidos tornam-se, ao lado da S\u00edria (em guerra civil) e da Nicar\u00e1gua (que considerou o acordo t\u00edmido), parte dos tr\u00eas \u00fanicos pa\u00edses do mundo que n\u00e3o se comprometeram a reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. O v\u00e1cuo geopol\u00edtico criado estimula uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre China e Europa, que j\u00e1 refor\u00e7aram nas \u00faltimas semanas o engajamento em rela\u00e7\u00e3o ao tema das mudan\u00e7as do clima, acenando inclusive com um potencial interc\u00e2mbio de permiss\u00e3o de emiss\u00f5es entre os pa\u00edses, assim como investimentos cruzados.<br \/>\nEm busca de maior protagonismo internacional e competitividade de seus produtos nesse novo cen\u00e1rio, a China direciona os seus esfor\u00e7os diplom\u00e1ticos e de coopera\u00e7\u00e3o para acelerar a expans\u00e3o das fontes limpas de energia na matriz el\u00e9trica global. O governo chin\u00eas \u00e9 o principal incentivador da Global Energy Interconnection (GEI), que tem como meta ampliar para 80% a participa\u00e7\u00e3o das fontes renov\u00e1veis no consumo prim\u00e1rio global de energia em 2050. Para cumprir este objetivo ambicioso, a estimativa \u00e9 a de que o GEI demande US$ 50 trilh\u00f5es em investimentos em novas usinas, como e\u00f3licas e solar, e na constru\u00e7\u00e3o de grandes sistemas de transmiss\u00e3o, que promoveriam a interconex\u00e3o dos cincos continentes.<br \/>\nEmbora o desfecho da iniciativa seja incerto, observa-se que o Acordo de Paris se insere em um contexto de reconfigura\u00e7\u00e3o do fluxo de investimentos e comerciais, de rearranjo dos acordos geopol\u00edticos e abertura de novos mercados. Com a manuten\u00e7\u00e3o da precifica\u00e7\u00e3o do carbono como uma tend\u00eancia irrevers\u00edvel, o retrocesso no apoio \u00e0s fontes renov\u00e1veis de energia significaria preju\u00edzos financeiros, com perda de competitividade industrial e de exporta\u00e7\u00f5es. Alguns governos, como o da Fran\u00e7a, j\u00e1 estudam sobretaxar em 100 euros por tonelada de CO2 os produtos importados, cuja pegada de carbono n\u00e3o tenha sido neutralizada.<br \/>\nAqui, novamente, nota-se o governo chin\u00eas utilizando o seu peso geopol\u00edtico e econ\u00f4mica para fomentar um novo modelo de desenvolvimento. Com a China mantendo seus preparativos para lan\u00e7ar seu mercado nacional de carbono neste ano, estima-se que 20% das emiss\u00f5es globais ser\u00e3o cobertas por mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o, hoje adotados por mais de 60 pa\u00edses e mais de 500 empresas no mundo. Outras 700 companhias planejam fazer o mesmo at\u00e9 2018, segundo o CDP.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o de ver as \u201cportas fechadas\u201d para as oportunidades de um mundo voltado para a economia de baixo carbono tem estimulado autoridades municipais e estaduais dos Estados Unidos a refor\u00e7ar ou ampliar o compromisso com pol\u00edticas p\u00fablicas e tecnologias verdes. Os estados de Nova York, Washington e Calif\u00f3rnia \u2013 que re\u00fanem um quinto da popula\u00e7\u00e3o e do PIB do pa\u00eds e responderam por 11% das emiss\u00f5es em 2014 \u2013 anunciaram que ir\u00e3o manter as suas metas de redu\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o global, mesmo com a decis\u00e3o do governo federal na dire\u00e7\u00e3o oposta. Outras 200 prefeituras fizeram pronunciamentos na mesma dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA Calif\u00f3rnia \u2013 que, se fosse um pa\u00eds, seria a sexta maior economia mundial \u2013 refor\u00e7ou sua decis\u00e3o de que 50% de sua energia seja oriunda de fontes renov\u00e1veis at\u00e9 2030 e que toda sua energia seja gerada por fontes limpas at\u00e9 2045. A regi\u00e3o quer criar mais valor na economia de baixo carbono. Com a ado\u00e7\u00e3o de leis que buscaram incentivar a utiliza\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, a economia da Calif\u00f3rnia expandiu 80% entre 1990 e 2014 e sua popula\u00e7\u00e3o cresceu 30%, mas as emiss\u00f5es per capita ca\u00edram cerca de 20% neste per\u00edodo e as emiss\u00f5es por produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica despencaram 44%, segundo estudo da Comiss\u00e3o de Energia do Estado.<br \/>\nOs resultados alcan\u00e7ados pela Calif\u00f3rnia ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas refor\u00e7am a percep\u00e7\u00e3o de que crescimento econ\u00f4mico e redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de CO2 podem caminhar lado a lado, gerando riquezas, renda e novos empregos. Estudo recente da Ag\u00eancia Internacional de Energias Renov\u00e1veis (Irena, sigla em ingl\u00eas) prev\u00ea que essas fontes de energia dever\u00e3o agregar US$19 trilh\u00f5es para a economia mundial at\u00e9 2050 e criar seis milh\u00f5es de empregos.<br \/>\nA nova configura\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris n\u00e3o ter\u00e1 impactos significativos no curto prazo para o Brasil, que, no come\u00e7o de junho, promulgou os compromissos assumidos pelo Pa\u00eds para combater as mudan\u00e7as do clima. Dispondo de uma das matrizes el\u00e9tricas mais limpas do mundo &#8211; sendo 80% da gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica oriunda de fontes limpas, com \u00eanfase para as hidrel\u00e9tricas e usinas e\u00f3licas \u2013, o Brasil e as empresas brasileiras podem ganhar espa\u00e7o no cen\u00e1rio internacional, por exemplo, seja atraindo investimentos em fontes renov\u00e1veis, seja na exporta\u00e7\u00e3o de produtos com menor pegada de carbono.<br \/>\nNo m\u00e9dio e longo prazos, a nova din\u00e2mica geopol\u00edtica pode significar o estreitamento dos la\u00e7os econ\u00f4micos de Brasil e China. Hoje, o pa\u00eds asi\u00e1tico j\u00e1 \u00e9 o principal parceiro comercial do nosso Pa\u00eds e caminha para se consolidar como um dos principais investidores estrangeiros, sobretudo no campo da infraestrutura. A coopera\u00e7\u00e3o entre as duas na\u00e7\u00f5es, a exemplo da cria\u00e7\u00e3o de um fundo de investimento com US$20 bilh\u00f5es para financiar projetos nas \u00e1reas de Log\u00edstica, Energia, Recursos Minerais, Agricultura, Ind\u00fastria de Manufatura e Servi\u00e7os Digitais, pode al\u00e7ar o Brasil \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de l\u00edder proeminente no processo de transi\u00e7\u00e3o para uma economia global de baixo carbono.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Eduardo Osorio* A recente sa\u00edda dos Estados Unidos do Acordo de Paris ter\u00e1 amplos reflexos sobre o cen\u00e1rio diplom\u00e1tico, econ\u00f4mico e ambiental. 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