{"id":5184,"date":"2009-06-16T17:10:20","date_gmt":"2009-06-16T20:10:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=5184"},"modified":"2009-06-16T17:10:20","modified_gmt":"2009-06-16T20:10:20","slug":"moreira-salles-abre-jornada-contra-violencia-e-por-justica-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/moreira-salles-abre-jornada-contra-violencia-e-por-justica-social\/","title":{"rendered":"Moreira Salles abre Jornada contra Viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5185\" title=\"fonte-imprensa-sindbancarios\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/casa_noticia_391.jpg\" alt=\"fonte-imprensa-sindbancarios\" width=\"450\" height=\"300\" \/><br \/>\nPor <strong>Daniela de Bem<\/strong><br \/>\nO cinema do Sindicato dos Banc\u00e1rios lotou na noite desta segunda-feira, dia 15. O motivo foi a abertura da Mostra \u201cImagens da Viol\u00eancia\u201d, com a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio Not\u00edcias de uma guerra particular, seguido pelo debate com o diretor Jo\u00e3o Moreira Salles. Ele passou duas horas respondendo as perguntas da plat\u00e9ia, que parecia mais interessada na sua experi\u00eancia em relatar a realidade dos morros cariocas que no filme.<br \/>\nO evento faz parte da Jornada contra Viol\u00eancia e por Justi\u00e7a Social \u2013 iniciativa de v\u00e1rias entidades que se prop\u00f5e a refletir sobre a rela\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia e exclus\u00e3o social.A jornada vai at\u00e9 o dia 28 e envolve a realiza\u00e7\u00e3o de debates e palestras, al\u00e9m da exibi\u00e7\u00e3o de filmes brasileiros que tratam do tema.<br \/>\nNot\u00edcias de uma guerra particular \u00e9 um document\u00e1rio de 56 minutos, dirigido por Moreira Salles e K\u00e1tia Lund e exibido pela primeira vez em 1999 como programa de televis\u00e3o. O trabalho \u00e9 considerado pioneiro, pois \u00e9 o primeiro a mostrar t\u00e3o de perto a guerra da pol\u00edcia contra o tr\u00e1fico, vindo ap\u00f3s filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite.<br \/>\n\u201cO Not\u00edcias nasceu na ilha de edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem roteiro. A motiva\u00e7\u00e3o para fazer veio da perplexidade minha e da K\u00e1tia frente \u00e0 viol\u00eancia do Rio de Janeiro\u201d, afirma Salles. Na \u00e9poca a cidade vivia uma situa\u00e7\u00e3o muito peculiar &#8211; um general cuidava da pol\u00edtica de seguran\u00e7a do estado e os \u00edndices de viol\u00eancia s\u00f3 cresciam. \u201cO document\u00e1rio foi um testemunho do que acontecia no Rio de Janeiro em 1997\/98. A \u00fanica coisa que sab\u00edamos \u00e9 que quer\u00edamos falar com quem est\u00e1 envolvido diretamente na guerra, ou seja, o traficante, o policial e o morador da favela\u201d, complementa.<br \/>\nPara o diretor, o document\u00e1rio deve ter um fim em si mesmo. \u201cAcho que o document\u00e1rio feito para mudar o mundo \u00e9 um mau document\u00e1rio. Documentaristas que n\u00e3o sabem e entendem que n\u00e3o sabem tendem a fazer os melhores filmes. Do contr\u00e1rio, voc\u00ea pode fazer um bom panfleto pol\u00edtico\u201d, avalia.<br \/>\nSalles declara ainda que o cinema n\u00e3o pode ser feito para defender um ponto de vista ou consertar a realidade. \u201cDocument\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 engenharia social. Eu tendo a dizer que ele tem obriga\u00e7\u00e3o para dentro e isso n\u00e3o \u00e9 uma postura alienante. Muito mais radical o cubismo do Picasso, com a criatividade em representar as dimens\u00f5es, do que o realismo socialista. E \u00e9 isso que o document\u00e1rio faz: v\u00ea uma realidade e tenta mostr\u00e1-la de maneiras diferentes\u201d.<br \/>\nDurante a conversa com o p\u00fablico, Salles foi constantemente questionado acerca da viol\u00eancia carioca e o modo como a m\u00eddia trata do assunto. O cineasta se mostrou desconfort\u00e1vel com o assunto, sempre lembrando que n\u00e3o era um especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica ou um antrop\u00f3logo, mas somente um documentarista e, como tal, conhece o tema superficialmente.<br \/>\nSobre as dificuldades encontradas durante a execu\u00e7\u00e3o do projeto, Jo\u00e3o ressalta que o mais complicado foi conseguir os depoimentos da pol\u00edcia, em especial a militar. \u201cEu queria formula\u00e7\u00e3o de pensamentos novos, mas o que eles diziam j\u00e1 era um discurso ideol\u00f3gico pronto, que j\u00e1 havia sido dito em v\u00e1rios outros canais\u201d.<br \/>\nO depoimento do capit\u00e3o do Bope Rodrigo Pimentel foi o mais importante e, talvez, o \u00fanico que tenha trazido algo novo para o trabalho. \u201cEu tinha passado o dia inteiro filmando no Bope, tinha pegado o depoimento morto de um coronel, estava guardando os equipamentos, quando uma voz me perguntou se eu j\u00e1 estava indo embora. Eu respondi que sim e ele acrescentou: que bom pra voc\u00ea, porque eu ainda tenho duas favelas pra invadir. Foi a primeira vez que algu\u00e9m quebrava aquela hierarquia e aquela dureza, mostrando um cansa\u00e7o. E isso foi suficiente para eu querer entrevist\u00e1-lo.\u201d<br \/>\nEle entrevistou Pimentel cinco minutos depois de conhec\u00ea-lo, sem nenhuma prepara\u00e7\u00e3o. \u201cIsso \u00e9 o que o Not\u00edcias tem de mais poderoso, isso foi o que definiu a identidade. Talvez pela primeira vez Pimentel estava falando aquelas coisas, estava se dando conta do que era o Bope. No in\u00edcio da entrevista ele \u00e9 algu\u00e9m que se identifica totalmente com o batalh\u00e3o, durante a conversa parece que o vidro vai se quebrando.\u201d<br \/>\nSobre os filmes brasileiros violentos, o documentarista fala que assim como a infla\u00e7\u00e3o definia o pa\u00eds na d\u00e9cada de 1980, a viol\u00eancia \u00e9 o sintoma mais evidente de tudo o que est\u00e1 errado no Brasil. Ele ressalta que houve um certo descontrole em se tratar desse tema. \u201cSinto falta de um cinema menos explosivo. Tem muita tortura, muito grito, precisava ter mais retic\u00eancias. As diferen\u00e7as nunca s\u00e3o negociadas s\u00e3o sempre solucionadas com o tiro. N\u00e3o se constr\u00f3i um pa\u00eds com as personagens do cinema brasileiro\u201d.<br \/>\n<strong>Jornal J\u00e1<\/strong> &#8211; Quanto tempo demorou para fazer o document\u00e1rio?<br \/>\n<strong>Moreira Salles <\/strong>&#8211; Not\u00edcias foi muito r\u00e1pido. No momento em que a gente pensou em fazer o filme at\u00e9 o primeiro dia de filmagem passaram \u2013 se tr\u00eas, quatro semanas. As filmagens tamb\u00e9m foram em quatro semanas, e a\u00ed houve um per\u00edodo que a gente parou e retornou uns seis meses depois, para fazer tr\u00eas ou quatro seq\u00fc\u00eancias. Foi um dos filmes mais r\u00e1pidos que eu j\u00e1 fiz.<br \/>\n<strong>J\u00e1<\/strong> &#8211; Como foi conhecer uma realidade t\u00e3o diferente da tua? O que mudou na tua percep\u00e7\u00e3o de mundo?<br \/>\n<strong><br \/>\nMoreira Salles <\/strong>&#8211; Sempre muda, n\u00e9. Qualquer experi\u00eancia forte na sua vida muda &#8211; voc\u00ea n\u00e3o sabe exatamente como muda ou o que mudou. Eu sou antes do filme aquele que n\u00e3o conhecia o traficante, a viol\u00eancia, a favela. Depois do filme, eu sou aquele que sabia o que era o traficante, como ele pensava, porque ele fazia o que fazia, porque a favela era t\u00e3o violenta. Agora, no que isso me muda, eu n\u00e3o sei te dizer, mas voc\u00ea adquire mais experi\u00eancias e sempre que voc\u00ea adquire mais experi\u00eancias voc\u00ea fica um pouco mais&#8230;complexo. Sei l\u00e1 se a palavra \u00e9 essa.<br \/>\n<strong>J\u00e1 <\/strong>&#8211; Teve alguma cena, algum momento das filmagens que tenha te chocado mais?<br \/>\n<strong>Moreira Salles<\/strong> &#8211; N\u00e3o, chocado na verdade n\u00e3o. O que me impressionou muito quando eu fiz o filme foi o descaso com a morte, principalmente dos meninos mais jovens do tr\u00e1fico. O descaso com sua pr\u00f3pria morte. Eles sabiam que iam morrer e era do jogo. \u00c9 claro que quando voc\u00ea tem 15, 16 anos voc\u00ea pode at\u00e9 achar que voc\u00ea vai morrer e voc\u00ea n\u00e3o sabe direito o que isso significa, porque \u00e9 uma id\u00e9ia um pouco abstrata, mas ainda assim, eles falavam da morte com uma tal naturalidade: \u201ceu sei que eu n\u00e3o vou viver mais do que cinco ou seis anos\u201d.<br \/>\n<strong>J\u00e1<\/strong> &#8211; Tu achas que a viol\u00eancia constante retratada no cinema brasileiro pode banalizar e naturalizar o problema?<br \/>\n<strong>Moreira Salles<\/strong> &#8211; \u00c9 dif\u00edcil, eu n\u00e3o sei fazer essas grandes generaliza\u00e7\u00f5es. A \u00fanica coisa que eu acho \u00e9 que o cinema brasileiro deveria ser mais plural do que ele tem sido. Se a gente s\u00f3 fizesse cinema sobre rela\u00e7\u00f5es afetivas eu diria a mesma coisa. O problema \u00e9 um tema s\u00f3 dominar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniela de Bem O cinema do Sindicato dos Banc\u00e1rios lotou na noite desta segunda-feira, dia 15. O motivo foi a abertura da Mostra \u201cImagens da Viol\u00eancia\u201d, com a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio Not\u00edcias de uma guerra particular, seguido pelo debate com o diretor Jo\u00e3o Moreira Salles. 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