{"id":53354,"date":"2017-08-12T13:24:43","date_gmt":"2017-08-12T16:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=53354"},"modified":"2017-08-12T13:24:43","modified_gmt":"2017-08-12T16:24:43","slug":"carlos-araujo-e-a-luta-armada-foi-uma-rebeldia-cega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/carlos-araujo-e-a-luta-armada-foi-uma-rebeldia-cega\/","title":{"rendered":"Carlos Ara\u00fajo e a luta armada: &quot;Foi uma rebeldia cega&quot;"},"content":{"rendered":"<p><em>Morreu neste s\u00e1bado, 12\/08, o ex-deputado Carlos Franklin Paix\u00e3o Ara\u00fajo, 79 anos.<\/em><br \/>\n<em>Ara\u00fajo foi um dos fundadores do PDT, partido no qual foi ligado a Leonel Brizola e pelo qual se elegeu deputado estadual por tr\u00eas vezes. Era advogado trabalhista e tinha escrit\u00f3rio em Porto Alegre. Ele deixa uma \u00fanica filha, com a ex-presidente Dilma, Paula Rousseff de Ara\u00fajo.<\/em><br \/>\n<em>Durante da ditadura militar, ele foi militante da organiza\u00e7\u00e3o Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares (Var-Palmares), onde conheceu a ex-presidente Dilma Rousseff, com quem foi casado.<\/em><br \/>\n<em>A Santa Casa de Porto Alegre confirmou o falecimento, na madrugada deste s\u00e1bado. Ele estava internado desde o dia 25, com problemas pulmonares cr\u00f4nicos e uma infec\u00e7\u00e3o das vias a\u00e9reas, na unidade de terapia intensiva do Pavilh\u00e3o Pereira Filho.<\/em><br \/>\n<em>O vel\u00f3rio ser\u00e1 na Assembleia Legislativa, das 15h \u00e0s 21h deste s\u00e1bado. Em seguida, o corpo ser\u00e1 cremado em cerim\u00f4nia privada com a fam\u00edlia.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>A ex-presidente Dilma estava no Rio de Janeiro quando soube da not\u00edcia, mas j\u00e1 retornou para Porto Alegre.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Para lembrar o pensamento e a trajet\u00f3ria de Ara\u00fajo, o J\u00c1 republica a entrevista para a edi\u00e7\u00e3o especial da revista sobre os 50 anos da ditadura de 1964<\/em><br \/>\n<span class=\"assina\">ELMAR BONES<\/span><br \/>\nA esquerda que pegou em armas contra a ditadura de 1964 acreditou que poderia queimar etapas e pular direto para o socialismo. Sem apoio popular, os guerrilheiros ficaram isolados e foram trucidados.<br \/>\nEsta \u00e9 a s\u00edntese que se pode extrair de uma conversa com Carlos Ara\u00fajo sobre esse per\u00edodo de trevas, que a hist\u00f3ria rotulou de Anos de Chumbo (1969\/1975), quando muitas organiza\u00e7\u00f5es pegaram em armas para derrubar o regime militar.<br \/>\nEle tem autoridade para falar. Filho de um advogado comunista, viveu inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia em meio a reuni\u00f5es pol\u00edticas e a conspira\u00e7\u00f5es. Em 1964, estava mergulhado at\u00e9 o pesco\u00e7o nos movimentos sociais que pressionavam o governo Jango por reformas.<br \/>\nCom Francisco Juli\u00e3o, o l\u00edder das Ligas Camponeses, percorreu a Am\u00e9rica Latina, conheceu Fidel Castro e Che Guevara.<br \/>\nFoi preso por alguns meses depois do golpe e voltou \u00e0 ativa, organizando trabalhadores e defendendo sindicatos em Porto Alegre.<br \/>\nDepois do AI-5, convenceu-se de que o caminho para enfrentar a ditadura era a luta armada. Nesse per\u00edodo conheceu e casou com Dilma Rousseff. Preso e torturado, tentou o suic\u00eddio para se livrar dos supl\u00edcios.<br \/>\nAmargou quatro anos de cadeia e, com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, retomou a vida pol\u00edtica, ajudou a fundar o PDT, foi eleito deputado estadual tr\u00eas vezes e foi candidato a prefeito de Porto Alegre, onde vive e, aos 77 anos, ainda cumpre sua rotina de advogado trabalhista.<br \/>\nEle recebeu o rep\u00f3rter duas vezes em sua casa para falar das experi\u00eancias do guerrilheiro Max. O que segue \u00e9 um resumo dessas conversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span class=\"entreperg\">N\u00e3o est\u00e1 na hora de uma autocr\u00edtica sobre a luta armada?<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 importante fazer essa revis\u00e3o. \u00c9 o momento de mexer nisso, mas com muito cuidado, tem muita gente viva e s\u00e3o pessoas corretas, embora equivocadas politicamente.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Foi equ\u00edvoco de quem?<\/span><br \/>\n\u00c9 preciso ver um pouco da forma\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira e latino-americana. At\u00e9 1956, por a\u00ed, rigorosamente a esquerda era s\u00f3 o partido comunista, em v\u00e1rios pa\u00edses. Tinha uma esquerda trotskista, pouco expressiva. O \u201cPartid\u00e3o\u201d era t\u00e3o respeitado socialmente nessa \u00e9poca que o cara que sa\u00eda ou \u201cera sa\u00eddo\u201d ficava malvisto, ficava \u201cqueimado\u201d. Eu pude acompanhar isso tudo, entrei para o partido comunista com 14 anos. Meu pai era comunista e veio para Porto Alegre para ser advogado dos sindicatos. Foi o primeiro advogado no Brasil a defender s\u00f3 trabalhadores.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Nessa \u00e9poca, os comunistas faziam forte oposi\u00e7\u00e3o a Vargas&#8230;<\/span><br \/>\nTotalmente contra. Lembro que fizeram uma reuni\u00e3o do partido na minha casa, de manh\u00e3&#8230; eu estava curando uma pneumonia&#8230; De repente n\u00f3s ouvimos tiros, sa\u00edmos para ver. Era uma multid\u00e3o nas ruas quebrando tudo e partindo pra cima do Ex\u00e9rcito. O Get\u00falio havia se matado&#8230; e n\u00f3s preparando um manifesto contra ele.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Era o 24 de agosto de 1954&#8230;<\/span><br \/>\nA multid\u00e3o, sem ningu\u00e9m que orientasse, foi de jornal em jornal quebrando tudo&#8230; R\u00e1dio Farroupilha, <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>, a imprensa que atacava o Get\u00falio. Eu fui junto, de repente a massa se dirige para a sede da <em>Tribuna Ga\u00facha<\/em>, o jornal do Partid\u00e3o&#8230; A multid\u00e3o foi l\u00e1 e quebrou tudo. Fiquei chocado, louco com aquilo&#8230; algo estava errado! O povo est\u00e1 de um lado e n\u00f3s estamos de outro!<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O povo estava com Vargas&#8230;<\/span><br \/>\nA\u00ed veio o relat\u00f3rio do (Nikita) Kruschev, O <em>Estado de S. Paulo <\/em>publicou na \u00edntegra, num caderno especial. Fomos questionar a dire\u00e7\u00e3o do Partid\u00e3o, na \u00e9poca: o Luiz Carlos Prestes, o Giocondo Dias (que era quem mandava mesmo), o M\u00e1rio Alves, o Jacob Gorender, o Jo\u00e3o Amazonas, o Carlos Marighella, os caciques. O Partid\u00e3o respondeu dizendo que era tudo falso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Coisa da imprensa burguesa&#8230;<\/span><br \/>\nExato. A\u00ed, em 1957, no 5\u00ba Festival da Juventude, em Moscou, quase 40 mil pessoas de v\u00e1rios pa\u00edses, a delega\u00e7\u00e3o brasileira foi com 500 pessoas. L\u00e1, vimos que o pov\u00e3o estava com o Stalin. Custamos a entender esse processo, mas, quando voltamos, fomos questionar a dire\u00e7\u00e3o do partido. Aquilo n\u00e3o era coisa da imprensa burguesa, n\u00f3s vimos l\u00e1 dentro do Kremlin. Houve um debate, acabamos saindo do Partid\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Foi a primeira dissid\u00eancia&#8230;<\/span><br \/>\nFormamos a Associa\u00e7\u00e3o de Estudos e Debates Castro Alves, que reuniu uma gurizada, quase mil jovens. Alugamos uma sala grande na Galeria do Ros\u00e1rio, que estava em constru\u00e7\u00e3o. Foi um per\u00edodo de grande agita\u00e7\u00e3o e iniciativas precursoras. Mas o problema era o seguinte: n\u00e3o tinha pra onde ir, n\u00e3o tinha mais esquerda. N\u00e3o ia aderir aos trotskistas, n\u00e3o ia voltar para o Partid\u00e3o. Ent\u00e3o caiu do c\u00e9u a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Ficamos fidelistas, debraystas. Ent\u00e3o vamos estudar Debray (Regis Debray), a teoria do foco, a guerrilha. \u201cSomos cubanos\u201d. Quando come\u00e7amos a ativar os focos, em Goi\u00e1s e Mato Grosso, o Jango assumiu o governo e com isso desviamos o nosso foco. Como ir\u00edamos fazer guerrilha com o Jango no poder?<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como era a esquerda nesse momento?<\/span><br \/>\nHavia o Partid\u00e3o, com muitas dissid\u00eancias, os trotskistas, o PCdoB e n\u00f3s, os debraystas, os foquistas. Quer dizer, chegamos em 1964 com as esquerdas fragilizadas, divididas, sem base te\u00f3rica, ningu\u00e9m tinha conhecimento, nunca estudaram a hist\u00f3ria dos pa\u00edses. N\u00f3s fomos ser foquistas porque n\u00e3o t\u00ednhamos preparo pol\u00edtico. Se tiv\u00e9ssemos maior preparo te\u00f3rico, conhec\u00eassemos mais o marxismo, n\u00e3o ter\u00edamos seguido esse caminho. A nossa ignor\u00e2ncia, o exemplo de Fidel&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Cuba era o grande exemplo&#8230;<\/span><br \/>\nA Revolu\u00e7\u00e3o Cubana era uma coisa maravilhosa, que emocionava a todos n\u00f3s, na nossa cegueira, parecia o \u00fanico caminho. A luta armada no Brasil \u00e9 produto da rebeldia contra a ditadura, mas uma rebeldia cega, mal direcionada. Hoje eu posso dizer que tenho orgulho de ter feito isso, era jovem, desprendido, fomos para o pau, porque ach\u00e1vamos que t\u00ednhamos que ir, embora estivesse errado em tudo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">N\u00e3o tinham base popular.<\/span><br \/>\nO MDB veio nos mostrar que estavam certos, a realidade mostra isso. Em 1974, com a vit\u00f3ria nas urnas, foi o come\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o, da queda da ditadura. N\u00f3s, da esquerda despreparada, n\u00e3o t\u00ednhamos outro caminho a n\u00e3o ser o esquerdismo, o espontane\u00edsmo. Tinha Cuba, o discurso de Fidel&#8230; a ideia de que se ele fosse brasileiro, a ditadura n\u00e3o duraria um dia a mais no Brasil&#8230; Ora, aquilo para Cuba estava bem, at\u00e9 para a Nicar\u00e1gua foi bom; pro Brasil, n\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O que seria bom para o Brasil?<\/span><br \/>\nA realidade brasileira era uma ditadura violenta e, tentando confront\u00e1-la, uma esquerda muito fr\u00e1gil. Aquilo que o L\u00eanin chamava de a doen\u00e7a infantil do comunismo. Se olhar a hist\u00f3ria da esquerda brasileira, \u00e9 um fracasso completo. O Prestes era uma nulidade pol\u00edtica. Quando ele acertou foi por oportunismo, mas t\u00e3o fugaz que n\u00e3o teve significado nenhum. Foi um cara dedicado, um excepcional estrategista militar, um companheiro brilhante, tudo bem, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria. A trajet\u00f3ria pol\u00edtica real \u00e9 um desastre. Em 1934, Get\u00falio escreveu um bilhete para o Osvaldo Aranha dizendo assim: \u201cOsvaldo, esses comunistas a\u00ed s\u00e3o os nossos principais aliados, pena que eles n\u00e3o sabem, porque s\u00e3o muito ignorantes.\u201d E, realmente, um ano depois tentaram derrubar o Get\u00falio com uma quartelada imbecil.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Tamb\u00e9m um grave erro de avalia\u00e7\u00e3o.<\/span><br \/>\nEnt\u00e3o, a luta armada no Brasil \u00e9 fruto da viol\u00eancia da ditadura e do confronto com a esquerda espontane\u00edsta. S\u00f3 podia dar no que deu, fomos destru\u00eddos. Quando a ditadura brasileira apertou, em dois anos liquidou com a luta armada. O problema \u00e9 que n\u00e3o reconhec\u00edamos nossa fragilidade. D\u00e1 para contar detalhadamente sobre essa fragilidade, onde ela se revelava. N\u00e3o agora, talvez&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Se revelava nos rachas&#8230;<\/span><br \/>\nE na cadeia&#8230; a\u00ed a coisa se revelou da forma mais grotesca, violenta poss\u00edvel, nada \u00e9tico, nada moral. Porque tu t\u00e1 fechado numa sala e vem todo o \u00f3dio pra cima de ti, 24 horas por dia. Eu estive num cadei\u00e3o, com 700, 800 presos. O pau quebrava, viol\u00eancia total.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Qual \u00e9 a conclus\u00e3o?<\/span><br \/>\nN\u00f3s temos que nos orgulhar por termos ido \u00e0 luta, desprendidos, alguns perderam suas vidas, mas isso \u00e9 insuficiente para a vit\u00f3ria. Isso pode ensinar um comportamento, a viver no perigo, mas n\u00e3o ilumina ningu\u00e9m teoricamente e n\u00e3o faz que entenda a realidade. Claro, discutir isso mais detalhadamente \u00e9 importante, mas vai atingir pessoas que est\u00e3o a\u00ed, algumas influentes na sociedade, pessoas honestas&#8230; E alguns n\u00e3o ir\u00e3o admitir essas coisas, seus comportamentos na cadeia, \u00e9 compreens\u00edvel&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Foste preso em S\u00e3o Paulo?<\/span><br \/>\nFiquei dois anos preso em S\u00e3o Paulo e fui transferido para Porto Alegre, na Ilha do Pres\u00eddio. Aquilo era antiga Casa da P\u00f3lvora, paredes de pedra bruta, quase um metro, e s\u00f3 tinha uma entrada. L\u00e1 dentro botaram um assoalho, e dividiram em celas, abertas, tinha uns 50 presos ali. A\u00ed institu\u00edmos uma rotina de estudos, criamos a Associa\u00e7\u00e3o de Presos da Ilha do Pres\u00eddio, tiramos CNPJ, e at\u00e9 ganhamos uma licita\u00e7\u00e3o da Brigada Militar para fazer cintur\u00e3o, coldre e outras coisas de couro. Produz\u00edamos muita bolsa de couro, era moda, e os familiares vendiam pra n\u00f3s no Centro. De manh\u00e3 n\u00f3s estud\u00e1vamos. Ali na ilha eu fiquei pouco tempo, seis meses, depois fomos levados para o Pres\u00eddio Central. Na verdade eu e um companheiro, o El\u00f3i Martins, est\u00e1vamos marcados para morrer, mas consegui avisar meu pai na noite em que iam nos levar&#8230; ele botou a boca no trombone e o plano furou.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Houve tortura no in\u00edcio?<\/span><br \/>\nNo in\u00edcio, l\u00e1 em S\u00e3o Paulo, me bateram muito, apanhava at\u00e9 desmaiar. Tanto que decidi me matar, inventei que tinha um ponto com o Lamarca (o que eles mais queriam) e quando cheguei na rua me atirei embaixo de uma Kombi. Fui pro hospital todo quebrado, fiquei nove dias, quiseram me torturar no hospital, mas uma freira impediu.<br \/>\n<strong>Por que n\u00e3o houve, at\u00e9 hoje, uma autocr\u00edtica sobre a luta armada?<\/strong><br \/>\nPorque n\u00f3s n\u00e3o somos uma esquerda evolu\u00edda, embora tenhamos melhorado bastante em alguns aspectos. E tamb\u00e9m porque uma autocr\u00edtica mais profunda envolve refer\u00eancia a pessoas e muitas est\u00e3o a\u00ed vivas. N\u00e3o querem se envolver mais com isso. H\u00e1 um infantilismo pol\u00edtico tamb\u00e9m, mas falta distanciamento hist\u00f3rico.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por que havia tantos rachas?<\/span><br \/>\nTodos tinham como metas a revolu\u00e7\u00e3o socialista, a diverg\u00eancia era na t\u00e1tica. Os grupos tinham muitos militares, que n\u00e3o viam motivo para se fazer um trabalho urbano, de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Eles nos viam como bundas-moles, que queriam ficar na cidade, em vez de ir pra Serra. \u201cEm vez de comprar arma tu quer editar jornalzinho\u201d. A\u00ed come\u00e7avam os rolos intermin\u00e1veis.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Outra fragilidade era a falta de apoio da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><br \/>\nSim. As a\u00e7\u00f5es nas cidades eram complicadas por isso. Por exemplo: a gente pegava um caminh\u00e3o de carne e levava l\u00e1 pro morro e distribu\u00eda com panfletos&#8230; ningu\u00e9m queria saber, s\u00f3 queriam pegar a carne. Abr\u00edamos um supermercado pra quem quisesse pegar qualquer coisa, ningu\u00e9m parava para nos ouvir, pegavam qualquer produto e sa\u00edam correndo. N\u00f3s fomos assaltar um banco e fizemos discurso em frente ao banco&#8230; ningu\u00e9m parava para nos ouvir. Tinham medo, queriam que aquele assalto acabasse logo. Uma a\u00e7\u00e3o desastrosa podia ferir, matar algu\u00e9m.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Faltou a base popular, da qual a esquerda tanto fala&#8230;<\/span><br \/>\nA gente n\u00e3o fala muito disso porque \u00e9 hil\u00e1rio, o esquerdismo \u00e9 hil\u00e1rio. Ent\u00e3o a gente tem que ter essa compreens\u00e3o. O povo desconhecia a nossa exist\u00eancia e, quando conhecia, ficava contra. Porque n\u00f3s est\u00e1vamos fora da realidade.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Qual era a dimens\u00e3o desses grupos no in\u00edcio?<\/span><br \/>\nAqui n\u00f3s t\u00ednhamos um grupo com muita gente, uns 200 caras organizados, discutindo e fazendo trabalho de base. A\u00ed come\u00e7amos ver a\u00e7\u00f5es em quart\u00e9is, em bancos. E marcamos uma reuni\u00e3o com a turma do Colina, no Rio. Fui \u00e0 reuni\u00e3o,\u00a0 conheci a Dilma l\u00e1. \u200bDepois fizemos uma reuni\u00e3o com a Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR) e decidimos que o nome seria Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares. A\u00ed fomos para outra reuni\u00e3o em S\u00e3o Paulo e depois um encontro, grande e demorado, em Teres\u00f3polis. Todo mundo com uma metralhadora na m\u00e3o. As diverg\u00eancias eram muitas e houve momentos de grande tens\u00e3o. A\u00ed rachou, alguns dos nossos apoiaram a VPR, militarista, e alguns dos deles ficaram ao nosso lado, os \u201cmassistas\u201d. E n\u00f3s ficamos s\u00f3 como VAR Palmares. N\u00e3o chegamos a fundir com a VPR, cada um foi para um lado.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O cofre do Ademar de Barros foi depois disso?<\/span><br \/>\nA a\u00e7\u00e3o no cofre do Ademar foi da VAR Palmares e tinha dois caras da VPR, convidados por n\u00f3s a participar. A VPR tinha as armas, e n\u00f3s t\u00ednhamos o dinheiro. A tentativa de fus\u00e3o fracassou, mas VAR continuou, a VPR tamb\u00e9m, at\u00e9 matarem todos. Lamarca foi o \u00faltimo, era um socialista espont\u00e2neo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Havia romantismo?<\/span><br \/>\nHavia. A Beth Mendes era da VAR. Tinha 18 anos, queria coordenar uma a\u00e7\u00e3o. Fez todo o planejamento de uma a\u00e7\u00e3o na casa de um colecionador de armas e foi. Ela fez todo o levantamento. Ela era a artista mais famosa daquela \u00e9poca. O principal assessor dela nessa a\u00e7\u00e3o foi o P\u00e9rsio Arida&#8230; e o Pedro Farkas.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">Get\u00falio deu o rumo [da aglutina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais]. Ele foi um fen\u00f4meno. Eu, que pretendo ser marxista, tenho que admirar Get\u00falio <\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Havia tamb\u00e9m um ambiente&#8230;<\/span><br \/>\nNesse per\u00edodo havia a m\u00edstica das revolu\u00e7\u00f5es. Havia um ambiente internacional, as esquerdas todas queriam saber o que fazer. Cuba, Nicar\u00e1gua, Vietn\u00e3, na Fran\u00e7a, em 68. Uma conjuntura internacional em ebuli\u00e7\u00e3o. \u200b\u200bO movimento social que havia no Brasil era trabalhismo, onde estavam os oper\u00e1rios, os sindicatos. A direita dizia que eram pelegos, porque apoiavam o governo getulista, e a esquerda entrou nesse papo, mas como fazer o Prestes entender isso? O Get\u00falio ofereceu ao Prestes o comando militar na Revolu\u00e7\u00e3o de 30. Se o cara fosse um marxista ele tinha que aceitar na hora. Os dois eram amigos e o Prestes n\u00e3o quis papo. Em 32, o Get\u00falio mandou chamar o Prestes, ele recusou&#8230; H\u00e1 pouco, fui convidado para uma palestra na USP. Estou pensando em falar sobre o Get\u00falio Vargas. Era Vargas um marxista?<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Era?<\/span><br \/>\nTalvez. As provas dele na Faculdade de direito est\u00e3o a\u00ed, todas, inteirinhas. Na prova de Economia Pol\u00edtica, de 1903, Get\u00falio, com 21 anos, escreveu: \u201cMinhas refer\u00eancias filos\u00f3ficas e pol\u00edticas s\u00e3o Saint Simon, Herbert Spencer e Karl Marx\u201d. Ainda estou pesquisando, mas acho que ele conhecia bem o Marx. No primeiro discurso dele \u00e0 na\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, ele diz o seguinte: \u201cMeu governo ter\u00e1 por fundamento uma democracia social, uma democracia econ\u00f4mica e uma democracia pol\u00edtica. O Estado ser\u00e1 o indutor do desenvolvimento. Agora, as r\u00e9deas do processo estar\u00e3o nas m\u00e3os firmes das for\u00e7as sociais\u201d. Ele disse isso, e omitiu a palavra \u201cproletariado\u201d, mas depois ele falava direto a palavra \u201cproletariado\u201d. O governo Lula tinha isso intuitivo. O Lula come\u00e7ou a ler Get\u00falio, os livros do Lira Neto, e ficou louco, se apaixonou.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O golpe de 64 dizia-se contra o comunismo. Na verdade, era contra os avan\u00e7os do trabalhismo.<\/span><br \/>\nClaro. O Get\u00falio era um homem muito consciente. Quando tomou o poder em 30, ele tinha em mente uma pergunta: como vai se construir o capitalismo brasileiro? E ele respondeu no primeiro pronunciamento \u00e0 na\u00e7\u00e3o: \u201cNo meu governo, haver\u00e1 por fundamento uma democracia social, uma democracia pol\u00edtica e uma democracia econ\u00f4mica. O Estado ser\u00e1 indutor do desenvolvimento e as r\u00e9deas do processo estar\u00e3o nas m\u00e3os firmes das for\u00e7as sociais\u201d.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">N\u00e3o h\u00e1 um certo \u2018comtismo\u2019 nessa postula\u00e7\u00e3o?<\/span><br \/>\nPode ser, mas nessa \u00e9poca, o Get\u00falio j\u00e1 havia superado o comtismo. Acho que t\u00eam outras coisas no meio disso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Estado como o \u201cconciliador das classes\u201d&#8230;<\/span><br \/>\nEle apostava nisso. Mas o Get\u00falio rompeu com o comtismo em 1925, 1926. Quando ele criou o Banrisul, em 1928, ele rompeu por completo, porque os comtistas jamais imaginaram que o Estado tivesse um banco. As elites paulistas e mineiras diziam que as tais \u201cfor\u00e7as sociais\u201d n\u00e3o teriam, de forma alguma, condi\u00e7\u00f5es de conduzir, o processo. S\u00f3 o capital internacional, que tem experi\u00eancia e grana. O embate \u00e9 o mesmo at\u00e9 hoje, s\u00f3 o n\u00edvel um pouco diferente. Isso foi o que derrubou o Get\u00falio, em 45. Depois, o levaram \u00e0 morte em 54, e depois derrubaram o Jango. E levaram o Lula a enfrentar quatro elei\u00e7\u00f5es at\u00e9 ser presidente. Porque, de certa forma, o governo Lula deu continuidade \u00e0quilo l\u00e1.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">O Brizola j\u00e1 dizia que, na Am\u00e9rica Latina, a social-democracia \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso mesmo <\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A linha trabalhista, nesse sentido de aglutinar as for\u00e7as sociais, \u00e9 a mesma?<\/span><br \/>\nSem d\u00favida nenhuma. Get\u00falio deu o rumo. Ele foi um fen\u00f4meno. Veja o seguinte: em 1866, veio a primeira elei\u00e7\u00e3o na Inglaterra, o ingl\u00eas n\u00e3o sabia o que era voto. Sabiam o que era rei. Dois candidatos: um representante do capitalismo que estava nascendo e, o outro, do feudalismo que estava morrendo. O Marx era presidente da 1\u00aa Internacional dos Trabalhadores. Os jornais fizeram a pergunta: em quem os trabalhadores devem votar? O capitalismo na \u00e9poca era aquele neg\u00f3cio terr\u00edvel das pessoas trabalhando horas e horas sem descanso semanal, crian\u00e7as trabalhando durante horas, morrendo. O Marx reponde: os trabalhadores devem votar no capitalista, porque \u00e9 a nova sociedade, que vai trazer progresso, um passo adiante daquela que est\u00e1 morrendo, vai criar uma classe oper\u00e1ria forte, a\u00ed depois essa classe saber\u00e1 conduzir uma nova sociedade.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Os marxistas, de modo geral, sempre foram hostis a Vargas&#8230;<\/span><br \/>\nSim, porque eles n\u00e3o eram marxistas, achavam que eram. Achavam&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Voltando \u00e0 ditadura de 1964, o Pa\u00eds ainda se ressente daqueles 21 anos, n\u00e3o?<\/span><br \/>\nUm dos piores legados da ditadura foi acabar com a vida pol\u00edtica estudantil. Uma gera\u00e7\u00e3o inteira n\u00e3o fez pol\u00edtica. H\u00e1 uma retomada agora, mas \u00e9 muito dif\u00edcil. Eu dou palestras em col\u00e9gios, e noto que querem aprender a fazer pol\u00edtica. Eu digo que, com a idade deles, eu j\u00e1 participava de gr\u00eamio estudantil, a escola nos obrigava a ter um pensamento pol\u00edtico. Uma menina de 17 anos me perguntou o que meus pais diziam de tudo aquilo que n\u00f3s faz\u00edamos.Isso mostra certa ingenuidade.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O decreto 477 foi para acabar com o movimento estudantil.<\/span><br \/>\nAquilo foi um atraso significativo para o Brasil. E est\u00e1 ligado ao atraso tecnol\u00f3gico, porque nossos principais cientistas foram estudar fora do Pa\u00eds. \u00c9 um milagre que a Embrapa tenha sobrevivido. O descaso com o conhecimento e a tecnologia foi um crime do regime militar quase t\u00e3o grave como o que aconteceu no campo pol\u00edtico. Ficamos para tr\u00e1s. Ainda hoje estamos longe de recuperar o terreno.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Queria retomar&#8230; \u00e0s primeiras tentativas de resist\u00eancia&#8230;<\/span><br \/>\nEu comecei a participar de 1966 pra frente. Eu fazia movimento oper\u00e1rio, clandestino. Sem partido. S\u00f3 organizando o movimento oper\u00e1rio. Fizemos a primeira greve na ditadura. E n\u00f3s t\u00ednhamos um grupo forte em Porto Alegre, com pessoal das f\u00e1bricas, tinha oper\u00e1rios, estudantes e muitos seminaristas de Viam\u00e3o. T\u00ednhamos jornal e tudo, e daqui a pouco come\u00e7amos a ver pelo Brasil muitas organiza\u00e7\u00f5es armadas, em Minas, S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Voc\u00eas tinham contato com eles?<\/span><br \/>\nFizemos contato com o pessoal da organiza\u00e7\u00e3o Colina, de Belo Horizonte, e fomos num encontro em janeiro de 69, teve um encontro no Rio, nos identificamos com eles, mas j\u00e1 estavam muito fragilizados, muitos presos, at\u00e9 mortos, mas tinha muita gente de v\u00e1rias partes do Pa\u00eds, Pernambuco, Bahia, S\u00e3o Paulo, Rio. Fizemos uma reuni\u00e3o e decidimos juntar todo mundo. Num encontro l\u00e1 na serra no Rio de Janeiro.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E a aproxima\u00e7\u00e3o com a VPR?<\/span><br \/>\nNessa mesma \u00e9poca, a VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria) do Lamarca nos contatou para ver se contava com a gente. Marcamos um encontro em S\u00e3o Paulo e fomos, sete companheiros nossos e sete deles. Parte deles se identificavam com a posi\u00e7\u00e3o minha e da Dilma, de dar \u00eanfase ao trabalho de base, de organiza\u00e7\u00e3o. Parte do nosso grupo se identificava com os outros da VPR, militaristas. E a\u00ed decidimos uma fus\u00e3o. E, marcamos uma reuni\u00e3o em Teres\u00f3polis, reunimos, numa casa, 50 pessoas, era democr\u00e1tico, cada estado vinha com uma representa\u00e7\u00e3o. Havia muitas diverg\u00eancias e ningu\u00e9m queria abrir m\u00e3o de nada. Uns eram militaristas, queriam fazer foco, enquanto outros queriam ficar no trabalho pol\u00edtico, nos sindicatos, nos bairros. Metade de um grupo apoiava a metade do outro, era uma confus\u00e3o geral.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Jo\u00e3o Goulart?<\/span><br \/>\nAcho que o Jango foi prisioneiro do Partido Comunista, que teve muita influ\u00eancia. Porque o Jango era um progressista, era preparado para aquilo l\u00e1, mas quem o apoiava? Ele coloca ao seu lado o Partid\u00e3o, n\u00e3o tinha outro, e o Partid\u00e3o, muito equivocado sempre, come\u00e7ou a cometer mais equ\u00edvocos.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">O Jango era um l\u00edder preparado, mas ele ficou isolado. Tentou se apoiar no Partido Comunista, mas o partido sempre equivocado s\u00f3 piorou as coisas <\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quais os equ\u00edvocos?<\/span><br \/>\nO principal deles: n\u00e3o ter organizado uma resist\u00eancia ao golpe. N\u00e3o houve rea\u00e7\u00e3o ao golpe. Por exemplo, o Darcy Ribeiro, um homem preparado, um homem excepcional, mas n\u00e3o para fazer pol\u00edtica. O general Assis Brasil, comandante, mas pol\u00edtica zero. Ent\u00e3o, quem restava ali?<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Almino Afonso?<\/span><br \/>\nEu convivi com o Almino, n\u00f3s somos muito amigos, ele acabava se consumindo, era indispens\u00e1vel. Um grande orador, um grande articulador, mas era uma batalha dia a dia ali no Congresso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Jango estava sozinho.<\/span><br \/>\nO Jango era um g\u00eanio. A precocidade do Jango era inacredit\u00e1vel. Mas, era solit\u00e1rio. O Get\u00falio tamb\u00e9m, s\u00f3 teve o Osvaldo Aranha para falar. Faltou um Osvaldo Aranha para o Jango. Em 34, o Get\u00falio diz para o Osvaldo Aranha: \u201cOsvaldo, esses comunistas a\u00ed s\u00e3o nossos principais aliados, pena que nem sabem porque, s\u00e3o muito ignorantes\u201d. O que \u00e9 o PT hoje, o Lula, a Dilma, a hegemonia das for\u00e7as sociais, est\u00e1 \u00f3bvio. N\u00f3s estamos discutindo o desenvolvimento capitalista, n\u00e3o outra coisa. At\u00e9 porque o socialismo vem depois do capitalismo, n\u00f3s temos que entender isso, que o socialismo vem para dividir fartura, n\u00e3o mis\u00e9ria.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 outra?<\/span><br \/>\nS\u00f3 vontade de fazer n\u00e3o basta. Hoje est\u00e1 colocado na ordem do dia desenvolver o capitalismo. O Brizola dizia: a social democracia na Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o, vamos tirar milh\u00f5es de companheiros nossos da mis\u00e9ria. Isso vai criar outra coisa e n\u00e3o sabemos o que vai vir atr\u00e1s disso a\u00ed. \u00c9 verdade. Aqui a social democracia \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o? Como tiramos 30 milh\u00f5es da mis\u00e9ria? Isso n\u00e3o \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o? Claro que \u00e9. S\u00f3 aqui no Brasil que a m\u00eddia diz que n\u00e3o \u00e9. Em qualquer parte do mundo consideram uma revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"olho\">Cadeia n\u00e3o \u00e9 bom para ningu\u00e9m, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos l\u00e1 e foi onde pude estudar<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A revolu\u00e7\u00e3o armada&#8230;<\/span><br \/>\nEra um voluntarismo. Mas h\u00e1 um aspecto interessante: n\u00f3s fomos derrotados, dizimados, nos deram um tapa e nos derrubaram, mas sentimos orgulho daquilo que fizemos. Mesmo porque foi um baita equ\u00edvoco nosso, a luta militarizada. Mas n\u00f3s tomamos uma atitude, errada, mas&#8230; Pra mim, quem estava certo era o MDB que foi para a elei\u00e7\u00e3o em 74 e com voto e voto deu aquela vit\u00f3ria esplendorosa. Eles mostraram que estavam certos e n\u00f3s errados. Pra n\u00f3s, que sobrevivemos, foi uma li\u00e7\u00e3o muito forte.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A um custo alto&#8230;<\/span><br \/>\nTem outros aspectos que a gente n\u00e3o fala, porque n\u00e3o d\u00e1 clima, cadeia n\u00e3o \u00e9 bom para ningu\u00e9m, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos l\u00e1 e foi onde pude estudar e ler pra valer, estudava 10, 12 horas por dia, um neg\u00f3cio sistem\u00e1tico. Claro que tirando a fase da tortura, mas depois que voc\u00ea vai para o pres\u00eddio e fica ali estudando, a\u00ed a gente n\u00e3o fala isso porque pode ser mal compreendido. Sei que hoje est\u00e1 meio cedo para falar isso tudo. \u00c9 que voc\u00ea tem que tirar coisas boas das situa\u00e7\u00f5es ruins e entender que nada \u00e9 t\u00e3o bom assim, sempre tem um lado ruim tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu neste s\u00e1bado, 12\/08, o ex-deputado Carlos Franklin Paix\u00e3o Ara\u00fajo, 79 anos. 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