{"id":5351,"date":"2009-06-29T15:30:38","date_gmt":"2009-06-29T18:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=5351"},"modified":"2009-06-29T15:30:38","modified_gmt":"2009-06-29T18:30:38","slug":"seu-beto-leva-a-casa-nas-costas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/seu-beto-leva-a-casa-nas-costas\/","title":{"rendered":"Seu Beto leva a casa nas costas"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Bruno Cobalchini Mattos<\/span><br \/>\nGilberto Mendes, 50, \u00e9 um senhor bem alinhado. Faz a barba toda semana, e sua camisa nunca est\u00e1 amassada ou para fora das cal\u00e7as. Para se proteger do frio, veste um casaco de couro que se estende at\u00e9 as canelas. A \u00fanica coisa que parece destoar de seu traje \u00e9 o bon\u00e9 preto que leva na cabe\u00e7a. Quem o v\u00ea em uma esquina do bairro Santana fumando cigarro de palha dificilmente imagina que ele dorme ali mesmo, naquela cal\u00e7ada.<br \/>\nNascido em Bag\u00e9, Gilberto mora em Porto Alegre desde os dois anos de idade. Fala devagar, tem bom vocabul\u00e1rio e se articula com facilidade. Diz que j\u00e1 fez muita coisa nessa vida. Vendeu quindim, fez chapea\u00e7\u00e3o numa oficina, fabricou cocada, teve um restaurante e foi propriet\u00e1rio de quatro caminh\u00f5es de mudan\u00e7a.<br \/>\nEle se emociona ao lembrar do passado. Cego de um olho devido a um acidente de carro, n\u00e3o consegue segurar as l\u00e1grimas. Hoje em dia, s\u00f3 tem um carrinho com o qual recolhe papel\u00e3o e faz alguns fretes. A pequena carro\u00e7a, que diz ter feito com as t\u00e9cnicas que aprendeu na oficina, tem um colch\u00e3o no fundo e tamb\u00e9m serve de cama.<br \/>\nEu quis saber como ele foi parar na rua. \u201cIsso a\u00ed daria um livro\u201d, ele responde. Insisto, mas n\u00e3o adianta. \u201cA minha hist\u00f3ria n\u00e3o faz bem pras pessoas\u201d, continua. \u201cEu conto um pouco pro pessoal aqui da rua e eles j\u00e1 ficam arrasados. Se tu n\u00e3o tem preparo psicol\u00f3gico, tu vai pra casa e fica pensando nisso, e o meu problema passa pra ti tamb\u00e9m. Ent\u00e3o acho melhor que as pessoas n\u00e3o saibam mesmo. Mas uma coisa eu te digo: o olho que os outros p\u00f5em pode estragar a tua vida\u201d.<br \/>\nPor causa da idade e do porte f\u00edsico (Gilberto \u00e9 baixo, magro e pouco corpulento), ele s\u00f3 recolhe lixo nas redondezas. Ganha muito pouco com o trabalho de catador. \u201cHoje consegui tirar uns tr\u00eas e pouco. Isso n\u00e3o d\u00e1 pra quase nada\u201d. Os moradores da vizinhan\u00e7a ajudam com comida, mas mesmo assim n\u00e3o sobra.<br \/>\n\u201cEsses tempos ofereceram pra comprar o meu carrinho, mas n\u00e3o adianta, se eu vender ele eu vou dormir aonde, no ch\u00e3o? Da\u00ed eu viro mendigo, e isso eu n\u00e3o quero. Eu n\u00e3o sou mendigo, eu sou reciclador. Tu logo v\u00ea que n\u00e3o sou um papeleiro normal. Eu sou de levantar a classe pra cima\u201d, diz.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-14711\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/A-casa-de-Seu-Beto-1024x7681.jpg\" alt=\"A-casa-de-Seu-Beto-1024x768\" width=\"700\" height=\"525\" \/><br \/>\nE \u00e9 bom de papo, o Seu Beto. Ele conta que certa noite um morador de rua passou por ali e pediu uma corda emprestada. O homem queria se enforcar em uma \u00e1rvore. Beto e outro morador de rua se sentaram com ele, e os tr\u00eas passaram a madrugada inteira conversando. Quando o sol saiu pela manh\u00e3, o homem se levantou, agradeceu e foi embora. Tinha desistido do suic\u00eddio.<br \/>\nAl\u00e9m dos cigarros de palha, o \u00fanico v\u00edcio de Beto \u00e9 a cacha\u00e7a, que ele diz tomar para criar coragem: \u201cse tu t\u00e1 na rua de noite, tem que se cuidar da surpresa. Uma vez eu n\u00e3o tomei cacha\u00e7a antes de dormir e acordei de madrugada tremendo. Mas n\u00e3o era por causa da cacha\u00e7a \u2013 era de medo. Ent\u00e3o eu bebo pra ter coragem de brigar quando precisa\u201d.<br \/>\nConta que, antes de morar na rua, s\u00f3 bebia cerveja, e socialmente. Mudou para a cacha\u00e7a por causa do pre\u00e7o. E jura que n\u00e3o usa mais nada. \u201cA \u00fanica droga que eu j\u00e1 usei foi maconha, quando tinha 27 anos. Mas eu parei aos 30, porque aquela vida n\u00e3o era pra mim\u201d.<br \/>\nUma das maiores dificuldades de Seu Beto \u00e9 encontrar distra\u00e7\u00e3o no seu tempo livre. Mas isso deve mudar. Alguns dias atr\u00e1s ele encontrou um radinho no lixo, funcionando e com pilhas. Podendo ouvir as not\u00edcias, ele acha que as coisas v\u00e3o ficar mais f\u00e1ceis. \u201cSe n\u00e3o eu fico aqui s\u00f3 pensando. Pensando num jeito de sair da rua, em como que eu vou resolver esse quebra-cabe\u00e7a. E da\u00ed eu fico muito triste. J\u00e1 tive depress\u00e3o duas vezes por causa disso. A coisa \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d.<br \/>\nE ele quer ser tirado da rua? Pouco tempo atr\u00e1s, um velho amigo passou ali e levou Beto para casa. Deixou ele tomar banho e lavar suas roupas. Prometeu que arranjava trabalho pra ele numa oficina de chapea\u00e7\u00e3o. Mas com uma condi\u00e7\u00e3o: tinha que largar a cacha\u00e7a. Beto n\u00e3o quis. \u201cQuando tu toma uma garrafa inteira todo dia, tu n\u00e3o consegue parar assim. Tem que ser aos pouquinhos\u201d, diz. Ele considera o amigo bem intencionado, mas reclama da opress\u00e3o. \u201cN\u00e3o adianta me obrigar a fazer as coisas. Eu n\u00e3o sou comprado por comida \u2013 s\u00f3 pela boa conversa\u201d.<br \/>\nPergunto para ele o que pretende fazer agora. \u201cEu vou dar um jeito de sair daqui, mas antes eu preciso ajeitar as coisas comigo. O pessoal da igreja tamb\u00e9m ofereceu ajuda, mas ainda n\u00e3o d\u00e1. O meu mundo quem faz sou eu. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o acredite em Jesus. Eu acredito. Mas enquanto eu n\u00e3o tiver bem comigo mesmo, ningu\u00e9m vai poder me ajudar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Cobalchini Mattos Gilberto Mendes, 50, \u00e9 um senhor bem alinhado. Faz a barba toda semana, e sua camisa nunca est\u00e1 amassada ou para fora das cal\u00e7as. Para se proteger do frio, veste um casaco de couro que se estende at\u00e9 as canelas. 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