{"id":5462,"date":"2009-07-07T15:14:23","date_gmt":"2009-07-07T18:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=5462"},"modified":"2009-07-07T15:14:23","modified_gmt":"2009-07-07T18:14:23","slug":"o-lado-politico-do-codigo-um-passeio-pelas-ideias-no-fisl-forum-internacional-do-software-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-lado-politico-do-codigo-um-passeio-pelas-ideias-no-fisl-forum-internacional-do-software-livre\/","title":{"rendered":"O lado pol\u00edtico do c\u00f3digo &#8211; Um passeio pelas ideias no FISL \u2013 F\u00f3rum Internacional do Software Livre"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong>Carolina Maia de Aguiar<\/strong>, especial para o <strong>Jornal J\u00e1<\/strong><br \/>\nEntre 23 e 27 de junho, milhares de programadores, defensores da cultura livre, nerds e curiosos circularam pelo Pr\u00e9dio 40 da PUC, onde ocorreu o 10 F\u00f3rum Internacional do Software Livre \u2013 FISL. Embora essa edi\u00e7\u00e3o tenha parecido menor do que as anteriores, realizados na FIERGS, a organiza\u00e7\u00e3o do evento comemorou o recorde de p\u00fablico.<br \/>\nOs mais de 8 mil participantes inscritos inclu\u00edam expositores e visitantes, que passeavam pelos estandes em busca de informa\u00e7\u00f5es, contatos, CDs de software e outros brindes. A programa\u00e7\u00e3o do FISL tamb\u00e9m incluiu palestras de ativistas da liberdade na rede, como o sueco Peter Sunde, criador do site de compartilhamento de arquivos The Pirate Bay, e o norte-americano Richard Stallman, um dos fundadores do movimento software livre.<br \/>\n<strong><br \/>\nO conceito de liberdade<\/strong><br \/>\nA principal diferen\u00e7a entre o modelo livre de software e o modelo propriet\u00e1rio est\u00e1 na ideologia de desenvolvimento e distribui\u00e7\u00e3o. Sistemas propriet\u00e1rios, como o Windows e muitos de seus programas, t\u00eam seu uso restrito: o usu\u00e1rio n\u00e3o adquire o programa, mas uma licen\u00e7a de utiliza\u00e7\u00e3o em um n\u00famero limitado de computadores. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 permitida nenhuma altera\u00e7\u00e3o no funcionamento do sistema.<br \/>\nPara ser considerado livre, um software precisa garantir quatro liberdades: o usu\u00e1rio deve poder usar, estudar, redistribuir e modificar o software. Para permitir o estudo, o acesso ao c\u00f3digo-fonte (os processos que determinam o funcionamento do programa) tamb\u00e9m deve ser livre. Da\u00ed o outro nome pelo qual esse modelo de distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecido: open source, ou \u201cc\u00f3digo aberto\u201d.<br \/>\nA \u00fanica restri\u00e7\u00e3o prevista est\u00e1 na forma de distribui\u00e7\u00e3o: uma vez livre, o programa ou seu c\u00f3digo (e todos os trabalhos desenvolvidos a partir dele) n\u00e3o podem ser tornados propriet\u00e1rios. A explica\u00e7\u00e3o para isso remonta aos prim\u00f3rdios do movimento, nos anos 80.<br \/>\nO f\u00edsico e programador Richard Stallman havia criado o sistema operacional aberto Unix, que foi utilizado como base para um projeto da operadora de telefonia norte-americana AT&amp;T. Como a empresa n\u00e3o lhe permitiu acesso ao c\u00f3digo desse novo sistema, Stallman partiu para o desenvolvimento de outro: o GNU, um dos componentes do sistema operacional popularmente conhecido como Linux.<br \/>\nPara garantir que todos os projetos que surgissem a partir de c\u00f3digos livres fossem disponibilizados da mesma maneira, Stallman tamb\u00e9m criou a GPL, a Licen\u00e7a P\u00fablica Geral do GNU. Essa licen\u00e7a \u00e9 a mais utilizada  pelos programas livres.<br \/>\n<strong>A liberdade \u00e9 pol\u00edtica<\/strong><br \/>\nQuando se fala sobre software livre em portugu\u00eas, n\u00e3o h\u00e1 mal-entendidos: \u201clivre\u201d remonta diretamente \u00e0 ideia de liberdade. Em ingl\u00eas, no entanto, a palavra \u201cfree\u201d, utilizada por Stallman e sua organiza\u00e7\u00e3o, a Free Software Foundation, pode significar tanto \u201clivre\u201d quanto \u201cgratuito\u201d. Para afastar a d\u00favida, o fundador do movimento recomenda: pense em free speech (liberdade de express\u00e3o), n\u00e3o em free beer (cerveja gr\u00e1tis).<br \/>\nA politiza\u00e7\u00e3o pode explicar a repercuss\u00e3o, entre os participantes, da  rela\u00e7\u00e3o de alguns pol\u00edticos com o FISL. Yeda Crusius, por exemplo, n\u00e3o compareceu ao evento, mesmo tendo confirmado o compromisso em sua agenda oficial. A aus\u00eancia da governadora no evento n\u00e3o foi o suficiente para impedir os protestos do p\u00fablico. O presidente da Procergs, representando o governo, recebeu as vaias em nome de Yeda. Em mar\u00e7o desse ano, foi anunciada uma parceria entre o Estado e a Microsoft, para o desenvolvimento de um sistema operacional voltado para a educa\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o coordenador do FISL, Marcelo Branco, disse que o contrato era vergonhoso.<br \/>\nPela primeira vez, um presidente da Rep\u00fablica compareceu ao evento. A megaopera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a da comitiva presidencial n\u00e3o foi bem vista pela maioria dos participantes, pois limitou o acesso aos estandes durante toda a tarde do dia 26. Al\u00e9m dos portadores de uma credencial fornecida pela Presid\u00eancia, somente 300 pessoas puderam circular pela \u00e1rea restrita.<br \/>\n\u201cO que me incomoda n\u00e3o \u00e9 tanto a presen\u00e7a do Lula, mas a minha aus\u00eancia l\u00e1 dentro\u201d, complementou Rafael Salvatori, desenvolvedor web, apontando para o seu estande. Henrique Pereira, estudante de sistemas de informa\u00e7\u00e3o da Unifra, tamb\u00e9m descontente, tentava puxar um canto de protesto: \u201cLula, cad\u00ea voc\u00ea? Vai embora, pro FISL acontecer!\u201d<br \/>\nQuando o presidente chegou, n\u00e3o se ouviu canto nenhum. O FISL \u00e9 patrocinado majoritariamente pelo governo federal, e a organiza\u00e7\u00e3o do evento comemorou a visita. Em seu discurso, Lula defendeu a liberdade, declarando-se contr\u00e1rio a um dos projetos mais combatidos pelos presentes no F\u00f3rum: o projeto de lei de cibercrimes do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).<br \/>\nA \u201cLei Azeredo\u201d, como o projeto \u00e9 chamado, prev\u00ea o armazenamento dos dados de navega\u00e7\u00e3o pelos provedores. Caso a lei seja aprovada, os internautas tamb\u00e9m ter\u00e3o que fornecer seus dados \u2013 nome completo, nome da m\u00e3e, n\u00famero do RG \u2013 aos administradores de todas as redes de Internet que acessarem. Com isso, torna-se invi\u00e1vel a utiliza\u00e7\u00e3o de redes sem fio abertas, como as que existem em shoppings. Por esse e outros motivos, uma peti\u00e7\u00e3o online contra o projeto j\u00e1 conta com mais de 140 mil assinaturas at\u00e9 o momento.<br \/>\nA liberdade tamb\u00e9m foi defendida de outras formas: paralelo \u00e0 programa\u00e7\u00e3o do evento, acontecia o Festival de Cultura Livre, que trouxe shows como o da banda Teatro M\u00e1gico para Porto Alegre. Os participantes tamb\u00e9m tiveram acesso a oficinas e workshops para aprender a utilizar melhor alguns programas de c\u00f3digo aberto.<br \/>\n<strong>Dificuldades<\/strong><br \/>\nEstat\u00edsticas apontam que cerca de 90% dos computadores pessoais utilizam o sistema operacional Windows, que \u00e9 propriet\u00e1rio. E da\u00ed vem a maior dificuldade na migra\u00e7\u00e3o para o GNU\/Linux: as pessoas resistem a programas diferentes daqueles que j\u00e1 est\u00e3o acostumadas a usar.<br \/>\n\u201cA solu\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 ensinar a usar o programa de maneira mais aberta\u201d, defende Marcelo Branco, ativista do software livre e coordenador do FISL. \u201cEm vez de ensinar o Word, as escolas deviam ensinar a usar um editor de texto; deviam ensinar planilhas eletr\u00f4nicas em vez de Excel. Quando eu comecei a usar m\u00e1quina de escrever, eu estudei datilografia, n\u00e3o &#8216;como escrever em uma m\u00e1quina Olivetti&#8217;\u201d, complementa.<br \/>\nComo \u00e9 criado e distribu\u00eddo de maneira livre, o sistema operacional Linux \u00e9 disponibilizado em diferentes vers\u00f5es, que s\u00e3o criadas e mantidas pelas comunidades de usu\u00e1rios, sendo chamadas de distribui\u00e7\u00f5es. A compatibilidade de programas e a apar\u00eancia de cada sistema, portanto, podem variar, mesmo tudo sendo \u201cLinux\u201d, e isso muitas vezes dificulta a utiliza\u00e7\u00e3o por usu\u00e1rios inexperientes.<br \/>\n<strong>Por que usar software livre<\/strong><br \/>\nUma das distribui\u00e7\u00f5es expostas no FISL procura tornar mais f\u00e1cil a migra\u00e7\u00e3o para o modelo livre. Para facilitar esse processo, o BRLix imita a apar\u00eancia do Windows. Desde sua cria\u00e7\u00e3o em 2003, mais de 28 milh\u00f5es de downloads do sistema foram efetuados.<br \/>\nEmbora os ativistas defendam a ideologia da liberdade, h\u00e1 empresas que optam pelo software livre por quest\u00f5es bem menos elevadas, como o pre\u00e7o. Em vez de investir na aquisi\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as do Windows, a montadora de motores WEG preferiu contratar a BRLix para instalar Linux em todos os seus computadores.<br \/>\nN\u00e3o  \u00e9 necess\u00e1rio abrir m\u00e3o do Windows para utilizar software livre. Os Correios, por exemplo, continuam utilizando o sistema da Microsoft, optando somente por evitar a aquisi\u00e7\u00e3o do pacote Office: a empresa j\u00e1 utiliza o BrOffice, uma vers\u00e3o open source, em quase metade de seus computadores. Na visita ao FISL, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Roussef, que acompanhava Lula, afirmou que o governo j\u00e1 economizou R$370 milh\u00f5es ao utilizar software livre.<br \/>\nOutras empresas optam pelo modelo de c\u00f3digo aberto por quest\u00f5es t\u00e9cnicas. \u00c9 o caso do Banco do Brasil (BB), que utiliza software livre em seus servidores e est\u00e1 organizando a migra\u00e7\u00e3o de todos os terminais de auto-atendimento para o Linux. \u201c\u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, n\u00e3o necessariamente ideol\u00f3gica\u201d, garante o Gerente de Divis\u00e3o da \u00c1rea de Software Livre do BB, Ulisses Penna.<br \/>\nA op\u00e7\u00e3o por abrir o c\u00f3digo permite desenvolvimento mais r\u00e1pido do sistema, pois alguns usu\u00e1rios participam do processo. Por esse motivo, h\u00e1 empresas que preferem compartilhar a cria\u00e7\u00e3o de seus produtos. \u00c9 o caso do sistema operacional Solaris, utilizado em data centers. Para aumentar a base de usu\u00e1rios e acelerar seu desenvolvimento, a empresa Sun  disponibilizou seu c\u00f3digo para a comunidade, criando o OpenSolaris.<br \/>\n<strong>Colabora\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica<\/strong><br \/>\nO trabalho colaborativo \u00e9 muito importante para o desenvolvimento dos produtos livres. Os motivos que levam as pessoas a contribuir podem incluir tanto a inten\u00e7\u00e3o de melhorar os servi\u00e7os utilizados quanto a busca de reconhecimento. Al\u00e9m do desenvolvimento de software, a colabora\u00e7\u00e3o torna poss\u00edveis iniciativas como a Wikip\u00e9dia, a enciclop\u00e9dia criada e mantida livre por uma comunidade de usu\u00e1rios.<br \/>\nEmpresas como a Mozilla, que criou o Firefox, o navegador livre utilizado por 22% dos internautas, aproveitaram o FISL para incentivar a colabora\u00e7\u00e3o. Para ganhar uma camiseta, era necess\u00e1rio desenvolver novas funcionalidades para o programa. Quem n\u00e3o sabia programar, podia escrever um artigo ou traduzir arquivos da ajuda para outro idioma.<br \/>\nNesse ambiente, \u00e9 comum que as pessoas se aproximem, criando redes de colabora\u00e7\u00e3o. O norte-americano Ethan Crawford veio a Porto Alegre pela primeira vez em 2003, em um evento totalmente pol\u00edtico: o F\u00f3rum Social Mundial. Nessa ocasi\u00e3o, fez os contatos que o trariam mais uma vez ao Brasil. No estado do Colorado, nos EUA, Ethan trabalha na Free Speech TV, uma emissora de TV independente. Por conta de sua experi\u00eancia, foi convidado a participar como volunt\u00e1rio na edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos para a TV Software Livre, que fez a cobertura do festival.<br \/>\nNum dos \u00faltimos paineis do FISL, a liberdade na era digital foi discutida por integrantes da organiza\u00e7\u00e3o do evento, acad\u00eamicos e ativistas. Em sua fala, a pesquisadora de Direito de Yale, Elizabeth Stark, enfatizou a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o de cada internauta na vigil\u00e2ncia dessa liberdade. Para ela, somente a vis\u00e3o pol\u00edtica do c\u00f3digo vai manter a liberdade na rede.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carolina Maia de Aguiar, especial para o Jornal J\u00e1 Entre 23 e 27 de junho, milhares de programadores, defensores da cultura livre, nerds e curiosos circularam pelo Pr\u00e9dio 40 da PUC, onde ocorreu o 10 F\u00f3rum Internacional do Software Livre \u2013 FISL. 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