{"id":54945,"date":"2017-09-11T10:53:30","date_gmt":"2017-09-11T13:53:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=54945"},"modified":"2017-09-11T10:53:30","modified_gmt":"2017-09-11T13:53:30","slug":"fora-vivandeiras-impenitentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/fora-vivandeiras-impenitentes\/","title":{"rendered":"Fora, vivandeiras impenitentes"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\n&#8220;Estamos num sistema tecnicamente ca\u00f3tico no qual a cadeia de dela\u00e7\u00f5es de crimes junto \u00e0 Pol\u00edcia Federal exp\u00f4s as entranhas de todas as institui\u00e7\u00f5es, que interagem entre si como vari\u00e1veis aleat\u00f3rias, com controle de ningu\u00e9m, e criando fatos novos a cada dia\u201c, escreveu dias atr\u00e1s o economista\/jornalista J. Carlos de Assis a prop\u00f3sito da avalanche de acusa\u00e7\u00f5es e den\u00fancias no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, desfechada h\u00e1 3,5 anos para investigar lances de corrup\u00e7\u00e3o no governo.<br \/>\nA suposi\u00e7\u00e3o inicial dos respons\u00e1veis pelas investiga\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava jato era de que os malfeitos haviam come\u00e7ado nos governos do PT, a partir de 2003. Aos poucos tem ficado claro que o fen\u00f4meno \u00e9 bem mais antigo e envolve outros partidos, especialmente o PMDB, que se estabeleceu no poder em 1985 e da\u00ed em diante se manteve no governo mediante alian\u00e7as de todo tipo.<br \/>\nA \u00faltima e escandalosa evid\u00eancia da roubalheira surgiu \u00e0s v\u00e9speras do feriado da Independ\u00eancia, quando a Pol\u00edcia Federal descobriu num esconderijo urbano em Salvador um total de R$ 51 milh\u00f5es em dinheiro vivo guardado em caixas e malas.<br \/>\nO dinheiro seria de Geddel Vieira Lima, ex-ministro do vice-presidente em exerc\u00edcio Michel Temer. Anteriormente, ele fora diretor da Caixa Econ\u00f4mica no governo Dilma Rousseff. E bem antes, como deputado federal, fez parte do grupo conhecido como \u201cAn\u00f5es do Or\u00e7amento\u201d, uma malta parlamentar especializada em manipular verbas federais por meio de emendas ao Or\u00e7amento Nacional.<br \/>\nEvidentemente, o baiano Geddel \u00e9 um aprendiz desastrado entre especialistas na apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita de dinheiro p\u00fablico, pr\u00e1tica justificada, em muitos casos, pela alega\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso fazer caixa para financiar as campanhas eleitorais, marcos sagrados do exerc\u00edcio da democracia.<br \/>\nFalta esclarecer se Geddel \u00e9 um tesoureiro pego em flagrante delito ou se ele seria apenas o guardi\u00e3o de uma parte do tesouro do PMDB. Espera-se que tudo seja esclarecido antes das elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2018, esta sim, uma verdadeira opera\u00e7\u00e3o lava-jato&#8230;<br \/>\nSe as propinas empresariais rolassem apenas para custear atividades partid\u00e1rias, talvez se pudesse perdoar os pol\u00edticos. Mas s\u00e3o cada vez maiores as evid\u00eancias de que as campanhas eleitorais t\u00eam sido usadas como instrumento de enriquecimento pessoal de praticamente todos os participantes da cadeia produtiva de mandat\u00e1rios do povo. Uma podrid\u00e3o generalizada que liga o mundo pol\u00edtico ao universo empresarial. Como desmontar essa m\u00e1quina de corrup\u00e7\u00e3o que trabalha para manter a desigualdade social?<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto que pessoas de grande prest\u00edgio intelectual como o historiador Moniz Bandeira, que foi companheiro de Leonel Brizola no ex\u00edlio, est\u00e3o pedindo a interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas nas institui\u00e7\u00f5es de governo. Como assim?! A que pre\u00e7o?!<br \/>\nSeria bom que o processo de corrup\u00e7\u00e3o fosse estancado, mas \u00e9 ilus\u00e3o acreditar que os militares poderiam agir sem risco de contamina\u00e7\u00e3o e envolvimento com as quadrilhas do Mal.<br \/>\nAs corpora\u00e7\u00f5es militares agem estritamente dentro dos regulamentos, mas as c\u00fapulas se deixam influenciar por interesses alheios ao seu controle e por manobras imprevis\u00edveis. Vimos esse filme em 1964, quando o golpe militar apoiado pelas elites econ\u00f4micas, pela classe m\u00e9dia e pelos EUA se perdeu em persegui\u00e7\u00f5es interesseiras. Quando a ditadura acabou, em 1985, havia 9 mil oficiais superiores das For\u00e7as Armadas instalados em \u00f3rg\u00e3os do governo, onde haviam ingressado a t\u00edtulo de \u201cvigil\u00e2ncia\u201d e \u201csaneamento\u201d.<br \/>\nApenas como exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o, caberia perguntar se a interven\u00e7\u00e3o militar se daria apenas no Executivo ou incluiria o Legislativo? Deixando o Judici\u00e1rio fora?! E o que fazer com os governos estaduais acumpliciados com a corrup\u00e7\u00e3o? E as ramifica\u00e7\u00f5es municipais das falcatruas?<br \/>\nAinda no \u00e2mbito das suposi\u00e7\u00f5es, cabe perguntar se no novo golpe militar seria usado como refer\u00eancia o m\u00e9todo de 1964, quando foram abertos milhares de inqu\u00e9ritos para investigar a corrup\u00e7\u00e3o e, na sequ\u00eancia, a subvers\u00e3o pol\u00edtica, que serviria como pretexto para a escalada persecut\u00f3ria que descambou para viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos s\u00f3 compar\u00e1veis \u00e0s do Estado Novo. Seriam os novos IPMs mais eficientes e isentos do que os m\u00e9todos atualmente usados pela Pol\u00edcia Federal a pedido do Minist\u00e9rio P\u00fablico, da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica e de outras inst\u00e2ncias do Judici\u00e1rio?<br \/>\nN\u00e3o se pode duvidar de que \u00e9 errado destruir a democracia a pretexto de consertar os defeitos do sistema democr\u00e1tico.<br \/>\n<strong>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O \u00a0<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;Sinto-me no dever de tamb\u00e9m alertar-vos, nesta hora, e, por vosso interm\u00e9dio, aos mais jovens (&#8230;) contra as mesmas e eternas manobras dos pescadores de \u00e1guas turvas e ambiciosos vulgares, os quais j\u00e1 come\u00e7am a rondar os quart\u00e9is como vivandeiras impenitentes (&#8230;) buscando, aqui e ali, despertar aspira\u00e7\u00f5es e estimular ambi\u00e7\u00f5es, dessa forma espalhando a ciz\u00e2nia, a desconfian\u00e7a, a disc\u00f3rdia, capazes de enfraquecer, pela desuni\u00e3o que propagam, a estrutura militar&#8221;.<\/em><br \/>\n<em>\u00a0<\/em><br \/>\nGeneral Ernesto Geisel, presidente da Rep\u00fablica, em 22\/12\/1976, falando aos colegas de farda em recep\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, repetindo palavras do marechal Castelo Branco, o primeiro militar a ocupar a presid\u00eancia em 1964<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse &#8220;Estamos num sistema tecnicamente ca\u00f3tico no qual a cadeia de dela\u00e7\u00f5es de crimes junto \u00e0 Pol\u00edcia Federal exp\u00f4s as entranhas de todas as institui\u00e7\u00f5es, que interagem entre si como vari\u00e1veis aleat\u00f3rias, com controle de ningu\u00e9m, e criando fatos novos a cada dia\u201c, escreveu dias atr\u00e1s o economista\/jornalista J. 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