{"id":55370,"date":"2017-09-20T21:35:44","date_gmt":"2017-09-21T00:35:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=55370"},"modified":"2017-09-20T21:35:44","modified_gmt":"2017-09-21T00:35:44","slug":"a-insanidade-de-pedir-golpe-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-insanidade-de-pedir-golpe-militar\/","title":{"rendered":"A insanidade de pedir golpe militar"},"content":{"rendered":"<p><strong>MILTON SALDANHA<em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em><\/strong><br \/>\nDe vez em quando tenho a paci\u00eancia de ler o oceano de asneiras escritas por pessoas que pedem a volta do regime militar. Elas n\u00e3o t\u00eam a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que aconteceu antes, durante, e nem depois do regime que durou de 1964 a 1985, num total de 21 anos.<br \/>\nS\u00e3o pessoas que nunca leram um livro de Hist\u00f3ria, nunca ouviram uma palestra s\u00e9ria sobre o tema, nunca conversaram com quem viveu o per\u00edodo, colhendo vers\u00f5es dos dois lados, de quem foi contra e de quem apoiava.<br \/>\nEste \u00e9 o assunto que mais conhe\u00e7o. Acompanhei e vivi todas as tens\u00f5es do pr\u00e9-1964, o golpe, e os anos seguintes. E perdi a conta dos livros que li sobre tais acontecimentos, al\u00e9m de reportagens de jornais e revistas. Vi os filmes, document\u00e1rios. Permitam-me dizer que estou com 72 anos e j\u00e1 aos 15 anos fazia pol\u00edtica estudantil, com foco ideol\u00f3gico, no auge da Guerra Fria. Aos 17 anos comecei a escrever em jornais estudantis e da cidade onde morava, Santa Maria (RS), sede de uma das mais poderosas guarni\u00e7\u00f5es militares do Pa\u00eds.<br \/>\nFilho de oficial do Ex\u00e9rcito, meu pai um profissional legalista e apreciador do di\u00e1logo, muito cedo me acostumei com os h\u00e1bitos da caserna e do pensamento militar que ouvia na intimidade dom\u00e9stica. E como todo filho de militar, cheguei a pensar na carreira, algo natural na inf\u00e2ncia, quando a gente se encanta com o aparato, a farda, e os desfiles com bandas executando hinos heroicos. Claro que n\u00e3o era minha voca\u00e7\u00e3o, descoberta e decidida precocemente, aos 14 anos, pelo jornalismo.<br \/>\nA vida em fam\u00edlia militar me dotou do respeito \u00e0 classe, pelos muitos homens honrados que conheci, de sargentos a generais, colegas do meu pai. Poderia declinar aqui dezenas de nomes de oficiais not\u00e1veis, como os generais Henrique Lott, Lad\u00e1rio Telles, Machado Lopes, Oromar Os\u00f3rio, Pery Bevilacqua, Osvino Ferreira Alves (que esteve mais de uma vez na minha casa), entre muitos outros. Gera\u00e7\u00e3o de carreira, apegada ao respeito constitucional, \u00e0 legalidade. Contra golpes.<br \/>\nE isso s\u00f3 ampliou a rejei\u00e7\u00e3o aos doentes mentais que l\u00e1 tamb\u00e9m existiam, transformados em torturadores e assassinos. Estes representaram zero v\u00edrgula algo por cento do efetivo das For\u00e7as Armadas, mas o estrago que fizeram foi moralmente devastador.<br \/>\nSer\u00e1 equivocado imaginar que a chamada comunidade de informa\u00e7\u00f5es, que aglutinava o aparato repressivo, tinha a simpatia geral na categoria. N\u00e3o foi assim. Muitos militares n\u00e3o concordavam com os m\u00e9todos que eles utilizavam para obter confiss\u00f5es e punir, menos ainda com assassinatos de presos, sendo que havia um tribunal militar para cuidar disso.<br \/>\nQuando acabou a ditadura e o aparato repressivo foi desmontado, teve ex-torturador transformado em bicheiro, portanto, transgressor da lei, e membro do crime organizado, no Rio de Janeiro. Outros sumiram no mundo, vivendo numa esp\u00e9cie de clandestinidade volunt\u00e1ria, com medo e vergonha do passado. O que comprova que nada fizeram de nobre. E teve casos de suic\u00eddios.<br \/>\nO cardeal Paulo Evaristo Arns contou, numa entrevista, que numa tarde encontrou um homem sozinho, na catedral da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo. Foi em sua dire\u00e7\u00e3o e falou: \u201cDom Paulo, fui torturador. Existe salva\u00e7\u00e3o para a minha alma?\u201d.<br \/>\nO epis\u00f3dio conta mais que mil discursos. E ilustra o quanto de dram\u00e1tico foi a aventura do regime opressor, muito al\u00e9m do que imagina a turma dessa raiva irracional e primitiva destilada em redes sociais.<br \/>\nQuando se fala na vida humana, e no sofrimento, s\u00f3 mesmo a doen\u00e7a mental explica que algu\u00e9m aprecie a viol\u00eancia. Que sempre ser\u00e1 inerente a qualquer regime de for\u00e7a, quando as leis e institui\u00e7\u00f5es ficam extintas.<br \/>\nRegredindo ao tempo das cavernas, quando matar era a \u00fanica forma de disputar o alimento, a irracionalidade n\u00e3o admite a organiza\u00e7\u00e3o social constru\u00edda para lidar com o contradit\u00f3rio.<br \/>\nAinda que a corrup\u00e7\u00e3o seja uma forma de viol\u00eancia, pelos danos que causa, n\u00e3o pode ser combatida pelo linchamento, como no velho Oeste, enforcando-se os corruptos em postes. Tem que existir lei. Direito de defesa. E a forma de puni\u00e7\u00e3o \u00a0compat\u00edvel com o mundo civilizado.<br \/>\nNada disso se resolve com golpe militar. O que se viveu no Brasil foi uma longa e tenebrosa hist\u00f3ria, que provocou radicaliza\u00e7\u00f5es e ensejou erros de todos os lados.<br \/>\nFalando claramente, n\u00e3o vale a pena.<br \/>\nN\u00e3o se pode querer isso de volta. \u00c9 regress\u00e3o. O Brasil teve duas longas ditaduras, pela via dos golpes de 1937 e 1964. Somando, foram 36 anos de ditadura. Nenhuma resolveu as crises econ\u00f4mica e social. Nenhuma nos legou um pa\u00eds e uma vida melhor. Se a gente n\u00e3o aprende com a Hist\u00f3ria, n\u00e3o vai aprender nunca.<br \/>\nOs militares exercem uma fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica nobre, de defender nosso territ\u00f3rio. E de ajudar a popula\u00e7\u00e3o nas trag\u00e9dias. Fora disso, n\u00e3o \u00e9 tarefa deles, inclusive por falta de capacita\u00e7\u00e3o. Basta lembrar que o governo Figueiredo, o \u00faltimo general no poder, encerrou com a infla\u00e7\u00e3o em 280%. Um fracasso retumbante.<br \/>\nN\u00e3o havia assaltos? Que piada \u00e9 essa? Peguem os jornais da \u00e9poca, em arquivos e bibliotecas. N\u00e3o havia corrup\u00e7\u00e3o? Outra piada. Mesmo com a censura que tentava barrar as den\u00fancias, a lista dos esc\u00e2ndalos \u00e9 longa, e montou a bilh\u00f5es.<br \/>\nVamos estudar gente.<br \/>\nE basta ver que todo grande pa\u00eds, como o Canad\u00e1 e a Su\u00e9cia, para n\u00e3o citar os mais pol\u00eamicos, tem uma organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, com um ordenamento jur\u00eddico que impede a barb\u00e1rie e o mando insano de algum ditador, que fatalmente mergulhar\u00e1 na corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTudo foi ruim? Sendo honesto, n\u00e3o. Por exemplo, Get\u00falio criou a CLT, o sal\u00e1rio m\u00ednimo, e a base para a industrializa\u00e7\u00e3o. O grupo de 1964 n\u00e3o privatizou a Petrobr\u00e1s, nem a Vale do Rio Doce. Investiu-se nas telecomunica\u00e7\u00f5es e petroqu\u00edmica.<br \/>\nMas para nada disso precisaria ditadura.<br \/>\nAlguns apontam o crescimento econ\u00f4mico. De fato, aconteceu, mas n\u00e3o como um fen\u00f4meno isolado, do Brasil, decorrente da ditadura. Era um momento de oferta mundial de cr\u00e9dito. Muitos pa\u00edses recorreram a isso para investimentos. Mas o detalhe que n\u00e3o contam \u00e9 que foi causa da degrada\u00e7\u00e3o urbana, com as favelas crescendo em progress\u00e3o geom\u00e9trica, sem que ningu\u00e9m se importasse. Para entender: quando se planta uma grande f\u00e1brica, numa metr\u00f3pole ou cidade m\u00e9dia, vem junto uma favela.<br \/>\nA distor\u00e7\u00e3o est\u00e1 em promover crescimento econ\u00f4mico sem programa social simult\u00e2neo.<br \/>\nO Pa\u00eds sempre ter\u00e1 problemas a resolver. Investir em educa\u00e7\u00e3o e aprimorar suas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas \u00e9 a \u00fanica f\u00f3rmula sensata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MILTON SALDANHA\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 De vez em quando tenho a paci\u00eancia de ler o oceano de asneiras escritas por pessoas que pedem a volta do regime militar. 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