{"id":55894,"date":"2017-10-03T11:20:19","date_gmt":"2017-10-03T14:20:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=55894"},"modified":"2017-10-03T11:20:19","modified_gmt":"2017-10-03T14:20:19","slug":"existe-amor-em-sao-paulo-ou-a-importancia-da-microsolidariedade-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/existe-amor-em-sao-paulo-ou-a-importancia-da-microsolidariedade-hoje\/","title":{"rendered":"Existe amor em S\u00e3o Paulo! Ou: a import\u00e2ncia da microsolidariedade"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Mar\u00edlia Ver\u00edssimo Veronese<\/span><br \/>\nEstive em S\u00e3o Paulo neste \u00faltimo fim de semana e, como sempre, me assustei com a brutal desigualdade, t\u00e3o vis\u00edvel na capital paulista. N\u00e3o que nas outras capitais n\u00e3o seja assim, mas a forma com que se mostra na metr\u00f3pole paulistana sempre me choca. Muitos moradores de rua em situa\u00e7\u00e3o de extrema miserabilidade ao lado de carros e lugares luxuosos e ostentat\u00f3rios s\u00e3o uma vis\u00e3o, para mim, quase insuport\u00e1vel. Tudo aquilo que eu n\u00e3o aceito como natural me grita na cara e me ofende os olhos e a sensibilidade.<br \/>\nNesta ocasi\u00e3o, eu e meu marido Andr\u00e9 precisamos comprar algumas coisas esquecidas e fomos at\u00e9 o supermercado Extra, na Av. Brigadeiro Luiz Antonio. Quando sa\u00edamos apressados, sacolas na m\u00e3o, chuva caindo, sem guarda-chuva, Andr\u00e9 foi esperar o Uber na cal\u00e7ada, e ao passar vejo um homem, morador de rua, que chorava copiosamente abra\u00e7ado ao seu fiel amigo c\u00e3o, preto como ele, com olhar resignado perdido ao longe. Olhei pra eles e, entre l\u00e1grimas, o homem me pediu ajuda. Falei pra ele esperar um pouco que iria dar uma ajuda, corri para pegar minha bolsa que Andr\u00e9 levava a tiracolo, peguei 10 reais e voltei para alcan\u00e7ar a ele. Olhei-o nos olhos e as l\u00e1grimas lhe escorriam enquanto chorava um choro gemido, sentido, triste de cortar o cora\u00e7\u00e3o, acariciando o c\u00e3o como a se consolar da tristeza. Estendi o dinheiro, falei algumas palavras de esperan\u00e7a, acariciei o c\u00e3o e me virei, pois o Uber tinha chegado e Andr\u00e9 j\u00e1 estava entrando no carro. Chovia e a umidade encharcava tudo ao redor. Virei as costas e caminhei sem olhar pra tr\u00e1s, me sentindo a esc\u00f3ria do mundo. T\u00e3o pouco fazemos, t\u00e3o pouco podemos. Contra essa indignidade cotidiana do sofrimento social, do sofrimento \u00e9tico-pol\u00edtico, \u00e9tnico-racial, de classe, de g\u00eanero, do vergonhoso roubo de direitos e de dignidade humana b\u00e1sica, t\u00e3o pouco&#8230; N\u00f3s, pesquisadores, manejamos os conceitos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> na pesquisa participativa e etnogr\u00e1fica, mas em pouco eles auxiliam aqueles que inspiram sua formula\u00e7\u00e3o: as pessoas que choram na chuva, abra\u00e7ados a seus cachorros, em situa\u00e7\u00e3o de total abandono e desesperan\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o socioecon\u00f4mica, \u00e9 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica que envolve nossa dignidade individual e coletiva. N\u00e3o era pra ser assim, n\u00e3o pode ser aceito assim. Chorei no trajeto de volta ao hotelzinho simples que ficamos na rua S\u00edlvia, pensando que aquelas acomoda\u00e7\u00f5es que eu considerei ruins \u2013 para nosso padr\u00e3o classe m\u00e9dia &#8211; seriam um luxo para a dupla que eu acabara de deixar pra tr\u00e1s. O rapaz repetiu duas ou tr\u00eas vezes, \u201cmuito obrigado, mo\u00e7a, muito obrigado&#8230;\u201d, e eu envergonhada n\u00e3o via raz\u00e3o alguma para ele me ser grato. Queria pedir-lhe desculpas, gritar perd\u00e3o!, a ang\u00fastia crescia e fomos dormir com imagens desoladoras da megal\u00f3pole mais rica do pa\u00eds. Que n\u00e3o consegue proporcionar um m\u00ednimo de dec\u00eancia e dignidade a tantos de seus moradores. \u201cN\u00e3o existe amor em S\u00e3o Paulo\u201d, pensava e sentia eu, dolorosamente, n\u00e3o conseguindo me esquecer deles&#8230; somos ligados \u00e0s outras pessoas (ou a seres sencientes como os animais) por fios invis\u00edveis, que s\u00e3o a mat\u00e9ria et\u00e9rea dos v\u00ednculos sociais que conformam a humanidade enquanto comunidade e envolvem amor em diversos formatos. Os v\u00ednculos s\u00e3o a nossa ess\u00eancia. E n\u00e3o o ego\u00edsmo, como acreditam alguns equivocadamente<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<br \/>\nNo dia seguinte \u2013 desde os 15 anos de idade, quando li \u201cE o vento levou&#8230;\u201d,\u00a0 a m\u00e1xima da ego\u00edsta Scarlett O\u2019hara me inspira, \u201camanh\u00e3 \u00e9 um outro dia!\u201d, &#8211; seguimos a vida e fomos a feiras de rua, eventos art\u00edsticos, tivemos contato com uma incr\u00edvel diversidade cultural e de modos de ser e estar no mundo, que talvez s\u00f3 as grandes cidades multiculturais abriguem. Ao cair da noite, caminhando na Av. Paulista tomada de gente, de todos os tipos e jeitos, uma quantidade imensa de casais gays em completa liberdade e carinho (em duas horas, provavelmente vi mais deles do que vejo em um ano inteiro em Porto Alegre), shows, performances, artesanato e brech\u00f3s ao ar livre, comidas e bebidas sendo preparadas na rua, tempos e espa\u00e7os h\u00edbridos em ritmos e intera\u00e7\u00f5es alucinantes, de repente me chama a aten\u00e7\u00e3o um \u201cacampamento\u201d de moradores de rua, catadores de materiais recicl\u00e1veis. Eram pilhas de papel\u00e3o ao lado do carrinho de tra\u00e7\u00e3o humana, gente em cima de cobertores simples e&#8230; um carrinho de supermercado com seis filhotinhos min\u00fasculos de gato, irresistivelmente fofos, aninhadinhos em cima dos panos que forravam o carrinho.<br \/>\nParamos para conversar com os catadores (nesse caso tamb\u00e9m moradores de rua) e me encantei com os gatinhos. Conversa vai, conversa vem, eu acarinhando os fof\u00edssimos felinos, e o zeloso tutor da m\u00e3ezinha dos filhotes, uma gata bonita, altiva, bem cuidada e com uma coleirinha charmosa, me conta que uma mulher na rua entregou a gata pra ele e n\u00e3o contou que estava prenhe. Ele levou na veterin\u00e1ria &#8211; nos explicou que tem ONGs com veterin\u00e1rias volunt\u00e1rias que ajudam os moradores de rua a cuidar de seus animais, &#8211; e quando ela foi castrar, descobriu a gravidez. Ele ficou assustado, pois n\u00e3o tinha como manter os gatinhos. A veterin\u00e1ria disse que precisavam mamar 45 dias e s\u00f3 ent\u00e3o poderiam ser doados. J\u00e1 comem sach\u00ea, est\u00e3o com um m\u00eas. Alcancei um dinheiro e ele agradeceu, dizendo que ajudaria no sach\u00ea. O cuidado com os gatinhos e a m\u00e3e deles era comovente. Todos muito bem cuidados e saud\u00e1veis. Continua ele:<br \/>\n-\u201cO pessoal da zoonose tamb\u00e9m ajuda, leva a gente de carro quando a coisa aperta. Preciso comprar sach\u00ea, e quando n\u00e3o tem dinheiro tenho de caminhar muito at\u00e9 uma petshop que ajuda a gente tamb\u00e9m, mas \u00e9 longe. Aqui na rua o pessoal ajuda, doa ra\u00e7\u00e3o. Mas preciso de sach\u00ea pra filhote, agora! S\u00f3 t\u00f4 ganhando ra\u00e7\u00e3o seca de adulto! A veterin\u00e1ria vai castrar eles e a\u00ed vou poder doar os filhotes. N\u00e3o posso ficar com eles, se tivesse casa, ficava&#8230; mas na rua n\u00e3o d\u00e1. Se tivesse uma casa&#8230; quem tem casa pode ficar com eles.\u201d O mundo pra ele \u00e9 assim, dividido entre quem tem e quem n\u00e3o tem casa.<br \/>\nNo meio daquele caleidosc\u00f3pio cultural de muitas tend\u00eancias, sabores e saberes, cheiros, gostos, cores, afetos e desejos, carros, gentes, fogos de artif\u00edcio (at\u00e9 isso teve!) e alucinante movimento, ali ficamos um bom tempo, conversando com o catador sob os olhares e acenos de cabe\u00e7a de uma mulher e um idoso, integrantes do grupo. Que moram ali na Paulista, dormem sobre cobertores e sob marquises e contam com a ajuda preciosa de volunt\u00e1rios. De qualquer modo, me senti um pouco melhor depois daquela conversa. Consegui at\u00e9 pensar\/sentir, ao saber da rede de aux\u00edlio que eles t\u00eam com seus gatos, que existe sim amor em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nE uma ideia ficou me martelando na cabe\u00e7a e ainda continua, por isso a compartilho com voc\u00eas, concordem ou n\u00e3o (pois a esquerda tende a desprezar o micro e valorizar o macro, no campo da a\u00e7\u00e3o social): a enorme import\u00e2ncia da solidariedade mi\u00fada, cotidiana, face-a-face, micro social e micropol\u00edtica, em tempos de retrocessos dantescos como o que vivemos. Urge estender a m\u00e3o para aqueles que nos rodeiam nas marquises da vida, na chuva que cai e gela corpo e alma, corpos humanos abra\u00e7ados aos n\u00e3o humanos, por vezes os \u00fanicos que lhes d\u00e3o calor e afeto incondicional. Nas ruas das megal\u00f3poles contempor\u00e2neas homens e mulheres sem dentes, sem banho di\u00e1rio e sem refei\u00e7\u00f5es decentes e certas, abra\u00e7am c\u00e3es e gatos tamb\u00e9m desvalidos e soltos na vida. Se entendem. Se apoiam. Se somam.<br \/>\nComo pa\u00eds, sa\u00edmos de aproximadamente dez anos de cren\u00e7a relativamente otimista na macro pol\u00edtica. Apesar dos pesares, dos mensal\u00f5es, das alian\u00e7as com Juc\u00e1s e Sarneys e Cabrais, o Brasil sa\u00eda do mapa da fome da ONU; as universidades se pintavam um pouco mais de negro e pardo; a \u00e1gua chegava aos sert\u00f5es nas cisternas (que agora Temer quer secar); os pobres (incluindo alunos meus com seus depoimentos comoventes) podiam cursar a universidade e ter direito \u00e0 ascens\u00e3o social. Eu me sentia pessoalmente mais digna com isso; mais humana, mais feliz, mais gente.<br \/>\nQuando tudo se esboroou rapidamente, em coisa de dois anos mais ou menos, e fomos assaltados por uma quadrilha de bandidos, saindo das tocas no legislativo, executivo e judici\u00e1rio (este \u00faltimo aparelhado pelo conservadorismo de direita de uma forma acachapante), por movimentos de extrema direita que condenam exposi\u00e7\u00f5es de arte ao mesmo tempo em que direitos sociais (os parcos que foram conquistados) s\u00e3o retirados diuturnamente, nos vemos sem ch\u00e3o. Deprimidos, atordoados, desesperan\u00e7ados. E \u00e9 a\u00ed que se destaca a possibilidade que existe nas miudezas do cotidiano: a solidariedade que impede a morte por inani\u00e7\u00e3o e o suic\u00eddio existencial.<br \/>\nDestacam autores, nas ci\u00eancias sociais, como os que sugeri acima, que somos seres de v\u00ednculos. E que isso \u00e9 o que vem nos mantendo vivos por mil\u00eanios. A solidariedade &#8211; rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, &#8211; nos pode salvar da desesperan\u00e7a. Pratiquemos, pois, as solidariedades an\u00f4nimas, cotidianas, aparentemente pequenas, mas hoje soberbamente importantes.<br \/>\nAmigos que passarem pelo Extra da Av. Bigadeiro Luiz Anatonio em Sampa, levem ra\u00e7\u00e3o pra cachorro, comida para o homem triste, palavras amistosas e quem sabe at\u00e9 um abra\u00e7o. N\u00e3o tenham medo das pessoas nas ruas. Elas conversam, apertam a m\u00e3o, recebem doa\u00e7\u00f5es, trabalham, dividem o pouco que t\u00eam, s\u00e3o honestas e inacreditavelmente resilientes. Pelo menos a grande maioria delas. A vida de muita gente, em tempos que minguam os sal\u00e1rios, empregos, aux\u00edlios, renda m\u00ednima, pode depender disso. E ficamos todos mais gente, mais dignos, mais completos. Porque somos seres de v\u00ednculos; tamb\u00e9m capazes de ego\u00edsmo e indiferen\u00e7a em nosso potencial diverso, contradit\u00f3rio e amb\u00edguo, mas que sem a solidez das rela\u00e7\u00f5es sequer sobreviveriam nesse mundo.<br \/>\nPessoal que andar pela Paulista nas imedia\u00e7\u00f5es do MASP, levem sach\u00eas para gatos filhotes na bolsa. Nosso amigo catador tem mais 15 dias para alimentar os filhotes antes de poder oferec\u00ea-los pra doa\u00e7\u00e3o. Quem sabe voc\u00eas at\u00e9 adotam um, depois desse tempo?<br \/>\nQuando forem ali, numa exposi\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea, ao enfrentar a caterva pseudo-moralista que hoje grassa, uma forma poss\u00edvel de resist\u00eancia ser\u00e1 auxiliar \u00e0queles que, do outro lado da rua, lutam para criar gatos saud\u00e1veis. Para voc\u00eas verem como as nossas vidas s\u00e3o ao mesmo tempo ridiculamente pequenas e algo grandiosas; nossa exist\u00eancia, comezinha, vertiginosamente r\u00e1pida, insignificante, pode guardar alguma import\u00e2ncia na sua trajet\u00f3ria fr\u00e1gil; nossos grandes projetos, coletivos e pessoais, a maioria sob constante amea\u00e7a de desagrega\u00e7\u00e3o e morte, s\u00e3o contudo vitais, inadi\u00e1veis. As solidariedades, pequenas e grandes, tais como a vida humana. Micro, mas tamb\u00e9m macropol\u00edticas: porque haveremos de, um dia, retomar as institui\u00e7\u00f5es e fazer desse pa\u00eds um lugar minimamente decente. At\u00e9 l\u00e1, a vida nos pede coragem, muita luta e alguns sach\u00eas de filhote de gato na bolsa.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <strong>Sofrimento \u00e9tico pol\u00edtico<\/strong> e <strong>sofrimento social<\/strong>, ver respectivamente: [MIURA, Paula; SAWAIA, Bader. Tornar-se catador: sofrimento \u00e9tico-pol\u00edtico e pot\u00eancia de a\u00e7\u00e3o. <em>Psicologia &amp; Sociedade<\/em>, 2013, 25.]<br \/>\n[VICTORA, Ceres. Sofrimento social e a corporifica\u00e7\u00e3o do mundo: contribui\u00e7\u00f5es a partir da Antropologia. <em>Revista Eletr\u00f4nica de Comunica\u00e7\u00e3o, Informa\u00e7\u00e3o &amp; Inova\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade<\/em>, v. 5, n. 4, dec. 2011.]<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Sobre v\u00ednculos sociais, ver: GAIGER, Luiz. <em>A descoberta dos v\u00ednculos sociais.\u00a0 Os fundamentos da solidariedade<\/em>. Ed. Unisinos, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00edlia Ver\u00edssimo Veronese Estive em S\u00e3o Paulo neste \u00faltimo fim de semana e, como sempre, me assustei com a brutal desigualdade, t\u00e3o vis\u00edvel na capital paulista. 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