{"id":56302,"date":"2017-10-15T16:52:23","date_gmt":"2017-10-15T19:52:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=56302"},"modified":"2017-10-15T16:52:23","modified_gmt":"2017-10-15T19:52:23","slug":"__trashed-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/__trashed-2\/","title":{"rendered":"Um bunker no viaduto da Borges: o ano em que a guerra chegou a Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p>Um abrigo antia\u00e9reo sob o viaduto Ot\u00e1vio Rocha, na Borges de Medeiros?<br \/>\nSim, este projeto existiu. Foi em 1942, o Brasil havia entrado na guerra contra o nazismo. Os ex\u00e9rcitos italiano e alem\u00e3o bombardeavam embarca\u00e7\u00f5es brasileiras no Atl\u00e2ntico.<br \/>\nO medo de que a guerra chegasse at\u00e9 aqui era real. A constru\u00e7\u00e3o de bunkers nos subsolos de edif\u00edcios e de caminhos subterr\u00e2neos ligando o Centro e a Cidade Baixa era projeto do prefeito Loureiro da Silva, atendendo as determina\u00e7\u00f5es da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<br \/>\n<figure id=\"attachment_56258\" aria-describedby=\"caption-attachment-56258\" style=\"width: 186px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-56258 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/LoureirodaSilva1-186x250.jpg\" alt=\"\" width=\"186\" height=\"250\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56258\" class=\"wp-caption-text\">O prefeito Loureiro da Silva \/ Acervo Boletim Muicipal<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNo dia 10 de setembro, foi realizado o primeiro exerc\u00edcio de defesa antia\u00e9rea, um blecaute. Uma velha sirene foi instalada na torre da Hidr\u00e1ulica dos Moinhos de Vento.<br \/>\nAo aviso, todas as luzes da cidade foram apagadas, quem estava na rua correu para se abrigar, os motoristas pararam os autom\u00f3veis. Ap\u00f3s soar o segundo sinal, as luzes foram acesas e a cidade voltou \u00e0 normalidade. O exerc\u00edcio foi considerado um sucesso.<br \/>\nNo final daquele m\u00eas, Porto Alegre deu in\u00edcio a seu mais ousado projeto na defesa antia\u00e9rea: um bunker no Viaduto Ot\u00e1vio Rocha com capacidade para 1.200 pessoas. As arcadas laterais foram cobertas por altos muros. A Prefeitura apontou 22 edif\u00edcios da regi\u00e3o central da cidade que teriam os subsolos transformados em ref\u00fagios para bombardeios. Foram constru\u00eddos abrigos em institui\u00e7\u00f5es de caridade, como o Asilo Provid\u00eancia, o Orfanato P\u00e3o dos Pobres e as creches S\u00e3o Francisco e Navegantes, al\u00e9m do Col\u00e9gio Americano. Porto Alegre tinha capacidade para abrigar cerca de 13 mil pessoas na eventualidade de um bombardeio. A popula\u00e7\u00e3o total da cidade era de 300.000 habitantes<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cAbrigos contra explos\u00f5es e gases\u201d <\/span><br \/>\nA defesa antia\u00e9rea tornou-se \u201cencargo necess\u00e1rio \u00e0 defesa da P\u00e1tria\u201d, pelo decreto 4.098, do presidente da Rep\u00fablica, em 6 de fevereiro de 1942. Estabelecia obriga\u00e7\u00f5es aos cidad\u00e3os e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. A Uni\u00e3o, Estados e Munic\u00edpios deviam construir \u201cpara prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, abrigos contra explosivos e gases\u201d. Edif\u00edcios a partir de cinco andares e locais como hospitais, hot\u00e9is, escolas e ind\u00fastrias, tinham que providenciar bunkers.<br \/>\nAs empresas tinham que financiar o material para defesa dos funcion\u00e1rios, dos quais seriam descontados depois. Os homens em idade adulta que n\u00e3o estivessem servindo ao ex\u00e9rcito deveriam desempenhar as fun\u00e7\u00f5es \u201cdeterminadas pelos \u00f3rg\u00e3os executores\u201d, como enfermagem, limpeza p\u00fablica, policiamento e constru\u00e7\u00e3o de trincheiras. Jornais e revistas ficavam obrigados a transmitir gratuitamente comunicados do Minist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica.<br \/>\nA sociedade porto-alegrense se mobilizou na defesa. Ao menos duas campanhas foram lan\u00e7adas para arrecadar fundos: uma capitaneada pelo jornal Correio do Povo que buscava fundos para constru\u00e7\u00e3o de abrigos antia\u00e9reos, e outra, do Sindicato dos Metal\u00fargicos, que juntava dinheiro para ajudar a FAB a adquirir ca\u00e7as.<br \/>\nPara o historiador Fernando Cauduro Pureza \u00e9 dif\u00edcil precisar o qu\u00e3o espont\u00e2nea era esta mobiliza\u00e7\u00e3o. \u201cEra \u00e9poca do Estado Novo, um estado autorit\u00e1rio, havia muito controle da imprensa. Ent\u00e3o essa mobiliza\u00e7\u00e3o que se v\u00ea nos jornais era um discurso muito oficial\u201d, afirma o doutor em hist\u00f3ria, que abordou em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado os impactos da Segunda Guerra na vida dos trabalhadores de Porto Alegre.<br \/>\nAs contribui\u00e7\u00f5es vinham de todas as partes e o jornal fazia o balan\u00e7o nas edi\u00e7\u00f5es dominicais. Nas f\u00e1bricas e locais de trabalho tornaram-se comuns as campanhas para arrecadar doa\u00e7\u00f5es. Uma comiss\u00e3o de funcion\u00e1rios do Banco do Rio Grande do Sul deu 4:000$000 (quatro contos de r\u00e9is), a Guarda Civil e funcion\u00e1rios de diversas empresas contribu\u00edram com um dia do ordenado. Os oper\u00e1rios da pedreira da Serraria tamb\u00e9m se somaram \u00e0 campanha. Ofereceram o resultado\u00a0de um dia inteiro de trabalho: 1.130 pedras lapidadas para a constru\u00e7\u00e3o de bunkers. \u201cHavia uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular, agora, se ela fazia o cara que tinha seus vencimentos mais constrangidos pela economia de guerra doar, a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o sei. Podem at\u00e9 ter sido volunt\u00e1rio, mas havia press\u00e3o do Estado e dos patr\u00f5es, principalmente o empresariado alem\u00e3o, que tentava se desvincular da pecha de apoiadores do Eixo\u201d, questiona o historiador. No final da campanha haviam sido arrecadados 460:521$600 (460 contos, 521 mil e 600 r\u00e9is). O valor estimado pela interventoria federal para a constru\u00e7\u00e3o de diversos bunkers em asilos e orfanatos era de 20:000$000.<br \/>\nA campanha arrecadou um valor muito maior, por\u00e9m, n\u00e3o se sabe ao certo quantos abrigos foram constru\u00eddos com o recurso. Como Porto Alegre n\u00e3o foi alvo de nenhum ataque a\u00e9reo durante a guerra, o bunker da Borges n\u00e3o chegou a ser testado para sua finalidade original, mas \u201cpara fins bem outros que os leg\u00edtimos\u201d, relatou o jornal Correio do Povo, quando o prefeito Loureiro da Silva mandou desmanchar o abrigo um ano ap\u00f3s sua constru\u00e7\u00e3o. A not\u00edcia n\u00e3o deixa claro que fins eram estes, mas fala de raz\u00f5es relacionadas \u00e0 est\u00e9tica, higiene e bons costumes para o fim do empreendimento.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Alem\u00e3es afundam \u201cPorto Alegre\u201d <\/span><br \/>\nNo dia 3 de novembro de 1942, os alem\u00e3es torpedearam por duas vezes e afundaram o Porto Alegre. Desarmado e sem escolta, o cargueiro, batizado com o nome da capital ga\u00facha, foi atingido no oceano \u00cdndico, pr\u00f3ximo \u00e0 \u00c1frica do Sul. Os torpedos foram disparados pelo submarino alem\u00e3o U-504. O navio ganhou o nome de Porto Alegre ao ser adquirido pela Companhia Carbon\u00edfera Sul Rio-Grandense, em 1933.<br \/>\nConstru\u00edda em 1921, no estaleiro italiano Cantiere Navale Triestino, a embarca\u00e7\u00e3o de 110 metros de comprimento havia sido batizada originalmente como Gilda. O ataque fez apenas uma v\u00edtima fatal, o imediato Francisco Lucas de Azevedo. A tripula\u00e7\u00e3o era composta por 52 pessoas.<br \/>\nEm julho de 43, ap\u00f3s 16 afundamentos, o carrasco U-504 teve seu fim, atacado por corvetas brit\u00e2nicas, no Atl\u00e2ntico Norte.<br \/>\n<figure id=\"attachment_56254\" aria-describedby=\"caption-attachment-56254\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-56254 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/15_big-e1508114664161-400x254.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"254\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-56254\" class=\"wp-caption-text\">O submarino alem\u00e3o U-504 \/ Wikipedia<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"intertit\">Dois dias de quebra-quebra <\/span><br \/>\nEm 15 de agosto, o ex\u00e9rcito alem\u00e3o desfechou uma sangrenta onda de ataques a embarca\u00e7\u00f5es brasileiras. Se antes os alvos eram cargueiros, agora eram atacados navios de passageiros, pr\u00f3ximos \u00e0 costa. Em tr\u00eas dias, cinco navios afundados, 610 mortos. A not\u00edcia despertou revolta.<br \/>\nEm Porto Alegre, os dias 18 e 19 de agosto foram de quebradeira generalizada. O interventor federal, Cordeiro de Farias, o chefe de pol\u00edcia do Estado, Aur\u00e9lio da Silva Py, pouco fizeram para controlar a f\u00faria da massa. Tudo que remetesse aos alem\u00e3es era alvo. A Casa Guaspari foi depredada e saqueada. Na Casa Lira, na Rua dos Andradas, a coisa foi mais feia. O dono, Reinaldo Langer, era tido como apoiador do Eixo e teria gritado \u201cViva a Alemanha!\u201d, \u00e0 chegada dos revoltosos. Entrou para o cacete e a pol\u00edcia teve de evitar seu linchamento. S\u00f3 escaparam o Hospital Alem\u00e3o, que havia adotado a alcunha de Moinhos de Vento, e a f\u00e1brica da Renner, que recebeu prote\u00e7\u00e3o policial especial. A sociedade Turnerbund tentou desvincular sua origem, mudando o nome para Sociedade Gin\u00e1stica de Porto Alegre (Sogipa), o que n\u00e3o impediu a depreda\u00e7\u00e3o. Na Sociedade Germ\u00e2nica, no Moinhos de Vento, a mob\u00edlia virou fogueira no meio da rua. No quarto distrito, o povo saiu em marcha.<br \/>\nRuas de nome alem\u00e3o foram rebatizadas com nome de embarca\u00e7\u00f5es brasileiras afundadas na guerra. Alguns permanecem. Avenida Napolitana virou Olinda, Rua Italiana virou Arabutan, a Avenida Germ\u00e2nia virou Cair\u00fa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um abrigo antia\u00e9reo sob o viaduto Ot\u00e1vio Rocha, na Borges de Medeiros? Sim, este projeto existiu. Foi em 1942, o Brasil havia entrado na guerra contra o nazismo. Os ex\u00e9rcitos italiano e alem\u00e3o bombardeavam embarca\u00e7\u00f5es brasileiras no Atl\u00e2ntico. O medo de que a guerra chegasse at\u00e9 aqui era real. 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