{"id":57531,"date":"2017-11-22T13:50:06","date_gmt":"2017-11-22T16:50:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57531"},"modified":"2017-11-22T13:50:06","modified_gmt":"2017-11-22T16:50:06","slug":"gosto-da-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/gosto-da-rua\/","title":{"rendered":"Gosto da Rua"},"content":{"rendered":"<p>Ele come\u00e7ara cedo. Aos quinze anos j\u00e1 trabalhava duro. Agora, acolhido pela cadeira confort\u00e1vel jogou seu corpo para tr\u00e1s. Atrav\u00e9s da janela gradeada do edif\u00edcio, distanciou o olhar, em retrospectiva. Continuava trabalhando, apesar de seus muitos anos. \u201cPor que parar? Sempre trabalhei!\u201d.<br \/>\nA conversa se alongou: \u201cN\u00e3o entendo esse achaque que se faz sobre quem trabalha. N\u00e3o me pe\u00e7am dinheiro. V\u00e3o trabalhar!\u201d<br \/>\nEla nunca come\u00e7ara. Estava como sempre estivera: a espera de alguma coisa. Espera quase sem pressa, daquelas que o tempo estica e n\u00e3o rompe. De vez em quando reunia for\u00e7as e pedia alguma esmola. Ao seu redor, um salgadinho e uma caixinha de suco. Vazios. \u201cN\u00e3o \u00e9 a melhor coisa para se comer, mas \u00e9 o que se encontra, o que me d\u00e3o.\u201d E continuou: \u201cpreferia algum trocado. Mas est\u00e1 dif\u00edcil. Preferem dar o que lhes sobra, ou que j\u00e1 enjoaram.\u201d<br \/>\nPerguntada do porque estar na rua e n\u00e3o acolhida em algum albergue, respondeu: \u201cCansei. \u00c9 bom um banho, uma sopa, uma cama. Mas cansa. Gosto da rua\u201d.<br \/>\nUm pouco adiante, dobrando a esquina uma menina m\u00e3e estendia o bra\u00e7o. Mostrava entalhes de jaguaret\u00ea e mudas de brom\u00e9lias. Ao seu lado um menino dormia na cal\u00e7ada e uma menininha escondia o rostinho ind\u00edgena na busca por aconchego. \u201cQuanto custa?\u201d \u201cDez\u201d \u201cOs filhos est\u00e3o bem?\u201d N\u00e3o veio resposta.<br \/>\nAs vezes sil\u00eancios s\u00e3o maiores que gritos. Sil\u00eancios de imigrantes, de estrangeiros em seu pr\u00f3prio planeta. Gritos das pessoas vendendo jornal, pipoca, espetinhos, cadar\u00e7os, camisetas do Gr\u00eamio e do Inter, radinhos, antenas&#8230; Rente, lojas quase escondidas tentando expor camisas, sapatos. Muitas farm\u00e1cias. Uma quase junto \u00e0 outra. M\u00fasicos tamb\u00e9m. Anunciadores de fotos: \u201cFoto, foto!\u201d Gente, indo, voltando, circulando, andarilhando, sofrendo, vivendo. Cachorros acostumados, pombas ligeiras, baratas escondidas. Brisa de alguma \u00e1rvore com saudade do rio. Gente com sacolas presas nos bra\u00e7os, ou sacolas com gente amarrada. Tem mais sacolas carregando gente do que gente com sacolas. Tudo e muito mais. Nada e quase nada.<br \/>\nComo n\u00e3o gostar da rua? A rua n\u00e3o julga. Acolhe. \u00c9 solid\u00e1ria. Na rua n\u00e3o cabem cadeiras estofadas. Tiram muito lugar.<br \/>\nJos\u00e9 Alberto Wenzel \u2013 analista ambiental<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele come\u00e7ara cedo. Aos quinze anos j\u00e1 trabalhava duro. Agora, acolhido pela cadeira confort\u00e1vel jogou seu corpo para tr\u00e1s. Atrav\u00e9s da janela gradeada do edif\u00edcio, distanciou o olhar, em retrospectiva. Continuava trabalhando, apesar de seus muitos anos. \u201cPor que parar? Sempre trabalhei!\u201d. 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