{"id":57589,"date":"2017-11-24T14:36:57","date_gmt":"2017-11-24T17:36:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57589"},"modified":"2017-11-24T14:36:57","modified_gmt":"2017-11-24T17:36:57","slug":"a-pior-dor-na-face-da-terra-e-a-dor-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-pior-dor-na-face-da-terra-e-a-dor-da-fome\/","title":{"rendered":"\u201cA pior dor na face da Terra \u00e9 a dor da fome\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"olho\" style=\"font-size: 120%\"><em>Verduras, frutas e legumes que iriam para o lixo alimentam centenas de pessoas que buscam nos restos a forma de sobreviver<\/em><\/span><br \/>\n<span class=\"assina\">Textos e fotos:\u00a0Annie Castro e Gabriela Rabaldo<\/span><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/agencia\/sobras-comida-porto-alegre\/\">Ag\u00eancia J de Reportagem<\/a>\u00a0| Famecos\/PUCRS<br \/>\nPor entre a multid\u00e3o, enquanto a luz alaranjada do sol entra pelas muitas janelas do galp\u00e3o, o vulto de um menino corre esquivando-se de corpos, caixas e carrinhos.\u00a0 Com agilidade e destreza nos p\u00e9s, ele desvia dos obst\u00e1culos, firme e certo como uma bala. Ele carrega, envolvidas na blusa, meia d\u00fazia de bergamotas e um molho de espinafre, que segura com as pequenas m\u00e3os rumo \u00e0 sa\u00edda da Pedra, o pavilh\u00e3o central. No local, produtores de gr\u00e3os, legumes e frutas vendem aos comerciantes os alimentos que abastecem os mercados de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Os produtos que aquele menino recolheu \u00e0s pressas fazem parte de uma parcela de legumes e frutas que s\u00e3o desprezados, todos os dias, por estarem machucados ou mais maduros que o padr\u00e3o est\u00e9tico de venda. Meninos como aquele n\u00e3o podem se dar ao luxo de desprezar alimentos. Meninos como aquele disputam o desperd\u00edcio. Meninos como aquele comem sobras.<br \/>\nFazia calor. Era mais um daqueles dias de Primavera, que amanhecem gelados e depois esquentam. Do lado de fora, com as bergamotas e o molho de espinafre, o menino alcan\u00e7a duas mulheres e um homem. Os tr\u00eas est\u00e3o sentados no gramado sob a sombra de um jacarand\u00e1. Falam pouco. O menino, que usa um bon\u00e9 preto, entrega os alimentos com sorriso t\u00edmido, comenta sobre ter conseguido um legume muito bom e que voltaria l\u00e1 para buscar. Ele pega um gomo de bergamota e retorna correndo \u00e0 Pedra. Em frente ao casal sentado, dois caixotes de feira acumulam frutas e legumes j\u00e1 obtidos no pavilh\u00e3o. Eles n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos, s\u00e3o apenas tr\u00eas entre mais de 20 pessoas que se concentram perto do jacarand\u00e1 naquele dia abafado. Muitas s\u00e3o mulheres, m\u00e3es e filhos.<br \/>\n\u201cA pior dor na face da Terra \u00e9 a dor da fome, n\u00e3o ter, ver os outros comendo e n\u00e3o poder comer, ver teus filhos pedindo e n\u00e3o ter pra dar. Eu j\u00e1 passei por isso\u201d, lamenta Ilda Celina Cavalheiro, 33 anos, m\u00e3e de Davi, o menino de 12 anos que corria por entre as frestas da Pedra com as bergamotas e o molho de espinafre. Junto ao filho e ao companheiro, Douglas Paz Vict\u00f3ria, 32 anos, eles percorrem aproximadamente 16 quil\u00f4metros em um Gol antigo, que nem os vidros das janelas tem mais, desde o Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, at\u00e9 a Ceasa, onde conseguem cenoura, couve e frutas \u2013 naquele dia, fizeram o percurso com apenas R$ 13 de gasolina.<br \/>\nO casal sabe bem o que \u00e9 passar fome. Ambos j\u00e1 vivenciaram, individualmente, dificuldades nas ruas. Ela foi garota de programa, ele foi viciado em crack. Eles se conheceram no\u00a0<em>Feij\u00e3o com Arroz<\/em>, uma festa no centro de Porto Alegre. Na \u00e9poca, Douglas era taxista e estava fazendo uma corrida para l\u00e1. Resolveu entrar na festa e viu Ilda dan\u00e7ando. \u201cUma semana depois j\u00e1 tava na casa dela, no morro Santana\u201d, lembra ele, em meio a sorrisos. Mas o semblante de Douglas muda quando ele relembra o que passou durante a inf\u00e2ncia.<br \/>\n\u201cEu comecei a usar crack com o meu pai. Aos 11 anos, eu andava sozinho na rua, sempre tive o apoio da minha m\u00e3e, mas sempre morei sozinho porque eu n\u00e3o aceitava ele dentro de casa, ele me espancava, me colocava pra fora. Eu queria andar de bicicleta e n\u00e3o tinha, eu queria ir em um anivers\u00e1rio e meu pai me deixava trancado no banheiro. Muitas coisas dessas eu n\u00e3o tive, sabe?\u201d. O relato de Douglas \u00e9 com voz embargada. \u201c\u00c0s vezes as pessoas s\u00f3 precisam de um abra\u00e7o, um carinho, amor\u201d, tenta explicar com l\u00e1grimas cravadas no rosto. O menino sai do colo da m\u00e3e para abra\u00e7ar o padrasto. \u201cPor isso que eu amo esse homem, por isso ele merece amor e carinho\u201d, diz Ilda, emocionada, sorrindo. Atualmente ela trabalha como atendente em uma tabacaria. Ele \u00e9 prestador de servi\u00e7os gerais em uma empresa de Canoas. Ainda assim, uma vez por semana o casal busca com produtores os alimentos para que seriam descartados.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16371\" src=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/IMG_4819-620x413.jpg\" alt=\"IMG_4819\" width=\"620\" height=\"413\" \/><br \/>\nApesar de ser considerado um atacado de hortifruti e n\u00e3o uma feira, o centro de distribui\u00e7\u00e3o dos alimentos da regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, a Central de Abastecimento (Ceasa), fundada em 1974, ainda recebe frequentadores que buscam nas sobras o seu sustento. Em dias de grande movimento, chegam a circular 45 mil pessoas nos pavilh\u00f5es da Ceasa. A confus\u00e3o \u00e9 grande. As 470 bancas, organizadas em 94 fileiras, exp\u00f5em verduras, frutas e legumes. O cheiro no local \u00e9 um misto de hortifruti e pastel frito, vendido nas lancherias dentro do pavilh\u00e3o. Homens conduzem carrinhos cheios de caixas empilhadas umas sobre as outras com os produtos vendidos pelos comerciantes. As vozes reverberam pelas paredes. Produtores, comerciantes e consumidores estabelecem di\u00e1logos din\u00e2micos durante as negocia\u00e7\u00f5es.<br \/>\n-\u201cTrinta reais? Mas isso t\u00e1 muito caro!\u201d<br \/>\n-\u201cN\u00e3o sai por menos?\u201d<br \/>\nCascas e restos de alimentos que caem das caixas v\u00e3o se acumulando pelo ch\u00e3o de cimento. Muitos deles s\u00e3o condenados ao desperd\u00edcio. Entre os corredores de caminh\u00f5es que se formam ao entorno da Pedra, na \u00e1rea do estacionamento, um homem com metade do corpo para dentro da ca\u00e7amba do ve\u00edculo joga, com desd\u00e9m, por cima dos ombros, os tomates que cont\u00eam marcas na pele. As frutas voam de dentro da estrutura de alum\u00ednio e explodem no asfalto, pintando-o de vermelho.<br \/>\nOs alimentos excedentes poderiam ser recolhidos para o projeto social da Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), o\u00a0<em>Prato Para Todos<\/em>, que realiza a doa\u00e7\u00e3o desses hortifruti para as 208 entidades \u2013 creches comunit\u00e1rias, institui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas ou asilos \u2013 cadastradas no programa do Governo do Estado em parceria com duas empresas, o Sesc e a Seven Boys. De acordo com Ivanise Mancio, coordenadora pedag\u00f3gica do programa, s\u00e3o 51 mil pessoas atendidas por m\u00eas. Toda sexta-feira, os mais de 20 produtores que contribuem com o programa deixam seus excedentes para que sejam separados para as doa\u00e7\u00f5es. Em setembro, foram repassados 78.599 kg de hortifrutis pela Ceasa. Al\u00e9m de atender institui\u00e7\u00f5es, h\u00e1 ainda 200 fam\u00edlias que recebem um complemento da alimenta\u00e7\u00e3o uma vez por semana, o que n\u00e3o seria o suficiente para Ilma Orizontina, 46 anos, que vai \u00e0 Ceasa duas ou tr\u00eas vezes por semana para alimentar 13 bocas em casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_16370\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_16370\" aria-describedby=\"caption-attachment-16370\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-16370 size-large\" src=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Ilma_pedala_93_quil%C3%B4metros_at%C3%A9_%C3%A0_Ceasa__2F_Foto-_Gabriela_Rabaldo_-620x413.jpg\" alt=\"Ilma pedala 9,3 quil\u00f4metros at\u00e9 a Ceasa\" width=\"620\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16370\" class=\"wp-caption-text\">Ilma pedala 9,3 quil\u00f4metros at\u00e9 a Ceasa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Entre filhos, marido, netos, quem cuida da fam\u00edlia \u00e9 a matriarca de cabelos encaracolados e meio grisalhos. De bicicleta, Ilma pedala 9,3 quil\u00f4metros at\u00e9 a Ceasa ao lado do genro, Patrick. Repetem o trajeto de volta, carregados de sacos de cenouras, p\u00eassegos e sacolas com garrafas pet e materiais pl\u00e1sticos para reciclar. \u201cEu venho fa\u00e7a chuva, vento, sol. Preciso disso aqui\u201d, aponta para o saco que exala um cheiro azedo. Logo se senta no gramado e, com uma faca, corta os peda\u00e7os podres das batatas que retira de dentro do saco. \u201cSe eu n\u00e3o venho, toda a fam\u00edlia passa fome, ainda mais agora que cortaram o meu Bolsa Fam\u00edlia\u201d. Quase vinte quil\u00f4metros sobre uma bicicleta n\u00e3o parecem muito para a mulher que cruzou 614 quil\u00f4metros em busca de melhores oportunidades. Foi em 1984 que Ilma deixou S\u00e3o Borja, na fronteira com a Argentina, para tentar uma vida na Capital. Marcas de express\u00f5es desenhadas pelo sol contornam os olhos, a voz e o olhar s\u00e3o de quem n\u00e3o encontrou as promessas ouvidas na cidade do Interior. Ilma trabalhou como auxiliar de cozinha, mas atualmente est\u00e1 desempregada e, ainda assim, sustenta o lar com a persist\u00eancia de quem n\u00e3o pode se permitir desistir.<\/p>\n<div id=\"attachment_16369\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_16369\" aria-describedby=\"caption-attachment-16369\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-16369 size-large\" src=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Patrick_e_Ilma_Foto-_Gabriela_Rabaldo-620x413.jpg\" alt=\"Patrick e Ilma\" width=\"620\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16369\" class=\"wp-caption-text\">Patrick e Ilma<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>O mesmo pa\u00eds onde 3,5 milh\u00f5es de pessoas passam fome desperdi\u00e7a 41 mil toneladas de alimento por ano, conforme o Instituto Internacional de Investiga\u00e7\u00e3o sobre Pol\u00edticas Alimentares (IFPRI) e a World Resources Institute (WRI) Brasil, respectivamente. O n\u00famero pode ser maior, 7 milh\u00f5es de brasileiros passaram fome em 2013, conforme pesquisa divulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). De acordo com pesquisa realizada por professores da Universidade de Cambridge, da PUCRS e da UFRGS, a pobreza monet\u00e1ria atinge 11,3% da popula\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, ou seja, mais de 150.000 pessoas vivem nesta condi\u00e7\u00e3o. Por pobreza, neste dado, compreende-se a insufici\u00eancia de renda ou baixo n\u00edvel de recursos, bens prim\u00e1rios ou necessidades b\u00e1sicas. No entanto, o intuito do estudo \u00e9 justamente compreender as m\u00faltiplas camadas da pobreza, portanto, para al\u00e9m da renda, as dimens\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o incorporadas ao conceito. A pobreza deve ser entendida desde os aspectos mais elementares, como priva\u00e7\u00e3o de capacita\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, e aspectos como estar bem nutrido, saud\u00e1vel e livre de doen\u00e7as evit\u00e1veis e da morte prematura, at\u00e9 aspectos de maior complexidade, como ser feliz, ter respeito pr\u00f3prio e participar da vida comunit\u00e1ria, de acordo com o estudo.<br \/>\nEntre os que vivem situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar, apenas uma parcela consegue acessar a Ceasa. Douglas e Ilda sabem disso. Al\u00e9m de usarem as sobras para a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, ainda lembram de quem tem menos que eles. Destinam n\u00e3o apenas para o pr\u00f3prio prato, mas transformam um pouco do que arrecadam em alimento para dezenas de pessoas que hoje est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e habitam o centro de Porto Alegre. \u201cBotamos umas madeiras, lenhas e esquentamos o panel\u00e3o na rua mesmo e, como n\u00e3o temos pote nem colheres, n\u00f3s cortamos as garrafas pet e caixinhas de leite no meio e servimos o sop\u00e3o\u201d, explica Douglas.<br \/>\nTamb\u00e9m nas ruas vivia Vit\u00f3ria, de 13 anos. A m\u00e3e, viciada em crack. O pai, ausente. Foi a tia, Cl\u00e1udia, quem, h\u00e1 cerca de um ano, adotou a menina e a acolheu na casa cujo terreno compartilha com as irm\u00e3s. Sentadas em um banco nas proximidades da Pedra, na mesma pracinha onde muitas fam\u00edlias ficam, Cl\u00e1udia e Andreia Pinheiro conversam com semblantes s\u00e9rios. No ch\u00e3o, ao redor das irm\u00e3s Pinheiro, cerca de dez mochilas est\u00e3o espalhadas. Elas est\u00e3o cheias de laranjas, bergamotas, alfaces, bananas.<br \/>\nVez em quando aparecem as duas meninas que, aos risos, entregam algumas frutas e voltam para dentro do galp\u00e3o. S\u00e3o Vit\u00f3ria e Quetelin, filha de Andreia, seguindo um esquema j\u00e1 conhecido. H\u00e1 cerca de quatro meses, a rotina havia se tornado familiar para aquelas mulheres, quando a m\u00e3e, respons\u00e1vel pela renda da fam\u00edlia, faleceu. A av\u00f3 delas costumava pedir as sobras nas feiras para levar os alimentos para casa. Depois, a m\u00e3e passou a faz\u00ea-lo. Agora, filhas e netas s\u00e3o respons\u00e1veis por alimentar o lar da fam\u00edlia Pinheiro. Elas moram na Vila Augusta, em Viam\u00e3o. Levam quase duas horas de \u00f4nibus at\u00e9 a sede da Ceasa, localizada no bairro Anchieta, em Porto Alegre, quase na divisa com Canoas. Antes, faziam o todo trajeto de \u00f4nibus e a p\u00e9, mas naquela semana come\u00e7aram a voltar de Uber, gra\u00e7as ao dinheiro que Cl\u00e1udia recebeu do Bolsa Fam\u00edlia, programa social do governo brasileiro, direcionado \u00e0s fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ao redor do pa\u00eds. Cl\u00e1udia \u00e9 uma das mais de 13,9 milh\u00f5es pessoas atendidas pelo programa. Sem a possibilidade de se locomover com o transporte privado por aplicativo, elas teriam que pegar dois \u00f4nibus e ainda caminhar um bocado para chegar em casa. Tudo isso carregando uma dezena de sacolas lotadas com as sobras da Ceasa que conseguiram para alimentar a fam\u00edlia. Al\u00e9m do pai, ao todo, s\u00e3o seis irm\u00e3os. Cada irm\u00e3o tem de seis a sete filhos, que acabam passando bastante tempo com Andreia e Cl\u00e1udia. \u201c\u00c9 uma fam\u00edlia bem grande\u201d, afirmam elas, em tom orgulhoso. Ap\u00f3s a perda da m\u00e3e, a renda da fam\u00edlia diminuiu bastante, e as irm\u00e3s assumiram a miss\u00e3o de ir uma vez por semana na Ceasa. \u201cA gente leva tudo isso pra dividir\u201d, garante Claudia, apontando para as sacolas com frutas diante de si.<\/p>\n<div id=\"attachment_16368\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_16368\" aria-describedby=\"caption-attachment-16368\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-16368 size-large\" src=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Andr%C3%A9_trabalha_h%C3%A1_30_anos_na_Ceasa_Foto-_Gabriela_Rabaldo-620x413.jpg\" alt=\"Andr\u00e9 trabalha h\u00e1 30 anos na Ceasa\" width=\"620\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16368\" class=\"wp-caption-text\">Andr\u00e9 trabalha h\u00e1 30 anos na Ceasa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Os produtores que jogam alimentos no cont\u00eaineres s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. Luiz Andr\u00e9 Sauer, de 47 anos, da cidade de Feliz, tenta, sempre que poss\u00edvel, ajudar os que frequentam a Ceasa. H\u00e1 30 anos, quatro vezes por semana, Andr\u00e9, um homem de fei\u00e7\u00f5es de origem alem\u00e3, deixa a fam\u00edlia no munic\u00edpio de Feliz, distante 87 quil\u00f4metros da Capital, para trabalhar na Ceasa. Ele frequenta o local h\u00e1 bem mais de 30 anos, se contar as vezes em que ia acompanhar o pai, que fazia a Ceasa em Caxias do Sul. Desde 1982, passou a vender na central de Porto Alegre. Hoje, quem d\u00e1 continuidade ao neg\u00f3cio paterno \u00e9 Andr\u00e9 e o irm\u00e3o. Um cuida da lavoura, o outro se dedica \u00e0 venda. \u201c\u00c9 tudo junto. Eu tamb\u00e9m ajudo ele l\u00e1, mas pra c\u00e1 faz uns dez anos que ele n\u00e3o vem\u201d. A divis\u00e3o \u00e9 feita assim, n\u00e3o por Andr\u00e9 gostar mais de estar na Ceasa, mas por conhecer bem os clientes e o funcionamento local. Com um brilho nos olhos, ele confessa. \u201cL\u00e1 fora \u00e9 outra vida, \u00e9 bem mais desistressante. Aqui tu trabalhas mais livre\u201d.<br \/>\nAli, nas bancas 66D e 67D, uma grudada na outra, as mesmas que eram usadas pelo pai h\u00e1 alguns anos, nos hor\u00e1rios de pico a confus\u00e3o \u00e9 grande. Geralmente mais de cinco pessoas compram ao mesmo tempo, sem fila ou nenhuma organiza\u00e7\u00e3o. \u201cUm pergunta o pre\u00e7o do aipim, outro pergunta o pre\u00e7o de outra coisa. Um t\u00e1 pagando aqui, e o outro pagando l\u00e1. E ainda tem que ficar cuidando para ver se ningu\u00e9m vai levar algo sem pagar\u201d, conta o produtor. Ele sempre separa os alimentos que n\u00e3o ser\u00e3o vendidos aos compradores maiores, geralmente donos de mercados, mas que ainda est\u00e3o bons para consumo. Guarda os hortifrutis para vender bem mais barato, ou ent\u00e3o doar aos que passarem pedindo. No dia em que a reportagem visitou a Ceasa, algu\u00e9m levar\u00e1 para casa pepinos, que est\u00e3o em uma caixa, que nem foi exposta junto com as outras, separada no canto direito da banca de Andr\u00e9.<br \/>\nNa Ceasa, os alimentos desperdi\u00e7ados se espalham pelo ch\u00e3o feito escombros de uma batalha ainda n\u00e3o perdida. E os que se recusam a deixar derrotar s\u00e3o crian\u00e7as como Davi, que nas pequenas m\u00e3os segura os frutos com a firmeza de saber que com isso, Douglas e Ilda multiplicam o alimento n\u00e3o s\u00f3 para a pr\u00f3pria casa, mas para dezenas de pessoas que n\u00e3o t\u00eam o que comer. S\u00e3o mulheres como Dona Ilda, que carrega em sua bicicleta quilos de verduras para alimentar mais 13 pessoas. Como Cl\u00e1udia e Andreia, persistentes, garantem o prato de comida na mesa da fam\u00edlia. Para n\u00e3o fazer parte dos 1,6%, esses personagens resistem. Porque resistir \u00e9 a forma que encontraram para viver.<\/p>\n<div class=\"edj_single_foto\"><\/div>\n<div class=\"edj_single_foto\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Verduras, frutas e legumes que iriam para o lixo alimentam centenas de pessoas que buscam nos restos a forma de sobreviver Textos e fotos:\u00a0Annie Castro e Gabriela Rabaldo Ag\u00eancia J de Reportagem\u00a0| Famecos\/PUCRS Por entre a multid\u00e3o, enquanto a luz alaranjada do sol entra pelas muitas janelas do galp\u00e3o, o vulto de um menino corre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":57591,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-57589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":57589,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-eYR","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57589"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57589\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}