{"id":57662,"date":"2017-11-27T17:56:08","date_gmt":"2017-11-27T20:56:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57662"},"modified":"2017-11-27T17:56:08","modified_gmt":"2017-11-27T20:56:08","slug":"os-pingentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/os-pingentes\/","title":{"rendered":"Os pingentes"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intertit assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nDe manh\u00e3 cedo, antes das sete horas, o cidad\u00e3o com um saco pl\u00e1stico \u00e0s costas pede \u201cdois real\u201d.<br \/>\n\u201cS\u00f3 tenho um. Serve?\u201d<br \/>\nEle pega a moeda, agradece e segue seu caminho.<br \/>\nCom mais alguma doa\u00e7\u00e3o ali adiante, talvez inteire o valor de um caf\u00e9-com-p\u00e3o.<br \/>\nEnquanto caminha, vai procurando latas para encher o saco preto.<br \/>\nPrecisa de 70 latinhas para fazer o quilo que lhe render\u00e1 R$ 1.<br \/>\nH\u00e1 20 anos, bastavam 40 latas para inteirar um quilo.<br \/>\nA tecnologia aliviou o peso dos recipientes de bebidas, obrigando os catadores a dobrar suas buscas para alcan\u00e7ar o mesmo resultado. Isso sem falar que o n\u00famero de catadores mais do que dobrou.<br \/>\nComo disse em 1970 o general Medici em visita ao Nordeste, \u201ca economia vai bem, mas o povo vai mal\u201d.<br \/>\nS\u00e3o \u00e1rduas e extenuantes as jornadas dos catadores, mas muitas pessoas os consideram \u201cvagabundos\u201d.<br \/>\nNa real, s\u00e3o pingentes ca\u00eddos do trem da economia, o qual vai descartando e excluindo criaturas inaptas para a vida concorrencial.<br \/>\nA maioria nunca teve qualifica\u00e7\u00e3o ou a perdeu em algum momento de transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, como a atual. Os egressos da vida rural praticamente perdem o saber e a utilidade na vida urbana. Alguns se arranjam como jardineiros, mas faltam jardins para tantos marginalizados.<br \/>\nNo desamparo, muitos se acomodam em casas de parentes, montam barracos ou v\u00e3o para baixo de viadutos, onde passam a fazer parte de uma categoria crescente: os moradores de rua.<br \/>\nN\u00e3o raro se afei\u00e7oam a uma droga que acaba por lhes destruir a sa\u00fade, abreviando sua passagem pela vida \u2013 se a isso se pode chamar de vida.<br \/>\nDos 13 milh\u00f5es de desempregados da economia brasileira, quantos esmoreceram e foram catar lata, papel\u00e3o e pl\u00e1stico?<br \/>\nE quantos simplesmente se acocoram nas proximidades de bancos e supermercados, \u00e0 espera de uma ajuda, pelo amor de Deus?<br \/>\nSe a popula\u00e7\u00e3o sem emprego dobrou nos \u00faltimos tr\u00eas anos, \u00e9 razo\u00e1vel supor que o n\u00famero de catadores, moradores de rua e similares tamb\u00e9m se multiplicou por dois ou mais.<br \/>\nO fen\u00f4meno \u00e9 constrangedor. H\u00e1 um pedinte que passa algumas horas na porta de uma ag\u00eancia Caixa, onde se limita a interpelar cada pessoa que passa na cal\u00e7ada com um bord\u00e3o ultraecon\u00f4mico:<br \/>\n\u201cTem um real a\u00ed, amigo?!\u201d<br \/>\n\u00c9 um morador de rua, sem roupa limpa para trocar, embora saiba que, na pior das hip\u00f3teses, pode buscar abrigo num albergue p\u00fablico que al\u00e9m de cama, banho e roupa limpa, lhe oferecer\u00e1 pela manh\u00e3, para que n\u00e3o saia \u00e0 rua sem nada nas m\u00e3os, uma mamadeira contendo \u00e1gua e algum aditivo.<br \/>\nNa realidade, os servi\u00e7os de assist\u00eancia social das prefeituras ou de entidades beneficentes n\u00e3o d\u00e3o conta dessa situa\u00e7\u00e3o emergente. E cresce o n\u00famero de pol\u00edticos dispostos a ignorar o problema social que se tornou cr\u00f4nico.<br \/>\nS\u00e3o os doidos que vagueiam com um cobertor sobre os ombros, sem coragem de pedir.<br \/>\n\u00c9 o portador de cartaz de papel\u00e3o &#8211; Ajuda Para Comprar Comida &#8211; que fica corujando os motoristas nas esquinas.<br \/>\nO vendedor de drops nos sinais de tr\u00e2nsito.<br \/>\nOs malabares de esquina.<br \/>\nOs guardadores de vagas, os lavadores de carros e tantos outros.<br \/>\nO Brasil precisa incluir o esp\u00edrito de solidariedade em sua pol\u00edtica econ\u00f4mica para que, em algum dia do futuro, os filhos de todos esses pingentes tenham educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, emprego e demais benesses da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong><em>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/em><\/strong><br \/>\n<em>\u201cQuando cai a noite, nossa raiva fala liberdade!\u201d<\/em><br \/>\n<em>Frase pichada em muro de Porto Alegre e assinada pelo s\u00edmbolo anarquista (um A dentro do O mai\u00fasculo)<\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse De manh\u00e3 cedo, antes das sete horas, o cidad\u00e3o com um saco pl\u00e1stico \u00e0s costas pede \u201cdois real\u201d. \u201cS\u00f3 tenho um. Serve?\u201d Ele pega a moeda, agradece e segue seu caminho. Com mais alguma doa\u00e7\u00e3o ali adiante, talvez inteire o valor de um caf\u00e9-com-p\u00e3o. Enquanto caminha, vai procurando latas para encher o saco [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-57662","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-f02","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57662"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57662\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}