{"id":57737,"date":"2017-11-29T08:32:25","date_gmt":"2017-11-29T11:32:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57737"},"modified":"2017-11-29T08:32:25","modified_gmt":"2017-11-29T11:32:25","slug":"vergonha-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/vergonha-para-o-brasil\/","title":{"rendered":"Vergonha para o Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"texto-externo\">\n<span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha<\/span><br \/>\nA It\u00e1lia faz o que o Brasil nunca fez: botou no banco dos r\u00e9us os militares brasileiros envolvidos com a Opera\u00e7\u00e3o Condor, a multinacional repressiva que nos anos 1970 coordenou a ca\u00e7ada a dissidentes no Cone Sul do continente, dominado na \u00e9poca pelos generais das ditaduras que assolavam a regi\u00e3o.<br \/>\nNesta quarta-feira, 29, o papel criminoso do Brasil, membro ilustre da Condor, estar\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia, na sala principal da 1a Corte Penal do Tribunal de Roma, que julga tr\u00eas coron\u00e9is do Ex\u00e9rcito brasileiro e um delegado do DOPS envolvidos no desaparecimento de um argentino, Lorenzo Vi\u00f1as, sequestrado e desaparecido em solo brasileiro desde 1980.<br \/>\nCa\u00e7ado como militante do movimento guerrilheiro Montoneros, Vi\u00f1as decidiu sair da Argentina e procurar a seguran\u00e7a de um pa\u00eds europeu. Embarcou em um \u00f4nibus em Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro, onde aguardaria a mulher, Cl\u00e1udia Allegrini, para juntos viajarem \u00e0 Europa sob a prote\u00e7\u00e3o do Alto Comissariados das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ACNUR). Em 26 de junho, o \u00f4nibus atravessou a fronteira de Paso de Los Libres com a cidade ga\u00facha de Uruguaiana \u2013 e ali Vi\u00f1as desapareceu, aos 25 anos. Tornou-se uma das v\u00edtimas sem destino final da Condor, que coordenava a ca\u00e7a, pris\u00e3o, tortura e morte de dissidentes em todas as fronteiras do Cone Sul.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O time verde-amarelo<\/span><br \/>\nNo Natal de 2007, quase tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a queda da ditadura do chileno Augusto Pinochet, onde nasceu a Condor, a ju\u00edza Luisanna Figliola, do Tribunal Penal de Roma, expediu uma ordem internacional de pris\u00e3o contra 146 ex-governantes e agentes p\u00fablicos das ditaduras camaradas do sul do continente. Em sua maioria, eram militares de alta hierarquia, al\u00e9m de policiais e alguns civis, acusados pela deten\u00e7\u00e3o ilegal, tortura, morte e desaparecimento de 25 pessoas, italianos ou seus descendentes. Vi\u00f1as, com pais italianos, era um deles.<br \/>\nNa penca de denunciados, os bandos maiores eram de argentinos (61), uruguaios (32), chilenos (22) e brasileiros (13). O time verde-amarelo de brutamontes era formado por seis generais, quatro coron\u00e9is, dois policiais federais e um policial do DOPS. A m\u00e3o pesada da ju\u00edza Figliola atendia a um pedido do\u00a0procurador-geral da Rep\u00fablica italiana, Giancarlo Capaldo, que preenchia o renitente vazio de justi\u00e7a dos pa\u00edses sul-americanos p\u00f3s-ditadura: \u201cEsse processo nasceu na It\u00e1lia porque os pa\u00edses unidos em torno da Opera\u00e7\u00e3o Condor decidiram n\u00e3o abrir investiga\u00e7\u00f5es sobre o assunto. Queremos evitar a impunidade, para que opera\u00e7\u00f5es como essa n\u00e3o tornem a acontecer\u201d, justificou Capaldo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O \u00fanico fracasso da Condor <\/span><br \/>\nO calend\u00e1rio e a in\u00e9rcia livraram os brasileiros do tac\u00e3o da justi\u00e7a italiana. Do bando dos 13, dez dos denunciados em Roma j\u00e1 morreram. Entre eles, os quatro mais graduados: Jo\u00e3o Baptista Figueiredo (o \u00faltimo general-presidente dos cinco da ditadura), Walter Pires (ministro do Ex\u00e9rcito de Figueiredo), Oct\u00e1vio Aguiar de Medeiros (chefe do SNI) e Ant\u00f4nio Bandeira (ex-comandante do III Ex\u00e9rcito, em Porto Alegre).<br \/>\nDos 13, pelo menos dez tiveram algum tipo de envolvimento em alguma etapa do sequestro dos uruguaios Universindo D\u00edaz, Lili\u00e1n Celiberti e seus dois filhos, na capital ga\u00facha, em novembro de 1978. Um in\u00e9dito fracasso da Condor que teve repercuss\u00e3o internacional, quando a opera\u00e7\u00e3o foi flagrada pela apari\u00e7\u00e3o de dois rep\u00f3rteres da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, que denunciaram o caso e o envolvimento do DOPS ga\u00facho na a\u00e7\u00e3o binacional da Condor brasileiro-uruguaia.<br \/>\nO diretor do DOPS, na ocasi\u00e3o, era o delegado ga\u00facho Marco Aur\u00e9lio Reis, chefe do not\u00f3rio delegado Pedro Seelig, que comandou o sequestro dos uruguaios. Reis, um dos 13 denunciados em Roma, tamb\u00e9m escapou do ju\u00edzo italiano ao morrer em junho de 2016, gozando as del\u00edcias de uma serena impunidade em\u00a0uma praia do litoral ga\u00facho.<br \/>\nOs outros tr\u00eas brasileiros denunciados em Roma, todos coron\u00e9is do Ex\u00e9rcito e tamb\u00e9m ga\u00fachos, s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes da lista original. S\u00e3o o cel. Jo\u00e3o Osvaldo Leivas (secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do Rio Grande do Sul quando Vi\u00f1as foi sequestrado em Uruguaiana), o cel. \u00c1ttila Rohrsetzer (o temido diretor da DCI, Divis\u00e3o Central de Informa\u00e7\u00f5es, que fazia a liga\u00e7\u00e3o entre o DOPS e a repress\u00e3o do III Ex\u00e9rcito) e o cel. Carlos Alberto Ponzi (chefe da Ag\u00eancia de Porto Alegre do SNI).<br \/>\n<span class=\"intertit\">O brasileiro que n\u00e3o esquece <\/span><br \/>\nA lista original da Condor denunciada em Roma era originalmente maior. Tinha quase 200 autoridades. O qu\u00f3rum foi baixando ao se constatar que o rigor do tempo e a pena de morte natural j\u00e1 havia executado alguns dos futuros denunciados. O rol de brasileiros s\u00f3 chegou l\u00e1 gra\u00e7as ao empenho de um ga\u00facho\u00a0teimoso, incans\u00e1vel, dono de uma respeit\u00e1vel cabeleira branca, Jair Krischke. Aos 78 anos, casado, cinco filhos, Krischke \u00e9 o mais respeitado ativista de direitos humanos do pa\u00eds, na condi\u00e7\u00e3o de presidente do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH) que ele fundou em Porto Alegre, um ano ap\u00f3s o sequestro de Lili\u00e1n e Universindo.<br \/>\nDepois de ouvir o testemunho de Krischke em Roma, o procurador Capaldo decidiu ampliar sua lista com os brasileiros, a partir dos nomes, postos, datas e conex\u00f5es fornecidas pelo ativista de Porto Alegre.<br \/>\nForam suas informa\u00e7\u00f5es que inclu\u00edram o caso de Vin\u00e3s entre as v\u00edtimas, al\u00e9m de outro \u00edtalo-argentino, Hor\u00e1cio Domingo Campiglia, um l\u00edder Montonero sequestrado no aeroporto do Gale\u00e3o, com o benepl\u00e1cito da Aeron\u00e1utica brasileira, em mar\u00e7o de 1980. Alheio \u00e0 soberania nacional, o governo do general Figueiredo liberou o pouso e decolagem na base a\u00e9rea do Rio de um H\u00e9rcules C-130, levando a bordo um comando do Batalh\u00e3o 601, a tropa de elite que operava como o bra\u00e7o longo da Condor argentina no exterior. Campiglia e sua companheira, Susana de Binstock, tamb\u00e9m Montonera, foram levadas a Buenos Aires, sem deixar rastros. Foram vistos ainda com vida em El Campito, o centro\u00a0clandestino de deten\u00e7\u00e3o \u2014 um dos 600 da ditadura argentina \u2014 de Campo de Mayo, o maior quartel do pa\u00eds, onde sucumbiram \u00e0s torturas e desapareceram para sempre.<br \/>\nKrischke ir\u00e1 contar essas hist\u00f3rias \u00e0s 10h da manh\u00e3 desta quarta-feira, 29, no tribunal de Roma. Por v\u00eddeo-confer\u00eancia, v\u00e3o depor a vi\u00fava de Vi\u00f1as, Cl\u00e1udia, e a militante Montonera S\u00edlvia Tolchinsky,\u00a0sequestrada na cidade de Las Cuevas, na fronteira da Argentina com o Chile. Ela \u00e9 autora de uma cara enviada a Cl\u00e1udia, anos depois, contando ter encontrado Vi\u00f1as, ainda vivo, em uma pris\u00e3o clandestina do pa\u00eds.<br \/>\nS\u00e3o horrores que j\u00e1 n\u00e3o fazem parte da agenda das autoridades brasileiras. Mas, ainda preocupam a atenta Justi\u00e7a italiana.<br \/>\nAfinal, h\u00e1 ju\u00edzes em Roma.\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha A It\u00e1lia faz o que o Brasil nunca fez: botou no banco dos r\u00e9us os militares brasileiros envolvidos com a Opera\u00e7\u00e3o Condor, a multinacional repressiva que nos anos 1970 coordenou a ca\u00e7ada a dissidentes no Cone Sul do continente, dominado na \u00e9poca pelos generais das ditaduras que assolavam a regi\u00e3o. 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