{"id":57923,"date":"2017-12-04T09:02:39","date_gmt":"2017-12-04T11:02:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57923"},"modified":"2017-12-04T09:02:39","modified_gmt":"2017-12-04T11:02:39","slug":"o-horizonte-solitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-horizonte-solitario\/","title":{"rendered":"O horizonte solit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Texto:\u00a0Leonardo Radaelli<\/span><br \/>\n<span class=\"assina\">Fotos:\u00a0Nicolas Chidem<\/span><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.editorialj.eusoufamecos.net\/site\/agencia\/o-horizonte-solitario\/\">Ag\u00eancia J de Reportagem<\/a> | Famecos\/PUCRS\u200b<br \/>\nUma viagem remete \u00e0 divers\u00e3o e ao sossego. A estrada serve de fuga para a monotonia vivida por muitas pessoas, vendo no horizonte uma fonte de motiva\u00e7\u00e3o para novos desafios. O que para muitos serve como lazer e escape da rotina desgastante da cidade, para outros representa um modo de viver. Para caminhoneiros, a estrada \u00e9 uma velha companheira. Em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais, um trajeto entre regi\u00f5es pode durar dias, at\u00e9 semanas. Para cumprir o of\u00edcio, motoristas abdicam da vida pessoal. Apesar da paix\u00e3o pela estrada, para os caminhoneiros, viagem n\u00e3o \u00e9 lazer. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com o asfalto \u00e9 intensa. Para o bem. E para o mal. A estrada traz cap\u00edtulos diferentes, hist\u00f3ria marcantes e amizades. Na via contr\u00e1ria, embala a solid\u00e3o, a tristeza e a saudade.<br \/>\nNo Brasil, conforme a CNT (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Transporte), mais de 60% dos motoristas s\u00e3o aut\u00f4nomos, com m\u00e9dia de idade entre 30 e 40 anos. Rio Grande do Sul ocupa a terceira posi\u00e7\u00e3o em ve\u00edculos registrados na CNT \u2013 s\u00f3 atr\u00e1s de S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1<br \/>\n\u201cN\u00f3s pensamos em tudo. Passa um filme na tua cabe\u00e7a. Penso na fam\u00edlia, na situa\u00e7\u00e3o, penso no dia a dia da profiss\u00e3o. Resumindo: voc\u00ea coloca uma m\u00fasica para esquecer tudo isso e vamos apreciando o caminho\u201d, revela Jair Cezar. Com trinta e seis anos de estrada, ele j\u00e1 est\u00e1 acostumado com a companhia do asfalto. Jair tem 51 anos, nasceu em Terra de Areia e convive com caminh\u00e3o desde os 15 anos. Casado, pai de dois filhos, tenta estabelecer um cronograma harmonioso entre fam\u00edlia e trabalho. \u201cTenho oportunidade de fazer meu hor\u00e1rio. Dependendo das minhas condi\u00e7\u00f5es no momento, posso ficar uma semana ou um m\u00eas em casa\u201d.<br \/>\nMas nem sempre foi assim. \u201cQuando era jovem, j\u00e1 passei final de ano e anivers\u00e1rio na estrada. L\u00e1 atr\u00e1s, aconteceu muito isso. Hoje, n\u00e3o. Hoje \u00e9 mais equilibrado. Antigamente era diferente. Trabalho tinha mais valor, era mais reconhecido\u201d.<br \/>\nPara o profissional, a rotina da estrada pode ser vista como mon\u00f3tona. Mas os dias s\u00e3o sempre diferentes. Na tentativa de explicar, usa o futebol como met\u00e1fora. \u201c\u00c9 como ir ao est\u00e1dio todas as semanas. Mas n\u00e3o \u00e9 o mesmo jogo. A gente vai no mesmo lugar, mas n\u00e3o ser\u00e1 a mesma partida. \u00c9 mesma coisa a viagem. Sempre tem um cap\u00edtulo diferente\u201d, compara Jair, que acabara de voltar de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nDepois de tr\u00eas d\u00e9cadas atr\u00e1s do volante, Jair parece nost\u00e1lgico: \u201cAntigamente, a pista simples era melhor que a duplicada hoje. Duplicaram, mas triplicou o n\u00famero de acidentes. As pessoas cuidavam mais, era diferente. Na profiss\u00e3o, tinha mais coleguismo, uni\u00e3o e n\u00f3s \u00e9ramos mais valorizados\u201d. Apesar das mudan\u00e7as, Jair n\u00e3o se v\u00ea longe da estrada. O caminh\u00e3o s\u00f3 perde espa\u00e7o no cora\u00e7\u00e3o para a mulher e os filhos. \u201cTirando minha fam\u00edlia, ele \u00e9 minha vida. Eu n\u00e3o me vejo fora dele com condi\u00e7\u00e3o para trabalhar\u201d.<br \/>\nA ideia de se aposentar \u00e9 algo presente em suas conversas com a fam\u00edlia. \u201cSe hoje eu tivesse recurso, eu aprimoraria, melhoraria e n\u00e3o sairia da estrada. Isso \u00e9 para quem gosta. E eu gosto do que fa\u00e7o\u201d.<br \/>\n\u201cEu queria estar em casa, n\u00e3o queria mais viajar. E \u00e9 s\u00f3 isso a\u00ed\u201d. A frase resume bem o sentimento de Lauro dos Santos Cardozo. Com 25 anos trabalhando como caminhoneiro e enfrentando os contratempos da profiss\u00e3o, ele assume que o desgaste profissional atingiu um limite que o desmotiva a seguir dirigindo. Lauro, 49 anos, revela o sentimento que a estrada reflete para muitos motoristas. \u201c\u00c9 uma solid\u00e3o. \u00c9 brabo o cara ficar vinte dias fora de casa. Minha mulher \u00e9 acostumada j\u00e1, mas gera solid\u00e3o. Fazer o qu\u00ea? \u201d. Casado e com filhos, afirma que a profiss\u00e3o, em muitos momentos, o priva de seus momentos com a fam\u00edlia. Chega a gerar um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o com a profiss\u00e3o.<br \/>\n<figure id=\"attachment_57926\" aria-describedby=\"caption-attachment-57926\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-57926 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Caminhoneiros6660NC031017-620x413.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57926\" class=\"wp-caption-text\">Lauro diz que o desgaste atingiu um limite que o desmotiva a seguir dirigindo<\/figcaption><\/figure><br \/>\nAntes de trabalhar atr\u00e1s da dire\u00e7\u00e3o, trabalhou como chapa \u2013 pessoa que ajuda os caminhoneiros nas descargas dos materiais transportados. Com essa rela\u00e7\u00e3o direta com os profissionais do transporte, come\u00e7ou a dirigir. \u201cGostei da profiss\u00e3o e fiquei\u201d.<br \/>\nVoltando de Belo Horizonte, Lauro relata sua rela\u00e7\u00e3o emotiva com a estrada, sua velha companheira: \u00a0\u201cSofrimento e solid\u00e3o. Se fosse para pensar mesmo, hoje, se eu tivesse 18 e 19 anos, eu n\u00e3o iria para estrada\u201d. Apesar do des\u00e2nimo, parece tarde para mudar de profiss\u00e3o. E parar de trabalhar est\u00e1 fora dos planos. \u201cPensar em me aposentar, eu penso. Mas n\u00e3o vou, infelizmente. N\u00e3o tenho carteira assinada\u201d.<br \/>\nEnquanto toma um caf\u00e9 no bar do posto Garoupa, Zona Norte de Porto Alegre, \u00e0s margens da Freeway, Lauro prepara a pr\u00f3xima viagem. O destino \u00e9 Bel\u00e9m, no Par\u00e1. A estimativa de um trajeto de aproximadamente cinco dias. Em meio \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, lembra das dificuldades que poder\u00e1 encontrar no caminho, especialmente os constantes assaltos e a precariedade de algumas estradas. Para Lauro, tudo isso, misturado com os sentimentos pessoais, ajudam a desenvolver o estresse na atividade. \u201cEu viajo, eu preciso trabalhar, n\u00e3o adianta. N\u00e3o tem outro caminho\u201d, suspira, conformado.<br \/>\n\u201cMinha filha nasceu. No dia em que ela nasceu, eu estava aqui. Quando levamos ela para casa, meu caminh\u00e3o j\u00e1 estava carregado. Eu sa\u00ed para viajar e fiquei vinte e poucos dias fora. Quando eu voltei, ela j\u00e1 tinha um m\u00eas. Imagina isso\u201d, conta Lucas Silveira Lucr\u00e9cio. Com apenas 30 anos, viveu cinco deles como caminhoneiro. A estrada n\u00e3o era, exatamente, o seu lugar. Porto-alegrense, hoje experimenta uma rotina distante das constantes viagens, mas vivencia diariamente as experi\u00eancias dos motoristas. Lucas trabalha com agenciamento de cargas, junto com o pai, no Posto Garoupa.<br \/>\n<figure id=\"attachment_57925\" aria-describedby=\"caption-attachment-57925\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-57925 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Caminhoneiros6626NC031017-620x413.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-57925\" class=\"wp-caption-text\">Lucas abandonou a estrada mas ainda sente saudade da vida no asfalto<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u201cDepois de um ano do nascimento da minha primeira filha, eu abandonei a estrada\u201d. Para ele, a fam\u00edlia foi fundamental para a escolha de abrir m\u00e3o da rotina n\u00f4made de caminhoneiro para administrar um escrit\u00f3rio junto com o pai. Apesar da desist\u00eancia, algo do dia a dia de caminhoneiro faz o olhar de Lucas brilhar. Por vezes, gostaria de sentir o cheiro do asfalto de novo. \u201cFaz falta a viagem, n\u00e3o ficar todo dia no escrit\u00f3rio. Na estrada \u00e9 bem melhor\u201d.<br \/>\nLucas transportava carga para todo Brasil. Sobre os sentimentos \u2013 e pensamentos \u2013 ao longo dos percursos, revela que a estrada pode ser uma \u00f3tima companhia em muitos momentos. Mas a aus\u00eancia da base familiar \u00e9 um fator que pesa na profiss\u00e3o. \u201cNa estrada, voc\u00ea n\u00e3o tem solid\u00e3o. Os caminhoneiros s\u00e3o muito unidos. Voc\u00ea sempre tem uma amizade em suas paradas pelo caminho. O problema, mesmo, \u00e9 a saudade da fam\u00edlia\u201d.<br \/>\nSaudosista, relembra que no in\u00edcio da profiss\u00e3o tinha uma paix\u00e3o pelo ve\u00edculo. \u201cEu gostava. Para mim, era tudo. Eu n\u00e3o queria sair de dentro do caminh\u00e3o\u201d. Mas o tempo desvalorizou a profiss\u00e3o. Por isso, n\u00e3o voltaria a \u00a0exercer o of\u00edcio que sempre o encantou. \u201cDo jeito que o cen\u00e1rio est\u00e1, eu n\u00e3o volto. S\u00f3 se melhorassem muito as condi\u00e7\u00f5es gerais da profiss\u00e3o e eu n\u00e3o tivesse outra atividade. S\u00f3 se eu n\u00e3o conseguisse mais manter a minha fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto:\u00a0Leonardo Radaelli Fotos:\u00a0Nicolas Chidem Ag\u00eancia J de Reportagem | Famecos\/PUCRS\u200b Uma viagem remete \u00e0 divers\u00e3o e ao sossego. A estrada serve de fuga para a monotonia vivida por muitas pessoas, vendo no horizonte uma fonte de motiva\u00e7\u00e3o para novos desafios. 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