{"id":5836,"date":"2009-09-23T17:51:04","date_gmt":"2009-09-23T20:51:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=5836"},"modified":"2009-09-23T17:51:04","modified_gmt":"2009-09-23T20:51:04","slug":"bento-goncalves-esse-heroi-desconhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/bento-goncalves-esse-heroi-desconhecido\/","title":{"rendered":"Bento Gon\u00e7alves: esse her\u00f3i desconhecido"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong>Cleber Dioni Tentardini<br \/>\n<\/strong><br \/>\nHoje, 23 de setembro, completa 221 anos de seu nascimento. Em julho passaram-se 162 anos de sua morte. O mais famoso monumento em sua homenagem, em Rio Grande, chegou aos cem anos no dia 20. E o general farrapo permanece uma figura intrigante.<br \/>\nO personagem virou mito de um per\u00edodo hist\u00f3rico que faz parte do folclore riograndense. Suas fa\u00e7anhas viraram lenda, mas sua hist\u00f3ria ainda \u00e9 desconhecida.<br \/>\nNenhum dos mais de 500 livros sobre o conflito narra a vida de Bento Gon\u00e7alves no Uruguai, onde casou, criou os filhos, foi fazendeiro e capit\u00e3o de mil\u00edcias. Durante 15 dos 58 anos de vida. Pelo menos a metade da vida adulta. Historiadores apenas pincelaram a passagem de Bento pela uruguaia Melo, onde, depois, residiu o maragato Gaspar Silveira Martins. Ali, do outro lado do rio Jaguar\u00e3o, Bento foi espi\u00e3o dos chefes luso-brasileiros, mas mantinha estreitas rela\u00e7\u00f5es com a oligarquia castelhana. Foi at\u00e9 prefeito distrital, com direito a voto \u00e0 cabresto.<br \/>\nAl\u00e9m do charque, que outras raz\u00f5es teriam levado um coronel da Guarda Nacional e um de seus melhores comandantes nas fronteiras do Sul a se voltar contra o Imp\u00e9rio. O fazendeiro abastado e senhor de escravos era simp\u00e1tico \u00e0 monarquia, mas nutria convic\u00e7\u00f5es republicanas nos gabinetes ma\u00e7ons e na Assembl\u00e9ia Provincial, ao lado de liberais como Padre Chagas e Mariano de Matos.<br \/>\nO que moveu um pai de seis filhos pequenos e dois rec\u00e9m sa\u00eddos da adolesc\u00eancia a sacrificar o conv\u00edvio com a fam\u00edlia e quase todas as suas posses para lutar contra aqueles com quem um dia ombreou nos campos de batalhas? Militar ardil, arquitetou uma revolu\u00e7\u00e3o sem medir as consequ\u00eancias? Que influ\u00eancias tiveram em sua forma\u00e7\u00e3o as guerras de Napole\u00e3o e a bandeira libert\u00e1ria do caudilho Artigas.<br \/>\nBento Gon\u00e7alves foi acusado de assassino, ladr\u00e3o e contrabandista. Submeteu Porto Alegre ao maior s\u00edtio de sua hist\u00f3ria, provocando bombardeios e racionamento de comida, mas se tornou patrono do Regimento de Cavalaria da Brigada Militar, o corpo policial que o general combateu na sua origem.<br \/>\nSua morte, dois anos depois do fim da guerra, foi silenciada. Nem a C\u00faria Metropolitana registrou. O Riograndense foi o \u00fanico jornal que ousou noticiar, timidamente.<br \/>\nSeu invent\u00e1rio foi realizado s\u00f3 dez anos ap\u00f3s a morte. Deixou aos oito filhos 33 escravos com idades entre um ano e meio e 60 anos; 700 reses, 24 bois, 15 novilhos, 30 cavalos, 22 potros, 8 \u00e9guas, 270 chucras. Bens de Raiz: 3.746 bra\u00e7as de campo no Christal. Quinh\u00e3o e meio mato \u00e0 margem de Camaqu\u00e3. Casa, tafonas e outros.\u201d<br \/>\n<strong>Nem her\u00f3i nem ladr\u00e3o,<br \/>\num homem de seu tempo<\/strong><br \/>\nO historiador Tau Golin publicou um livro com o t\u00edtulo Bento Gon\u00e7alves \u2013 o her\u00f3i ladr\u00e3o, em que chamou o l\u00edder farrapo de contrabandista e propriet\u00e1rio de escravos.<br \/>\nGolin criticou a liga\u00e7\u00e3o de Bento com as oligarquias e afirmou que ele n\u00e3o fez jus ao t\u00edtulo de her\u00f3i popular, \u201ccomo um personagem para ser cultuado pelo povo rio-grandense\u201d, porque as suas a\u00e7\u00f5es apenas procuraram preservar os seus privil\u00e9gios e os de outros latifundi\u00e1rios. \u201cComo conseq\u00fc\u00eancia de seu projeto de sociedade, a partir de um liberalismo farroupilha antag\u00f4nico \u00e0 democracia, alienou o povo material e espiritualmente, submetendo-o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e ao esp\u00f3lio\u201d, disse.<br \/>\nE citou Moacyr Flores, historiador e professor da PUC ga\u00facha, para classificar o l\u00edder farrapo como simpatizante do absolutismo mon\u00e1quico. \u201cNunca foi republicano, segundo Moacyr Flores, \u201ce deixou de ser liberal ao assumir a presid\u00eancia sem convocar ou permitir que reunisse a assembl\u00e9ia constituinte e legislativa.\u201d<br \/>\nAlguns historiadores disseram que Bento n\u00e3o foi her\u00f3i nem vil\u00e3o, apenas um homem de seu tempo. O escritor Fernando Sampaio criticou Golin por ele ter descontextualizado as atividades de Bento como estancieiro e produtor de charque, sendo que a m\u00e3o de obra dispon\u00edvel e barata era a escrava.<br \/>\nSobre o contrabando de gado, Sampaio alega que essa pr\u00e1tica era uma atividade social revolucion\u00e1ria, para fugir dos impostos. \u201cEra uma atitude que passou a ser protegida entre os nacionais, ou entre a elite dominante local, contra a autoridade colonial e estrangeira\u201d, destaca.<br \/>\nExistem documentos que demonstram que ao tratar da paz com o Imp\u00e9rio, Bento conseguiu que o bar\u00e3o de Caxias aceitasse as exig\u00eancias da Rep\u00fablica Riograndense, relativas aos revolucion\u00e1rios negros. Consta que ele afirmou: \u201cse o tratado de paz n\u00e3o assegurar a alforria dos ex-escravos revolucion\u00e1rios, continuaremos a guerra, para que n\u00e3o voltem aos grilh\u00f5es os negros que h\u00e1 tantos anos lutam pela liberdade da Am\u00e9rica\u201d.<br \/>\nO par\u00e1grafo 4\u00ba do acordo de paz de Ponche Verde, previa que ficariam livres todos os cativos que lutaram ao lado da Rep\u00fablica Riograndense. Mas fica a pergunta: at\u00e9 que ponto os farroupilhas combateram a escravid\u00e3o negra quando n\u00e3o estava em jogo a arregimenta\u00e7\u00e3o de homens para as manobras militares? A professora Margaret Bakos, da Faculdade de Hist\u00f3ria da PUCRS respondeu: \u201cNaturalmente, os senhores n\u00e3o desejavam libertar os negros porque significavam trabalho, capital, prest\u00edgio social e poder pol\u00edtico\u201d.<br \/>\n<strong>Para juiz, anarquista e demagogo<\/strong><br \/>\nO baiano Rodrigo da Silva Pontes foi colega de Bento na 1\u00aa legislatura provincial. Na \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o, era juiz de direito em Rio Pardo. Membro do Partido Conservador, ele classificou os liberais republicanos de anarquistas, demagogos, provincianos e de car\u00e1ter duvidoso. Em seu texto-depoimento*, escrito no RJ, em 1844, por ordem de D. Pedro I, o magistrado informa que o desejo de ser proclamada uma rep\u00fablica separada do Imp\u00e9rio fazia parte do imagin\u00e1rio pol\u00edtico de uma fac\u00e7\u00e3o dos sul-riograndenses que se reuniam em sociedades secretas para promoverem a conspira\u00e7\u00e3o, entre eles Bento Gon\u00e7alves.<br \/>\nEle acusa Bento de conspirar contra o governo e coloca em d\u00favida sua capacidade de tomar decis\u00f5es. \u201cO astuto Bento Gon\u00e7alves procurava aliciar pessoas de boa f\u00e9 para o partido de Lavalleja (&#8230;) o coronel desobedeceu as ordens de guardar neutralidade\u201d, diz Silva Pontes.<br \/>\nCriticou a absolvi\u00e7\u00e3o de Bento, acusado de contrabando de gado, e da pens\u00e3o de um conto e duzentos mil r\u00e9is concedida ao coronel, o que \u201capenas estimulou os desejos \u00e1vidos do caudilho, aumentou a influ\u00eancia dele na Prov\u00edncia e ministrou aos propagadores do esp\u00edrito de rebeli\u00e3o mais um poderoso argumento deduzido das simpatias do governo central pelo primeiro cabe\u00e7a da fac\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nSilva Pontes diz que as correrias no Estado Oriental lhe deram a posse de cabe\u00e7as de gado em um n\u00famero suficiente para recuperar a fortuna perdida, mas Bento tinha sempre o mesmo g\u00eanio dissipador do car\u00e1ter perdul\u00e1rio. <strong>(SEGUE)<\/strong><br \/>\n<strong>(* O Arquivo Nacional, Arquivo Hist\u00f3rico do RS e Memorial do Judici\u00e1rio do RS transcreveram as 84 tiras de papel alma\u00e7o escritas de ambos os lados e lan\u00e7aram em 2006 o livro Mem\u00f3rias Hist\u00f3ricas da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cleber Dioni Tentardini Hoje, 23 de setembro, completa 221 anos de seu nascimento. 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