{"id":58592,"date":"2017-12-30T20:26:15","date_gmt":"2017-12-30T22:26:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=58592"},"modified":"2017-12-30T20:26:15","modified_gmt":"2017-12-30T22:26:15","slug":"flavio-tavares-venci-o-vicio-mas-nao-curei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/flavio-tavares-venci-o-vicio-mas-nao-curei\/","title":{"rendered":"Fl\u00e1vio Tavares: &quot;Venci o v\u00edcio, mas n\u00e3o curei&quot;"},"content":{"rendered":"<p><em>Fl\u00e1vio Tavares, natural de Lajeado, veio para a Capital aos 15 anos a fim de concluir estudos. N\u00e3o demorou a escrever para os jornais e s\u00f3 manteve-se afastado das reda\u00e7\u00f5es enquanto esteve preso. Hoje, aos 83 anos, confessa que \u00e9 muito dif\u00edcil largar o v\u00edcio do jornalismo.<\/em><br \/>\n<span class=\"assina\">Cleber Dioni Tentardini *<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como foi seu come\u00e7o no jornalismo?<\/span><br \/>\n\u00c9 preciso que se diga que eu nunca pensei em ser jornalista. Comecei duas faculdades, de Direito, na PUC, e de Biologia, na \u00e9poca se chamava Hist\u00f3ria Natural, na UFRGS, e formei em Direito em 1960.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Estudou com Ludwig Buckup?<\/span><br \/>\nN\u00e3o, ele j\u00e1 estava terminando o curso quando entrei. Meu amigo, sujeito fant\u00e1stico. Quando estudante, ele foi preso em Porto Alegre por terrorismo. Na d\u00e9cada de 50, havia um cara louco que estava soltando umas bombas na cidade e a pol\u00edcia confundiu com o Buckup porque o revistaram de noite e encontraram em seus pertences uma f\u00f3rmula de geologia e acharam que aquilo fosse um esquema para montar a bomba.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Chegou a trabalhar como advogado?<\/span><br \/>\nNunca advoguei. Mas fui assessor jur\u00eddico de Departamento de Portos, Rios e Canais, hoje a Superintend\u00eancia de Portos e Hidrovias, extinta pelo governo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E quando come\u00e7a a escrever em jornal?<\/span><br \/>\nComecei a escrever pela minha atua\u00e7\u00e3o como dirigente nos movimentos estudantis, primeiro no centro estudantil do Julinho, depois da Uni\u00e3o Estadual de Estudantes Universit\u00e1rios. Nessa condi\u00e7\u00e3o, fui convidado pela Uni\u00e3o Internacional de Estudantes para participar do Conselho Internacional de Estudantes, em Moscou, em 1954, e l\u00e1, fui convidado pela Federa\u00e7\u00e3o Pan-Chinesa de Estudantes para visitar a China no quinto anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o. \u00a0Na volta, escrevi para um jornal semanal chamado Hoje uma s\u00e9rie de reportagens com o seguinte t\u00edtulo: Fui h\u00f3spede do Kremlin. A\u00ed o S\u00e9rgio Jockymann, que era o diretor do jornal, elogiou meu texto e disse que eu era jornalista. Eu gostava muito de escrever, aos 15 anos eu escrevia para um jornalzinho chamado V\u00e9ritas, da Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00e1 ensaiava os primeiros passos no jornalismo.<\/span><br \/>\nDepois fiz umas entrevistas para o Correio do Povo, que pagava. O P.F. Gastal tomava conta dessa parte da cultura no Correio. Depois quando surge a \u00daltima Hora aqui, no final de 1959, do Samuel Wainer, \u00e9 feita a segunda revolu\u00e7\u00e3o no jornalismo. A primeira tinha sido feita por Josu\u00e9 Guimar\u00e3es no jornal A Hora, em 1953\/54. A Hora era uma c\u00f3pia ga\u00facha da \u00daltima Hora, que reproduzia at\u00e9 os colunistas nacionais da UH, mas depois foi comprada pelos Di\u00e1rios Associados. A \u00daltima Hora foi criada aqui em Porto Alegre para competir com a Folha da Tarde. A UH n\u00e3o tinha gr\u00e1fica, n\u00f3s imprim\u00edamos num jornal cat\u00f3lico, o Jornal do Dia, que era na rua Duque de Caxias. V\u00e1rias pessoas da UH trabalhavam no Jornal do Dia, inclusive o Jo\u00e3o Aveline, comunista, mas que, nessa \u00e9poca, escrevia uma coluna sobre outros assuntos. E como era muito deficit\u00e1rio, ent\u00e3o quem acaba mantendo o jornal cat\u00f3lico era o nosso jornal de esquerda, nacionalista, que imprim\u00edamos l\u00e1.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-58594 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/20171129_0017-Jornalista_Fla\u00a6\u00fcvio_Tavares-Ramiro-Furquim-_OAF9829.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"665\" \/><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Nessa \u00e9poca, jornalismo j\u00e1 era uma profiss\u00e3o?<\/span><br \/>\nBom, as pessoas viam o trabalho em jornal como um trampolim para o emprego p\u00fablico. E mesmo conseguindo, alguns continuavam no jornal. No Correio, por exemplo, policiais escreviam na editoria de Pol\u00edcia. Na UH n\u00e3o, havia apenas um sargento do Ex\u00e9rcito que fazia mat\u00e9rias de Pol\u00edcia.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E como fostes parar na \u00daltima Hora?<\/span><br \/>\nFui convidado pelo Ib Kern, que estruturou a UH ga\u00facha. Eu trabalhava no Escrit\u00f3rio dos Munic\u00edpios, que hoje seria uma esp\u00e9cie de ONG, de um grupo privado, cujo dono era o jornalista Jos\u00e9 Bachieri Duarte, que estava licenciado do Correio do Povo. N\u00f3s atend\u00edamos os munic\u00edpios do Interior, a comunica\u00e7\u00e3o era dif\u00edcil, a telefonia era prec\u00e1ria. Eu n\u00e3o gostava, ficava atendendo prefeitos, ent\u00e3o sa\u00ed dali onde ganhava bem, para trabalhar na \u00daltima Hora, ganhando tr\u00eas vezes menos. Mas pouco tempo depois eu recebo aumento porque passo a ser chefe de reportagem.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quando tempo ficou aqui?<\/span><br \/>\nO jornal saiu em 10 ou 15 de janeiro de 1960 e fiquei at\u00e9 janeiro de 1963, quando fui para Bras\u00edlia, e passei a escrever na UH edi\u00e7\u00e3o nacional. Havia uma sucursal, com nove ou dez rep\u00f3rteres para cobrir a capital do pa\u00eds. Minha coluna sa\u00eda nas edi\u00e7\u00f5es das seis capitais: Rio, S\u00e3o Paulo, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte e Curitiba. E l\u00e1 fiquei at\u00e9 ser preso em 1967. Em 1964, eu fui preso e logo solto com pedidos de desculpas transmitido pela Voz do Brasil. Depois do golpe, s\u00f3 restaram \u00daltima Hora do Rio e de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">A reda\u00e7\u00e3o da UH ga\u00facha foi destru\u00edda pela pol\u00edcia?<\/span><br \/>\nEntraram, reviraram tudo, destru\u00edram arquivos fotogr\u00e1ficos, mas n\u00e3o quebraram muita coisa. As minhas fotos do Che Guevara n\u00e3o pegaram, ficaram intactas e hoje est\u00e3o no arquivo do jornal Zero Hora. Pegaram as pastas do Brizola, do Jo\u00e3o Goulart, acho que n\u00e3o sabiam das fotos do Che. A ignor\u00e2ncia era brutal. Uma vez, em 1967, em Bras\u00edlia, a pol\u00edcia pegou todos os meus livros que tinham uma foice e um martelo na capa, mas eu tinha deixado de prop\u00f3sito uns livros de propaganda anticomunista, que a Unidade de Intelig\u00eancia dos Estados Unidos enviava aos jornalistas, com essas capas falsas. Levaram tudo, inclusive eu.<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cAs pessoas viam o trabalho em jornal como um trampolim para o emprego p\u00fablico. E mesmo conseguindo, alguns continuavam no jornal.\u201d<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Em 67, acabou a UH?<\/span><br \/>\nN\u00e3o, a do Rio ficou, e a de S\u00e3o Paulo foi comprada pela Folha de S. Paulo, dois anos depois. S\u00f3 deixei de escrever quando fui preso. Minha coluna se chamava Flavio Tavares Informe de Bras\u00edlia, a coluna principal da p\u00e1gina 4.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">N\u00e3o foste convidado pelo Ary de Carvalho para trabalhar no rec\u00e9m-criado jornal Zero Hora?<\/span><br \/>\nN\u00e3o. Em 64 eu j\u00e1 havia sa\u00eddo da editora Flan, que publicava a UH ga\u00facha, e estava trabalhando em Bras\u00edlia para a editora \u00daltima Hora. Acho at\u00e9 que o Ary de Carvalho n\u00e3o tinha interesse que eu viesse trabalhar aqui. Eu que vim de Bras\u00edlia, em 64, com dois cheques para pagar os passivos trabalhistas e fechar a UH ga\u00facha. Porque eu, assim como o Nestor Fedrizzi e o Jorge Miranda Jord\u00e3o, que era do Rio, e dirigia a UH ga\u00facha, t\u00ednhamos por volta de 12% de a\u00e7\u00f5es da \u00daltima Hora do Samuel Wainer. E houve gente que n\u00e3o recebeu, como o Carlos Bastos e o Jo\u00e3o Aveline.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Qual eram as grandes dificuldades<\/span><br \/>\nA telefonia local at\u00e9 era boa. Faz\u00edamos entrevistas para p\u00e1gina pol\u00edtica atrav\u00e9s do telefone. Havia s\u00f3 duas linhas. Agora, a transmiss\u00e3o, sim, era ruim. Eu fico pensando hoje como dava certo. Not\u00edcias, fotos, eram enviadas por avi\u00e3o. Cortesia da Varig. Ou por tel\u00e9grafo. Certa vez, uma manh\u00e3 chuvosa em Porto Alegre, dia 24 de agosto de 1960, tomamos um avi\u00e3o \u00e0s seis e meia da manh\u00e3 para ir a S\u00e3o Borja, acompanhar o vice-presidente Jo\u00e3o Goulart, o governador Leonel Brizola e deputados em visita ao t\u00famulo de Get\u00falio Vargas. Um DC-3 da Varig n\u00e3o conseguiu aterrissar na pista de terra, virada em barro, e o piloto tenta aterrissar na granja de Jango. O piloto n\u00e3o consegue frear, destr\u00f3i cercas, vira a asa para quebrar e parar o avi\u00e3o, por 15 segundos eu achei que ia morrer. Paramos pr\u00f3ximos a umas baias, o avi\u00e3o destru\u00eddo. Eu peguei a minha laica sovi\u00e9tica e fiz fotos, o Brizola pediu para eu n\u00e3o colocar no jornal o avi\u00e3o destru\u00eddo. Mas eu era o \u00fanico jornalista ali. Peguei um t\u00e1xi \u00e0s oito e meia da manh\u00e3 e fui para o tel\u00e9grafo, o jornal sa\u00eda \u00e0s duas da tarde. Mandei a not\u00edcia em linguagem telegr\u00e1fica aqui para a UH ga\u00facha. Depois falei no telefone com o Jo\u00e3o Souza para receber a mensagem e escrever. O Jo\u00e3o Souza vinha da Folha da Tarde, antes da Tribuna Ga\u00facha. Bom, mas saiu a not\u00edcia: Avi\u00e3o com Jango e Brizola cai no&#8230;. No final da tarde, quando retornamos a Porto Alegre, aquele povo todo angustiado no aeroporto esperando a chegada dos l\u00edderes trabalhistas. No dia seguinte, a central da edi\u00e7\u00e3o, que tinha ao todo 24 p\u00e1ginas, trouxe uma mat\u00e9ria especial com v\u00e1rias fotos do avi\u00e3o todo quebrado.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E quando decidiu deixar o Brasil?<\/span><br \/>\nEu tive que sair. Em 1969, fiquei 30 dias preso e fui libertado junto com outros presos pol\u00edticos em troca do resgate do embaixador norte-americano. Estava em vigor o AI-5, de dezembro de 1968. A situa\u00e7\u00e3o se complicou. Eu estava respondendo processo na auditoria militar de Juiz de Fora porque havia ficado preso l\u00e1 de agosto a dezembro de 67. O meu \u00faltimo artigo saiu na \u00daltima Hora do Rio.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E conseguiam escapar dos censores nas reda\u00e7\u00f5es?<\/span><br \/>\nEu n\u00e3o cheguei a pegar a fase dos censores dentro dos jornais. Eles entraram depois do AI-5. Apesar da ABI ser muito incisiva na defesa dos jornalistas, passou a n\u00e3o ter for\u00e7a, a\u00ed tudo era censurado, mas eu j\u00e1 estava fora.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Virou exilado pol\u00edtico?<\/span><br \/>\nN\u00e3o tinha como ficar e em Bras\u00edlia era pior, pequena e um covil de dedos duro. Eu cheguei no M\u00e9xico em 1969 e fui trabalhar como jornalista para cobrir o mundial de futebol em 70 para uma ag\u00eancia de not\u00edcias italiana, a Stampa Associata. Eu cobri os jogos no est\u00e1dio Asteca. O Brasil eu vi jogar somente a final. Depois fui trabalhar para prensa latina, uma ag\u00eancia cubana, muito bem feita. E depois fui para o Exc\u00e9lsior. Era o maior. O jornal era uma cooperativa, ent\u00e3o se ficava 30 dias, depois mais cinco meses e tu podias virar um cooperado. Ali, primeiro trabalhei na \u00e1rea internacional, depois fui para secretaria da reda\u00e7\u00e3o, para fazer a primeira p\u00e1gina. Eu tinha menos de 40 anos. Em 1974, eu pressionei o Exc\u00e9lsior para ir para Buenos Aires. O M\u00e9xico era muito longe.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Longe da fam\u00edlia.<\/span><br \/>\nE era tudo dif\u00edcil, a comunica\u00e7\u00e3o era horr\u00edvel. Exilado e isolado. Hoje, ex\u00edlio seria s\u00f3 no nome. Com computador, internet, Skype, celular, whats. Nem quem est\u00e1 preso deixa de se comunicar hoje.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Vida nova em Buenos Aires<\/span><br \/>\nA\u00ed eu vou para Buenos Aires em 1974 como correspondente do Exc\u00e9lsior. O Per\u00f3n tinha aberto a Argentina para os exilados brasileiros. O Jango tinha sa\u00eddo de Montevid\u00e9u para morar em Buenos Aires. O Brizola ficou em Montevid\u00e9u para n\u00e3o se encontrar com o Jango porque estavam brigados. Bom, mas a\u00ed eu come\u00e7o a trabalhar tamb\u00e9m para o Estad\u00e3o, com um pseud\u00f4nimo de J\u00falio Delgado, em refer\u00eancia ao m\u00eas em que eu comecei a escrever para o Estad\u00e3o e ao meu estado f\u00edsico. Eu estava muito magro mesmo. Meu nome n\u00e3o podia aparecer. S\u00f3 no dia em que o Jango apareceu \u00e9 que o J\u00falio Mesquita me ligou pra perguntar se eu iria assinar texto sobre a morte do ex-presidente. Eu disse que iria colocar o meu nome. O Estad\u00e3o fez um editorial muito respeitoso, que surpreendeu porque o jornal havia ajudado a derrubar o Jango mas mudou depois. No Estad\u00e3o eu tive uma experi\u00eancia muito boa no jornalismo, quer dizer, nem todas, porque estive preso em Montevid\u00e9u por mais de seis meses.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-58595 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/20171129_0018-Jornalista_Fla\u00a6\u00fcvio_Tavares-Ramiro-Furquim-_OAF9834.jpg\" alt=\"\" width=\"665\" height=\"1000\" \/><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Tu foste preso por ser jornalista?<\/span><br \/>\nFui processado por espionagem. Fui acusado de descrever endere\u00e7os de casas de tortura. Eu recebi informa\u00e7\u00f5es de uma pessoa que, na verdade, era militar uruguaio. Foi uma montada uma farsa para prestar um servi\u00e7o \u00e0 ditadura brasileira e eu entrei. Ent\u00e3o, eu passei 26 dias preso no Uruguai, sou um dos poucos sobreviventes da Opera\u00e7\u00e3o Condor, eu e mais uns tr\u00eas. Fui sequestrado pelo Organismo Central de Opera\u00e7\u00f5es Anti-Subversivas. Foram 26 dias de olhos vendados, algemado, sem banho. Fui submetido a um fuzilamento de mentira, fui torturado, s\u00f3 n\u00e3o tomei choque. Tomei choque s\u00f3 em 67, no Brasil, uma das piores coisas que existe. Depois, fiquei mais seis meses preso em Montevid\u00e9u. Foi montada uma campanha internacional pelo estad\u00e3o por minha liberdade. O Geisel, que fazia uma visita \u00e0 Montevid\u00e9u, foi pressionado para exigir que eu fosse expulso do Uruguai antes que ele chegasse. Ent\u00e3o eu sa\u00ed do pa\u00eds ao meio dia e Geisel, chegou \u00e0s quatro da tarde.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Foi para onde desta vez?<\/span><br \/>\nFui para Lisboa e continuei como correspondente do Estad\u00e3o e do Exc\u00e9lsior, como editorialista pol\u00edtico. Sa\u00eda tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es do Exc\u00e9lsior durante o dia, uma pela manh\u00e3, \u00faltimas not\u00edcias, ao meio dia, e extra, \u00e0 tarde. Hoje \u00e9 impens\u00e1vel.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Trabalhou em outros ve\u00edculos como r\u00e1dio e tev\u00ea?<\/span><br \/>\nAntes de entrar para a \u00daltima Hora, em 1958 trabalhei como locutor comercial na r\u00e1dio Ga\u00facha, de manh\u00e3 e no final do dia. As r\u00e1dios n\u00e3o funcionavam 24 horas como hoje. Em tev\u00ea nunca trabalhei.<br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cO impresso est\u00e1 ali e fica como documento. Imagina hoje se der uma pane no doutor Google? Todo mundo vai no Google, at\u00e9 eu.\u201d\u00a0Hoje, o impresso perdeu espa\u00e7o, ficou velho.O jornal impresso \u00e9 imorredouro. A minha gera\u00e7\u00e3o pelo menos nota grande diferen\u00e7a entre o impresso e o jornal virtual.<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">O impresso \u00e9 um documento. <\/span><br \/>\nExatamente. As not\u00edcias no jornal virtual somem. O impresso est\u00e1 ali e fica como documento. Imagina hoje se der uma pane no doutor Google? Todo mundo vai no Google, at\u00e9 eu. Mas n\u00e3o me informo pelas redes sociais, n\u00e3o d\u00e1.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Google virou a fonte. <\/span><br \/>\nAntes tu te informavas sobre determinado assunto entrevistando as pessoas, checando as informa\u00e7\u00f5es, hoje o rep\u00f3rter pesquisa na internet.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E essa mania de assessor de imprensa pedir para mandar as perguntas pela internet?<\/span><br \/>\nIsso \u00e9 um absurdo.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-58597 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/20171129_0019-Jornalista_Fla\u00a6\u00fcvio_Tavares-Ramiro-Furquim-_OAF9837.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"665\" \/><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Pior, ent\u00e3o, quando as respostas v\u00eam pela internet. <\/span><br \/>\nComo o rep\u00f3rter entrevista algu\u00e9m sem poder falar, se n\u00e3o pessoalmente, por telefone.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O r\u00e1dio se adaptou aos novos tempos?<\/span><br \/>\nO r\u00e1dio pela facilidade. As pessoas se informam dirigindo seus carros. Minha mulher, que \u00e9 professora universit\u00e1ria de Direito, se informa bastante pela Voz do Brasil. R\u00e1dio e tev\u00ea s\u00e3o concess\u00f5es do Estado.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Qual foi a melhor fase do jornalismo?<\/span><br \/>\nAcho que foi no governo Figueiredo. N\u00e3o pelo \u00faltimo presidente do regime militar, mas porque foi um momento de despertar do Brasil. Entre 1979 e 81, fui ser editorialista do Estad\u00e3o. \u00c9poca em que os jornais faziam grandes reportagens. O Ricardo Kotscho fez aquelas reportagens sobre as grandes mordomias do servi\u00e7o p\u00fablico federal. Os esc\u00e2ndalos apareciam primeiro nos jornais, hoje os jornais copiam o que aparece na Justi\u00e7a.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Vivemos hoje o tempo de um jornalismo declarat\u00f3rio?<\/span><br \/>\nH\u00e1 uma mediocriza\u00e7\u00e3o do jornalismo. Acabaram as grandes reportagens. O jornalismo tem muito medo hoje. Mas, mesmo assim, o jornalismo \u00e9 o meio de informa\u00e7\u00e3o em que a sociedade pode confiar. N\u00e3o s\u00e3o as redes sociais.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Mas os jornais passaram a repercutir tamb\u00e9m o que sai nas redes sociais.<\/span><br \/>\nPois \u00e9. H\u00e1 uma vulgariza\u00e7\u00e3o dos jornais porque os grandes temas sumiram e se deixou de aprofundar as not\u00edcias. Antes, as pessoas se alfabetizavam lendo os jornais. E se tomava conhecimento do que estava ocorrendo no mundo atrav\u00e9s de jornais como Estad\u00e3o e o Correio do Povo, que se destacam nas not\u00edcias internacionais. E quem eram os redatores na d\u00e9cada de 40? Mario Quintana, D\u00e9cio Freitas, traduziam as not\u00edcias recebidas por ag\u00eancias norte-americanas.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-58594 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/20171129_0017-Jornalista_Fla\u00a6\u00fcvio_Tavares-Ramiro-Furquim-_OAF9829.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"665\" \/><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quem foi a personalidade mais dif\u00edcil de entrevistar?<\/span><br \/>\nPol\u00edticos, de modo geral, nunca respondiam o que lhes era perguntado. E os economistas te respondiam com estat\u00edsticas que n\u00e3o revelavam nada. Acompanhei o Fidel Castro o dia inteiro em S\u00e3o Paulo e o entrevistei numa coletiva, no Ibirapuera. Fidel era dif\u00edcil porque s\u00f3 respondia o que queria. O Brizola era meio assim tamb\u00e9m. O Jango tinha a mania de quando respondia olhando para baixo, estava falando s\u00e9rio mesmo, mas quanto te encarava \u00e9 porque n\u00e3o queria responder.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quando come\u00e7ou a escrever a coluna para o jornal Zero Hora?<\/span><br \/>\nEu substitu\u00ed o D\u00e9cio Freitas, acho que foi em 2004, a coluna sai na edi\u00e7\u00e3o de fim de semana.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">N\u00e3o trabalhou em O Globo nem na Folha de S\u00e3o Paulo?<\/span><br \/>\nPara O Globo fiz alguns trabalhos enquanto morava em Buenos Aires. E na Folha tinha um problema. Censuravam muito o que eu escrevia sobre o governo argentino porque achavam que ia ecoar aqui. \u00a0Uma vez o Frias me ligou perguntando porque eu escrevia ditador Pinochet e n\u00e3o me referia ao ditador Fidel. Simplesmente porque eu nunca escrevi sobre Cuba para a Folha. Mas eu nunca misturei a luta socialista com jornalismo. Eu acho que o jornal tem de fazer um debate aberto. N\u00e3o serve para isso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Em algum momento chegou a pensar em desistir do jornalismo?<\/span><br \/>\nTeve um momento em que decidi parar com o jornalismo para escrever livros. Venci o v\u00edcio, mas n\u00e3o curei a abstin\u00eancia. Conheci um grande escritor argentino, Ernesto Sabato, que me dizia para largar o jornalismo porque os rep\u00f3rteres modificavam o que ele dizia.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Mem\u00f3rias do Esquecimento foi seu primeiro livro?<\/span><br \/>\nSim, esse eu tinha que escrever, sobre minha pris\u00e3o, porque ia ficar louco. Foi minha catarse.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Foram quantos t\u00edtulos at\u00e9 agora?<\/span><br \/>\nSeis. Mem\u00f3rias; O Dia que Get\u00falio matou Allende; Che Guevara que conheci e retratei; 1961 \u2013 O golpe derrotado; 1964 \u2013 O golpe; e As tr\u00eas mortes de Che Guevara.<br \/>\n<em><strong>*Publicado originalmente no Jornal da ARI<\/strong><\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1vio Tavares, natural de Lajeado, veio para a Capital aos 15 anos a fim de concluir estudos. N\u00e3o demorou a escrever para os jornais e s\u00f3 manteve-se afastado das reda\u00e7\u00f5es enquanto esteve preso. Hoje, aos 83 anos, confessa que \u00e9 muito dif\u00edcil largar o v\u00edcio do jornalismo. Cleber Dioni Tentardini * Como foi seu come\u00e7o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":58596,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-58592","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":58592,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-ff2","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58592"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58592\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}