{"id":58612,"date":"2017-12-28T23:39:03","date_gmt":"2017-12-29T01:39:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=58612"},"modified":"2017-12-28T23:39:03","modified_gmt":"2017-12-29T01:39:03","slug":"a-solidariedade-organica-e-o-golpe-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-solidariedade-organica-e-o-golpe-no-brasil\/","title":{"rendered":"A solidariedade org\u00e2nica e o golpe no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">MAR\u00cdLIA VER\u00cdSSIMO VERONESE<\/span><br \/>\nO texto que segue foi publicado hoje \u00e0 tarde, como postagem pessoal, no meu perfil da rede social Facebook, numa vers\u00e3o mais curta e mais crua. Procurei adapt\u00e1-lo para publica\u00e7\u00e3o na coluna do Jornal J\u00e1, dando segmento \u00e0 reflex\u00e3o do texto anterior, <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/existe-amor-em-sao-paulo-ou-a-importancia-da-microsolidariedade-hoje\/\">sobre a solidariedade micropol\u00edtica e os v\u00ednculos sociais que s\u00e3o pr\u00f3prios a n\u00f3s<\/a>, humanos organizados em sociedade. A visita que relato aconteceu hoje pela manh\u00e3, dia 28 de dezembro de 2017. Procuro ressaltar o aspecto racional de praticar a solidariedade, para al\u00e9m da quest\u00e3o \u00e9tica e das escolhas morais que fazemos. Relato uma experi\u00eancia pessoal e em seguida comento o que ela pode significar, em n\u00edvel de sociedade e de economia \u2013 vida coletiva &#8211; interdependente.<br \/>\nEm Porto Alegre, quem costuma passar pela avenida Terceira Perimetral, entre a rua Furriel Luiz Ant\u00f4nio de Vargas e a Avenida Anita Garibaldi, j\u00e1 deve ter visto um &#8220;acampamento&#8221; fixo, de lona preta, na cal\u00e7ada do lado direito, no sentido zona norte; moradores de rua residem no local j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, mesmo antes do expressivo aumento do n\u00famero de moradores de rua em Porto Alegre, agravado em 2017 (efeitos do golpe parlamentar-midi\u00e1tico-judici\u00e1rio ocorrido no Brasil em 2016, sobre o qual j\u00e1 escrevi anteriormente neste espa\u00e7o). Sempre passo por l\u00e1 para chegar no trabalho, em S\u00e3o Leopoldo, distante 30 km da capital. O acesso \u00e0 sa\u00edda da cidade d\u00e1-se pela avenida Perimetral e \u00e9 meu caminho quase di\u00e1rio.<br \/>\nGra\u00e7as ao recesso de final de ano e sua semana de folga, hoje tive tempo de fazer o que pretendia j\u00e1 h\u00e1 meses, ir visitar e conhecer aquelas pessoas e seu c\u00e3ozinho preto, sempre deitado ali na cal\u00e7ada, preso na coleira. Sabia que eram catadores, por j\u00e1 ter visto o material empilhado ao lado deles.<br \/>\nQuem me atendeu foi o senhor Luiz, que prefere ser chamado de Luizinho. Profiss\u00e3o: catador de material recicl\u00e1vel urbano. Trabalha com seu parceiro, tamb\u00e9m morador do local, que optou por n\u00e3o se identificar. J\u00e1 o convidaram para atuar numa cooperativa de reciclagem, mas ele acha melhor fazer seus pr\u00f3prios hor\u00e1rios de trabalho, como catador individual, associado a um colega de profiss\u00e3o. O tema da reciclagem e seus desdobramentos sociais me \u00e9 muito caro, j\u00e1 que como pesquisadora estive ao lado de catadores e catadoras de material recicl\u00e1vel urbano em pesquisas participativas, e tamb\u00e9m orientei teses e disserta\u00e7\u00f5es a respeito; parte desse<a href=\"http:\/\/www.contemporanea.ufscar.br\/index.php\/contemporanea\/article\/view\/403\/171\"> trabalho pode ser conferido aqui: <\/a><br \/>\nVoltando ao Luizinho, que motivou esta reflex\u00e3o no apagar das luzes de 2017, este me contou que j\u00e1 teve uma casa, mas foi obrigado a desfazer-se dela por deteriora\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o financeira. Ao ser perguntado se poder\u00edamos fazer campanha para arrecadar alguma coisa para eles, consultou o colega, que disse: &#8220;N\u00e3o precisamos de nada no momento&#8221;. Luizinho acrescentou: &#8220;Mas aceitamos material recicl\u00e1vel para que possamos vender maior quantidade. N\u00e3o trabalhamos mais com pet, mas latas de alum\u00ednio ser\u00e3o muito bem-vindas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.&#8221;<br \/>\nA cachorrinha preta, chamada Giana, \u00e9 saud\u00e1vel, alegre, quer brincar, pula e lambe. Limpa e de excelente aspecto, ignorou a princ\u00edpio os Biscrocs que levei para ela (ou seja, n\u00e3o tinha fome), dignando-se a comer um ou dois no final da visita. Estava mais interessada em brincar comigo. Luizinho disse que passeia com ela de manh\u00e3 bem cedo antes de sair o sol, agora no ver\u00e3o, acrescentando que \u00e9 castrada, vacinada e ele tem &#8220;os pap\u00e9is que comprovam&#8221;.<br \/>\nDentro da lona que se v\u00ea da rua, h\u00e1 dois velhos colch\u00f5es, lado a lado, e os pertences dos moradores. S\u00e3o, como imaginei, gente boa, pac\u00edfica e que trabalha; a precariedade lament\u00e1vel em que vivem \u00e9 INACEIT\u00c1VEL. N\u00e3o era para ser assim num pa\u00eds que transfere BILH\u00d5ES por dia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, via mercado financeiro\/juros da d\u00edvida p\u00fablica, para uns poucos milion\u00e1rios e bilion\u00e1rios que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais onde enfiar dinheiro<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Segue abaixo o gr\u00e1fico do or\u00e7amento p\u00fablico para 2017, elaborado com base em dados oficiais, dispon\u00edveis em sites do governo brasileiro. Metade do or\u00e7amento \u00e9 transferido para credores da d\u00edvida brasileira, maioria composta de rentistas, banqueiros e especuladores:<br \/>\n<span class=\"descreve\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-58616\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/MARILIA-GRAFICO.png\" alt=\"\" width=\"963\" height=\"780\" \/>Fonte: <em>Palestra Comprometimento da Sa\u00fade e o privil\u00e9gio do Sistema da D\u00edvida<\/em> \u2013 autoria de Maria Lucia Fattorelli \u2013 FIOCRUZ \u201cSA\u00daDE SEM D\u00cdVIDA E SEM MERCADO\u201d \u2013 Sa\u00fade: Fontes de financiamento em disputa \u2013 Rio de Janeiro, 21 de junho de 2017. PPT dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.auditoriacidada.org.br\/palestras-da-auditoria-cidada-2015\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>http:\/\/www.auditoriacidada.org.br\/palestras-da-auditoria-cidada-2015\/<\/strong><\/a><\/span><br \/>\nOu contribu\u00edmos para mudar esse pa\u00eds e torn\u00e1-lo mais digno e justo, ou nos conformamos em sermos seres irracionais, indecentes e detest\u00e1veis. Neoliberais t\u00eam falado bastante, e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de hoje, em renda m\u00ednima<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Muito criticada, ali\u00e1s, por algumas correntes da esquerda, mas quer saber? Que seja. Do jeito que as pessoas est\u00e3o sofrendo hoje, vivendo vidas prec\u00e1rias, na rua, alimentando-se mal, morrendo cedo de doen\u00e7as evit\u00e1veis ou por causa da viol\u00eancia, eu aceitaria uma renda m\u00ednima universal, bem como programas de transfer\u00eancia de renda, desde que acompanhados de pol\u00edticas p\u00fablicas de trabalho\/emprego, moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, com PESADOS E CRESCENTES INVESTIMENTOS. Ou seja, o inverso do que hoje \u00e9 o Brasil.<br \/>\nMas para isso, temos de combater o golpe e suas pol\u00edticas recessivas e antissociais. Ou vai piorar muito mais, como j\u00e1 vem piorando. &#8220;Ai, n\u00e3o seja moralista!&#8221;. Moralismo?! \u00c9 s\u00f3 o bom e velho Durkheim, meu camarada: solidariedade org\u00e2nica. Nada poderia ser mais tradicional em sociologia! Trocas, necessidade do interc\u00e2mbio alterit\u00e1rio cotidiano, local e global, sistemas interacionados de trabalho, com\u00e9rcio, urbanidade, comunica\u00e7\u00e3o; depend\u00eancia m\u00fatua, o fato social de que precisamos viver juntos num sistema social articulado. \u201c<em>Viver dentro de certa razoabilidade [&#8230;] o avan\u00e7o da divis\u00e3o do trabalho \u00e9 o que pode evitar a luta irracional pela sobreviv\u00eancia, haja vista que cada indiv\u00edduo desenvolve uma fun\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 sobreviv\u00eancia da vida coletiva<\/em>. \u201d (Vares, 2013)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 uma escolha, para n\u00f3s humanos. \u00c9 nossa realidade inevit\u00e1vel, a n\u00e3o ser que queiramos nos tornar ermit\u00f5es, morar em cima da montanha&#8230; e ainda assim, n\u00e3o escapar\u00edamos!\u00a0 Como abastecer a casa, como consumir o m\u00ednimo necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia, fora da articula\u00e7\u00e3o s\u00f3cio laboral?<br \/>\nOu \u00e9 isso, ou \u00e9 a barb\u00e1rie; a anomia toma conta e todo mundo se ferra. Neste final de 2017 e pren\u00fancio de um 2018 dif\u00edcil, um feliz ano novo; ou velho, a gente que escolhe. Tomem tento, cidad\u00e3os.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-58615 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/MARILIA-GOOGLE.jpg\" alt=\"\" width=\"1150\" height=\"733\" \/><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J\u00e1 de antem\u00e3o, portanto, pe\u00e7o aos amig@s que lerem este texto: ao passar por ali, levem suas latas de cerveja\/refrigerante para eles, o Luizinho \u00e9 af\u00e1vel e receptivo; as festas de fim de ano devem gerar boa quantidade. Vira renda e um pouco mais de qualidade de vida para eles e para Giana.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"http:\/\/tomoeditorial.com.br\/catalogo.php?id=733\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/tomoeditorial.com.br\/catalogo.php?id=733<\/a> (Cattani, A. e Oliveira, M. <em>A sociedade Justa e seus Inimigos<\/em>. Tomo Editorial, 2016).<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> http:\/\/www.auditoriacidada.org.br\/<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"http:\/\/epocanegocios.globo.com\/Revista\/noticia\/2017\/07\/bilionarios-do-setor-de-tecnologia-embarcam-no-movimento-da-renda-basica-universal.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/epocanegocios.globo.com\/Revista\/noticia\/2017\/07\/bilionarios-do-setor-de-tecnologia-embarcam-no-movimento-da-renda-basica-universal.html<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> VARES, Sidnei Ferreira de. Solidariedade mec\u00e2nica e solidariedade org\u00e2nica em \u00c9mile Durkheim: dois conceitos e um dilema. <em>Media\u00e7\u00f5es &#8211; Revista de Ci\u00eancias Sociais<\/em>. v. 18, n. 2, Londrina, 2013. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.uel.br\/revistas\/uel\/index.php\/mediacoes\/article\/viewFile\/17317\/13807\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.uel.br\/revistas\/uel\/index.php\/mediacoes\/article\/viewFile\/17317\/13807<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAR\u00cdLIA VER\u00cdSSIMO VERONESE O texto que segue foi publicado hoje \u00e0 tarde, como postagem pessoal, no meu perfil da rede social Facebook, numa vers\u00e3o mais curta e mais crua. 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