{"id":5878,"date":"2009-09-30T02:01:32","date_gmt":"2009-09-30T05:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=5878"},"modified":"2009-09-30T02:01:32","modified_gmt":"2009-09-30T05:01:32","slug":"memorias-do-amigo-capataz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/memorias-do-amigo-capataz\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do amigo capataz"},"content":{"rendered":"<p>Deocl\u00e9cio Motta, o tio Bijuja, foi o melhor amigo de Jo\u00e3o Goulart. Eram quase irm\u00e3os. Brincaram na inf\u00e2ncia, dividiram segredos na adolesc\u00eancia e, j\u00e1 adultos, fazendeiro e capataz continuaram confidentes. Jango lhe confiou uma procura\u00e7\u00e3o para tocar os neg\u00f3cios nas est\u00e2ncias enquanto amargurava no ex\u00edlio.<br \/>\nEm 2004, durante pesquisas para compor a biografia de Jo\u00e3o Goulart, os jornalistas Jo\u00e3o Borges de Souza e Cleber Dioni Tentardini visitaram a casa dos Goulart, que agora virou museu, acompanhados de um amigo de inf\u00e2ncia de Jango, Deocl\u00e9cio Barros Motta, chamado carinhosamente de tio Bijuja.<br \/>\nOs jornalistas queriam conhecer o outro lado do ex-presidente da Rep\u00fablica, o perfil do fazendeiro s\u00e3oborjense e sua rela\u00e7\u00e3o com a cidade natal. Entrevistaram tio Bijuja em duas tardes abafadas de janeiro. Melhor do que uma entrevista, foi uma \u2018conta\u00e7\u00e3o de causos\u2019.<br \/>\nBijuja faleceu em 2007. Ele foi o amigo fiel de Jo\u00e3o Goulart. Eram quase irm\u00e3os. Brincaram na inf\u00e2ncia, dividiram segredos na adolesc\u00eancia e, j\u00e1 adultos, fazendeiro e capataz continuaram confidentes. Jango lhe confiou uma procura\u00e7\u00e3o para tocar os neg\u00f3cios nas est\u00e2ncias enquanto amargurava no ex\u00edlio.<br \/>\n<figure id=\"attachment_14738\" aria-describedby=\"caption-attachment-14738\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14738\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/Bijuja14_Foto-Cleber-Dioni_site.jpg\" alt=\"Bijuja | Foto: Cleber Dioni\" width=\"390\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14738\" class=\"wp-caption-text\">Bijuja | Foto: Cleber Dioni<\/figcaption><\/figure><br \/>\nAos 81 anos, se vangloriava das quatro safenas: \u201cTenho cada remendo v\u00e9io de assust\u00e1, \u00e9 ponte, aterro, pinguela, fiz de tudo, mas t\u00f4 aqui ainda, peleando bonito\u201d. Ele tinha um humor imbativel.<br \/>\nNesta conversa, Bijuja falou das coisas simples que dividia com o amigo no Interior. Da esperteza de Jango nos neg\u00f3cios, da amizade com Get\u00falio, das idas e vindas ao ex\u00edlio no Uruguai, dos filhos de Jango, inclusive sobre No\u00e9, mas foi logo avisando: \u201cEu acompanhei a vida particular dele e sempre tive muito carinho e respeito por sua fam\u00edlia, e o lado pol\u00edtico eu n\u00e3o sabia nada. Quando tinha visitas l\u00e1 nas fazendas, ele dizia: \u201cOlha, voc\u00eas fiquem tomando mate a\u00ed, que eu vou conversar com o coronel, n\u00f3s vamos dar nossas bolichadas\u201d.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por que Bijuja? <\/span><br \/>\nUma vizinha veio me conhecer, beb\u00ea, e disse \u201colha, parece um bijujinha\u201d, n\u00e3o sei por qu\u00ea. Depois, meu pai chegou e disse pra botar o nome dele e tava resolvido.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como ficaram amigos? <\/span><br \/>\nTinha sete anos quando me juntei com o Ivan e o Jango no p\u00e1tio da casa deles. Eu tinha idade parelha com o Ivan, que era cinco anos mais mo\u00e7o que o Jango. Fiquei com eles at\u00e9 a hora de morrerem, sempre ao lado, mas nunca tirei vantagem desses homens que eram ricos, nem um centavo, a n\u00e3o ser amizade, e hoje uso o chap\u00e9u tapeado na testa, n\u00e3o preciso me esconder de ningu\u00e9m. Me chamavam de coronel, agora de tio Bijuja.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Coronel era um apelido? <\/span><br \/>\nMe chamavam gratuitamente. A \u00fanica liga\u00e7\u00e3o \u00e9 meu irm\u00e3o, general da reserva, Astolfo Motta.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O pai do Jango tinha muitas terras? <\/span><br \/>\nO pai do Jango era um homem rico, mas a heran\u00e7a n\u00e3o chegava nem perto do que o Jango juntou. O Vicente deixou 17 quadras de campo pra cada filho quando faleceu. Eram sete filhos. Uma vez ele disse: \u201cJanguinho, parece que tu vai prestar, trabalhador que tu \u00e9, eu vou te dar uma m\u00e3o pra ti come\u00e7ar a trabalhar por conta. Vou garantir um dinheiro, mas vou depositar no banco, n\u00e3o posso te dar dinheiro porque sen\u00e3o teria que dar para os outros tamb\u00e9m e voc\u00eas s\u00e3o sete.<br \/>\nO Banco avalizou n\u00e3o sei quantos contos e o Jango pegou e comprou tudo em bois. O pai dele disse: \u201cE n\u00e3o vou te dar mais campos porque iria ter de dar para os outros, ent\u00e3o tu vai te arranjar, arrenda um campo bom, paga mais, mas que seja bom, n\u00e3o arrenda porcaria.\u201d A\u00ed, ele arrendou uma fazenda l\u00e1 em Itacorubi, o dono do campo era Viriato Vargas Andrade. Ali deu o tiro, j\u00e1 ganhou um saco de dinheiro, e dali por diante arranjou n\u00e3o sei quantos bois. Tinha muito cr\u00e9dito.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por honrar as d\u00edvidas? <\/span><br \/>\nEra um homem cumpridor. Uma vez num Cassino no Uruguai chegou um gra\u00fado do Brasil. Tava cheio do dinheiro, mas se pelou. Foi pedir par trocar um cheque e o gerente recusou. Ele engrossou a voz : \u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem com quem est\u00e3o falando?\u201d. O gerente disse que a \u00fanica pessoa ali que trocava cheque era o presidente Jango. Esse coronel ficou furioso e falou mal do Jango. E o gerente retrucou : \u201cDo doutor Jango a casa aceita at\u00e9 guardanapo com a assinatura dele\u201d. Esse coronel bufava.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como era o amigo fazendeiro? <\/span><br \/>\nMe lembro de uma fazenda que o Jango tinha uns 900 hectares. Tinha que andar uns 10 quil\u00f4metros pelo corredor e depois entrar nos campo de um franc\u00eas para chegar l\u00e1 na dele e o Jango me dizia:<br \/>\n&#8211; Mas que merda desse franc\u00eas que n\u00e3o me vende essa porqueira, tem que t\u00e1 sempre pedindo licen\u00e7a pra cruzar.<br \/>\n&#8211; Mas tu \u00e9 pretensioso, hein, Jango, o outro tem 10 mil hectares e tu com 900 querendo comprar do homem.<br \/>\nEssa fazenda l\u00e1 ele comprou dum turco velho, o Martin Sema, e um dia o turco me chamou:<br \/>\n-Tio Bijuja, doutor Goulart vai pro c\u00e9u assim que morra.<br \/>\n&#8211; Porque diz isso?<br \/>\n&#8211; Conseguiu lograr um turco velho e ladr\u00e3o como eu<br \/>\nEsse turco tinha umas cinco mil ovelhas, cap\u00e3o, lanuda, e disse que s\u00f3 vendia a est\u00e2ncia se comprasse todo o bicharedo tamb\u00e9m. A\u00ed o Jango tironeava, visitava o velho, mas n\u00e3o havia jeito de vender sem os bichos. E o Jango sempre a par de tudo, soube que a l\u00e3 n\u00e3o sei aonde, subiu muito, a\u00ed o Jango comprou todas ovelhas e com a venda da l\u00e3 comprou a est\u00e2ncia do velho.<br \/>\nO Jango gostava de fazer um neg\u00f3cio que era coisa linda de se ver. Ele fez neg\u00f3cio com uns gringos da Swuift Armour, frigor\u00edfico, vendeu 10 mil boi gordo, mas ele n\u00e3o tinha tudo isso de boi invernado.<br \/>\nA\u00ed ele vendeu, comprou, vendeu, e saiu com sacos de dinheiro. Numa outra fazenda, o Jango ia comprar umas vacas, pegou um cavalo manso, porque tinha que ser por causa da perna dura dele, deu uma volteada e disse que queria 50 e perguntou qual era o prazo pra pagar.<br \/>\nMas o prazo era s\u00f3 o tempo de dar a volta na guaiaca, tinha que ser ali mesmo. Ele comprava j\u00e1 fazendo os c\u00e1lculos de quanto ia ganhar nos frigor\u00edficos.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E quantas fazendas o Jango tinha? <\/span><br \/>\nAs fazendas que ele teve aqui pro Sul, se n\u00e3o me esque\u00e7o, era a Rancho Grande, Santa Lu\u00edza, Cinamomo, Granja, Palermo. Teve no Mato Grosso tamb\u00e9m, as Tr\u00eas Marias, mas bem mais tarde. Na Argentina ele teve a La Peri\u00e1, La Sussi, La Villa.<br \/>\nA fazenda Rancho Grande era a rapariga dos olhos do Jango, a maior de todas e a melhor. Tinha oito mil e poucos hectares, o melhor campo do mundo, era melhor em tudo, s\u00f3 a casa que n\u00e3o era de luxo, porque o Jango n\u00e3o era de luxo.<br \/>\nA Granja S\u00e3o Vicente era mais conhecida porque ficava dentro da cidade, mas tinha meia d\u00fazia de gado, o Jango passava ali mas logo se mandava para Rancho Grande. Tinha uma outra bem pequenininha, que o Jango sempre visitava, Palermo, era de dif\u00edcil acesso, estrada ruim, ele ia num avi\u00e3ozinho e ficava por l\u00e1, na beira do rio Uruguai. Inclusive, no dia em que foi embora do Brasil, ele deu uma passada por l\u00e1.<br \/>\nE passou l\u00e1 na fazenda Santa Lu\u00edza. Que \u00e9 pegada a Rancho Grande. Nesse dia, o Jango mandou me chamar e pediu para eu desse uma controlada nas suas fazendas. Eu fui capataz da fazenda S\u00e3o Jos\u00e9, da dona Tinoca, a m\u00e3e dele.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E no Uruguai? <\/span><br \/>\nNo Uruguai ele n\u00e3o tinha campos antes de ir para o ex\u00edlio. Tanto que ele foi para casa de um amigo, n\u00e3o lembro o nome, que ficava na praia de Piri\u00e1polis me parece, ou num daqueles lugares ali. Depois ele comprou uma em Taquaremb\u00f3, teve outra em Maldonado.<br \/>\n<figure id=\"attachment_14739\" aria-describedby=\"caption-attachment-14739\" style=\"width: 395px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14739\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/Bijuja3_Foto-Cleber-Dioni_site.jpg\" alt=\"Foto: Cleber Dioni\" width=\"395\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14739\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Cleber Dioni<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Nos fale de quando eram jovens, o que faziam? <\/span><br \/>\nEu tirei o gin\u00e1sio e depois tive que trabalhar. O Jango estudou por a\u00ed, em outras cidades, mas sempre voltava para passar as f\u00e9rias. Fazia coisa de guri. E o Jango era muito popular aqui. Participava do Carnaval, entrava em tudo. Tinha a Jorgina e a Jocelina, aqui, uma preta bem alta e magra, e outra baixa e gorda.<br \/>\nMorreram com noventa e tantos anos. O bloco delas era na frente do Comercial e o Jango tomava a frente do bloco, puxava o cord\u00e3o e se ia pro Comercial, bah, aquela veiada gra\u00fada ficava tudo sem jeito. Tinha at\u00e9 um versinho: \u201cHoje \u00e9 de gra\u00e7a no boteco da Jorgina, entra o Jango e o Ivan, e o Bijuja com as china.\u201d<br \/>\nMentira do pessoal, n\u00e9, mas sabe que pega. Depois ele participou do bloco dos rengo.<br \/>\nE ele tinha muito bom gosto com as namoradas. L\u00e1 em Porto Alegre ele teve um problema de sa\u00fade, com a perna, teve gonorr\u00e9ia, que se alojou no joelho, infeccionou. Um dia ele comentou comigo: \u201c-<br \/>\nOlha Bijuja, o que o pai gastou com essa perna l\u00e1 em S\u00e3o Paulo d\u00e1 uma est\u00e2ncia\u201d. Ele fez uma cirurgia, trouxe aparelhos de fisioterapia, mas n\u00e3o fazia direito o tratamento, dizia que tavam judiando dele. O bicho era teimoso, n\u00e3o gostava de m\u00e9dico. Um dia, depois que eu passei a administrar as fazendas dele, isso foi por volta de julho de 64, eu disse que ia comprar uns touros charol\u00eas, e ele :<br \/>\n&#8211; Me desculpe coronel, mas eu n\u00e3o gosto de gado charol\u00eas. Os campos l\u00e1 do Rancho Grande servem para criar qualquer bicho, mas esses charol\u00eas s\u00e3o muito exigentes, comem muito.<br \/>\n&#8211; Bueno, ent\u00e3o n\u00e3o vamos criar. Mas eu criava igual, era pro bem dele.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como assim, administrar? <\/span><br \/>\nO Jango, j\u00e1 como exilado pol\u00edtico, me pediu para administrar oficialmente as fazendas dele. Tava l\u00e1 o que era procurador dele, o A\u00edrton Ayub. E Jango me disse: \u201cCoronel, precisamos de ti, tu \u00e9 um homem campeiro, vou te dar uma procura\u00e7\u00e3o, pra assinar guias, vender, comprar.\u201d<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Ele andava muito de avi\u00e3o sobre as fazendas ? <\/span><br \/>\nO Jango voava que n\u00e3o era brinquedo. As fazendas tinham pistas porque ele sempre teve avi\u00e3o particular. Como muitos outros. O Uruguai era uma quantidade de avi\u00e3o pequeno. No ex\u00edlio, o piloto provocava, dizia que ia passar l\u00e1 na fazenda tal, mas nunca chegou a descer em S\u00e3o Borja, e depois o Jango vinha contar que tinha dado um aperto no peito, de saudade.<br \/>\nMas o Jango era um homem simples, gostava de gente humilde, era bem povo. Chegava na Rancho Grande, ia na cozinha, pegava um fervido com mandioca, e comia conversando ali com a senhora. Pra ele aquilo era o m\u00e1ximo. E gostava muito de cachorro. E de carro, teve v\u00e1rios.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Ele tinha um modelo preferido? <\/span><br \/>\nEra um homem apaixonado por autos. Uma vez ele me pediu para comprar um doge. Mas olha, tch\u00ea, tinha que sair dum posto e entrar no outro. A\u00ed ele devolveu de vereda. E a rural. Naquele tempo o Uruguai n\u00e3o tinha estradas, e a rural tinha tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas.<br \/>\nUm dia eu quase me incomodei com esse carro, porque veio um da cor da Brigada e eles encrencaram:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o pode andar com carro dessa cor.<br \/>\n&#8211; Mas eu comprei assim<br \/>\n&#8211; \u00c9, mas o senhor pode ser preso.<br \/>\n&#8211; Mas ent\u00e3o pode aproveitar, eu n\u00e3o vou mandar pintar.<br \/>\nEu era encrenqueiro.<br \/>\nEu tive uma veraneio, caminhonete grande, e a licen\u00e7a era 90 dias. A\u00ed o Jango me pediu pra tirar a licen\u00e7a por mais dias pra ir mais seguido l\u00e1 no ex\u00edlio visitar ele. Ele tinha visto o doutor Get\u00falio isolado, no auto-ex\u00edlio, e foi um dos poucos que ia visitar ele. Ent\u00e3o ele sabia como era isso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Frequentou a casa do Get\u00falio Vargas? <\/span><br \/>\nUma vez n\u00f3s chegamos l\u00e1 de carro, o Jango com uma baita dor de est\u00f4mago. O doutor Get\u00falio tava tomando um caf\u00e9 e mandou chamar a senhora que cuidava da casa:<br \/>\n&#8211; Tia, faz um ch\u00e1 de marcela pro Jango.<br \/>\nO Jango foi tomando ch\u00e1, e comendo bolachinha, quando viu tinha comido toda. E o doutor Get\u00falio:<br \/>\n&#8211; Mas que lindo a tua dor, n\u00e3o. Tomou um balde de ch\u00e1 e comeu toda minha bolacha.<br \/>\nNum anivers\u00e1rio do doutor Get\u00falio, no cap\u00e3o do mata fome, diz que fizeram um churrasco t\u00e3o grande que s\u00f3 para o tira-gosto carnearam 30 vacas. O homem que cuidava dos espetos tinha um zaino que tava suado de tanto andar pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Diz que pra salgar, usaram aquelas m\u00e1quinas semeadeira de arroz.<br \/>\nO doutor Get\u00falio era muito conservador nos neg\u00f3cios, pensava muito antes de comprar alguma coisa. E tinha uma fazenda aqui, a Santa Am\u00e9lia, que o doutor Get\u00falio n\u00e3o queria comprar, era muito caro, e foi o Jango quem praticamente obrigou ele a comprar, gado de primeir\u00edssima qualidade. Eu fui ajudar a receber. O doutor Prot\u00e1sio Vargas, irm\u00e3o do doutor Get\u00falio, mais velho, tamb\u00e9m era amigo do Jango.<br \/>\nOutro que conheci foi o Greg\u00f3rio Fortunato. Ele chegou a ser minha bab\u00e1. Em 23, a mam\u00e3e j\u00e1 tava pra ganhar outro e o papai tava aquartelado aqui em S\u00e3o Borja, e eu fiquei l\u00e1 no meio dos milico. Era homem valente, bagual. Tinha um outro que foi capanga do papai. Eu brincava com ele:<br \/>\n&#8211; Quantos o senhor matou na sua vida?<br \/>\n&#8211; Que o seu pai mandou, diversos.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o vamos encerrando o assunto.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O senhor acompanhou todo o tempo do ex\u00edlio do Jango? <\/span><br \/>\nSim, e durante o ex\u00edlio, o Jango nunca foi de noite em S\u00e3o Borja, isso que dizem \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. Ele passava perto com o avi\u00e3o, e dizia: \u201cCoronel, passei perto da tua terra l\u00e1, e o Rivera ligou a r\u00e1dio de S\u00e3o Borja, que foi minha, deu uma saudade\u201d. N\u00e3o me lembro bem se foi a r\u00e1dio Cultura de S\u00e3o Borja ou a Fronteira do Sul que o Jango come\u00e7ou, tinha jornal tamb\u00e9m. Ele comprou a r\u00e1dio com o Manoel Ant\u00f4nio Vargas, filho do doutor Get\u00falio. E tamb\u00e9m eu nunca soube que o Che Guevara tivesse visitado o Jango.<br \/>\n\u00c9 que misturavam as coisas. Por exemplo, o Jango teve um piloto que era Tupamaro, ficou um monte de anos preso no Uruguai.<br \/>\nMe lembro de um guarda que cuidava o Jango na cidade, dia e noite, o dom Soto. Ficava numa cadeira na entrada do pr\u00e9dio. Um cagalh\u00e3o. Uma vez, fazia um frio horr\u00edvel no Uruguai.<br \/>\nN\u00f3s congelamos um lagarto vivo e colocamos um bu\u00e7alzinho pra n\u00e3o morder o focinho e a hora que o guarda tava dormindo, botamos o lagarto embaixo do cobertor. Da\u00ed umas horas, se aquentou o lagarto e saiu pelas cal\u00e7as e esse castelhano saiu correndo, rasgou o cobertor porque enganchou no port\u00e3o, bah.<br \/>\nOutra vez botamos um c\u00e1gado na cama do castelhano, bah, outro caga\u00e7o. A\u00ed, o guarda come\u00e7ou a ficar chaveado num quarto. N\u00f3s tinha que fazer um pouco de gra\u00e7a tamb\u00e9m, n\u00e9.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O que ele comentava sobre o Brasil? Ele recebia visitas, os companheiros de partido? <\/span><br \/>\nEle saiu, custou muito pra sair porque ele n\u00e3o queria deixar essas terras nem atado, ele amava esse Brasil como ningu\u00e9m, e n\u00e3o se sentia culpado de nada. Ele fazia os c\u00e1lculos pequenos pra voltar. Dali de San Tom\u00e9 se enxerga S\u00e3o Borja. Ele tinha o pesqueiro na costa, Palermo. Ele gostava de ficar ali pra pescar e como era de dif\u00edcil acesso, n\u00e3o iam muitos chatos bijujas incomodar l\u00e1, sabe.<br \/>\nS\u00e3o Borja era tudo pra ele. Ficava triste quando eu ia l\u00e1 na fazenda, no ex\u00edlio, e no outro dia j\u00e1 me preparava pra ir embora. Ele dizia: \u201cTu gosta dessa vida porque tu vem e vai a hora que tu quer, e eu tenho que ficar nessa merda aqui, obrigado\u201d. E \u00e0s vezes ele contava na m\u00e3o, e sobrava dedo, os amigos mesmo dele que iam visitar no ex\u00edlio. Muita gente ia s\u00f3 pra pedir favores, cria de cavalo.<br \/>\nQuando era empr\u00e9stimo muito grande, ele me mandava um bilhete : \u201cCoronel Bijuja, pe\u00e7o que resolva o problema do fulano dentro das nossas possibilidades\u201d. Aquilo era uma senha pra eu n\u00e3o dar o empr\u00e9stimo. Ele n\u00e3o podia resolver o problema de todos.<br \/>\nMas era um homem generoso. Quando o Jango comprou terras do Brizola, eram 1,2 mil hectares, ele me disse:<br \/>\n&#8211; Coronel, bota esses campos no teu nome.<br \/>\n&#8211; Mas porque Jango , n\u00e3o sou teu herdeiro, nem teu filho.<br \/>\nA\u00ed peguei a procura\u00e7\u00e3o, mas na hora de escriturar, n\u00e3o botei. A\u00ed coloquei mil hectares para o Jo\u00e3o Vicente e menos pra Denise, que \u00e9 no caso de algum alcaide querer casar com ela por causa dos campos. Teve outra est\u00e2ncia que ele queria me dar, ent\u00e3o essa aceitei, mas depois de uns acontecimentos tamb\u00e9m n\u00e3o quis mais. Eu era amigo do Jango, ent\u00e3o vou ficar pobre e amigo da alma dele.<br \/>\nEu cuidei de toda a fortuna do Jango, se eu quisesse me enchia de dinheiro, mas hoje teria que andar com o gorro tapando os olhos, mas n\u00e3o, qualquer bem bom ou filha da puta tem que me respeitar. E isso faz bem, dignidade n\u00e3o se compra, ou se tem ou n\u00e3o se tem.<br \/>\nE ele tinha um grande cora\u00e7\u00e3o. Uma vez ele me chamou e disse que tinha um problema pessoal com o Brizola, mas que n\u00e3o era pra eu deixar de ir l\u00e1 visitar o Brizola e a irm\u00e3 dele, a Neuza: \u201cEles v\u00e3o ficar sentidos contigo e comigo tamb\u00e9m, v\u00e3o achar que eu n\u00e3o deixo tu ir l\u00e1 ver eles\u201d, ele disse.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O senhor chegou a ser preso? <\/span><br \/>\nUma das tantas vezes que eu fui preso, quer dizer, fui convidado pra dar depoimento, l\u00e1 no quartel, um coronel diz assim:<br \/>\n&#8211; Mas o Jango \u00e9 um baita comunista, n\u00e9?<br \/>\n&#8211; O senhor quem t\u00e1 dizendo?<br \/>\n&#8211; Se o senhor n\u00e3o sabe, fique sabendo que ele \u00e9 um baita comunista.<br \/>\nA\u00ed pensei comigo: o que esse v\u00e9io vai saber de alguma coisa do Jango comunista? Esse pessoal de extrema esquerda nem gostava do Jango.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E a mulher e os filhos do Jango, se adaptaram r\u00e1pido no Uruguai? <\/span><br \/>\nA Maria Tereza e os filhos moraram na praia de Pocitos, estudavam nos col\u00e9gios uruguaios, mas iam seguido l\u00e1 ver o Jango.<br \/>\nSempre que podia o Jango tava grudado com o Jo\u00e3o Vicente e a Denise. Eles estudaram em Montevid\u00e9u por um bom tempo. Eu andava de carro com o Jo\u00e3o Vicente e a Denise, almo\u00e7ava com eles, ia pra praia com as crian\u00e7as, a Denise era pequeninha e eu tinha uma filha, que eu criei.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como o senhor soube do No\u00e9? <\/span><br \/>\nEssas hist\u00f3rias de filho do Jango, bah, o que vinha de gente aqui. Veio uma advogada bonita falar comigo:<br \/>\n&#8211; Mas coronel, o senhor acha que pode ser filho ?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, como \u00e9 que eu vou falar da m\u00e3e dele, mas uma coisa eu posso lhe garantir, se aparecer alguma terneira ou potranca parecida com o Jango, \u00e9 filha dele, porque gostava de um sereno no lombo. Tch\u00ea, essa advogada riu tanto que passou mal.<br \/>\nFui no F\u00f3rum e tava o seu No\u00e9 l\u00e1, eu nunca tinha visto, achei parecido, a\u00ed o juiz me pergunta:<br \/>\n&#8211; O senhor conhece esse cidad\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Sei quem \u00e9 mas n\u00e3o conhe\u00e7o.<br \/>\nNo ex\u00edlio, o Jango me perguntou :<br \/>\n&#8211; O que tu acha coronel?<br \/>\n&#8211; Tu \u00e9 quem tem que saber, Jango.<br \/>\n&#8211; Se \u00e9 verdade que \u00e9 meu filho, eu vou ajudar.<br \/>\nEsse era o cora\u00e7\u00e3o dele.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Um cora\u00e7\u00e3o doente tamb\u00e9m <\/span><br \/>\nEle fumava muito, n\u00e3o comprava, mas fumava dos outros:<br \/>\n&#8211; Cigarro, coronel. Era um, dois, tr\u00eas, l\u00e1 pelo quarto eu dizia:<br \/>\n&#8211; Tu sabe duma coisa Jango, d\u00e1 c\u00e2ncer fumar, n\u00e3o comprar\u201d. A\u00ed ele pedia pra outro e assim ia.<br \/>\nO pessoal admirava a nossa intimidade, mas porque n\u00f3s and\u00e1vamos juntos desde crian\u00e7a, n\u00e9. Com os outros era doutor pra l\u00e1, doutor pra c\u00e1, e comigo ele se sentia um homem comum.<br \/>\nEu chegava l\u00e1 na fazenda, no Uruguai, e dizia: \u201cOlha, eu n\u00e3o sou pobre pra andar comendo ovelha velha, bichada no casco\u201d. E os pe\u00f5es olhavam pro Jango, que dizia: \u201c\u00c9 o coronel que est\u00e1 mandando a\u00ed, voc\u00eas se arrumem com ele, e vamos carnear, o que adianta ter esse mundo de boi e dinheiro, pra andar comendo ovelha velha\u201d. A\u00ed j\u00e1 se carneava uma vaca e meta carne.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deocl\u00e9cio Motta, o tio Bijuja, foi o melhor amigo de Jo\u00e3o Goulart. Eram quase irm\u00e3os. Brincaram na inf\u00e2ncia, dividiram segredos na adolesc\u00eancia e, j\u00e1 adultos, fazendeiro e capataz continuaram confidentes. Jango lhe confiou uma procura\u00e7\u00e3o para tocar os neg\u00f3cios nas est\u00e2ncias enquanto amargurava no ex\u00edlio. 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