{"id":58781,"date":"2018-01-10T15:24:03","date_gmt":"2018-01-10T17:24:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=58781"},"modified":"2018-01-10T15:24:03","modified_gmt":"2018-01-10T17:24:03","slug":"a-unidade-como-ponto-de-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-unidade-como-ponto-de-partida\/","title":{"rendered":"A Unidade como ponto de partida"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Roberto Amaral<\/span><br \/>\nSempre que o debate pol\u00edtico \u2013 chamado pela realidade \u2013 se volta para a discuss\u00e3o sobre\u00a0a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e at\u00e9 mesmo pedag\u00f3gico, revisitar experi\u00eancias como as de 1954 e 1955. Elas precisam ser lembradas como li\u00e7\u00f5es e advert\u00eancias aos que desconhecem nossa hist\u00f3ria recente, e, ignorando-a, tendem a repetir os erros passados.<br \/>\nEm 1954 \u2013 primeira etapa do\u00a0golpe que se consolidaria em 1964 com a ditadura militar\u00a0\u2013 as esquerdas se deram ao luxo de se dividir na defesa x den\u00fancia de Get\u00falio Vargas, envolvidas, lamentavelmente n\u00e3o pela \u00faltima vez, pelo discurso moralista articulado pela direita para dar justificativa \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o do presidente.<br \/>\nO Partido Comunista, liderado por Lu\u00eds Carlos Prestes, ent\u00e3o carente de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, associou-se ao udenismo e ao lacerdismo, ao que havia de pior na imprensa brasileira (<i>Di\u00e1rios Associados<\/i>\u00a0e\u00a0<i>O Globo<\/i>) e \u00e0s for\u00e7as militares golpistas (nomeadamente Eduardo Gomes, Juarez T\u00e1vora e Pena Boto) no pleito da ren\u00fancia do presidente.<br \/>\nUma vez mais tomava-se a apar\u00eancia pela realidade, e, em nome do combate a uma corrup\u00e7\u00e3o jamais demonstrada, os\u00a0pecebistas\u00a0associaram-se na opera\u00e7\u00e3o de desmonte de um governo nacionalista, comprometido com o trabalhismo e o desenvolvimento nacional. \u00a0Assim facilitaram o golpe que se consumaria na posse de Caf\u00e9 Filho, e na ascens\u00e3o, dentre outros, de Eugenio Gudin (que combatia a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds) ao Minist\u00e9rio da Fazenda, al\u00e9m de Raul Fernandes (que entendia que o Brasil deveria ser uma \u2018prov\u00edncia\u2019 dos EUA), antecipando-se em tantas dezenas de anos ao atual chefe do Itamaraty.<br \/>\nNo dia do suic\u00eddio de Vargas, sem lideran\u00e7as, as grandes massas sa\u00edram \u00e0s ruas para prantear o presidente morto, e, em sua rebeldia tardia, incendiaram viaturas de\u00a0<i>O Globo<\/i>\u00a0e depredaram as depend\u00eancias da\u00a0<i>Voz Oper\u00e1ria<\/i>, jornal do PCB, que, na v\u00e9spera, circulara encimado por uma manchete de letras garrafais acusando Get\u00falio Vargas de \u201clacaio do imperialismo\u201d, imperialismo que sabidamente estava por atr\u00e1s de todas as conjura\u00e7\u00f5es golpistas.<br \/>\nNada mais simb\u00f3lico, mas igualmente denotativo do fracasso de nossas lideran\u00e7as.<br \/>\nEm 1955, as esquerdas, que j\u00e1 se haviam unificado no processo eleitoral, ampliam sua unidade e atraem setores liberais na frente ampla que defenderia a legalidade, e asseguraria a elei\u00e7\u00e3o de Juscelino Kubistcheck e Jo\u00e3o Goulart, e ainda desmontariam o segundo golpe da direita civil-militar, que visava a impedir sua posse.<br \/>\nNa primeira fila dos que conosco defendiam a legalidade (e por for\u00e7a dela a posse dos eleitos) estava, entre outros, o l\u00edder cat\u00f3lico, conservador, Sobral Pinto, que voltaria aos nossos palanques quando, novamente unidos, constru\u00edmos a Frente ampla pelas\u00a0<i>Diretas-j\u00e1<\/i>que implodiria o col\u00e9gio eleitoral montado pela ditadura para nomear seu delfim e, rebelado, elegeria Tancredo Neves.<br \/>\n<strong>Desaprendemos?<\/strong><br \/>\nO 24 de janeiro que se aproxima para n\u00f3s como um desafio \u00e9 uma etapa, important\u00edssima, na luta das for\u00e7as populares contra o governo entreguista e as amea\u00e7as crescentes ao processo eleitoral democr\u00e1tico. Por \u00f3bvio todos os democratas estar\u00e3o envolvidos na mobiliza\u00e7\u00e3o popular que visa a expressar a vontade majorit\u00e1ria do povo brasileiro e impedir a usurpa\u00e7\u00e3o anunciada.<br \/>\nUma etapa, important\u00edssima, mas que n\u00e3o encerrar\u00e1 a luta toda. Pode ser, at\u00e9, apenas um ponto de partida. Para enfrentar o farisaico julgamento pol\u00edtico de Lula, quando tr\u00eas ju\u00edzes podem ditar a\u00a0<em>sentence<\/em>\u00a0redigida pelas for\u00e7as antipopulares, e as demais amea\u00e7as que j\u00e1 est\u00e3o em laborat\u00f3rio, o primeiro passo \u00e9 a unidade pol\u00edtica das esquerdas, o que n\u00e3o implica necessariamente alian\u00e7a eleitoral, mas compromissos estrat\u00e9gicos,\u00a0<i>conditio sine qua non<\/i>\u00a0para a forma\u00e7\u00e3o de uma grande e ampla alian\u00e7a nacional em defesa da democracia, do desenvolvimento e da soberania nacional.<br \/>\nA esquerdas desunidas fazem a festa da direita; unidas mas isoladas, n\u00e3o ter\u00e3o for\u00e7as para derrogar o projeto da direita; unificadas em torno de objetivos concretos que n\u00e3o se limitam a eventuais alian\u00e7as eleitorais, poder\u00e3o ampliar suas for\u00e7as para al\u00e9m de seu campo. O caminho \u00f3bvio \u00e9 este: concertar o discurso, adotar um programa m\u00ednimo de a\u00e7\u00e3o claro e exequ\u00edvel, ampliar sua composi\u00e7\u00e3o e suas perspectivas de lutas, de sorte a conquistar setores ainda refrat\u00e1rios, dialogar com a classe m\u00e9dia e liderar os trabalhadores. \u00c9 preciso conquistar novas for\u00e7as para vencer nossos\u00a0<em>adversaries<\/em>, que jamais estiveram (nem mesmo em 1964) t\u00e3o unidos como presentemente.<br \/>\nDe novo o risco de tomar as apar\u00eancias como a realidade: \u00e9 uma extrema tolice confundir a prolifera\u00e7\u00e3o (t\u00e1tica) de pr\u00e9-candidaturas reacion\u00e1rias como divis\u00e3o da direita. H\u00e1 algum cisma entre o capital financeiro nacional e internacional, a CNI e a Fiesp, o imp\u00e9rio midi\u00e1tico, a rea\u00e7\u00e3o parlamentar, o poder judici\u00e1rio, a Pol\u00edcia Federal, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e seus salvacionistas?<br \/>\nNada disso, por\u00e9m, deve soar como convite \u00e0 retomada da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o que limitou os avan\u00e7os dos governos Lula e levou ao colapso do governo Dilma. A frente de agora tem um objetivo imediato e concreto: impedir o avan\u00e7o do programado ataque \u00e0 democracia.<br \/>\nA primeira tarefa \u00e9 \u00f3bvia, a luta por assegurar elei\u00e7\u00f5es limpas e livres de golpes de m\u00e3o, e a primeira condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a de Lula na disputa. \u00c9 inadmiss\u00edvel aceitar que tr\u00eas togas substituam o povo brasileiro, representado por um col\u00e9gio de mais de 140 milh\u00f5es de leitores. Isso \u00e9 inadmiss\u00edvel, como \u00e9 inaceit\u00e1vel qualquer altera\u00e7\u00e3o relativa \u00e0s atribui\u00e7\u00f5es do Executivo e \u00e0s compet\u00eancias do presidente da Republica.<br \/>\n\u201cPresidencialismo mitigado\u201d ou \u201cparlamentarismo \u00e0 Alemanha\u201d\u00a0seriam apenas mais um golpe contra as regras constitucionais e a vontade popular que em dois plebiscitos rejeitou o regime de gabinete. \u00c9 preciso explicar \u00e0s grandes massas que o enfrentamento ao golpe em processo continuado e ao seu projeto antipopular depende da for\u00e7a da democracia, e que as for\u00e7as sociais \u00e9 que s\u00e3o seu sustent\u00e1culo.<br \/>\nVencida essa travessia, estar\u00e1 \u00e0 nossa frente a via eleitoral e a exig\u00eancia hist\u00f3rica de um candidato com for\u00e7a suficiente para estancar o desmonte da economia nacional, reconciliar a na\u00e7\u00e3o e retomar o desenvolvimento, o que implica, necessariamente, a revoga\u00e7\u00e3o das principais medidas recessivas e antipopulares do regime ileg\u00edtimo.<br \/>\nOu seja: nosso candidato precisar\u00e1 ganhar em condi\u00e7\u00f5es de governar.<br \/>\nAs for\u00e7as n\u00e3o petistas, partid\u00e1rias ou n\u00e3o, muito contribuir\u00e3o para o avan\u00e7o coletivo na medida em que entenderem, e n\u00e3o lhes resta muito tempo, que o que est\u00e1 em jogo, correndo risco de vida, n\u00e3o \u00e9 nem o PT nem Lula, mas o processo democr\u00e1tico, sem o qual dificilmente avan\u00e7ar\u00e3o os interesses populares, ou sobreviver\u00e1 o movimento sindical, ou as for\u00e7as populares e os movimentos sociais de um modo geral. E essa aglutina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 que decidir\u00e1 o rumo que tomar\u00e1 a Hist\u00f3ria.<br \/>\nNossas organiza\u00e7\u00f5es e suas lideran\u00e7as dever\u00e3o entender que ningu\u00e9m e nenhum for\u00e7a de nosso campo avan\u00e7ar\u00e1 sobre eventuais despojos do PT e de Lula, e que \u00e9 ainda muito cedo, qualquer que seja o\u00a0resultado do julgamento de 24 de janeiro, para falar no \u2018p\u00f3s-Lula\u2019 (uma utopia dos \u2018cientistas\u2019 do sistema), pois sua lideran\u00e7a \u2013 e eis uma das poucas evid\u00eancias que podemos colher do cen\u00e1rio de nossos dias \u2014 permanecer\u00e1 ativa enquanto houver pobres e desamparados neste Pa\u00eds.<br \/>\n*****<br \/>\n<i>O guerreiro que se despede\u00a0<\/i>\u2013 Havendo dedicado sua vida \u00e0 luta contra a trag\u00e9dia social, Pedro Porf\u00edrio foi finalmente derrotado pela trag\u00e9dia biol\u00f3gica, e deixa mais um grande vazio \u00a0entre os lutadores pela democracia e o socialismo. Conheci-o ainda adolescente, mas j\u00e1 l\u00edder estudantil e de esquerda, nos idos dos anos 60, atuando em Fortaleza. Cedo, como muitos de sua gera\u00e7\u00e3o, migrou para a cidade grande onde cumpriu uma longa carreira como jornalista e escritor e pol\u00edtico, trabalhista \u00e0 moda Pasqualini, e amigo de Leonel Brizola, com quem conviveu e cuja mem\u00f3ria reverenciou.<br \/>\nPelo PDT foi vereador do Rio de Janeiro. Jamais ensarilharia as armas. Quando n\u00e3o mais lhe foi permitido atuar nas reda\u00e7\u00f5es (j\u00e1 doente, por\u00e9m, ousou disputar elei\u00e7\u00f5es) transformou seu computador em sua arma de guerra e atrav\u00e9s de seu\u00a0<i>blog<\/i>\u00a0e em seu \u2018ex\u00edlio dom\u00e9stico\u2019, como chamava sua\u00a0<i>dacha<\/i>\u00a0em Vargem Grande, manteve-se na trincheira da luta, animando-nos, encorajando-nos, mantendo-nos de p\u00e9 com seu exemplo edificante.<br \/>\nH\u00e1 passos que passam e pegadas que ficam, como ra\u00edzes fundas e firmes, diz-nos o Pe. Vieira em seu serm\u00e3o da Primeira Dominga do Advento. As pegadas de Porf\u00edrio permanecer\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Amaral Sempre que o debate pol\u00edtico \u2013 chamado pela realidade \u2013 se volta para a discuss\u00e3o sobre\u00a0a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e at\u00e9 mesmo pedag\u00f3gico, revisitar experi\u00eancias como as de 1954 e 1955. 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