{"id":59984,"date":"2018-02-23T10:53:23","date_gmt":"2018-02-23T13:53:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=59984"},"modified":"2018-02-23T10:53:23","modified_gmt":"2018-02-23T13:53:23","slug":"flavio-tavares-exuma-o-cadaver-do-mito-che","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/flavio-tavares-exuma-o-cadaver-do-mito-che\/","title":{"rendered":"Fl\u00e1vio Tavares exuma o cad\u00e1ver do mito Che"},"content":{"rendered":"<p><strong>GERALDO HASSE<\/strong><br \/>\n\u201cAs Tr\u00eas Mortes de Che Guevara\u201d (L&amp;PM, 2017): eis um livro pra dar de presente e\/ou pra guardar na estante dos grandes livros do jornalismo hist\u00f3rico.<br \/>\nCom sua \u00faltima obra, lan\u00e7ada no final do ano passado, o ga\u00facho Flavio Tavares leva ao extremo sua experi\u00eancia como testemunha ocular da Hist\u00f3ria e int\u00e9rprete privilegiado de fatos vividos e narrados por ele h\u00e1 mais de 60 anos.<br \/>\nJornalismo-memorial\u00edstico do qual emana um luminoso painel da segunda metade do s\u00e9culo XX.<br \/>\nCoisa rara, temos aqui as lembran\u00e7as do Fl\u00e1vio &#8211; dirigente estudantil que conheceu Moscou em 1954; as anota\u00e7\u00f5es do Fl\u00e1vio Tavares rep\u00f3rter em Punta del Este em 1961, quando conheceu o revolucion\u00e1rio Ernesto Che Guevara; do jornalista-testemunha do desbaratamento do poder civil em Bras\u00edlia em 1 de abril de 1964; do preso pol\u00edtico\/exilado de 1969 no M\u00e9xico; do correspondente jornal\u00edstico por longos anos em Buenos Aires; do autor de \u201cMem\u00f3rias do Esquecimento\u201d(Globo, 1999), um dos melhores livros sobre a ditadura militar brasileira de 1964\/85&#8230;<br \/>\nPor fim, mas n\u00e3o por \u00faltimo, surge nas entrelinhas de \u201cAs Tr\u00eas Mortes de Che Guevara\u201d o analista pol\u00edtico que n\u00e3o hesita em colocar-se pessoalmente na narrativa para refletir sobre alguns dos principais acontecimentos pol\u00edticos do s\u00e9culo XX no \u00e2mbito da esquerda \u2013 a revolu\u00e7\u00e3o de 1917 na R\u00fassia, a revolu\u00e7\u00e3o de 1949 na China, a revolu\u00e7\u00e3o cubana de 1959 e os desdobramentos da Guerra Fria que manteve o mundo em suspense por d\u00e9cadas no per\u00edodo 1950-1990.<br \/>\nResulta um privil\u00e9gio gratificante ler Tavares discorrendo sobre um dos maiores personagens do s\u00e9culo XX.<br \/>\nNesse livro de 233 p\u00e1ginas, despojado de sua condi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, Che Guevara desponta como o humanista que acreditou no nascimento do\u00a0<em>Homo solidarius<\/em>, criatura que se deixaria pelo sentimento de solidariedade comunit\u00e1ria numa sociedade &#8212; a cubana &#8212; teoricamente livre do egocentrismo.<br \/>\nJ\u00e1 nas primeiras p\u00e1ginas fica claro que Che ficou praticamente sozinho, isolado politicamente, no meio de revolucion\u00e1rios acuados por Washington e alinhados a Moscou.<br \/>\nDescontente, talvez desiludido com o rumo das coisas na ilha de Fidel Castro, o argentino de 30 e poucos anos, pai de quatro filhos, saiu pelo mundo disposto a aplicar os conceitos do internacionalismo prolet\u00e1rio. Mission\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o comunista num mundo bipolar&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 pela p\u00e1gina 80 o livro vai ficando pontilhado de sinais de interroga\u00e7\u00e3o que, bem ou mal, refletem pontos obscuros da biografia de Che Guevara, de seu relacionamento com Fidel e do pr\u00f3prio desenrolar da hist\u00f3ria de Cuba a partir do sua alian\u00e7a com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e sua inimizade com o vizinho ianque.<br \/>\nA partir da\u00ed Tavares se revela um mestre do jornalismo litero-hist\u00f3rico, um g\u00eanero em que poucos se d\u00e3o bem.<br \/>\nQuando Che chega calvo ao Congo, escondendo sua identidade dos pr\u00f3prios soldados cubanos que vai comandar, o livro adquire a dimens\u00e3o de uma novela policial.<br \/>\nO livro de Tavares cresce ao jogar luz sobre as contradi\u00e7\u00f5es do argentino Ernesto Guevara de la Serna. Afinal, o que um branco asm\u00e1tico, filho de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia de Buenos Aires, vai fazer nas montanhas da \u00c1frica tribal?<br \/>\nA tese guevarista era\u00a0\u00a0libertar o homem do jugo do imperialismo capitalista, ainda que tal revolu\u00e7\u00e3o precisasse ser sustentada pelo imperialismo comunista, como ocorria em Cuba e em outros pa\u00edses, com nuances regionais ora pr\u00f3-sovi\u00e9ticas, ora pr\u00f3-chinesas.<br \/>\nEmbora aconselhado (pelos l\u00edderes Nasser e Ben Bella) a n\u00e3o se intrometer no continente negro, Che usou sua condi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico para encobrir sua compuls\u00e3o pela aventura revolucion\u00e1ria.<br \/>\nQuebrou a cara, tanto no Congo como na Bol\u00edvia, o pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica do Sul, onde aliciou um grupo de assustados camponeses &#8212; mais interessados na boca livre oferecida pelo revolucion\u00e1rio estrangeiro do que em seus ideais libert\u00e1rios.<br \/>\nO desfecho \u00e9 conhecido: Che morreu em outubro de 1967 metralhado por um sargento embriagado de quem era prisioneiro. Foi executado por ordem do comando do Ex\u00e9rcito da Bol\u00edvia, devidamente assessorado por agentes do governo dos Estados Unidos.<br \/>\nS\u00e3o fatos cujas luzes se projetam at\u00e9 os dias de hoje.<br \/>\nUngido por uma aura rom\u00e2ntica, o guerrilheiro emergiu da selva boliviana com um boina estrelada na cabe\u00e7a e um charuto cubano entre os dentes, transformando-se pelas artes da propaganda no ap\u00f3stolo predileto da juventude idealista do Terceiro Mundo e at\u00e9 de cabe\u00e7as coroadas das esquerdas do Primeiro Mundo.<br \/>\nDifundida em camisetas, posters e panfletos, a heran\u00e7a intelectual de Guevara foi resumida numa frase amb\u00edgua &#8212; \u201cHay que endurecer pero sin perder la ternura jam\u00e1s\u201d \u2013 que acabou se tornando uma esp\u00e9cie de mantra de esquerdistas que ignoravam ou faziam quest\u00e3o de n\u00e3o\u00a0\u00a0tomar conhecimento das lutas pelo poder nos bastidores dos governos das rep\u00fablicas ditas populares.<br \/>\nO comunismo agoniza em Cuba, mas a lenda do argentino audaz e charmoso permanece misteriosamente viva.<br \/>\nUma hist\u00f3ria ainda sem ponto final, admite Fl\u00e1vio Tavares, no final do seu livro.<br \/>\nSem acusar diretamente, ele sugere que Che foi descartado pela c\u00fapula da revolu\u00e7\u00e3o cubana, que usou seu idealismo mission\u00e1rio para afast\u00e1-lo de Cuba, onde seu inconformismo se tornara inc\u00f4modo.<br \/>\nPor ter vivido muito tempo fora do Brasil, o jornalista-historiador conheceu pessoas, entrevistou pol\u00edticos, teve acesso a documentos e leu livros que jamais chegaram \u00e0 maioria dos leitores do Brasil.<br \/>\nVem da\u00ed e dos seus 80 anos de vida a riqueza desse livro que coloca seu autor no p\u00f3dio dos melhores jornalistas-historiadores brasileiros.<br \/>\nMembro do raro clube de escritores que narram os fatos sem torcida nem distor\u00e7\u00e3o, Fl\u00e1vio Tavares n\u00e3o esconde, por\u00e9m, o sentimento de compaix\u00e3o pelo destino de seu tr\u00e1gico personagem.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GERALDO HASSE \u201cAs Tr\u00eas Mortes de Che Guevara\u201d (L&amp;PM, 2017): eis um livro pra dar de presente e\/ou pra guardar na estante dos grandes livros do jornalismo hist\u00f3rico. 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